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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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embaraços, aleijões e gins tónicos

por Vieira do Mar, em 08.06.09

 Nunca se vira noutra e não sabia exactamente como reagir. Embaraçava-a, estar em sítios públicos com ele. E a consciência deste embaraço constrangia-a ainda mais: apequenava-se, quase. Objectivamente sabia que era parvo, o sentimento; afinal, tinha uma data de amigos homens com quem bebia gins e tomava cafés, nos exactos termos em que o fazia com as suas amigas mulheres. Mas, ao pé dele, era como se a sua linguagem corporal denunciasse o desejo que lhe circulava nas veias; era como se, pelo modo como mexia o café e pousava a colher no pires, com cuidado e sem o mínimo plim, o empregado a soubesse capaz de morrer pelo homem que, sentado à sua frente , lhe falava descontraidamente, alheio a tamanhos fervores.  E que, sabendo-o, pudesse desatar a rir da sua fraqueza, uma fatalidade  ridícula e  anacrónica, hoje em dia já ninguém morre por amor, duh! . Bom, não exactamente morrer, mas talvez desmaiar um bocadinho por entre suspiros evanescentes e sofrer que nem um cão nos dias ímpares. Fosse porque fosse, o embaraço era um facto e metia-se entre eles e a fluidez da conversa, dissipando a tesão enublada que ao mesmo tempo se ia formando  no ar.  Mas, e ao contrário do que pudesse parecer, ela não estava grandemente preocupada com o facto de puderem ser descobertos por alguém conhecido; não, não era uma questão de receio. Talvez fosse o recato forçado de não poder ser ela própria: expansiva, física,  excessiva;  de ter de se conter, de ter de baixar a voz e manter as mãos entre perímetros socialmente aceitáveis. E no entanto, apesar da contenção nervosa dos gestos e das palavras,  à medida que a conversa se desenvolvia e a familiaridade entre ambos crescia de novo, ela começava a alhear-se do mundo e só pensava em atrever-se ao toque. Como não podia (até porque ele nunca lho permitia), fixava-se em pormenores anatómicos, como na mão dele que exibia a aliança de casado, aquela estúpida aliança, grande demais para o seu dedo, uma excrescência, pensava ela; e atentava na periferia do seu rosto enquanto lhe evitava  a boca, o centro nevrálgico de quase todas as suas fantasias.  Essa boca, que em tempos lhe fizera muitas coisas  pelo que qualquer frase que ele articulasse sobre,  por exemplo,  vitivinicultura, lhe provoca um rombo erótico na carne.  Sentia que todos reparavam no modo guloso como lha olhava;  mas sabia também que, se ele por absurdo lha oferecesse, debruçar-se-ia atabalhoadamente sobre a mesa empenada e beijá-lo-ia com requintes cinematográficos, nas tintas para tudo o resto,   continuando sem perceber porque se sentia  tão acabrunhada de ali estar. Chamara-o para pôr um fim nas coisas, não andava a aguentar  o cerco cerrado que a angústia lhe fazia por estes dias, tanto tempo sem o ver, sem lhe tocar, pilhas de silêncio acumuladas, mãos por espalmar , umas contra as outras. Parecia um pássaro triste, a piar baixinho pelos cantos da casa e a comover-se até às lágrimas com tudo, menos com o abandono a que votava o filho e o marido.  Tinham que acabar. Pois sim, pois sim. Disseram-se adeus no meio de uma rua cheia de gente à hora de ponta, nenhum devidamente convencido das razões do outro, beijinhos rápidos na cara. E ela sem nunca ter chegado a  perceber que a razão de tanta vergonha residia, afinal, não na exposição pública do seu desejo infiel, mas na exibição perante ele da sua tristeza, esse corpo estranho que ultimamente a acompanhava para onde quer que fosse, essa excrescência ainda maior do que aquela estúpida aliança. Era a sua deformidade privada, o seu aleijão, não era coisa para andar a mostrar por aí à espera de recolher dividendos, como dantes faziam nas feiras. Ainda por cima parecera-lhe que, durante todo o tempo em que espalhara a alma rarefeita pela mesa do café, ele lhe sorrira, ligeiramente divertido.  Mas podia estar enganada.

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