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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

a barrinha do cliente seguinte

por Vieira do Mar, em 15.03.09

A famosa frase de Sartre o inferno são os outros, adquire acuidade especial quando sou obrigada a conviver com o povo ao fim-de-semana. Felizmente, sou uma privilegiada que se pode refugiar intra muros da marabunta contentinha que aos sábados e domingos invade os espaços públicos, mas hoje, uma data de prateleiras vazias e uns pares de olhos lacrimosos e esfomeados obrigaram-me a uma incursão tipo raid aéreo (lamentavelmente, sem a parte do napalm) a um hipermercado, essa feira das vaidades populares. Fui sozinha - na verdade, o resto da família é composto por uma data de cobardes que mereciam morrer à fome. Enquanto encho o carrinho e ziguezagueio pelos corredores, a coisa vai; com algum cuidado, evito ser decapitada por um miúdo-filho-do-demo que manobra uma vassoura na minha direcção, e ficar com dois cotos no lugar dos pés, ao fintar o irmão gémeo dele, que investe um carrinho contra os meus calcanhares. O problema é quando vou para a fila, pagar. É impressionante como tanta gente neste país desconhece em absoluto a ideia de espaço contentor. A família que aterra atrás de mim, fá-lo sempre mais em cima do que propriamente atrás, no afã de marcar o lugar. É uma coisa muito portuguesinha, esta, a de não querer ficar para trás,  nã nã,  porque a mim ninguém me engana, tá bem tá, era bom era, à minha frente, isso querias tu... A questão parece ser a de ter o mais rapidamente  possível acesso ao seu bocadinho de tapete rolante, o que pode originar alguns equívocos sociais, pelo menos no meu solitário e isolado entender. Ainda mal comecei a distribuir as coisas pelo tapete e já tenho uma criatura a respirar-me para a nuca e a apressar-se a amontoar os esparguetes, os iogurtes e os bollycaos na nesga de passadeira que sobra, enquanto a respectiva prole rodopia perigosamente à minha volta no estreito corredor. Não é normal, sinceramente. E não sei o que é pior: se aquelas  que atiram os víveres para cima dos nossos, se as que ainda mal começámos a tarefa da distribuição e já nos atropelam e mergulham de cabeça no colo da empregada de caixa à procura daquela barrinha que diz "cliente seguinte". Há muita gente maluquinha que não passa sem a barrinha do cliente seguinte. E que depois,  ao pô-la a separar as suas coisinhas, empurram subtilmente as nossas para arranjarem mais espaço para as delas. Uma coisa triste de se ver. O momento em que pagamos também é interessante. Sempre na ânsia de não serem comidos por parvos, e apesar de  terem passeado por entre as prateleiras dos enlatados com a calma contemplativa de um filósofo grego, são atacados por uma súbita pressa de irem para lado nenhum. Como estamos a falar de portugueses (povo que manifesta geralmente o desagrado de forma medrosa e indirecta), a maneira como mostram que estão fartos de esperar que a  desgraçada que têm à frente tenha de (sozinha) enfiar as coisas nos sacos, tirar a carteira da mala, abri-la, sacar o cartão multibanco, marcar o código, esperar, receber o talão e os vales, voltar a guardar tudo e zarpar dali para fora a empurrar vinte sacos de compras,  é irem-se colando. A cada uma destas operações, o português (ou a portuguesa, que a parvoeira mesquinha neste caso não tem género) vai se chegando sempre um bocadinho mais à frente como quem não quer a coisa. A de hoje lembrou-me o meu cão quando o obrigo a ficar à porta: a pensar que me engana, vai entrando devagarinho e a rastejar até ao  corredor. Aliás, deve haver por aí muita gente que sabe melhor o meu o código secreto do que eu própria (tenho sempre de confirmar  no telemóvel), de tanto que se encostam e espreitam quando o marco. Entretanto, enquanto a mãezinha me cusca o pin e formula juízos de valor acerca da minha marca de pensos higiénicos, já o Fábio Filipe me foi às canelas e se pendurou no meu carrinho mil vezes. Saio dali com uma falta de ar que nem vos conto, a sonhar com campos de trigo e com o mundo livre da humanidade, arrasada por uma catástrofe natural, como por exemplo um surto de raiva (isto foi de um filme que vi ontem). Os portugueses são um lugar estranho.

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