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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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a fantochada dos rankings

por Vieira do Mar, em 03.11.08

Normalmente, todos os anos, abro o jornal na página dos rankings das escolas,  confirmo que o colégio privado onde tenho os meus filhos é um dos à cabeça na classificação geral, respiro de alívio, dou por bem empregue a batelada que pago todos os meses e sigo para a notícia seguinte. Este ano foi diferente: a minha filha mais velha foi para o liceu e eu estava curiosa para saber onde aquele se situa, na lista das escolas públicas. Engraçado: não me interessou saber qual o lugar daquele no ranking geral, mas apenas no das escolas públicas – como se a miúda agora jogasse noutro campeonato e não fossem comparáveis, as públicas com as privadas. Preconceito meu? Talvez, talvez não tanto assim. Será justo, meter tudo num mesmo saco? Se não, porquê?

 A minha (ou melhor, a da minha filha) experiência no ensino público é ainda recente mas, por aquilo que tenho visto (até com filhos de amigos e familiares), concluo que é de facto diferente, a qualidade do ensino num e noutro lado - e isto mesmo que a escola secundária seja considerada boa, como é o caso da da minha filha  (com uma boa direcção, boas instalações e um corpo docente estável). Primeiro, o controlo, ou a falta dele. Na pública, os alunos podem fazer quase tudo. Os professores, também. Ou seja, podem faltar quando lhes apetece, começar as aulas mais tarde, contornar a matéria, passar tardes a ver filmes e a falar sobre o Matrix nas aulas de filosofia, e dizer basicamente o que lhes vem à veneta. Não há regras quanto à apresentação ou vestuário, não há aulas de estudo para compensar fragilidades, os funcionários não sabem o nome dos alunos, nem estes o nome daqueles. Os testes são mais fáceis e menos exigentes (a miúda pouco estuda e está com média de dezasseis). Os alunos, quando não gostam de não sei o quê,  reivindicam muito e fazem greve; fazer greve é enfiar papel molhado nas fechaduras das salas e esperar um dia inteiro pela vinda do serralheiro, enquanto o corpo docente no café da esquina. Há uma ideia generalizada de balda, de não responsabilização de alunos nem de professores;  só contam as faltas muito graves e ao resto fecha-se os olhos - é o Estado no seu melhor. E estamos a falar de um dos melhores liceus públicos de Portugal, segundo o dito ranking .
Mas, apesar de globalmente boa, esta secundária está nitidamente aquém do colégio de onde vem a minha filha (que para privado até nem é nada de especial, diga-se). Se atendermos à média geral das notas, vemos que as melhores públicas estão, no geral, uns bons pontos percentuais abaixo dos melhores privados. Assim, pelo que vejo,  não é nada equivalente, isto de andar no ensino público ou no privado, sendo que os rankings se limitam a confirmar o que toda a gente já sabe: que as melhores escolas são privadas e que o ensino público, no geral e salvo honrosas excepções, stinks.
 Donde se conclui que, se há alunos no público que tiveram boas notas (leia-se: equiparadas às dos bons alunos nas privadas) é porque,  ou se esforçaram mais por isso, ou porque tiveram a sorte de dar de caras com professores carolas, daqueles que investem nos miúdos apesar de não ganharem um cêntimo a mais. Por isso, quando vejo lá no meio dos privados do costume aquela dúzia de liceus públicos infiltrados, penso que estes devem ser muito bons. Só podem. E que o Estado devia estar atento, ver o que é que estão a fazer a mais (ou a menos), saber das diferenças e depois copiá-los para os outros (o modelo de gestão, a carolice ou lá o que for).
Outra razão para não ser justo um mesmo ranking englobar públicas e privados, por conduzir a uma perversão dos resultados (ou, pelo menos, das conclusões que se retiram dos resultados): por exemplo, o Colégio Mira Rio, este ano um dos primeiros. Trata-se de um selecto colégio de freiras, com poucas dúzias de alunas, só raparigas. Se olharmos para a lista por disciplinas, reparamos que foi a concurso (digamos assim) com conjuntos de dois e três exames, contra colégios privados e públicos que concorreram com cem exames ou mais. Agora digam-me,  o que é melhor e mais meritório: uma escola com duas alunas a Matemática que tiveram um tutor particular o ano inteiro (porque é disso que se trata) e que conseguem média de dezoito?  Uma outra escola  com cinquenta alunos  que tiveram média de quinze? Ou um liceu com cem alunos  que conseguiram média de doze? Será melhor a freira que põe a sua única aluna a ter dezoito ou o professor de um liceu público que põe três turmas de trinta alunos a ter doze? É claro que a maior parte dos pais, em podendo, escolhiam a freira; em não podendo,  escolhem o liceu e rezam para que  um ou dois professores carolas se cruze nos caminho dos filhos, caso estes não sejam uns geniozinhos aplicados.
 
Ou seja, os rankings servem apenas para um ou dois propósitos que, apesar de legítimos, não deixam de ser redutores: para os privilegiados escolherem o colégio dos rebentos e para o Estado se confrontar com a sua própria inépcia educativa e, como de costume, nada fazer (até porque quando quer não o deixam: veja-se a novela da avaliação dos professores).

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