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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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por acaso gosto mais das bravo-esmolfe

por Vieira do Mar, em 27.03.09

As mulheres são geralmente tidas como seres complicados, mas são-no apenas porque os homens não falam, ou falam pouco. Esta é uma sinergia (ou uma falta dela) que se verifica desde o início dos tempos.  Vejamos Adão e Eva.  Aquilo foi a história do costume: boy meets girl born from boy´s rib, trocam números de telemóvel, na minha árvore ou na tua, ela a fazer-se rogada e a fingir que finta a serpente, ele a acabar por comer a maçã, uma, duas, três vezes, enfim, um festim.  Logo depois começam os problemas. Enquanto Adão fuma um cigarro enrolado à mão e pensa na eficácia das armadilhas para coelhos que inventou no dia anterior, Eva pergunta,  Gostaste?. Claro, responde-lhe Adão (é evidente que gostei, que raio de pergunta, se não,  não estava aqui).  O laconismo não satisfaz Eva, que não desarma. Mas gostaste mesmo da minha maçã? Quanto é que gostaste? Numa escala de um a dez quanto é que lhe dás? E Adão, já chateado que nem um peru com o interrogatório  que o obriga a fazer contas de cabeça com o único neurónio de que Deus o dotou,  espera que o assunto morra ali com a sua sinceridade, Gostei muito, mas por acaso gosto mais das bravo-esmolfe, são mais docinhas, apesar de estarem pela hora da morte. Aquilo que é a mera constatação de uma preferência inocente, é visto por Eva como uma ofensa pessoal e um sintoma de rejeição.  Ao princípio, ainda tenta esmiuçar a preferência de Adão, esforçando-se por compreendê-la (no  que seria imitada por todas as fêmeas vindouras).  Mas porque é que preferes as bravo?  A minha não era doce? E onde é que ficaste ontem até às tantas? Perante a incapacidade de resposta por parte de Adão (que bloqueia, bombardeado com tanto pedido de informação ao mesmo tempo, como um PC dos antigos) segue-se a vingança.  Que consiste na erosão da masculinidade de Adão. No dia seguinte, quando ele chega a arfar com um veado às costas, ela começa, Também, sempre veado, sempre veado, não sabes caçar outra coisa senão veado? Estou farta de comer essa porcaria, já não aguento, todos os dias o mesmo, vê lá se caças uma coisa maior, tipo um alce, ou és demasiado mariquinhas para isso? Adão mantém-se calado antes, durante e depois do jantar,  a virilidade acabrunhada e recolhida na sunga de pele curtida, a pensar que de bom grado a deixaria morrer à fome, a cabra,  ainda por cima cozinha mal, os veados parecem sempre solas. E ao mesmo tempo põe-se a imaginar se, escondidas nos matagais paradisíacos, não andarão outras evas, quiçá bravo-esmolfe,  que o apreciem e lhe dêem o devido valor. O silêncio de Adão contunde com os nervos já precários de Eva (que tem de andar descalça e enrolada  em folhas, sem  uma manicura ou sequer uma zara nas imediações), que pensa que, por não ter obtido resposta, não foi ouvida. Este é um erro que, depois dela,  foi  sendo desde sempre cometido pelas mulheres: o de não perceberem que, se os homens não respondem ou não lhes dão a resposta que querem, não é necessariamente porque não tenham ouvido nem queiram saber, mas apenas porque têm o cérebro num diferente comprimento de onda. E muitas vezes nem sequer  perceberam a pergunta. Ou a utilidade dela. Então Eva inventa o teatrinho feminino, em que a sua gritaria evolui na proporção directa do mutismo de Adão. Que ele já não gosta dela, que na verdade nunca a amou, que não gosta da árvore que ela arranjou para os dois, que a cena de caçar veados é só para embirrar com ela, que nunca a ouve, que é um egoísta, que nunca vai com ela contemplar o pôr-do-sol. Adão acha aquilo tudo um disparate e que Eva é  essencialmente uma ingrata que não aprecia o esforço dele  que vem a alancar com os veados  às costas até à árvore de morada de família, e começa a ouvi-la como ruído de fundo enquanto acaba de chupar o osso da coxa de um bambi excepcionalmente tenrinho que se perdera da mãe. O seu único neurónio às voltas, a pensar em como se livrar daquela Eva que não fecha a matraca e que não sabe cozinhar. Durante uns tempos, ainda tenta agradá-la e salvar a relação primordial, porque, apesar de ser incapaz de lho verbalizar, gosta dela (é verdade que a falta de opções também ajuda). Mas Eva, definitivamente inoculada com o vírus da raiva, como resposta ao laconismo silencioso de Adão,  só consegue depreciar, no que se torna um vício que lhe traz um gozo amargo. Um alce? Mas para que é que a gente quer um alce morto,  um bicho tão grande? Depois apodrece tudo e é só larvas. Estás a ver aqui no meio do pomar alguma arca frigorífica?. E assim, enquanto Eva, dando um uso fácil e de arremesso às palavras em excesso,  finge odiar Adão, este começa de facto a odiar Eva,  embora sem palavras. Às tantas, ele olha-a como uma insuportável galinha tonta que lhe cacareja nas costas o tempo todo e ela, apesar da generosa distribuição de neurónios com que foi contemplada, é  no fundo uma parva, porque mantém até ao fim a esperança de que  ele um dia lhe diga o que lhe vai na alma. Sem perceber que o que lhe vai na alma  é apenas ir comendo umas bravo-esmolfe aqui e ali, ir matando uns alces enquanto solta uns gritos de guerra,  e que lhe apreciem a virilidade saliente sob a sunga de pele curtida.
 

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