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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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de regresso ao paraíso

por Vieira do Mar, em 08.07.09

Regressemos então ao Jardim do Éden. No momento em que a câmara se aproxima, vemos que Eva está chateada, mais propriamente a bufar de raiva, enquanto Adão finge que não repara, à toa com a razão de tamanha insatisfação (como sempre). Afinal, continua a cumprir primorosamente com os seus deveres, a caçar diariamente animais variados (entretanto evoluiu para a pesca),  a arranjar os galhos partidos da árvore da vida, a espantar os querubins,  e até a ajudar a mudar as heras-fralda de Caim e Abel. Cumpre igualmente com as suas obrigações carnais quando ambos se deitam no leito de folhas secas sob o céu estrelado – mas fá-lo pudica e missionariamente,  ou não estivessem  sob o olhar directo de Deus, ainda amuado e de beicinho por ter sido desobedecido (o que pode ser um tudo nada inibidor, convenhamos). Na verdade, a vida no Paraíso é chata: há pouca gente, o trabalho é sempre o mesmo, a paisagem que não muda. Adão, como adão que é, arranjou uma defesa: funciona em modo remoto e pré-programado, fazendo parecer que está tudo bem e convencendo-se mesmo disso; o rigoroso  cumprimento dos rituais a que se comprometeu tem nele um efeito de certo modo calmante, ajudando à resignação. Não se permite sentir grande coisa que não seja a saciedade temporária dos seus desejos mais básicos. Mas Eva está a passar-se de tédio – e do pior tipo de tédio, que é o induzido pelo cansaço: Abel não a deixa dormir de noite, Caim passa a vida a tentar matar o irmão, comem todos que nem uns alarves e deixam heras espalhadas por todo o lado. Quanto mais o tédio se apodera dela, mais os pormenores que lhe desagradam se agigantam. É a sunga dele que, se antes era sexy porque lhe aconchegava as protuberâncias, agora lhe parece um adereço foleiro e rançoso; são os seus músculos poderosos, de tanto caçar e desbravar o matagal, que agora o fazem parecer disforme e grotesco. E é a conversa, a mesma conversa de merda de sempre. Então, como foi o teu dia? Ah e tal foi bom, fui até lá abaixo ao vale, mergulhei no Tigre, depois persegui um veado, ele fugiu, eu corri atrás dele, ele fugiu mais um bocado, virou à esquerda, eu… Sim, sim, já percebi, e?... Bom, depois esfreguei-me no tronco de uma árvore porque tive comichão, comparei a minha pila com a de um cavalo selvagem que ia a passar e, para esquecer, fui beber uns néctares proibidos lá para os lados do Eufrates... Agora por acaso estou um bocado mal-disposto, se me arranjasses uma mistura daquelas de ervas não era má ideia. Diz isto tudo sem sequer olhar para ela e nesse dia por acaso Eva pintara o cabelo com uns pigmentos especiais que retirara de umas plantas raras, esfoliara-se com uma mistura de areias do rio e perfumara-se com umas flores especiais. Nem um reparo. Nessa noite, vai-lhe por trás como de costume, adormece logo a seguir e ressona, deixando-a acordada a olhar para as estrelas, preocupada em arranjar um psicólogo que assista Caim, o miúdo não anda bem, ontem foi um pedregulho directo à cabeça do irmão… No dia seguinte, Adão parte de novo para a caça/pesca (riscar o que não interessa) e Eva inicia uma vez mais a lida doméstica, mas, como é mulher e naturalmente capaz de multi-tasking, enquanto estende sungas e fraldas-hera nos ramos e eviscera o salmão, vai pensando na vida.  A falta de atenção de Adão a remoê-la, bem como a perfeita noção de que tudo nele é feito por obrigação, sem qualquer paixão ou devoção. E ela quer paixão, aquela vida não lhe serve.  É claro que Adão, como todos os homens, subestimou os níveis de descontentamento de Eva,  sem perceber que esta começara já a planear ver-se livre dele - o que teria percebido se tivesse atentado nos tubérculos reluzentes com que  brincava sozinha mal ele adormecia. Mas Eva fez ainda pior: subestimou a valia de Adão, que além de cumpridor com os horários, era limpinho, na generalidade bem-disposto, jeitoso com os galhos partidos e de natureza dócil, sendo o seu pecado maior  (não, não é esse)  o de não cumprir com os mínimos olímpicos de veneração da fêmea. Como diria uma sábia descendente de ambos,  milhares de anos depois, de empregada e de marido muda-se sempre para pior.

 
 
 
 

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