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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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por Vieira do Mar, em 21.07.06
O dedo n.º 50

e um agradecimento muito especial ao (embora tristemente atrasado, é certo...) por ter composto o template aqui do controversa, com paciência e simpatia infindas.



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por Vieira do Mar, em 21.07.06
O dedo n.º 50

e um agradecimento muito especial ao (embora tristemente atrasado, é certo...) por ter composto o template aqui do controversa, com paciência e simpatia infindas.



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por Vieira do Mar, em 21.07.06
(sair do ninho)




Uma semana na casa de praia da amiga. Cinco malas à porta do quarto.



- Filha, desculpa, mas para que é tanta coisa? Vais fugir de casa? Para o exílio? Vais-te mudar para a costa alentejana? Não precisas de metade desta tralha, francamente.

- Isso é que preciso, MÃE! É tudo im-por-tan-tís-simo.

- Ah. Ok. Portanto, deixa cá ver, estas maçãs todas são para quê? E os iogurtes líquidos? Vais para o meio do mato? É o kit de sobrevivência?

- Então, mãe, somos cinco, são três horas de expresso, se ALGUÉM tiver fome...

- E estes jogos todos, e o baralho de cartas, o monopólio?

- Já te disse que são três horas, ALGUÉM pode querer distrair-se...

- Vinte pares de cuecas para uma semana? Cinco sutiãs? Dez jogos para a playstation?

- E tens sorte em eu não levar a Shelby*! Olha, tens ali as instruções para a alimentares, não te esqueças.

- Pois, era giro, era, ires de aquário das tartarugas atrás. E para que é que levas esse cofre? Tens lá dentro algum tesouro?

- É onde guardo a chave do meu diário.

- Mas porque é que não juntas a chave, que é minúscula, ao teu porta-chaves? Tens que ir com esse mastronço atrás?

- Está bem, se calhar não é má ideia.

- E este saco, com coisas de vidro lá dentro?

- São vernizes.


(abro-o. contém todos os meus vernizes, roxos, encarnados, laranja, brancos)


- Olha, podias ao menos ter pedido. E para que é que queres isto tudo? Vais vendê-los para a praia, é?

- É que, assim, eu e a I. podemos querer pintar as unhas de acordo com a roupa, percebes?

- E estes cadernos?

- Um, é o meu livro de recortes de anedotas; os outros, são os meus diários.

- E para que é que levas essas botas para a praia?

- Pois...eu...



Meia-hora depois de duras negociações e a bagagem ficou reduzida a quatro sacos e meio, ou seja, levou à mesma o quinto, mas meio vazio. E lá foi, com o seu grupo (a seita tem um radar...), três rapazes e duas raparigas, com os seus vários pares de havaianas, os quilos de roupa interior, a maquiagem roubada à mãe, as três camisas de noite, as botas, o peluche favorito, as maçãs, a polaroid, o livro do Eragon e os ouvidos cheios de recomendações (tem o telemóvel sempre ligado, obedece à mãe da I., põe protector, não vás para fora de pé, cuidadinho com a rapaziada...), feliz e contente por me ver finalmente pelas costas.

E eu ali, no terminal das camionetas, a tremer o beiço, a vê-la, merda!, a afastar-se e a sentir que pronto, agora é que é, está a sair do ninho e eu não vou estar lá sempre, para lhe aperfeiçoar os voos, indicar-lhe as melhores rotas, amparar-lhe as quedas...


Um vazio estranho, que não é bem vazio porque também é uma coisa alegre e boa, de esperança e de olhos postos no futuro. Um vazio meio cheio, vá, como aquele quinto saco que ela levou consigo.



* a tartaruga, que, segundo as suas minuciosas instruções, só come se alimentada à boca, com uma pinça (yeah, right).

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por Vieira do Mar, em 18.07.06
Ora sai um kandinsky para a mesa do canto do infantário, fáxavor:

(ou da mobilidade dos conceitos teóricos)


- Mãe, fiz um desenho abstracto.

- Que giro, Joãozinho! E porque é que dizes que é abstracto?



- Porque não deixei nem um bocadinho de papel branco à vista!

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por Vieira do Mar, em 18.07.06
contos sobre o amor ou coisa que o valha


Os contos e historietas que escrevi neste blogue ao longo de pouco mais de dois anos, passarão a estar aqui, para quem os quiser ler ou reler.

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por Vieira do Mar, em 18.07.06
contos sobre o amor ou coisa que o valha


Os contos e historietas que escrevi neste blogue ao longo de pouco mais de dois anos, passarão a estar aqui, para quem os quiser ler ou reler.

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por Vieira do Mar, em 18.07.06
a vida seguinte



Antes de ele começar a falar, já ela o olhava; por vezes, respondia-lhe sem ele nada ter perguntado, adivinhava-lhe os medos e as vontades mesmo antes de estes se formarem na parte ainda consciente do cérebro dele (na que conseguira fugir com o rabo à seringa da doença que o mastigava e engolia, aos bocadinhos, aos quadradinhos de açucar e às colherzinhas de café).

Gozavam-se por aquele corpo dele, um dia erecto como o de um oficial prussiano, agora balançar e a vergar como as hastes de um salgueiro, ao sabor da ventania das sinapses interrompidas pelos seus neurónios moribundos. Gozavam-se por ele, às vezes, a chamar pelo nome de antigas namoradas (o que fazia convicto e sem qualquer sombra de dúvida) e de ela lhe fazer notar o engano, acordando-lhe o sexo com mordidelas delambidas, </font>pensa lámelhor, alguma delas te fazia isto?, e ele, claro que não, e riam-se e depois enrolavam-se os dois, embalados nas tremuras dele (que não eram nada perto das dela, lunares e meteóricas, quando se vinha).

A doença, coisa que eles pensavam de velhos que se babam e apodrecem nos lares, apanhara-os a meio da vida, ali mesmo, no âmago, no centro da alegria dos planos por concretizar e dos projectos por cumprir. A umas trocas e baldrocas com os nomes e as memórias, seguiram-se umas suspeitas vagas, a gestão complicada do medo, muitos exames, a negação e, por fim, um diagnóstico filho da puta e mau como as cobras.

Desde o início, afrontaram a besta besta da única forma que sabiam como (a mesma com que sempre haviam levado a vida): a gozar indecentemente com tudo e todos, principalmente com eles mesmos e com a sua inusitada desgraça. Balançavam-se entre os ataques de riso e de choro e acabavam abraçados, a lamber-se as lágrimas, a saliva e o ranho, e amaldiçoando o dia em que se haviam descoberto (ou antes, redescoberto). Ela estava tão ou mais doente do que ele, claro; sabia-se, aliás, mortalmente ferida: ele tremia por fora, ela por dentro; quanto mais ele se enganava, mais ela se desenganava, na certezinha de que um dia morreriam juntos e de que expirariam no mesmo exacto segundo (era o seu suporte de vida, a sua respiração assistida, essa certeza).

Construíram um novo mundo e envolveram-no n´a doença, como uma espécie de módulo espacial. Passaram a viajar dentro de casa: sentavam-se no tapete de kairouan, pegavam no mapa mundi, escolhiam criteriosamente um destino e passavam dias a imaginar as paragens no caminho, as pernoitas, os incidentes de percurso, as pessoas, os cheiros, as comidas, a temperatura, a cor do céu e o temperamento dos nativos. Enfeitavam-se com caftans marroquinos, mantas de lã peruanas e sombreros mexicanos, comprados em feiras de artesanato ao péda porta, e fumavam puros, enquanto ela cozinhava chilaquiles e moqueca, ao som de colectâneas putumayo de world music.

Abalançaram-se, portanto, a uma vida de brincar no confino das quatro paredes da casa onde viviam (ele tinha medo de sair, de cair, de ofender, enfim, de falhar). Às vezes, divertiam-se a valer e acabavam no chão da sala ou na cama, rebolados de riso, no final inglório de fodas humorísticas (de tão mal sucedidas), após festins com dildos e outros brinquedos de geometria rara (daqueles que colmatavam os espaços vazios que eram a memória e a tesão dele, e que preenchiam, com eficácia variada, um outro tipo de espaços vazios, os dela).

Nunca esconderam a doença dos outros e tinham, vezes sem conta, a casa cheia de amigos, em noitadas de copo na mão, a contarem-se anedotas sobre velhos, parkinsons, alzheimers, cancros e decrepitude em geral, num exorcismo colectivo do medo.Ao fim de alguns anos e de várias voltas ao mundo, percorrido o cancioneiro popular mundial e envergados os trajes típicos das nações unidas e das ainda por unir, a coisa começou a complicar-se. E a destruição progressiva do cérebro, a perda do gosto, do tacto, do prazer, do riso e - pior - a perda da capacidade de imaginar tudo isso, foram-lhes carcomendo as resistências, inicialmente acolchoadas com ironia e almofadadas com amorosa inteligência.

E, de repente, num dia como outro qualquer, ela olhou-o e soube que já não era ele que ali estava, mas apenas um invólucro, uma pele seca de bicho, que se descascara, caíra e ficara para trás, misturada com as folhas e a terra, desfazendo-se em húmus. E percebeu que chegara o momento de o deixar ir, pois só assim poderia continuar a seguir-lhe o trilho. Pegou ao colo no que sobrara dele e pouso-o sem pressas na água morna da banheira. Viu-o adormecer. Medicou-se excessivamente e deitou-se ao lado dele; os dois, ali, abraçados, por fim num sono sem sonhos nem tremuras.

Reencontraram-se do lado de lá, dizem que ao som de violinos, e que ele terá desatado a correr via láctea abaixo, num passo firme e coordenado (daqueles de atleta), a abraçá-la com tamanha força que ela terásentido estalarem-se-lhe as vértebras, sob o fulgor feliz daquele amplexo musculado. Parece que se sentaram algures por ali, à conversa, onde aguardaram a passagem da vida seguinte, para dentro da qual saltaram, de um pulo e de mãos dadas, mal esta lhes abriu as portas da frente.

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por Vieira do Mar, em 18.07.06
contraponto




Tinham avançado aos solavancos, como um daqueles carros engasgados com o depósito atestado de gasolina suja; haviam-se dado um tempo para, logo a seguir, quase cederem à voragem do mergulho; tinham-se imaginado a tez e os tons de cabelo, depois comprovado a espessura da voz e medido os silêncios, embalados na cadência da respiração de cada um do lado de lá do telefone; tinham-se mantido no fio da navalha que é aquela conversa que balança entre o luminoso e o banal; tinham-se roçagado pequenos gostos e vontades (rasas, daquelas de superfície), eu gosto disto, eu prefiro aquilo; haviam-se calado de súbito na escrita porque a estranha proximidade das respirações, seguidas dos milimétricos silêncios e coladas ao ouvido de cada um, lhes estrangulara o encanto das palavras (embora nessa ausência se pressentisse já o encanto da voz); tinham-se gostado das vozes: a dele, calma, a fazer-lhe ver, a cada nota, a ponderação sintática e estática que poria (presumivelmente) na sua vida e que já lhe havia dado a entender nos textos que lhe escrevera; a dela, meia urgente e desconexa, desarrumada, como ela mesma, sempre à beira do excesso e do riso, e recortada aqui e ali por baixios deliberados (com os quais pretendia suavizar os contornos da excitação que por ela subia sempre que à beira de conseguir algo, mas quando ainda cá em baixo, de braço estendido e com a ponta do dedo quase a tocar esse algo). Gostara ela, em especial, do contraponto que as vozes de ambos se haviam produzido: um contraponto sincopado que lhe soara quase a música (um dueto de tenor e mezzo soprano, talvez); e não fazia a mínima ideia por que razão dava por si, a meio do dia, por entre as infindáveisirrelevâncias burocráticas em formato A4 que rubricava a seco, a pensar naquele contraponto e a sorrir, cheia de vontade.

Era um facto: aquela vontade, ultimamente, picava-lhe o ponto todos os dias - e trabalhava (-a) em hora de expediente.

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por Vieira do Mar, em 18.07.06
erro de casting



Hoje, convence-se de que </font>não o viu porque não o quis ver, apesar da vigorosa certeza, martelada dentro dela por uma convicção marceneira, de que, no seu campo de visão, não se encontrava ninguém que correspondesse à ideia que fizera dele.
Relembra o momento como se fosse o ainda. Alheia aos mistérios da semiótica escondidos na escrita críptica de Umberto Eco, balança o olhar entre as transparências do gin tónico (amolecido pelos minutos a mais), as espessuras do rio à sua frente e os gestos voláteis dos que chegam e se vão sentando. Abre e fecha o livro ao ritmo do próprio pêndulo que lhe deu o nome, ajusta os óculos escuros à cana do nariz com uma urgência distraída, emudece com a língua os lábios secos da espera e vira-se de quando em vez para a porta da entrada, não vá ser surpreendida enquanto finge que não se surpreende.

Ele jura-lhe que sim, que esteve lá, que a fitou intensamente, que se corresponderam por segundos através das lentes escuras com protecção UVA; ela garante-lhe que não, que varreu a superfície de todas as mesas, de todas as cadeiras e seus ocupantes, como a luz de um farol varre a superfície do mar numa noite sem lua, mas não, não o viu. Decerto ele não fora, haveria um engano qualquer. Ele insiste, confuso; confirma-lhe a presença invisível, descreve-a, e ao seu movimento pendular; fala-lhe das suas mãos a braços com o copo de gin, do livro emaranhado de letras a fazer de mero adereço, e do rio ( corrente de propósito acusador, pensa ela, que lhe aponta o dedo à passagem e lhe torce o nariz de desdém).

Enquanto lá está, a ela às tantas (e embora bafejada por uma maresia ventosa), falta-lhe o ar e mirraram-se-lhe os pulmões, como se Lisboa à beira Tejo mais não fosse do que um gigantesco elevador encravado entre andares; ganha-lhe terreno uma impressão levezinha de pânico, muito leve, só as pontas dos dedos do pânico, melhor, só a ponta do dedo mindinho do pânico, a roçar-lhe a nuca e as palmas molhadas das mãos, enquanto o estômago se lhe emperra na tentativa de centrifugar o meio gin engolido sem fé.

E pronto, o arremedo do medo afia-lhe a atenção como a ponta de um lápis e aguça-lhe os sentidos, e ela, dotada de uma súbita super visão e talvez de outros poderes, separa-se de si mesma e, pairando sobre as águas do rio emfrente (que lhe franze as sobrancelhas), observa, analiticamente, a apneia pendular que domina aquele corpo que lhe é exterior, ora debruçado sobre a mesa, ora a girar sobre si próprio. Vê-se sentada à mesa, desgarrada, desfazada e fora do contexto daquilo tudo; fecha os olhos, cede aos murmúrios do rio (que corre em baixo num tom de censura) e recusa-se a olhar à volta e para além de si própria, dando por finalizado o tempo de antena do faz-de-conta.

Porque é nesse momento - nesse exacto momento - que se abate sobre ela a consciência de a sua presença ali resultar de um flagrante erro de casting, do qual se teria decerto apercebido mais cedo, não fora o barulho das luzes e aqueles arrepios todos colados à pele, decalques da ideia que fizera dele.

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por Vieira do Mar, em 18.07.06
diz-me o teu nome




Chamava-se Inês e ele sabia-o, desde o primeiro dos muitos mails que haviam trocado. Diz-me o teu nome, pedira-lhe ela a dada altura, diz-me como te chamas. E ele, que assinara </font>CB naqueles meses em que, à desgarrada, se haviam trocado memórias foscas e aldrabices pegadas, escreveu-lhe no dia seguinte e disse-lho. Ela, que queria caçar-lhe os desejos e as antigas namoradas, saltou com o olhar aos pulos a parte em que ele lhe descrevia os seus demónios em luta enquadrados no luar minguante, e aterrou logo no fim do texto. Saboreou-lhe o nome como se derretesse um quadrado de chocolate contra o céu da boca e o coração bateu-lhe mais forte na garganta, à ideia de ter dado um passo de gigante na direcção dele. Pedro, Pedro..., Pedro e Inês, pensou, é giro, lembra uma coincidência cósmica, assim uma coisa de karma.

Horas depois, a coberto do negrume da noite (uma noite abre-latas, corta-sebes, descarada e rasante, mata-bicho e sem-vergonha) devolveu-lhe a confidência com empenho inusitado. Falou-lhe dos molhos de crisântemos que todos os anos lhe debruavam as traseiras da casa de família e de como na terra dela se chamavam despedidas de verão por florirem ali mesmo, no sopé do Outono. Envolveu cada palavra num calor íntimo e atrevido e anexou-lhes uma foto dos roxos e púrpura que lhe pintalgavam a entrada da cave. Mas uma foto, calma!, devidamente escortanhada no photoshop, estirpados os degraus de madeira (construídos pelo pai, quarenta anos antes) e os vasos de alfazema que enfeitavam a balaustrada, não fosse ele, sei lá, ter algum um dia rondado a casa e poder reconhecer as despedidas e a lavanda, num instante de namoro com a madeira carcomida (ela queria-o, mas não tanto, nem tão cedo).E foi então, embriagada pela ideia de proximidade que os odores da provença espalhavam pelo alpendre beirão, que no fim acrescentou a primeira letra do seu primeiro apelido, um C, seguido de um ponto. Queria-o a fantasiar, C de Costa? de Correia? de Castro (teria a sua graça)?, mas era ela que se interrogava se ele sentiria a mesma excitação infantil, como um puto que antecipasse uma ida à feira ou ao cinema.

Dormiu mal, domando a custo a ideia selvagem de sair a meio da noite cidade fora, rebolou-se ao correr de cama e achou que havia sonhado com tudo menos com ele, até perceber que o tudo com que havia sonhado, até aquela estranha chuva de balaústres, flores do campo e pernas de mesa, era ele (porque qualquer coisa podia ser ele, tudo n´ele cabia: era uma página, um rosto em branco, prestes a receber um esboço de feições).

De manhã, agarrou-se até ao gabinete no centro onde trabalhava e, só depois sorver um café aflito e de a dentada na sandes de queijo se lhe ter atravessado nas amígdalas, entrou na caixa de correio. A conversa era a mesma de sempre: fragmentos de vida, bocados de gente e ideias pouco convencionais sobre a existência, coisas que lhe aceleravam a imaginação e a aqueciam, dentro da cela fria onde preenchia, das nove às cinco, declarações de IRS e de IRC. Novo salto de canguru para o fim, onde leu Miguel. Miguel? Ele assinara Miguel. Seria Pedro Miguel? Não era. Nos dias que se seguiram, os textos dele, cada vez mais pungentes e em chaga, chegaram-lhe com um nome diferente. Paulo, Tomás, Lucas, Manuel, Diniz, esgotou os apóstolos, depois os reis portugueses: um nome diferente a cada manhã, a rematar-lhe a carne viva, as feridas abertas que ela agora conhecia tão bem. As feridas de um cadáver sem nome, por identificar, de um qualquer John Doe guardado numa morgue e dissecado por ela, médica legista, a conhecer-lhes as causas, exactas e profundas, mas não o sujeito.

Encaixada a frustração e arrumada a um canto, pronto, já está!, ela foi em frente e a cada nome, a cada recuo depois do avanço (que eram as palavras que ele deixava cair, o rei manda dois passos à caranguejo), avançava com mais uma letra do seu apelido, que completaria pouco depois, agora procura-me na lista, indaga-me no cento e dezoito, nas finanças e na segurança social, que eu cá te espero. E ele nada, nadinha shiuuuu!, um cliente alheio e ausente num bar de strip, calado que nem um rato, o fundo de um poço, o olho do furacão, silêncio absoluto por entre a profusão de palavras que lhe despejava no colo. Não obstante, ela continuou, a lê-lo, de pernas abertas e alminha escancarada, a imaginar que ele entrava nela a cada confissão nocturna e a suspirar, a inspirar, a expirar.

Um dia, já exposta até ao osso e deitada nua ao relento dele, a pele arrepiada de galinha ao calor húmido que emanava de cada palavra que lia, ele deixou pura e simplesmente de lhe escrever. Acabou, assim, sem mais nem porquê, como diria Chico.E ela, depois de vários mails sem resposta, nos quais lhe pedira desculpa por qualquer coisinha, assinando apenas Inês, lá se resignou ao dia-a-dia (que voltara para a enrodilhar e esmifrar no seu torno de indiferença, apático e metódico) e voltou a usar o correio electrónico só para a troca de minutas e balancetes com os seus colegas contabilistas.

Por acaso, casou-se com um, que lhe ofereceu a alma e lhe derramou as entranhas sobre a mesa de café logo ao primeiro encontro, mas nunca esqueceu o estranho apóstolo-rei que a ensinou a uivar à lua, nas noites em que esta se lhe oferecia de bandeja, em soturnos quartos minguantes, enquadrados no caixilho de alumínio da janela suburbana.

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