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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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o livrinho do inspector

por Vieira do Mar, em 04.08.08

No dia em que o processo Maddie é tornado público,  aqui ficam as minhas impressões sobre o livrinho do ex inspector Gonçalo Amaral. Este senhor confere todo um novo significado ao racíocinio silogístico,  abdicando das premissas para passar logo à conclusão.  O livrinho, já se sabe, é um labelo acusatório mal amanhado. Muito em resumo, o casal McCann é culpado, porque:

 

- Os amigos do casal contradisseram-se em alguns aspectos dos seus depoimentos, designadamente, quanto às horas precisas a que foram visitar os quartos onde se encontravam os miúdos, e quanto ao que viram e quando o viram; além de não se lembrarem do que Maddie vestia nessa noite (se o pijama tinha ou não carneirinhos);

 

(na verdade, após o decurso de um jantar de amigos em férias, seguramente bem regado e descontraído, seguido do brutal choque emocional que dever ter sido o desaparecimento da filha de dois deles, esperava-se mais acuidade, mais rigor testemunhal, caramba! sendo que, se eu tivesse dois amigos constituídos arguidos num país com algumas semelhanças com, digamos, Marrocos, mentiria com quantos dentes tenho na boca só para os safar… do que quer que fosse que tivessem de se safar, mesmo sem o saberem)

 

- O apartamento não apresentava sinais de arrombamento, e não havia vestígios de qualquer raptor, pelo que só podem ter sido os pais a entrar e a sair.

 

(portanto, a PJ nunca deve ter ouvido falar em gazuas, chaves falsas – ou só cópias de outras chaves, afinal, era um aldeamento -,  simples ganchos de cabelo,  ou a mais recente coqueluche do breaking and entering, a radiografia; também nunca devem ter ouvido falar em usar luvas para não deixar impressões digitais e assim)

 

- Os ingleses, designadamente o cônsul britânico, acharam logo de inicio que a polícia judiciária não estava a fazer nada: esta foi uma nítida “desinformação” que visou dar um “relevo diferente” ao caso.

 

(mas qual “relevo”? porque é que a incompetência tende sempre a desculpar-se com teorias da conspiração? não poderia ter sido apenas a perspectiva externa de dois pais desesperados e dos seus conterrâneos face àquilo que é a ineficácia congénita dos portugueses quando têm de trabalhar em equipa e sob pressão?  convenhamos: as primeiras horas após o desaparecimento da miúda devem ter sido de uma incompetência caótica indescritível… e a verdade é que a PJ não tomou as rédeas logo de início, como deveria ter feito ; o resto são desculpas de mau pagador)

 

- O grupo de amigos dos pais apressou-se a comunicar o desaparecimento à comunicação social, o que é muito suspeito.

 

(e que não resulta, nem por sombras, das lei e tradição anglo-saxónica perante casos semelhantes: face a um segredo de justiça mais aberto e sabendo que se vive uma luta contra o tempo, os media são muitas vezes aliados preciosos das autoridades com a divulgação pública de certos aspectos do caso)

 

- Às tantas, Kate mostra-se enfadada por ter de regressar a Portimão para efectuar um suposto reconhecimento de uma miúda parecida com Madeleine, numas fotografias.

 

(sem comentários)

 

- Desde que chegaram ao Algarve (mais dia menos dia) Kate e Geery não apresentaram registos de telefonemas nos seus telemóveis, o que significa apenas uma coisa:  que fizeram chamadas e que as apagaram entretanto, com o intuito de esconderem conversas incriminadoras que terão tido antes, durante e depois do desaparecimento da filha;

 

(estamos perante gente que não conhece o conceito de desligar o telemóvel nas férias… uns verdadeiros workaholics, estes inspectores sem vida própria)

 

- A mãe, numa das entrevistas que deu, insinua que Maddie fosse um “estorvo” pois tinha dificuldade em criá-la, para mais depois de terem nascido os gémeos. Consta que, por altura das férias, se encontrava  emocionalmente exausta. Ah! E, ainda em Inglaterra, tivera  um mau presságio.

 

(ou seja, uma mãe emocionalmente exausta e com três filhos tem tendência para matar um deles, ou talvez dois ou todos, e depois esconder os corpos em conluio com o marido, à vista de todos e numa terra que não conhecem: faz sentido)

 

- Os pais eram maus pais porque, no Algarve, deixavam as crianças durante o dia entregues às baby sitters do aldeamento e davam-lhes Calpol (um medicamento infantil) à noite para dormir. Para mais, os ingleses (outros maus)  não forneceram à PJ os registos médicos dos miúdos, o que teria sido importante porque, por exemplo, Maddie sangrava do nariz.

 

(sem comentários; só para dizer que a coisa do Calpol não se provou de todo e que  o pormenor do nariz que sangra ser indiciador de qualquer outra coisa é no mínimo hilário)

 

- Numa altura em que, numa sala da PJ de Portimão, se aguardava um mail de alguém que dizia ter uma pista sobre Maddie e exigia dinheiro em troca, Gerry falou com um polícia que lá estava de futebol e sorriu nervosamente, enquanto chupava descontraidamente um chupa.

 

(sem comentários… este tipo de insinuações quanto às reacções de dor supostamente correctas que os  pais deveriam ter assumido, são as que me metem mais nojo)

 

- No entanto, quando a GNR chegou ao local logo após o desaparecimento, o pai ajoelhou-se no chão a implorar ajuda, num desequilíbrio emocional incompreensível, porque vindo da parte de um homem que “começa o dia a abrir pessoas”, diz um inspector para o outro. A tese é a de que Gerry quis sujar as calças de propósito para as contaminar e apagar vestígios (juro que é isto que ele diz!).

 

(é ou não é nojento, este raciocínio, além de estúpido? então, num momento, é estranho o pai ser frio e descontraído, mas noutro, já é estranho descontrolar-se? Em que é que é que ficamos? E não é normal um pai descontrolar-se quando verifica que a filha desapareceu?  Eu, em tempos, desapareceu-me a miúda, então com 4 anos,  atrás das prateleiras de um hipermercado, e posso garantir-vos que, durante o minuto em que aquilo durou, eu não fui um espectáculo bonito de se ver e muito menos de se ouvir: os meus gritos chegavam à rua)

 

 

- Um dos amigos de Gerry, numa viagem anterior que todos fizeram, terá feito uma piada infeliz de índole sexual, a resvalar para o pedófilo, e Gerry terá rido, o que chocou a testemunha da cena, uma amiga que nunca mais foi de viagem com eles.

 

(mas, afinal, a miúda morreu por acidente? Ou foi antes vítima de um complô de um grupo de adultos pedófilos homicidas, encabeçado pelos próprios pais?  Qual a relevância desta informação?)

 

- A dada altura, Kate “ (…) começa a dar conta de algumas informações relativas à localização do cadáver da sua filha (...) ”, como se soubesse onde estava.

 

(esta afirmação é tão falsamente tendenciosa que dá vómitos: a mãe apenas  veiculava alegadas  informações que vinha recebendo pessoas que se afirmavam com poderes psíquicos, o que se compreende: em estado de desespero, e perante a óbvia ineficácia de quem está  encarregue de descobrir a verdade, uma pessoa agarra-se a qualquer coisa)

 

- Kate resolveu não falar quando foi interrogada, dificultando assim as investigações

 

(foda-se!, eu também não teria dito mais nada, a partir do momento em que me considerassem suspeita. Sabe-se lá o que poderia dizer para me incriminar, e sem o saber.  quando não fazemos a mais puta ideia de como nos vão interpretar, o melhor é remetermo-nos ao silêncio. a sensação de ter aterrado numa história de Kafka não deve ser diferente disto)

 

- No quarto de Kate (esta é a melhor, para mim), na vivenda que depois alugaram, havia várias fotos emolduradas de Maddie, cada uma delas com um crucifixo, um santo ou um terço “como que a zelar pela alma da menina”. Daqui se depreende, portanto, que Kate saberia que esta estava morta (alma = morte).

 

(portanto, aquilo que então viram não poderia ser a expressão de fé de uma pessoa devota, a pedir e a rezar pela vida da filha desaparecida…ó Deus, que quem reza agora sou eu)

 

- No mesmo local, Kate tinha uma Bíblia assinalada em diversas passagens, a propósito do filho de David que morreu, blá, blá, blá , e que depois este teve outro filho porque a vida tinha de continuar, blá, blá, blá.

 

(prova irrefutável, portanto, de que Kate matou a filha ou de que, pelo menos, sabia que esta estava morta… e, assim sendo, deixava ali aquilo mesmo à mão dos inspectores, para estes apreenderem, lerem com os seus olhinhos de lince e retirarem esta conclusão )

 

- Por contraste, no lado do quarto atribuído a Gerry, as paredes estavam nuas “mostrando alguma frieza”.

 

(portanto, não escarrapachar com fotos da filha desaparecida nas paredes do seu lado do quarto é sinal de frieza e – logo – de culpabilidade).

 

- Ainda por cima, ele detinha consigo manuais policiais e técnicos sobre o desaparecimento de crianças, acessíveis apenas a “entidades policiais e governamentais”, o que era muito estranho.

 

(de facto, porque é que um pai a quem desapareceu uma filha num país tipo Marrocos, cujas autoridades o vêem como suspeito,  há-de estar a procurar documentar-se sobre técnicas de investigação em situações idênticas,  sobre raptos e exploração infantil? é estranho, não há dúvida)

 

- O fundo criado para procurar Meddie, em tendo sido os pais a matá-la, pode configurar uma situação de crime de burla qualificada, embora Portugal não tivesse jurisdição para investigar tal crime.

 

(sorte a deles, foge… Benditas regras de Direito Internacional!)

 

- Após a constituição como arguidos dos McCann, os ingleses insistem na tese do rapto e põem em causa a eficácia da polícia portuguesa, abandonando o nosso país quando os primeiros voltam para Inglaterra. “Qual a razão para abandonarem o terreno onde decorria a investigação logo que o casal regressou a casa?”, interroga-se o inspector, de sobrolho franzido.

 

(duh! talvez porque, com a constituição dos pais como arguidos, muita gente se apercebeu do rumo errado que a investigação até aí levara e da perda de tempo que esta representara)

 

 

- Uma certa noite, Gonçalo Amaral descansa na sua casa no sotavento algarvio - é o repouso do guerreiro. Lá fora, o  seu cão ladra insistentemente, sem que se perceba porquê.

 

(sem comentários)

 

- O facto de acabar por ser corrido da investigação foi o “desfecho de uma campanha de difamação e injúrias (…) orquestrada (…) por meios de comunicação social britânicos (…)”.

 

 

(e nunca, nunca!, por causa da sua manifesta incompetência, bem como a da sua equipa, que se traduziu numa série de opções erradas ao longo da investigação)

 

… and so on.

 

 

Em suma, lixo, um autêntico lixo, o livrinho. Uma tentativa de manipulação serôdia e bacoca, que nem sequer tem subtileza suficiente para fazer germinar na cabeça de quem o lê uma verdadeira desconfiança contra o casal. O que não quer dizer que estes não sejam efectivamente  culpados, atenção: nunca poderiam é ter sido considerados como tal com base nestas supostas “provas” – inconsequentes, coladas com cuspo e baseadas em insinuações.

 

Fica-me  a sensação inicial: a de que é um perigo se,  por algum azar da vida, formos alvo de uma forte embirração empírica e ficarmos à mercê de um destes inspectores espertalhaços que torcem as evidências por forma a fazê-las encaixar nas suas teorias pré concebidas, engendradas por uma mentalidade mesquinha, com pouco mundo e ainda  menos cultura. Medo, tenham muito medo.

 

Já quanto à Justiça portuguesa, essa só tem que ter vergonha.

 

adenda: Quanto à decisão do MP de não acusar o casal pela prática do crime de abandono, esta foi obviamente correcta.

 

 

-

 

 

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