Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

objectos sexuais, línguas mortas e vivas

por Vieira do Mar, em 18.06.09

Bom, mas agora mais a sério (yeah, right) e a propósito do teu amigo católico e da preta dele. A  história que eu sei  é mais ou menos ao contrário e mais comprida (sabes como  é, nem todos temos o teu dom de compressão). E é estranha porque, apesar de ser ela quem estava apaixonada (ou achava que estava ou queria muito estar), era ele quem se sentia um homem objecto quando estavam na cama (ou no carro, ou numa mata infestada de putas). Só me queres para me foderes, dizia-lhe,  um tudo nada ofendido com a subestima que achava que ela devotava às suas capacidades intelectuais, ele que falava fluente para aí umas cinco línguas, uma ou duas já mortas e tudo;  que  já fizera tantas coisas, que lera e ensinara, que pulverizava audiências,  mas que a surpreendia em relances de tédio quando a conversa deixava de ser dengosa, sem intumescências escondidas nem virilhas molhadas, e passava a temas banais como a política nacional, cruzares  de perna afinal distraídos, olhares periféricos para o telemóvel, que horas serão. Era uma parvoíce,  mas já se sabe que os homens não entendem as mulheres e que, salvo aqueles raros momentos  em que são iluminados pelo divino e o espírito santo baixa neles (ou uma dessas entidades pagãs que vocês têm por aí e que costumam sair das águas), não as sabem fazer felizes. Problema fulcral, este:  podem de vez em quando levá-las ao céu mas não sabem, com a constância necessária, fazê-las felizes. Porque o menos importante era os orgasmos esporádicos que ele lhe dava, para isso tinha em casa uns gadgets fantásticos comprados na net,  últimos modelos a pilhas e de cores alegres, igualmente prestimosos.  E também tinha algures um marido, que da última vez que conferira ainda por lá andava. Ela não o queria só para que ele lhe desse prazer, mas essencialmente  para poder dar-lhe prazer a ele.  Estava apaixonada, porra!, faria tudo para o agradar, tudo mesmo, enfim, não fiquemos demasiado gráficos porque já se percebeu o tudo a que me refiro, coisas proibidas na maioria dos países islâmicos e até em alguns ocidentais.  Ela é que queria ser um objecto, usável, manobrável e disponível,  embora de forma  um bocadinho egoísta, porque gozava à bruta com o prazer dele. Uma variante que experimentava pela primeira vez.  Ia quando ele a chamava, largava filhos e o trabalho, fazia quilómetros para meia hora de café, e alinhava em conversas  sempre corrompidas pela ânsia da separação. Gostava do seu novo status de fera temporariamente amansada, sabia que um dia se cansaria e mandaria tudo às urtigas e que o próximo que viesse pagaria por tanta disponibilidade desperdiçada, por tanta espera em vão e tanto dinheiro gasto em pilhas não recarregáveis. E ele a achar que ela só o queria como objecto sexual, que ela  sempre demasiado disponível para a clandestinidade carnal, a falar-lhe da sua tesão, a impô-la, quase - e quando? e onde? e vem.  Ele sem entender da necessidade do pretexto,  do simples pretexto  para ela absorver o máximo (do hálito, das veias, dos poros) dele em meia hora no seu metro quadrado. O seu cérebro de homem, um cérebro   inteligente e fascinante  onde cabiam muitas línguas vivas e outras tantas mortas, quando pensava na relação complexa que tinha com aquela mulher, sentia-se incapaz de a interpretar e de ir para além do óbvio, reduzindo-a a uma espécie de casada mal fodida com carências afectivas e reduzindo-se a si próprio a uma pila hiperactiva e sobrevalorizada, ainda por cima sem as cores garridas nem a estamina duracell dos brinquedos que ela guardava na gaveta de baixo. É claro que havia uma outra hipótese, mas essa a ela não lhe agradava e preferia não pensar nisso. Que ele já tivesse percebido o que ela de facto sentia  e que ele não sentisse o mesmo; e que, passando para ela a responsabilidade de uma carga meramente sexual, lhe travasse os ímpetos amorosos, que chatice, que viriam complicar tudo. Começou a desconfiar disto quando um dia, depois de muito tempo sem se verem, roída de saudades, que mesmo com ele enfiado dentro dela não a largavam de tão incrustadas, lhe confessou, tu sabes que sou doida por ti, não sabes? E ele lhe respondeu, falas demais, cala-te e fode-me. Sim, talvez mais isso: línguas mortas, línguas vivas e uma boa dose de esperteza saloia que a ia mantendo confortavelmente à distância. Mas a questão fulcral mantinha-se:  completamente à nora quanto a saber fazê-la feliz, para além das estrelas de cinco pontas * que volta e meia  fazia explodir  mesmo à entrada do corpo  dela,  graças à   prática  que demonstrava  no uso de línguas vivas. Bem,  no uso de uma delas, pelo menos.

 

* Henry Miller, talvez?

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D