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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

ergue a mão encontra hera e vê que ele mesmo era a princesa que dormia *

por Vieira do Mar, em 13.05.09

E então ela quis abraçá-lo, abraçá-lo e dizer-lhe que estava tudo bem, que ficasse com ela que tudo se comporia. Um disparate, claro, não só ele não poderia ficar com ela, como ela lhe faria a vida negra, se ficasse. Aliás, nenhum dos dois faria bem um ao outro, se decidissem partilhar a cama por mais do que umas breves horas.  Só funcionavam como remédio para as dores mútuas porque se tomavam em pequenas doses, furtivas e violentas, que engoliam de uma vez e que lhes iam sobrando para os  dias seguintes. Ela sempre se achara mais ansiosa por chegar a qualquer lado e via-o a ele no mesmo sítio, naquele patamar de sentimentos bem resolvidos onde estagnara depois da cacofonia sensorial que fora o enamoramento súbito e a deliciosa canalhice das vias de facto. Mas no fundo sabia que era exactamente o contrário:  que corria para lado nenhum,  presa dos seus fantasmas vivos, enquanto ele esperava que ela o salvasse, de algum modo inesperado e inventivo, como se o inverso de um conto de fadas. Toda a incerteza que sempre sentira quanto ao que a faria feliz, mirrara-lhe um bocadinho  a alma e tornara-a frágil aos olhos de quem achava conhecê-la.  De certo modo era verdade, essa fraqueza. Nunca gostara de deixar nada para trás e talvez fosse por isso que, mesmo sabendo que ele nunca seria seu, tinha  vontade de o embalar com uma definitividade precisa e rigorosa,  como aquela com  que os cumes montanhosos se recortam contra o céu e o rasgam,  nas tardes alaranjadas de Verão.  A necessidade de o ter no colo era tal  que parecia  serradura no estômago,   ela agoniada e seca, sem notar que o aparente altruísmo de o consolar era na verdade o desejo egoísta de sentir mais uma vez a clandestinidade da sua pele na dele, ao arrepio da ordem natural das coisas e dos seus horários. Também ainda não percebera porque é que por vezes lhe parecia  que ele se poderia partir em dois ou mesmo desmoronar;  ele era  uma fortaleza alcandorada a um ponto estratégico qualquer de onde podia ver tudo e saber de todos  (em especial dela),  seguro e controlado, parcimonioso na desmesura da entrega e regrado  nos impulsos mais básicos. O tipo de homem que cai de pé.  No entanto imaginava-o a implodir, uma ruína de pedras e canhões ao mar, indefeso  a deixar-se invadir e espoliar, e ela a aproveitar o saque e a açambarcá-lo  de modo eficazmente parasita. Ia no entanto fazendo de conta que não via as frinchas nas paredes grossas, que só ela é que os contrafortes meio partidos, as ameias demasiado  largas e os flancos demasiado expostos.  Que ela a mulher de conveniência, a qualquer hora do dia ou da noite. Não se importava que fosse essa a implícita combinação entre eles, nada nunca era o que parecia e a sua disponibilidade, temerária e arrojada, a roçar a inconsciência, era na verdade um modo desastrado de lhe pedir desculpa pela cobardia que a impedia de o salvar e ao mesmo tempo de se resgatar a si mesma,  como ele lhe pedia que fizesse, gritando-lhe  o seu silêncio fortificado.

 
* Fernando Pessoa, mais ou menos de cor e sem pontuação

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