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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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o desforço do ius iudicium

por Vieira do Mar, em 10.01.09

Não conheço em pormenor o caso Esmeralda, sei o que toda a gente sabe.  Nem tenho ouvido debates nem prós e contras, pois há vários dias que não tenho televisão em casa. Mas vejo que  na blogoesfera e fora dela as opiniões se têm dividido e tomado partido por um dos lados. Um facto salta à vista (pelo menos à  minha): quem não tem filhos, mais facilmente culpabiliza os pais adoptivos, subestimando o valor afectivo que Esmeralda terá para eles e vice-versa. Já quem os tem, tende a opor-se às pretensões do pai biológico, que afinal renegou a miúda quando  nasceu e só começou a lutar por ela um ou dois anos depois quando foi obrigado a reconhecê-la - e já num enquadramento mediático em que se torna difícil descortinar a verdade. A razão para uma ou outra escolha parece-me óbvia: quem tem filhos sabe que é depois de estes nascerem que os laços se aprofundam no sentido da natural devoção incondicional;  antes disso, vive-se apenas uma espécie de ficção encantadora. É nas vigílias nocturnas, nos banhos, na primeira papa, no limpar dos ranhos, dos rabos, dos vomitados; é no levantar cedo para a escola, nas reuniões de pais e nas idas ao pediatra, que o amor se aprofunda e constrói, um bocadinho mais todos os dias. É por sabermos na primeira pessoa que o amor pelos nossos filhos - e o deles por nós, - cresce nos pequenos prazeres e sacrifícios que tendemos a simpatizar com o sargento e com a sua mulher e a termos a certeza de  que a miúda é  feliz com eles e de que será uma maldade muito grande separá-los. Objectivamente, é fácil perceber porque é que Esmeralda, que há poucas semanas teve de ser arrancada do carro aos gritos para ser entregue ao pai biológico, se mostra aparentemente satisfeita por estar com ele. Pensará porventura que está numa espécie de férias, num interregno divertido com um homem que a leva a comer gelados, à feira e ao cinema. Aposto que ninguém lhe disse ainda que não mais voltará para os pais que sempre conheceu nem  que a sua vida mudou para sempre. Por agora a sua vida é  festa, brinquedos novos e feira. Por outro lado,  é fácil questionar as motivações do pai verdadeiro. Recordo-me,  quando tudo veio a público, que o pai era um desgraçado que não articulava duas frases  e  vivia num casebre que pouco mais era do que uma barraca. Entretanto, fez a barba, aprendeu a comportar-se em público, passou a vestir fatos completos e a viver numa casa digna desse nome. É óbvio que alguém pagou a dignidade deste homem, aumentando assim as suas possibilidades de sucesso e,  de caminho, alimentou a saga mediática. Não sei se gosta de facto da miúda ou se só pretendeu mudar de vida, mas não é lá muito bonito querer conseguir o amor filial à bruta através de investidas  salomónicas. Agora, o cerne da questão é este:  várias decisões judiciais  não foram cumpridas pelo sargento e pela mulher, num claro desrespeito pelo ius judicium dos tribunais. As opções que então  fizeram, ditadas pelo coração, foram  erradas não apenas porque foram ilegais, mas sobretudo porque deitaram tudo a perder desde o início. O casal, ao opor-se contra tudo e todos em nome de uma causa que considerou justa,  não contou com o facto de a Justiça portuguesa ser uma criatura anquilosada, má e ressabiada  que, sob o eufemismo do tarda mas não falha,  se vinga à força toda sempre que pode, não perdendo uma oportunidade de mostrar quem manda.  O que psicólogos mais ou menos isentos ou mais ou menos comprados possam vir ou não a dizer, é  indiferente. Como um puto dá um pontapé a um cão que lhe rosnou,  quando ninguém está  a ver, ou como um grupo de rufias dá uma tareia  ao melhor aluno que os fez passar por parvos na aula,   ao confiar Esmeralda ao pai biológico, o Tribunal está a vingar-se do casal adoptivo, está a aplicar desforço,  desforra, represália, vindicta publica. Só assim, desta forma simultameamente mesquinha e humana,   se explica que alguém  -. um juiz, uma pessoa - resolva  apagar  os sete anos que esta criança entretanto viveu com aqueles pais. Alguém que dorme descansado a seguir porque se desculpa com a Lei (muitas vezes uma aberração sem rosto, como no caso) e nas decisões transitadas de tribunais superiores. O sargento e a mulher  não contaram com o efeito psicológico da sua desobediência no orgulho corporativo e lixaram-se. De caminho, Esmeralda também, mas isso não interessa nada: há muito psicólogo e pedopsiquiatra por aí a precisar de sustento e  a indústria farmacêutica também agradece .

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