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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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giro mal o silêncio

por Vieira do Mar, em 09.03.09

Giro mal o silêncio. Temo sempre que o que me ocorra por força das circunstâncias ou da vontade de alguém, se transforme em surdez definitiva e depois seja tarde. Giro mal o silêncio porque nele se encerram desagradáveis possibilidades: um desespero mudo, a frivolidade de uns lábios cerrados, a mera indiferença ou até a efectiva falta de tempo para se chegar à fala com alguma substância. Mas há mais, há muitas hipóteses para o silêncio. Por exemplo, o facto de se tornar um contraponto necessário aos momentos muitos intensos, onde tudo ficou dito e feito e o que vier a mais, estraga. Isto eu entendo: falar o quê? Dizer o quê? Apenas calar, guardar e, em havendo tempo e gosto, reviver o que se viveu, fragmentando gestos, espaços e odores na solidão da memória. Não vale a pena falar sobre o que se partilhou, a não ser que não tenha sido partilhado. Mas, mesmo assim, giro mal o silêncio. Tendo para atentar nas coisas mesquinhas, nos pequenos sinais e em especial na falta deles. Sou pela cortesia diária, a repetida e banal, mas que canta nas entrelinhas. Sou pelas pontes súbitas de palavras, pela escapadinha verbal, pelo lembrete amoroso, a qualquer hora do dia ou da noite. É claro que há o problema da justa medida, e é verdade que esta difere de coração para coração; quão ténue é por vezes a linha entre o que diariamente nos beija a atenção e o assédio sentimental (e, porque não?, o tédio). Há um risco enorme na introdução da normalidade numa relação que é tudo menos normal: esperar-se o que é esperável,  preverem-se as reacções, cumprirem-se as expectativas… e de repente já não apetece, gastou-se a magia do não saber como vai ser. E, no entanto, que sensação reconfortante (quente como um abraço) a da resposta pronta que chega, a certeza de que se é correspondido na vontade das pontes que cantam nas entrelinhas, a angústia que se esvai à leitura da primeira frase, à percepção da palavra que atraca como um barco no cais do nosso sossego, até que enfim. Ah, tramada, a  justa medida: a de alcançar e de retrair, a de permitir e de negar, a de dar com uma mão e tirar com a outra, a de manter o interesse, mantendo-se simultaneamente interessado. Um pau de dois bicos. Giro mal o silêncio porque me incomoda e frustra, e faz com que acabe por perder eu o interesse pois,  como quase toda a gente, invisto nas coisas que me fazem bem e não o contrário. A cacofonia do amor é música para os meus ouvidos, além de que sou curiosa e quero sempre mais - e o silêncio tem ínsita uma ignorância flibusteira que me exaspera (há algo de aldrabice no não se saber apenas porque nada nos é dito). Giro mal o silêncio porque, mais tarde ou mais cedo, este traz consigo a definitiva ausência de som e, de repente, nem o chilrear dos pássaros, nem o arrulho das ondas, nem o embalo da poesia quando dobro a finisterra da noite.

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