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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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medo, muito medo

por Vieira do Mar, em 19.05.09

Tenho terror das lavagens automáticas. A sério,  cada vez que penso em lavar a merda do carro, tenho que vencer os meus demónios mais profundos. Começa logo no alinhar da roda com a calha, acho sempre que não estou a acertar no sítio;  o empregado a fazer-me sinal para não travar e não mexer no volante e aquilo a fazer tum tum tum tum, e eu, ai que já lixei o pneu, o volante a fugir todo para a direita em vez de ficar direitinho como devia, ai que vou marrar contra a parede, vou vou, ai meu deus. Depois as escovas a virem na minha direcção, a aproximarem-se ameaçadoras e eu, ai mãezinha, com medo de ser degolada por aquelas cerdas gigantes que giram enlouquecidas, prestes a entrarem pelo pára-brisas dentro. Imagino-me a gritar e o empregado a não me ver nem ouvir,  o que resta de mim a afogar-se e a dissolver-se na cascata ameaçadora de espuma detergente… Ponho a música alta, agarro-me ao telemóvel  e tento ignorar a violência dos jactos de água e o carro a avançar  em soluços penosos, mas o coração acelera-se-me inevitavelmente perante a visão daquela espécie de cutelo gigante da horizontal,  que seca a carroçaria. Nesse momento, tenho que me amarrar ao banco para não desatar a correr dali para fora; é que eu juraria que aquilo vai bater no vidro, vai bater no vidro, foda-se!, que isto não sobe  o suficiente, o carro está a avançar e isto  vai bater o vidro e esborrachar-me a cara. Desliza-me o pé nervosinho para o travão e só não travo porque, adivinhem?, à minha frente está um letreiro gigante a dizer “não trave”. Estes últimos momentos, aliás, são especialmente aflitivos porque o carro, a cada impulso que a calha lhe vai dando para a frente, descai um bocado para trás e eu, pronto é agora. Então, encolho-me toda de olhos fechados, a música num exagero de decibéis, à espera da morte certa. O ritmo cardíaco só abranda após o sacão final dali para fora quando o sinal fica verde, que no caso do sítio onde vou nem fica, porque está fundido há anos e eu tenho que adivinhar quando posso sair, o que não abona nada a favor da minha reduzida confiança na eficácia do equipamento. Quando vou com os miúdos, a cena torna-se ainda mais patética, comigo a tentar aparentar uma segurança destemida que não tenho e eles a fingirem que gostam e que acham graça, provavelmente também com medo de serem devorados pela tribo das escovas malucas e os seus ataques de espuma assassina. Como eu, na idade deles (e é assim que se criam traumas de infância).

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