Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 09.05.07
Post it



George Michael, em Coimbra, no dia 12. Já lá estou, claro.

...

por Vieira do Mar, em 09.05.07
E agora, um pormenor íntimo: farto-me facilmente. Um dos mais eficazes aceleradores de tédio, para mim, é a espera. Detesto esperar, aguardar que as coisas aconteçam, que venham ter comigo. Acho absurdo, por exemplo, passar mais do que dez minutos numa fila de um restaurante. Vou imediatamente a outro, mesmo que pior e com menos ou nenhuma vista. Aceito mesas que mais ninguém quer, só para não ter de esperar. Isto aplica-se nos amores, nas amizades. Sou péssima em manter, em cultivar, alimentar, relações à distância. O tempo vai passando e eu distraio-me, perco a paciência, deixo de gostar, viro as costas. Porque acho que, quem gosta, procura. Eu, dentro dos limites da dignidade e do bom-senso, procuro.É assim. Não consigo gostar de, nem interessar-me por, quem nunca vejo (excepto família íntima ou amizades de infância e de juventude: laços por vezes indestrutíveis). Para gostar, tem de haver um mínimo de contacto; quanto mais vejo, mais toco, mais cheiro e mais gosto. O inverso é igualmente verdadeiro. Facilmente as pessoas de quem um dia gostei se tornam estranhas para mim. E, quando isso acontece, é favor saírem de cena, não me maçarem mais. Porque só gosto de perder tempo, ou de o matar, ou seja lá o que for, com pessoas que me dão as abébias no tempo certo, que não se cortam sistematicamente, que não estão sempre fora de cena a manter forçadamente o espaço contentor, um determinado status quo. Por exemplo, se uma pessoa supostamente amiga mora ao meu lado e, durante meses a fio, nada faz para me rever, que sentido tem, encontrarmo-nos um dia para pormos a conversa em dia? Mas qual conversa? Nada tenho para lhe dizer, a essa pessoa. Aliás, quem é, essa pessoa? Como se chama? Nada nos une, nada que importe, tempo perdido, conversa de chacha. Não tenho paciência. Desamo num instantinho, é o que é (bom, não desamo assim tão depressa como parece, mas, digamos que desamo de vez). Azarinho.

...

por Vieira do Mar, em 09.05.07
E agora, um pormenor íntimo: farto-me facilmente. Um dos mais eficazes aceleradores de tédio, para mim, é a espera. Detesto esperar, aguardar que as coisas aconteçam, que venham ter comigo. Acho absurdo, por exemplo, passar mais do que dez minutos numa fila de um restaurante. Vou imediatamente a outro, mesmo que pior e com menos ou nenhuma vista. Aceito mesas que mais ninguém quer, só para não ter de esperar. Isto aplica-se nos amores, nas amizades. Sou péssima em manter, em cultivar, alimentar, relações à distância. O tempo vai passando e eu distraio-me, perco a paciência, deixo de gostar, viro as costas. Porque acho que, quem gosta, procura. Eu, dentro dos limites da dignidade e do bom-senso, procuro.É assim. Não consigo gostar de, nem interessar-me por, quem nunca vejo (excepto família íntima ou amizades de infância e de juventude: laços por vezes indestrutíveis). Para gostar, tem de haver um mínimo de contacto; quanto mais vejo, mais toco, mais cheiro e mais gosto. O inverso é igualmente verdadeiro. Facilmente as pessoas de quem um dia gostei se tornam estranhas para mim. E, quando isso acontece, é favor saírem de cena, não me maçarem mais. Porque só gosto de perder tempo, ou de o matar, ou seja lá o que for, com pessoas que me dão as abébias no tempo certo, que não se cortam sistematicamente, que não estão sempre fora de cena a manter forçadamente o espaço contentor, um determinado status quo. Por exemplo, se uma pessoa supostamente amiga mora ao meu lado e, durante meses a fio, nada faz para me rever, que sentido tem, encontrarmo-nos um dia para pormos a conversa em dia? Mas qual conversa? Nada tenho para lhe dizer, a essa pessoa. Aliás, quem é, essa pessoa? Como se chama? Nada nos une, nada que importe, tempo perdido, conversa de chacha. Não tenho paciência. Desamo num instantinho, é o que é (bom, não desamo assim tão depressa como parece, mas, digamos que desamo de vez). Azarinho.

...

por Vieira do Mar, em 07.05.07
" Na onda do viver saudável,


... que sempre me assalta a determinação e o lar nestas alturas (...), e na esperança de lhes gastar aquelas energias que sempre trazem a mais da escola,resolvo organizar uma sessão de ginástica pré-jantar. Enroladas as carpetes e afastados os móveis, pespegamo-nos - eu e os putos - em frente à televisão, onde ponho a correr um vídeo de workout directamente importado da amazon, com as miúdas (remakes estilosos da Jane Fonda) que fazem aeróbica naquele vídeo do "Call on me". Não sabem, não se lembram? Eu refresco-vos a memória: trata-se de uma música de merda com um esganiçado qualquer a repetir o refrão praí mil vezes, boa para os pastilhados da nite, mas dançada por um grupo de gajas do mais giro e bem feito e perfeito que pode haver, as cabras. E lá começamos, eu, a minha filha e os meus dois filhos, nos aquecimentos da praxe; alguns minutos depois, está tudo a bombar. Só que, enquanto as mulheres da casa saltam e arfam a tentar acompanhar a pose e o ritmo impecável das boazonas, embora se sintam umas miseráveis badochas, os miúdos sentam-se no sofá com os olhos fixos no ecrã, num silêncio inesperado. Então, desistem já? Estão assim tão cansados?, pergunto-lhes eu, entre dois pontapés no ar e um na auto-estima, seguidos de um quase-desmaio. Não!, respondem em uníssono, Mas é que aqui vemos melhor as miúdas!, a fazer ginástica não dá, mãe! E lá ficam, mais atentos do que se estivessem a ver o último episódio dos morangos onde explodisse o colégio da barra em peso. Entretanto, chega o pai a casa e vê-nos naqueles preparos. Olha para a nossa esfalfice saltitante e para a performance televisiva das boas, olha outra vez para nós e ri-se; depois, olha melhor para elas (muito melhor, aliás) e já não ri. Segundos depois, está sentado no sofá ao lado dos outros, a testosterona familiar toda reunida, boquiaberta e solidária, numa basbaqueira muda que mete dó. Escusado será dizer que nem chegámos à parte dos abdominais: eu e a miúda, fomos mas foi jantar."


(repost)

...

por Vieira do Mar, em 07.05.07
"A guerra do Percentil


Elas preparam-se amorosamente para a batalha, polindo e afiando a arma com que desferirão os golpes fatais nas suas inimigas, que são todas as outras MÃES.E a arma é...tcharaaan... o boletim de saúde!

O primeiro treino da recruta é no pediatra, esse homem bom e dedicado que, ao medir e pesar a criancinha, tende sempre a preencher os gráficos com valores um nadinha acima do real, não vá a mãe do rebento passar, num ápice, de babada sorridente a dragona raivosa e incendiar o gabinete com o seu hálito de fogo. Depois, já com o boletim de saúde entre mãos, devidamente preenchidinho, elas combinam reunir-se umas com as outras e é então que estala uma daquelas guerras surdas que de vez em quando têm lugar no mundo cínico do putedo maternal... a guerra do PERCENTIL.

Para quem não sabe, o percentil é a modos que a unidade de medida pela qual se afere o desenvolvimento físico das nossas criancinhas. Os parâmetros ditos normais situam-se algures entre o 5 e o 95, e dizem respeito ao peso, à altura e à relação entre os dois. O perímetro cefálico também costuma ser usado como arma de arremesso, embora como apoio na retaguarda, porque se refere apenas ao tamanho da cabeça.

A coisa funciona tal qual os putos nos balneários da escola (sim, estamos a esse
nível básico), em que ganha o meu porque é maior que o teu (como a rábula dos Gato Fedorento, não sei se estão a ver...).

Preparadas para a refrega, reunimo-nos num café, em casa, num banco de jardim,
wherever, sacamos dos boletinzinhos e toca de atirar percentis umas contra as outras como quem dispara balas de calibre 38,ai o joãzinho está no percentil 90, o bernardinho tem um perimetro cefálico de 55 centímetros, um crânio, um génio!, o meu pedrinho nasceu no percentil 95, quatro quilos e meio de gente, vejam lá, mas já está no percentil 100, é um comilão.... Pode introduzir-se aqui um elemento complementar, (também indicativo de forma física superior do infante) o chamado índice de apgar, mas não quero transformar este post num relambório técnico sobre questões de estratégia.

Entretanto, as mães com filhos no percentil algures entre o 5 e o 50 retiram-se, derrotadas, porque, a um nível subliminar, percentil baixo é sinónimo de qualquer coisa como mãe-vaca-negligente-que-não-alimenta-a-cria, ou, então, porque não estão dispostas a ouvir expressões simpáticas como não terás nanismo na família, filha? é que é hereditário, sabes... Não há pior do que a subconsciência que subjaz a estas alegres competiçõezinhas entre mamãs: a de que somos melhores mães, quanto mais alta e bem nutrida for a nossa criancinha - e que se lixem os factores hereditários, sociais e as idiossincrasias de cada um.

Seguimos depois para a batalha final, onde já só entram os pesos pesados, ou seja, as mamãs de filhos com percentil 50-75 ou mais. E lá continuamos, com uma enorme falta de noção e de mais que fazer, a comparar comprimentos fémur-coxa, ombro-cotovelo, tamanho das mãos, número de ténis que já não servem e largura de bonés que já não cabem... a atirar perímetros cefálicos, índices vários e percentis à cara umas das outras. O pior é que, como diz a do anúncio, por mim, passava a tarde
inteira naquilo.

Haja cú para nos aturarmos, irra."


(repost)

...

por Vieira do Mar, em 07.05.07
"O Primeiro Beijo, Cena I


- Mãe, com que idade deste o teu primeiro beijo na boca?

...

A mentirinha piedosa (fiquei cheia de pena de mim) sai-me de rajada, sem pensar um segundo:

- Ai filha, aí pelos quinze anos, vá!...


(e eu, a lembrar-me que foi quase aos treze - onde ela se encontra agora - que o
M. me empurrou contra a cerca do campo de jogos e, enquanto o contínuo, distraído, ralhava com um grupo mal-comportado no outro canto, me enfiava a língua pela boca abaixo sem eu ter tido tempo de soltar um ai)

É claro que ela acreditou, até porque tinha acabado de fazer a mesma pergunta ao pai, que, algures entre a tontura e o desmaio, lhe respondera, aos trinta e dois.


(continua, infelizmente, continua)"


(repost)

...

por Vieira do Mar, em 06.05.07
"Mãe"



Joãozinho, 18 de Fevereiro de 2007.

...

por Vieira do Mar, em 02.05.07
Dos cães perigosos.



Volta e meia, ouvimos notícias sobre cães que atacam pessoas, matando-as ou deixando-as muito feridas. A minha posição sobre isto é simples: já tive um cão que todos na família adoravámos e que mandei abater. Um rafeiro alentejano do tamanho de um burro que, até ao dia em que começou a rosnar baixinho e a mordiscar as canelas das visitas, parecera apenas um abrutalhado meigo e bem disposto. Por precaução, começámos a fechá-lo num espaço vedado quando vinham pessoas de fora e a não deixar as crianças rebolar com ele pela terra, não fosse o bicho chatear-se, vá lá a saber-se porquê. Ficou cada vez mais enraivecido, a atirar-se a mim, ao dono e a tudo o que mexesse. Nunca soubemos ao certo qual o mal que o atacou, nem de onde lhe veio aquela loucura, mas também não ficámos à espera para saber; não, quando tínhamos três crianças em casa, duas, mais pequenas do que o dorso do próprio cão. Foi doloroso, mas fez-se o que tinha de ser feito, não arriscámos.

Isto para dizer que não entendo, juro, quando vejo as pessoas a condicionarem a sua existência e a das suas crianças (quando não as crianças dos outros), ao comportamento dos animais, que tomam como certo. Como aquelas famílias que têm doberman e rottweilers que são uns queridos, SE as crianças não gritarem muito alto, SE não fizerem movimentos bruscos, SE não estiverem na presença de estranhos, SE… Ou, então, aqueles que afirmam taxativamente que um cão bem ensinado, que reconheça o dono, independentemente da raça, não é agressivo (a não ser que o dono o queira).

No primeiro caso, é pura e simplesmente absurdo: aquilo que deveria ser uma relação de prazer – o convívio com o animal – transforma-se numa tirania de condicionantes. Ter uma relação com um animal sob condição é um fardo desnecessário, além de sujeitar as pessoas que com ele convivem a um perigo gratuito. Porque, uma coisa eu aprendi, nestes anos todos de convívio com bichos e, em especial, com cães: eles são imprevisíveis, e negar esta realidade, ou é estupidez ou é arrogância (ou as duas coisas juntas). Nunca podemos prever ao certo o que pode despoletar um sentimento de medo ou de raiva e a resposta de um animal (mesmo que supostamente "treinado"), sob a forma de um ataque.

No segundo, é mais ignorância do que outra coisa, negar que certas raças detêm características mais agressivas do que outras e afirmar que não existem raças "más" mas, sim, donos que não sabem educar. Posso não apresentar aqui provas científicas (que as há) mas, parece-me de simples bom-senso que, se certos cães têm um maxilar que abre e se fecha como o de um pequeno esqualo, é natural que tenham uma maior apetência para morder e que, quando o façam, seja com violência, provocando geralmente grandes estragos. A minha pequinois rodas baixas é um doce, mas, se lhe desse para aconchegar canelas com os dentinhos, não viria daí grande mal ao mundo, atenta as suas estatura e força (e, mesmo assim, se mordesse, muito provavelmente a cadela não seria minha…). Agora, ter em casa um doberman, por exemplo, à mistura com crianças? É cá de uma irresponsabilidade, que faz favor. Podem jurar-me que é a criatura mais meiga do mundo, um querido, o melhor que pode haver para os petizes... até um dia – que pode nunca chegar, é certo, mas até um dia. E só esta possibilidade traduz um risco que eu não percebo estarem algumas pessoas dispostas a correr.

Portanto, se existe hipótese de escolha, se eu posso ir a um canil ou apanhar da rua um rafeiro eternamente agradecido, ou se posso ter um retriever bonacheirão, um cão pastor, um buldogue, para quê meter na cama dos meus filhos um rottweiler, um doberman ou um dogue alemão? Para quê arriscar-me a que, num acesso de fúria mal medida, inexplicável (são sempre inexplicáveis, já repararam?), as crianças possam ficar sem a cara?

Tal como o maralhal delinquente da Quinta das Conchas, as criaturas que, geralmente, têm este tipo de raças, são movidas pelos complexos de inferioridade, por puro exibicionismo, ou pela sensação de poder que têm, ao parecer aos outros que dominam a fera. Exibem o animal como uma arma ou um segurança privado, um prolongamento da sua "força" e das suas pilinhas. O chato é que, de vez em quando, saltam para as notícias episódios dramáticos com algumas raças de cães (quase sempre os mesmos: os que referi supra) que põem a nu a irresponsabilidade e a miserável cagança dos donos, ao acharem que os dominam e que sabem tudo sobre eles. É parvo, é triste e, muitas vezes, acaba mal.

Acho que ter um animal em casa deve ser uma fonte de amor incondicional, de brincadeira e de prazer e, nesse sentido, sim - acho que os animais estão lá para nos servir, a nós e aos nossos. Egoísta? Talvez, mas não me faz sentido, adquirir voluntariamente um monte de preocupações e de margens aleatórias, para mim e para os meus.

Sou, aliás, ainda mais fundamentalista, mais papista que o papa: apesar de adorar cães e de não me importar nada que um deles venha desencabrestado rua fora, me cheire o rabo e me lamba as mãos, percebo que exista quem não goste. Mesmo os mais meigos, os mais tontos, os manifestamente inofensivos, não deveriam andar soltos na rua. Aquela conhecida frase, "não tenha medo, ele não morde", que todos nós já ouvimos numa altura ou noutra, desperta em mim uma irritação desmedida. Eu não sei se o cão não morde e não me interessa: posso simplesmente não gostar que me fareje e lamba; não sei se está vacinado, se está limpo; posso ir com o meu cão pela trela e não me apetecer vê-los a engalfinharem-se, posso ter um medo irracional ou posso ser alérgica... Não são só os cães perigosos que circulam livremente graças à imbecilidade dos donos; os outros, por vezes, também; traduzindo-se estas amplas liberdades, antes de mais, numa enorme falta de respeito pelo espaço contentor de terceiros.

...

por Vieira do Mar, em 02.05.07
Dos cães perigosos.



Volta e meia, ouvimos notícias sobre cães que atacam pessoas, matando-as ou deixando-as muito feridas. A minha posição sobre isto é simples: já tive um cão que todos na família adoravámos e que mandei abater. Um rafeiro alentejano do tamanho de um burro que, até ao dia em que começou a rosnar baixinho e a mordiscar as canelas das visitas, parecera apenas um abrutalhado meigo e bem disposto. Por precaução, começámos a fechá-lo num espaço vedado quando vinham pessoas de fora e a não deixar as crianças rebolar com ele pela terra, não fosse o bicho chatear-se, vá lá a saber-se porquê. Ficou cada vez mais enraivecido, a atirar-se a mim, ao dono e a tudo o que mexesse. Nunca soubemos ao certo qual o mal que o atacou, nem de onde lhe veio aquela loucura, mas também não ficámos à espera para saber; não, quando tínhamos três crianças em casa, duas, mais pequenas do que o dorso do próprio cão. Foi doloroso, mas fez-se o que tinha de ser feito, não arriscámos.

Isto para dizer que não entendo, juro, quando vejo as pessoas a condicionarem a sua existência e a das suas crianças (quando não as crianças dos outros), ao comportamento dos animais, que tomam como certo. Como aquelas famílias que têm doberman e rottweilers que são uns queridos, SE as crianças não gritarem muito alto, SE não fizerem movimentos bruscos, SE não estiverem na presença de estranhos, SE… Ou, então, aqueles que afirmam taxativamente que um cão bem ensinado, que reconheça o dono, independentemente da raça, não é agressivo (a não ser que o dono o queira).

No primeiro caso, é pura e simplesmente absurdo: aquilo que deveria ser uma relação de prazer – o convívio com o animal – transforma-se numa tirania de condicionantes. Ter uma relação com um animal sob condição é um fardo desnecessário, além de sujeitar as pessoas que com ele convivem a um perigo gratuito. Porque, uma coisa eu aprendi, nestes anos todos de convívio com bichos e, em especial, com cães: eles são imprevisíveis, e negar esta realidade, ou é estupidez ou é arrogância (ou as duas coisas juntas). Nunca podemos prever ao certo o que pode despoletar um sentimento de medo ou de raiva e a resposta de um animal (mesmo que supostamente "treinado"), sob a forma de um ataque.

No segundo, é mais ignorância do que outra coisa, negar que certas raças detêm características mais agressivas do que outras e afirmar que não existem raças "más" mas, sim, donos que não sabem educar. Posso não apresentar aqui provas científicas (que as há) mas, parece-me de simples bom-senso que, se certos cães têm um maxilar que abre e se fecha como o de um pequeno esqualo, é natural que tenham uma maior apetência para morder e que, quando o façam, seja com violência, provocando geralmente grandes estragos. A minha pequinois rodas baixas é um doce, mas, se lhe desse para aconchegar canelas com os dentinhos, não viria daí grande mal ao mundo, atenta as suas estatura e força (e, mesmo assim, se mordesse, muito provavelmente a cadela não seria minha…). Agora, ter em casa um doberman, por exemplo, à mistura com crianças? É cá de uma irresponsabilidade, que faz favor. Podem jurar-me que é a criatura mais meiga do mundo, um querido, o melhor que pode haver para os petizes... até um dia – que pode nunca chegar, é certo, mas até um dia. E só esta possibilidade traduz um risco que eu não percebo estarem algumas pessoas dispostas a correr.

Portanto, se existe hipótese de escolha, se eu posso ir a um canil ou apanhar da rua um rafeiro eternamente agradecido, ou se posso ter um retriever bonacheirão, um cão pastor, um buldogue, para quê meter na cama dos meus filhos um rottweiler, um doberman ou um dogue alemão? Para quê arriscar-me a que, num acesso de fúria mal medida, inexplicável (são sempre inexplicáveis, já repararam?), as crianças possam ficar sem a cara?

Tal como o maralhal delinquente da Quinta das Conchas, as criaturas que, geralmente, têm este tipo de raças, são movidas pelos complexos de inferioridade, por puro exibicionismo, ou pela sensação de poder que têm, ao parecer aos outros que dominam a fera. Exibem o animal como uma arma ou um segurança privado, um prolongamento da sua "força" e das suas pilinhas. O chato é que, de vez em quando, saltam para as notícias episódios dramáticos com algumas raças de cães (quase sempre os mesmos: os que referi supra) que põem a nu a irresponsabilidade e a miserável cagança dos donos, ao acharem que os dominam e que sabem tudo sobre eles. É parvo, é triste e, muitas vezes, acaba mal.

Acho que ter um animal em casa deve ser uma fonte de amor incondicional, de brincadeira e de prazer e, nesse sentido, sim - acho que os animais estão lá para nos servir, a nós e aos nossos. Egoísta? Talvez, mas não me faz sentido, adquirir voluntariamente um monte de preocupações e de margens aleatórias, para mim e para os meus.

Sou, aliás, ainda mais fundamentalista, mais papista que o papa: apesar de adorar cães e de não me importar nada que um deles venha desencabrestado rua fora, me cheire o rabo e me lamba as mãos, percebo que exista quem não goste. Mesmo os mais meigos, os mais tontos, os manifestamente inofensivos, não deveriam andar soltos na rua. Aquela conhecida frase, "não tenha medo, ele não morde", que todos nós já ouvimos numa altura ou noutra, desperta em mim uma irritação desmedida. Eu não sei se o cão não morde e não me interessa: posso simplesmente não gostar que me fareje e lamba; não sei se está vacinado, se está limpo; posso ir com o meu cão pela trela e não me apetecer vê-los a engalfinharem-se, posso ter um medo irracional ou posso ser alérgica... Não são só os cães perigosos que circulam livremente graças à imbecilidade dos donos; os outros, por vezes, também; traduzindo-se estas amplas liberdades, antes de mais, numa enorme falta de respeito pelo espaço contentor de terceiros.

Pág. 5/5

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D