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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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velhinhos, abatanados e seus empregados

por Vieira do Mar, em 15.07.09

Acho comovedora a relação que os empregados de pastelaria lisboetas estabelecem com os seus clientes mais antigos, não sei se já repararam. A maior parte desses empregados, algures entre os 40 e os 60 anos, têm ar de nunca ter feito outra coisa senão servir cafés pingados em chávenas escaldadas, galões directos e de máquina,  abatanados e torradas aparadas, e são no geral trombudos e ensimesmados, nem lhes vemos os dentes. Mas com os velhinhos do costume tudo muda. Na pastelaria das avenidas novas onde quase todos os dias úteis tomo o pequeno-almoço, elas são  “minha querida”, “minha linda”, “minha menina”, “cada vez mais nova e mais bonita”,  e eles o “meu grande amigo”, “como vai essa saudinha”. Hoje, quando estava no Frutalmeidas a lanchar uns pasteis de massa tenra com um dos meus filhos, o telemóvel de uma velhota pintada e vestida  a preceito,  com o cabelinho lilás todo armado para trás (não há velhinhos tão elegantes como os portugueses, já lá dizia o MEC),  sentada sozinha ao nosso lado, deu sinal de mensagem. O empregado, uma criatura naturalmente trombuda que nunca concede um sorriso, pega-lhe sem cerimónia no aparelho e diz-lhe, olhe tem uma mensagem, quer que eu lha leia? A velhota, já meio alheada da realidade, balbucia um sim, sim, e ele, ah, é a dizer que tem 15 euros de saldo (di-lo alto e pausadamente, já que ela deve ser um bocadinho surda). Mas tem praqui muitas mensagens não lidas, não quer que eu lhas leia todas? E, sem esperar pela resposta, enquanto os restantes clientes aguavam pelos pasteis em cima do balcão a arrefecer, ele ia dizendo, esta é de um 91 qualquer, ah!, é a confirmar o carregamento; esta é da sua filha, pede para lhe ligar; está aqui uma de uma tal de Filó, e algures dos fundos da confusão da sua mente a velhota clarifica baixinho, amiga!, e ele, pois, a sua amiga manda beijinhos e pergunta como se sente…, e por ali ficou mais um bocado naquilo, até esgotar a leitura de todas as mensagens que estavam por abrir e por ler naquele telemóvel e que, não fora ele, provavelmente não chegariam nunca à destinatária. Achei a cena tão gira que nem reclamei do pastel me ter chegado à mesa menos do que a escaldar a língua  (o que,  como sabem todos os autóctones, é crime de lesa-majestade no estabelecimento em questão).

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