Esta canconeta pop, muito easy listening, tem andado na minha cabeça porque me lembra um post que em tempos escrevi no atrevido e que começava assim: "Sabes, ainda aqui estou, nesta esquina onde um dia prometeste que me surpreenderias ..." Gosto desta ideia; não da ideia de surpresa, porque o amor raras vezes nos surpreende: o amor somos nós a olhar com familiaridade para o abismo. É, antes, a ideia de que o amor não concretizado se mantém de alguma forma parado no tempo, tolamente à espera de uma finalização qualquer que pode nunca chegar, numa espécie de teimosia infantil. Aliás, aquilo que muitas vezes achamos ser o fim do amor é apenas um processo de intenção, acompanhado de cedês partidos e cartas rasgadas (simbolicamente falando, claro, que hoje em dia basta carregar no delete). Interessante, isto de o amor depender pouco ou nada da pessoa amada, assim se transformando num delírio de autofagia que se alimenta a si mesmo, que começa onde acaba, sempre a morder a própria cauda. É isso, o amor a morder-se a cauda, às voltas como um cão, l´ombre de ton chien, mas que, apesar disso, traduz o exercício de uma estranha liberdade de escolha: eu fico aqui na esquina até que tu chegues, mesmo sabendo que não vens, porque me apetece ficar, porque não tenho nada melhor para fazer. O amor em suspensão torna-nos ubíquos: comemos, fodemos, dormimos, amamos, trabalhamos... mas continuamos na esquina à espera.
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