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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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parvoíce e gangs rivais

por Vieira do Mar, em 14.07.08

Hoje em dia, os media marcam a agenda política de um país. Porque existem telemóveis que filmam, Portugal descobriu subitamente que nos bairros sociais se anda aos tiros e que a malta de “etnia cigana” e de “etnia africana” não se grama. Os telejornais repetem à exaustão umas cenas mal filmadas, onde nos apercebemos, cá de longe, que a “etnia africana” usará, talvez, um tipo de arma de fogo mais discreta que caberá na palma da mão, enquanto que a de “etnia cigana” nutrirá maior simpatia pelas caçadeiras de canos serrados (ou seria o contrário?). Todos se desdobram em declarações e até o senhor ministro se deu ao trabalho de compor um tom solene e ligeiramente surpreendido, como se tivesse sido a primeira vez que estas coisas aconteceram. Mas não. Há anos que ocorrem rixas entre etnias rivais na periferia de Lisboa, com lugar a mortos e feridos, só que dantes não chegavam à comunicação social. Nestes bairros, quase toda a gente guarda armas debaixo do chão ou do colchão, juntamente com o dinheiro da venda nas feiras e o da droga, e os polícias conhecem-nos a todos - um a um (o inverso também é obviamente verdadeiro). Levantar as tábuas do soalho das casas ou virar os colchões desta gente toda, provocaria um tumulto social de proporções inimagináveis, que começaria com muita gritaria e acabaria num enorme e vingativo tiroteio, provavelmente com mortos de ambos os lados. Os polícias são poucos, têm medo (designadamente,  de acertarem em alguém) e vão por isso gerindo esta paz podre o melhor que sabem. Muitas vezes, aquilo não implode tudo de uma vez graças aos esforços diplomáticos de um subchefe qualquer que não foi a casa dormir porque ficou a demover um animal de abater os vizinhos a sangue frio. No entanto,  nas cenas seguintes,  vemo-los a exigirem apartamentos novos, quando não a invadi-los, o que é uma chatice porque desatamos a fazer associações de ideias e a generalizar. A culpa, no entanto,  não é deles, dos supostamente excluídos dos guetos, mas sim do sistema. É, sim, do próprio Estado Social, que se tornou uma perversão de si próprio ao alimentar a pão-de-ló os socialmente marginalizados, contribuindo para que estes não queiram deixar de o ser, pois estão muito melhor assim. Por exemplo, hoje em dia, um casal que viva num bairro social sem ser legalmente casado (como um casal cigano), chega a receber mil e duzentos euros de rendimento de inserção social (seiscentos por cada um), mais  cem euros por cada filho, sendo que não paga de renda mais de vinte euros e não paga quaisquer impostos. Isto, convenhamos, desmotiva qualquer um, seja de que etnia for,  de encetar uma vida de contribuinte honesto e trabalhador. Por isso, ao pretender combater a exclusão, o Estado pura e simplesmente fomenta-a.  Além de contribuir para o descontentamento ressabiado das massas que trabalham que nem cães para pagarem a prestação da casa e a papa do filho único, o que também não é socialmente desejável e depois dá origem ao aparecimento dos manuéis monteiros desta vida e de outros ainda piores. Por isso, mete-me um bocadinho de nojo, a conversa dos blocos de esquerda e quejandos quando, perante as imagens do tiroteio, dizem que é preciso a polícia inventariar e apreender todas as armas proibidas, como quem tivesse acabado de descobrir a pólvora. É claro que o estado de sítio a que tal conduziria, justificar-se-ia se fosse efectivamente possível uma limpeza como deve ser:  se fossem aos bairros todos, às feiras onde as armas se vendem às claras (como a do Relógio)  e se prendessem gente e não a soltassem logo a seguir, ou seja, se o Estado ainda se lembrasse do que é impor respeito e ser respeitado. Mas não é:  seria preciso umas boas centenas de agentes em acção, uma coordenação impecável e uma interpretação da lei muito mais severa do que a que é feita actualmente pelos tribunais. Porque o status quo da impunidade e do privilégio que assistem a muitos destes marginalizados sociais já está instalado há muito:  eles sabem bem aquilo a que têm direito, sabem como exigi-lo, onde apertar e quem pressionar. E, para tanto, têm contado com a inestimável ajuda, de quem? Precisamente, dos blocos de esquerda e quejandos, que agora reclamam a autoridade do Estado (presumo eu que a reclamem, se calhar acham que os polícias deviam ir bater de porta em porta e pedir por favor).  A arrogância moral de quem se acha melhor e mais bem intencionado do que todos os outros anda geralmente  emparelhada com a parvoíce.

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