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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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a minha melhor amiga

por Vieira do Mar, em 06.03.09

Hoje esbarrei com a minha maior amiga de infância num centro comercial. De infância, não: hoje esbarrei com a minha melhor amiga, ponto. Não nos víamos há quase cinco anos, logo a seguir ao casamento dela e de eu não ter podido ser madrinha do seu primeiro filho por não ser baptizada. A minha melhor amiga foi o meu primeiro amor, pela qual eu nutria sentimentos de posse e de paixão como os dos amantes. Embirrava quase sempre com os namorados dela, embora ela quase nunca com os meus. Anos depois, e agora em retrospectiva, penso que foi isso  que me afastou: nunca gostei do marido dela nem da domesticidade partilhada de ambos. Achava que tinha mau gosto para homens, mas pronto, admito que tivesse apenas um gosto diferente do meu. Sempre preferi machos alfa de calças de ganga e sem medo de se sujarem,  que se estivessem a cagar para a cor das cortinas e que não soubessem fazer uma reducção, mas que agarrassem em mim e me levassem à garupa pela route 66 ao som de uma rockalhada, alimentando-me de poeira,  guaxinins nos espeto e apple pies em estações de serviço sebosas;  ela, por sua vez,  escolhia os sensíveis da música clássica com dilemas interiores, os picuinhas cheios de manias que nunca levantam a voz, reparam nos quadros tortos,  têm estômagos sensíveis e prezam muito a sua colecção de cedês.  Homens cujo lado feminino me irrita para além do que é objectivável, confesso. Mas o que interessa é que as noites que passávamos abraçadas na sua cama de corpo e meio a fintarmos o gelo e a humidade que se desprendiam das paredes da sua casa em Campolide; e os dias que gastei naquele quarto a ouvir o master blaster e o no woman no cry,  enquanto cuscava  à janela o vizinho do lado com pinta de cigano - o meu outro primeiro amor - e ela servia de nossa intermediária, numa abnegação paciente que contrastava com o meu egoísmo possessivo, ficaram para trás, memórias de felicidade reféns das escolhas que fizemos, caminhos que se separam, temos pena, siga a vida. E de repente ei-la à minha frente, igual, uma ou duas rugas a mais, apenas. Empatámos o corredor do piso zero com beijos e abraços chorosos, como foi possível, tanto tempo sem nos vermos, o que aconteceu?, as duas atrasadíssimas, os miúdos na rua à espera e nós a tentarmos encaixar os últimos cinco anos da vida de cada uma algures ali entre as bancadas da Clarins e da  Chanel.  Uma a começar as frases e a outra a acabá-las, sim, sim, sei como é. E foi como se não existissem, os últimos cinco, vinte anos, a intimidade outra vez ali à mão de semear, não há nada que não te dissesse. E eu disse: sabes, pode acontecer-nos exactamente o contrário daquilo que se passa connosco agora e, no entanto, desbocarmos igualmente numa intimidade rara que nos prende para sempre, mesmo na ausência. Por exemplo, pessoas que aterraram por um acaso na nossa vida adulta e nós sem percebermos como podem não ter feito parte dela durante tanto tempo. No fundo, como se sempre aqui tivessem estado, percebes?

 

(eu sei que percebes)

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