Muitas vezes os outros só têm a importância que nós lhes damos. Enquanto os conhecemos mal - ou não os conhecemos de todo - permitimo-nos com eles todo o tipo de excessos ou de cerimónias: afinal, somos nós que os construímos. Talvez por isso custe tanto a largar alguém que um dia idealizámos. Não interessa se o imaginámos a pender para os defeitos ou, ao invés, para as qualidades; muito menos interessa se o edificámos à nossa medida ou se, pelo contrário, nos deu mais jeito pensar que nunca caberia em nós. A verdade é que moldámos aquela pessoa às nossas necessidades da altura: de algum modo ela serviu-nos, colmatou falhas, preencheu buracos. Temos ali um ser desconhecido em toda a sua glória, cuja personalidade desenvolvemos no laboratório da nossa cabeça, e que se agiganta em nós a cada pedacinho mais que achamos que sabemos sobre ela, a cada peça do puzzle que acrescentamos. Depois, uma necessidade dolorosa, física, resulta dessa confabulação: uma precisão danada, que advém do facto de termos criado um monstro à nossa medida. No fundo, é uma outra versão de nós próprios, daí querermo-lo com um desespero egocêntrico e circular. Quase nada consegue romper a seriedade de uma fixação desta natureza, nevrótica, concentrada em si mesma, fantasista e desfasada do real. A não ser quando a nossa criação se humaniza, ao se tornar risível, gozável, ao apalhaçar-se involuntariamente perante nós. De repente, surge um ligeiro desprezo a permear a obsessão e há uma dúvida que se instala - e que sucede à certeza vibrante que até então nos minou por dentro. Que isso nos mate a sede e nos cure da doença, não sei, mas ameniza em muito os sintomas.
Não falar para não estragar.
(além disso, ando pelo facebook, até já)
Pôr o Zé das Couves (homofóbico, misógino e iletrado), cujas sinapses apenas dão algum sinal de vida quando comenta o Benfica (ou o Porto ou outra merda qualquer), que gasta o tempo entre o café da esquina, onde se embebeda com cerveja e bagaço, e o chegar a casa bêbado e malhar na mulher porque esta trabalha na fábrica, sustenta os filhos e o faz sentir-se ainda menos homem por isso, a decidir dos destinos civis dos homossexuais, esses paneleiros, é demasiado estúpido, francamente.
Engano-me poucas vezes e não costumo criar ilusões: tenho é um certo pendor suicida. Ou seja, nem sempre fico de cima a olhar o abismo, embora nunca subestime a profundidade da queda.
A primeira vez que acontece não acreditamos, é como um sonho, um sonho mau que penetra na claridade do dia (ou na luz artificial da noite). A realidade subsequente às escolhas que fizemos atinge-nos em cheio no estômago - no estômago, sim, não é em mais lado nenhum, tanto, que uma ligeira náusea se mostra inevitável. Apercebemo-nos então de que, para o outro, deixámos de, para sempre, ser. O que é bastante diferente de o outro ter deixado, um dia, de ser para nós.

Ando a fazer de detective e já cá volto (até tenho um Dr. Watson e tudo).
O caralhinho da moda dos casacos de peles verdadeiras voltou, ainda por cima agora acessível às manicures e às sopeiras. Ou melhor, dantes também eram as manicures e os sopeiras que as usavam, mas só as que entretanto haviam sacado um gajo rico ou qualquer outro meio de fortuna fácil que implicasse uma forma de elevação que não a espiritual. Pois, dizia eu, não há hoje H&M´s, Zaras, Cortefieis e Mangos, que não tenham, na sua colecção Outono-Inverno, o casaquito de raposa, de chinchilazita, de marta, quiçá de zibelina. Mil a dois mil euros a pagar em três prestações sem juros, baratinho sem dúvida, as peles quase de certeza de origem chinesa, como actualmente é chinês quase tudo o que se encontra nas grandes cadeias de moda, das lycras, às gangas e às sedas. As etiquetas dos casaquinhos têm ainda o desplante de nos garantir que os animais foram criados em quintas especialmente controladas para o efeito, como se isso fosse uma coisa boa, uma garantia de não-maldade para com os bichos. Vai-se a ver, e qualquer dia aparece escrito como nos créditos finais de alguns filmes, no animals were injured during the making of this film. Neste caso, coat. A crueldade tem agora um cheirinho acetinado a UE e vem certificada e garantida em papel crepe, num toque de finura hipócrita para engodar as papalvas. Desprezo-os a todos. Aos miseráveis que andam à paulada aos animais e que os esfolam vivos (uma chinchila pelamordedeus! eu já tive uma chinchila em casa, o bicho até vinha ao nome!), aos cabrões que lhes pagam uma ninharia pelo trabalho sujo, aos intermediários e aos donos das grandes cadeias de roupa que lhes compram o produto final mas, mais do que tudo, às parolas nova-ricas (ou nem isso), que se enfornam excitadas nas suas péis, as unhas muito encarnadas na ponta dos dedos que transbordam cachuchos comprados a prestações à espertalhona que vai uma vez por mês à repartição pública onde trabalham impingir-lhes mais uns quantos e recolher os cheques pré-datados, a acariciarem as dezenas de bichos mortos que carregam no lombo com um gozo quase erótico, as taradas. E depois, a questão estética: quem é que se quer parecer com uma chinchila gigante e prenha? Sim, porque um casaquinho de peles insufla qualquer uma para além do limite do aceitável, e algumas dessas pacóvias oxigenadas quase nem conseguem passar às portas, de tão inchadas que ficam com aquilo em cima. Portanto, e resumindo: milhões de animais são criados e mortos em sofrimento para que alguns milhares de dondocas ocidentais descerebradas se pavoneiem nos centros comerciais, nas missas e nos casamentos das afilhadas. Há poucos anos, com a divulgação das focas a serem mortas massivamente à paulada e vídeos quejandos, as peles de muita gente civilizada mas que andava distraída foram guardadas nos armários e transformadas em festim para as traças. Os casacos de pele passaram apenas a ser usados envergonhadamente por gente que sabia por alto como eram feitos, embora esse conhecimento não fosse suficiente para lhes debelar a vaidade. O comércio de peles tornou-se algo um pouco marginal, feito nas lojas da especialidade, onde os construtores e empresários despejavam as esposas dos seus BMW e Mercedes e ficavam no parque à espera da conta. O súbito afluxo de casacos de peles verdadeiras às grandes cadeias de moda e a sua consequente acessibilidade à populaça desinstruída mas com algum poder de compra (aka, a classe média), a par com a massificação da indiferença perante a crueldade para com os animais, representam obviamente um retrocesso civilizacional trágico.

A terra, plana, acaba num abismo que és tu. Espalhas o teu cheiro como incenso pela casa e eu a farejar-te rasteira pelos cantos do escritório, dos quartos. Quem sou eu? Que sou eu? Porque continuo a encapelar-me quando me tocas, mesmo se apenas me olhas, até quando só te imagino? Porque me queres ouvir dizer não quando toda eu sou sim e transpiras para cima de mim a raiva de não conseguires ser perfeito? Nada tenho para te dizer, tinha tanto para te contar.
não tem direito a escrever sobre o que lhe apetece?!
a quantidade de gente que escreve posts enormes, cheios de letras, de parágrafos, de argumentos e de explicações, só para dizer que se deve ignorar o vídeo da Maitê Proença.
Os amores impossíveis são o que são, ou seja, são como todas as outras coisas impossíveis: acarretam um maior ou menor grau de frustração que muitas vezes inferniza a existência de quem os vive. Ao contrário de outras coisas impossíveis, no entanto, a maior parte dos chamados amores impossíveis estão sempre à beirinha de deixarem de o ser. Aliás, de algum modo, a expressão "amor impossível" é um oxímoro: se o amor já existe, então não é impossível, quanto muito, haverá, sei lá, uma não concretização física desse amor, leia-se: não haverá cama ou coisas que se podem fazer numa. Mas, para efeitos de argumento, cinjamo-nos ao significado comum da expressão: um amor impossível é geralmente um sentimento (às vezes também uma situação, quando é correspondido), que - pelo menos nos seus estádios mais vibrantes - gera frustração, insegurança, tristeza, impaciência, obsessão, esperança, desespero... e não necessariamente por esta ordem. Só que as circunstâncias da vida mudam, as pessoas mudam e as prioridades que as fazem agir, mudam ainda mais. De repente, um amor impossível começa ao de leve a deixar de o ser, ou, pelo menos, a perder aquela sua característica de exasperante definitividade que às vezes nos dá vontade de (metaforicamente, em todo o caso) cortar os pulsos. Há qualquer coisa de bom que se imiscui e que se insinua, as cores mudam. E a gente não sabe porquê, não sabe mesmo. O discurso inabilitante mantém-se, os obstáculos também (estão lá todos, às vezes até mais), e no entanto... ele move-se. Um dia acordamos e a tristeza habitual pela qual afinávamos o diapazão dos dias é substituída aqui e ali por uma euforia miudinha, que agita só alguns recantozinhos da pele e do cérebro, nada de mais. No dia seguinte, mais um bocadinho de certeza (de certeza, não de esperança: a esperança é a pobre marca d´água dos amores estritamente impossíveis, não deste que vos falo agora e que começa a deixar de o ser), e uma ligeira alegria começa a tomar forma como se fosse um cavalo a aquecer e a preparar-se para a batalha, um bucéfalo nervoso a escoicear-nos o coração, que, subitamente e sem darmos conta, bombeia vida por todos os lados. Esta certeza do amor inunda-nos como o caudal de um rio e tarda nada sentimo-nos felizes. Estamos felizes porque sabemos, não porque achemos que (o coração é um bicho cauteloso que raras vezes se engana). Mas, para que a epifania ocorra, é preciso deixarmos de ter pressa e acreditar que o que está para acontecer já está escrito em algum lado, pelo que não vale a pena empurrar. Aceitar os termos, saber esperar e apreender uma coisa tão básica, mas tão básica, que até mete nojo não termos pensado nisso antes: o amor não é necessariamente impossível por ser à distância. Às vezes, basta praticá-lo com afinco e deixar que a felicidade se esgueire e se torne inevitável para que de repente se faça possível.
(pergunto-me como, lendo blogues há quase seis anos e jornais em geral há muito mais do que isso, só agora descobri o Joel Neto)
Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Durante anos enfiada no meu mundinho de privilégios a brincar às casinhas, nunca percebi muito bem porque é que certas pessoas detestam o Natal. Vejo agora, depois da perda que sofri este ano (mesmo que uma perda auto-infligida e deliberada que trouxe consigo o perfume de ganhos futuros), que faz sentido não se gostar do Natal, querer passar por ele como num sono e acordar já no ano novo, onde nos restam onze meses pela frente até querermos dormir outra vez. Onze não, dez, que agora o Natal começa em Outubro, como se vê pelas montras, fodido isto. Quando a gente se impõe uma perda, tudo na vida muda de repente. A diferença em relação às outras perdas, àquelas que nos são impostas, é que quando somos nós que as queremos, ao princípio tudo são ganhos, vantagens, benesses futuras. Como se, por mudarmos, mudássemos imediatamente para melhor. Perdemos uma vida mas ganhamos logo outra; abdicamos do nosso lugar numa hierarquia familiar estruturada segundo regras de anos e fazemo-nos à vida lá fora. De repente, uma perda é parecida com estarmos de férias, tudo é fresco, tudo é novo, a liberdade é quase eufórica, o mundo espera-nos e acolhe-nos. Mas, passados alguns meses sem que nada de extraordinário aconteça, as férias começam a prolongar-se para além do desejável. E a gente sente um apelo desgraçado pela rotina que perdemos, pelo rame rame de que fugimos, e começamos a ter saudades das pessoas e de tudo o que um dia, resolvemos - depois de muito pensarmos e sopesarmos - deixar para trás. É como se, depois de algum tempo a olharmos em frente e só em frente, começássemos como quem não quer a coisa a espreitar à socapa por cima do ombro. Será que fiz bem? São perigosos, estes estádios intermédios, de limbo, tenho perfeita noção disso. O canto da sereia que é o regresso ao status quo é muito poderoso e alimenta-se das incertezas e das pequenas desilusões. Felizmente, a minha memória longínqua é bem mais eficaz do que a imediata, que já nem me lembro do que almocei hoje. Mas lembro-me bem, dos rios de insatisfação que corriam fundo por debaixo dos presépios gigantes, das árvores e das decorações imaculadas, das fogueiras de Natal e das missas do galo. Lembro-me, principalmente, das palavras que, nos últimos anos, ficavam sempre por dizer. Por isso sei que, apesar das alegrias que tive e que foram muitas, não quereria voltar àqueles natais tão perfeitos. Se calhar, este ano os enfeites serão diminutos, haverá poucas estrelas, azevinhos e singalongs; e se calhar, o rat pack e o king´s college choir nem chegarão a este blogue: a perda que me impus (e que se estendeu a todos aqueles de que mais gosto, o que é a parte fodida) torná-los-ia insuportáveis. E a liberdade, mesmo que agora me pareça sobrevalorizada, trouxe-me ao menos uma coisa de que já não abdico: a verdade. Só entende isto quem já perdeu pessoas, momentos, partes importantes da sua vida. No fundo, o que eu queria dizer é uma coisa que nunca ninguém pensou em ouvir-me dizer: christmas sucks e temos pena.
a maioria absoluta de Costa em Lisboa.
" Eu podia ser uma história má daquelas que se têm que repetir a toda a gente que aparece. Como um desastre em que toda a família quer saber pormenores. Só que há um filho que se ri demasiadas vezes para ser infeliz. Sou capaz de me aguentar anos a fio para lhe encher os olhos de boas recordações. Para isso e para lhe dizer o que vale a pena, ou não, guardar lá de casa. (...)"
O João, que distribui pérolas com uma parcimónia intolerável.
Ainda não li nenhuma reacção blogoesférica ao Nobel de Obama, parece que há muita gente contra. Eu, que se fosse norte-americana provavelmente nem teria votado nele, achei bem. Independentemente daquilo que ainda não fez, porque não pode, porque não teve tempo ou porque mudou entretanto de ideias, o homem criou uma vontade unânime de paz, uma boa onda universal, uma consciência colectiva momentaneamente dirigida para o bem. E isso é mais do que alguns dos que já ganharam este prémio se podem gabar.
Entretanto, o Dan Brown (DB) Já foi. O tom pró-americano que perpassa todo o livro é francamente irritante; os monumentos são os melhores do mundo, os museus têm mais obras de arte do que todos os outros juntos no mundo, os obeliscos são os mais altos do mundo, os avanços científicos os mais importantes do mundo, e por aí fora. Em cerca de umas boas centenas de páginas, DB reduz a Europa a uma res nullius histórica. Parece que, depois das aventuras europeias, há que acarinhar especialmente o leitor norte-americano, intrinsecamente patriótico e ignorante além-fronteiras. O livro começa bem e agarra, mas rapidamente se torna, em vários aspectos fulcrais, demasiado previsível. E depois há as incongruências do argumento; detectei algumas, mas não as vou revelar agora, para não ser spoiler, o livro ainda nem sequer saíu em português, poucos o devem ter lido. Lê-se de um trago, é certo, mas só porque estamos até ao fim à espera de uma reviravolta, de uma surpresa, ná, não pode ser só isto. Mas é. Fraquito, portanto. Agora já estou agarrada ao Bolaño, embora a volumetria me desanime, tanta página, credo. Sim, porque eu embarco totalmente nas modas e sou demasiado cusca e influencável para não querer meter o bedelho naquilo de que os outros tanto falam. Pelo sim pelo não, comprei também o último do Lobo Antunes, a ver se é desta que consigo ler um livro dele até ao fim e abstrair-me da criatura insuportavelmente vaidosa que o escreve.
Costumo detestar versões das músicas de Amália; de repente, sintonizo a RTP 1 e ouço a Teresa Salgueiro a cantar Estranha Forma de Vida, o fado mais bonito de sempre. E gosto. Teresa Salgueiro continua a ter uma das vozes portuguesas mais bonitas que conheço, apurada, doce e cristalina E é bonita, ela mesma, quando canta. A milhas das feias caretas de Mariza, que me distraem da sua magnífica voz, que eu não sei porquê me agride a sensibilidade, em especial quando grita e espalha a boca pela cara. Ouço a Mariza e só penso na sua feiúra, naquela cara angulosa e espetada. Não gosto dela, aliás, não gosto de fado nem de nenhuma daquelas miúdas queques, meninas-família de apelidos sonantes, que usam e abusam dos chailes, brincos e de toda a farafernália fadista em geral, esgares tortuosos em especial. Gosto da Carminho, a Carminho é diferente, aquilo é o coração na boca; já me pôs a chorar, como a Amália põe. A Amália põe-me sempre a chorar, quando vou no carro e calha em sintonizá-la, mudo de estação, não consigo ouvi-la assim, a seco, por entre a cacofonia da cidade que me entra pela janela. E de olhos mareados a condução torna-se perigosa. Não sou purista, sou a favor de versões novas de coisas antigas, de versões novas de coisas novas, há lugar para tudo e para todos. Mas quando se reinventa a perfeição o que se consegue é, invariavelmente, ficar uns degraus abaixo dela. Alguns ficam mais abaixo do que outros, no entanto. Aquela coisa do Amália Hoje, por exemplo, que já vendeu não sei quantos milhares e até trás orquestra sinfónica e tudo, está no subsolo.
vai passar a ser escrito em código e a estar ao alcance só de alguns (poucos) iluminados.
(sim, estou agarrada ao dan brown, já cá volto)
As declarações da Presidente da Câmara de Salvaterra de Magos foram surrealistas, eu não quis acreditar no que estava a ouvir, sério. Aliás, o BE é um partido que não existe, sendo incompreensível que tenha sempre tantos votos, para mais agora que já passou a novidade. Quer dizer, não tão incompreensível assim, na verdade. Perguntei à minha filha, um ser absurdamente social com amigos na ordem dos três dígitos, em quem é que votavam aqueles que ela conhece com mais de 18 anos. No BE, respondeu-me sem hesitar. Mas porquê?, interroguei-me (apesar da razão óbvia: a de que os adolescentes de 18 anos ainda têm o cérebro por acabar de formar). É simples, mãe: é que o BE promete a legalização das drogas leves.
(...)
Para além do mais, e depois do que ouvi hoje, concluo que a senhora em questão não esperou que as ditas fossem legalizadas.
(sendo que a cena do joão jardim a mandar vir com os polícias também foi divertida)

a tua voz é uma lagoa sulfurosa, tanto me aquece como me envenena.
Atrasada e à mercê da caridade da tevê cabo, como sempre, só ontem vi a final do American Idol deste ano, na Fox (acho). Vinha a seguir a coisa mais ou menos desde as provas iniciais (as minhas favoritas, com as figuras tristes dos nerds e doidos... que querem?), e desde cedo o meu favorito foi Adam Lambert, um gótico com um talento incrível. Nunca acreditei que ganhasse, era demasiado estranho e fora do vulgar para o convencional (básico) público médio norte-americano, seguramente a maioria dos que deram cem milhões de votos à final. Acabou por ganhar Kris Allen, o típico menino bonitinho de boa voz e pouco mais. Mas o que eu queria dizer é que a final foi um espectaculaço, como, sinceramente, só os norte-americanos sabem fazer. No vídeo, o número de Adam Lambert com os Kiss. Gosto dele, acho que o miúdo tem mesmo pinta de verdadeira estrela, além de ser muito bonito e muito alto.
Olhou para a caixa sobre a mesa como se aquela a chamasse e virou a cara, tentando pensar noutra coisa. Das colunas futuristas em forma de adn, saía um jazz débil. Pegou novamente no best seller que andava a empastelar há semanas mas, sem mesmo chegar ao fim do parágrafo, fechou o livro com raiva e sem marcar a página, entaramelando os dedos na urgência de destapar a caixa e tirar lá de dentro a fotografia. Como sempre, achou-o lindo. Sabia-se absolutamente incapaz de se reter nas imperfeições físicas que, de certeza, teriam saltado de imediato aos olhos de outra pessoa. Não tinha por hábito achar os homens bonitos, muito menos lindos. Mas a ele, achara-o logo impossivelmente perfeito. Pensou que era tonta, consciente da subjectividade do olhar, da distorção que provocava na sua percepção aquilo que (sei lá) sentia por ele. Uma coisa violenta, que retornava a ela como ondas, num assomo de marés. Perdeu-se logo ali numa série de clichés, como no quanto gostaria de mergulhar naqueles olhos claros, rindo da pobreza imagética da metáfora, tão pouco original. Na verdade, no que ela gostaria de mergulhar não era, decididamente, nos olhos. Decidiu que um dia lhe faria uma espera, uma tocaia indecorosa em que se atiraria nos seus braços antes que ele pudesse reagir. Ou talvez se limitasse a virar-lhe costas, deixando-lhe no ar o perfume do que perdera. Sem qualquer explicação razoável, lambeu a fotografia, molhando-o do colarinho branco à testa. Sentiu o sabor adocicado do papel semi gloss na língua e perguntou-se, pela milésima vez, o coração acelerado como se ele uma presença de verdade, a que saberão os teus beijos?
a detectar padrões de comportamento (o que pode ser uma merda).
Não percebi a atitude de Ricardo Araújo Pereira, ontem, com Pedro Santana Lopes, que usou o programa para a mais desavergonhada propaganda, aproveitando-se do silêncio do primeiro. Não sei se RAP pensou "deixa-o falar, que faz o espectáculo sozinho", mas a verdade é que PSL vinha com a cassete bem metida e trazia a campanha na ponta da língua - embora, sinceramente aquilo tenha parecido mais as recomendações legais que se ouvem em tom acelerado no fim dos anúncios na rádio a medicamentos de venda livre: a foçanguice verbal é tanta, que ninguém percebe nada do conteúdo da mensagem. É que até as perguntas de RAP foram fracas e previsíveis. Pronto, não deve ser fácil ser diariamente genial e superar sempre as altíssimas expectativas de todos os espectadores fãs dos Gato (nos quais me incluo), mas bolas!, estamos a falar de Pedro-Santana Lopes, o palhaço, o bobo-mor da classe política, aquele cuja estupidez e incompetência são de tal modo ubíquas, que conseguiu fazer merda, tanto no governo, como na autarquia. Havia tanto por onde pegar, caraças!, que inexplicável desperdício...
que Cavaco Silva nunca leu Stieg Larsson.
que é uma vergonha.
acho que a única maneira de reparares em mim é eu contar-te estórias pela noite fora.
Era o único homem que a fazia chorar. Tudo nele a comovia, a desconcertava, a mobilizava para o afecto exagerado, a paixão assolapada, o beco sem saída. Havia ali qualquer coisa que não a largava e que a exasperava, como uma criança birrenta que insistisse em ir no sentido contrário. Levava-a ao nó na garganta, às vezes mesmo às lágrimas, com apenas meia dúzia de sílabas, tal o desespero que ela continuava a sentir no seu discurso aparentemente articulado. Não era de todo o homem que mais amara, aliás, não sabia se o amara, sequer, mas algo nele a emocionava e lhe doía, como uma ferida rasgada, uma aflição na noite, embora não conseguisse identificar exactamente o quê: se o desencanto, que ele insistia em alimentar de uma esperança irracional; se o carinho que derramava sobre ela quando estavam em sintonia; se a loucura que vadiava por ele e que abafava desajeitadamente, convicto de que só a normalidade lhe permitiria a decência perante os seus pares.
E depois havia aquela coisa do cabelo dele, de lhe poder mexer, do prazer que lhe dava revolvê-lo e fazê-lo seu, às vezes puxá-lo até, como lhe puxavam o dela quando de quatro e de costas. Uma das coisas que sempre detestara nos antigos namorados era quando resolviam rapar o cabelo curto, quando iam à máquina zero, ou um ou dois, e se sentiam mais machos por isso, qualquer coisa de GI Joes, nunca percebera muito bem. Não gostava dos crâneos alvos, das orelhas salientes nem das curvaturas daquelas nucas masculinas sem segredos para contar. Mas ele tinha cabelo, um cabelo escuro e fino onde dava gozo enfiar as mãos e cofiar por uma eternidade, enquanto ela por baixo. Era então que aproveitava e espraiava os dedos, escorregando-lhos pela franja que lhe caía para a testa, enfiando-os por dentro enquanto ele a fitava no escuro, os olhos azuis muito colados ao rosto dela, tentando, por um lado descortinar-lhe os planos (que por acaso eram nenhuns), e, por outro, que ela o entendesse (o que era inútil). Um ritual importantíssimo para ela, aquilo, nem ele imaginava o gozo sensorial que lhe dava, nem as ilações absurdas que dali retirava, deitando contas à vida, enquanto alisava, agarrava e cheirava. Não fazia a mínima ideia se se continuariam a ver ou se tudo acabaria ali, mas o cabelo dele, naquela noite cativo das suas mãos gulosas, foi por momentos um excelente indicativo.
Fui votar e, como sempre, emocionei-me com aquela merda. Estar ali, na sala esconsa de uma escola pública, com três mecos a olharem para mim enquanto dizem alto o meu nome, depois pegar no boletim, esconder-me lá no cantinho, botar a cruzinha onde quero e pensar, epá porra, tenho mesmo alguma coisa a dizer nisto, não me interessa se andam todos a roubar e ao mesmo, tenho mesmo uma palavra a dizer, pelo menos posso escolher quem rouba menos e quem rouba mais. Não compreendo os abstencionistas, juro, nem os que votam em branco ou nulo. Que raio de maneira de desperdiçar estes pouco mais de trinta anos de liberdade, de perfumada liberdade de escolha, parece que carregam às costas a democracia que os outros conseguiram para eles. Uma falta de respeito, para pessoas como os meus pais ou os meus tios que viram a casa invadida pela pide, os livros vasculhados, a intimidade devassada. E para tantos outros que foram presos, torturados, silenciados à força. Nem preciso de olhar para o nosso passado recente. Olho para as dezenas de regimes ditatoriais que ainda hoje existem no mundo e acho um luxo, viver neste país e poder botar a cruzinha onde me apetece. É um sistema imperfeito, a democracia? É. Os nossos governantes estão claramente aquém das aristocracias gregas, em que só os melhores eram escolhidos? Sem dúvida. Mas abdicar do direito de escolha ou, pelo menos, do direito de podermos dizer quais são aqueles que não queremos de certeza, por muito que estejamos desiludidos com os que acabamos por escolher (porque alguém tem de ser), cheira-me a coisa de preguiçoso ou de pobre e mal-agradecido. Não haverá bons nem muito bons, mas há de certeza uns menos maus. Vão votar, pá.
A inveja é a desgraçadinha-mor de todos os defeitos, quase pior do que possuir-se impulsos homicidas ou sexuais impróprios. Nunca ninguém admite que é invejoso. Se repararem, naqueles questionários aos famosos, quando lhes perguntam qual é o seu maior defeito, nunca ninguém diz sou um grande cretino ou um grande invejoso, não. No máximo, sou muito teimoso/a, e quanto a defeitos estamos conversados. Já o contrário é mais comum, toda a gente se apressa sempre a esclarecer que não é nada, mas mesmo nada, invejosa, e que só quer o bem-estar e o progresso do seu semelhante. Ora, todos sabemos que isto é uma grande mentira porque todos somos, em maior ou menor medida, invejosos. Eu, por exemplo, invejo basicamente uma coisa: os que viajam. Se a minha melhor amiga me disser que vai durante um mês fazer uma viagem de descoberta espiritual ao Tibete, eu respondo-lhe, com um sorriso amarelo, Ai sim?, que bom para ti!, mas lá no fundo desejo-lhe que no dia da partida haja uma greve total dos controladores aéreos. Total e permanente, já agora. Isto de ter os pés pregados quase 365 dias por ano ao solo pátrio é uma cruz demasiado pesada para se carregar, pelo menos para mim. É claro que depois passa e acabo por me despedir dela cheia de bons sentimentos (ou pelo menos, de sentimentos médios, vá lá). O problema da inveja é que é um pecado capital prolixo em nuancezinhas; não é por exemplo, como a gula. Neste caso, a gente quer comer para além da conta porque somos alarves, ponto (por acaso, também sofro deste defeito, mas isso é outra história). Ou como quem diz que sofre de luxúria: no mínimo, ainda se torna mais atraente aos nossos olhos e faz-nos querer ficar com o seu número de telemóvel. Na inveja, a sua qualidade, intenção e força estão directamente relacionadas com a posição social e com o nível cultural do invejoso. Uma funcionária pública de segunda categoria, por exemplo, que ganha pouco mais do que o salário mínimo e vive num T2 na Rinchoa, pode invejar de morte as botas Fly (colecção Outono-Inverno) da sua "chefe"; já esta, uma solitária divorciada, pode invejar o rame rame familiar infernal da sua funcionária, em especial aquele marido que, apesar da barriguinha proeminente, parece fazer-lhe todas as vontades e a trata por querida. Um historiador pode invejar um livro raríssimo e antigo, escrito numa língua morta que não interessa a 99% da população, que um mecenas novo-rico adquiriu num leilão; um condutor da carris, o colega reformado que vive numa quintarola no campo embrenhada no silêncio, uma candidata a famosa, as mamas novas de uma outra candidata a famosa, e os seus repentinos quilos a menos; uma mulher sem filhos, os afectos vibrantes da mulher com um bebé sentada ao seu lado num banco de jardim; uma mãe assoberbada, o silêncio e a paz que rodeiam a mulher solteira que lê um best seller sentada na relva. A questão é: até que ponto invejamos o outro? ao ponto de querermos para nós aquilo que ele tem e de sermos capazes de o prejudicar por isso? Ou a inveja da maior parte das pessoas não passa de uma inveja de deixa andar, uma inveja de encolher os ombros e siga a vida? Assim é (sim: sou optimista e boazinha como a Floribela). Felizmente, a maior parte das vezes que invejamos alguém, fazemo-lo a prazo, só durante um bocadinho é que quereríamos aquilo que a outra pessoa tem; na verdade, não trocaríamos de lugar com ela nem lhe roubaríamos o que cobiçamos com a alma subitamente faiscante de raiva. Eu, mesmo podendo, nunca iria um mês para o Tibete porque não aguentaria estar tanto tempo separada dos meus filhos. Só se não tivesse filhos, e isso deixar-me-ia seguramente mais infeliz do que nunca ter saído do bairro onde nasci em 41 anos de vida. A influência da inveja na nossa vida é tão menor quanto maior for a nossa satisfação com aquilo que, efectivamente, temos - e que não precisamos de cobiçar. Em contrapartida, é um sentimento tanto maior e corrosivo quanto mais as nossas vidas forem amargas e rançosas. Agora, que invejar faz parte da natureza humana, não me lixem que faz. Ao contrário dos outros animais (ditos irracionais), o conhecimento que temos do passado, do presente e a possibilidade de prognose do futuro, contribuem para que nunca estejamos satisfeitos e almejemos sempre a mais, sendo que o mais muitas vezes está na posse do vizinho do lado, o que é uma chatice, convenhamos. Normalmente passa. Mas motiva-nos para, por nós, conseguirmos ter o mesmo, ou ainda mais e melhor do que o mais do vizinho. Enquanto motor para a realização pessoal do invejoso, a inveja inconsequente e momentânea para com o invejado até pode ser uma coisa boa. Dito isto, vou agora ali matar a minha vizinha e roubar-lhe o Mercedes 190 SL de 1960 que acabou de guardar na garagem, a puta. E, de caminho, mato também todos os bloggers que escrevem melhor do que eu e que já publicaram livros. No mínimo, rogo-lhes uma pragazinha egípcia, pronto.
Havia uma intenção de nudez entre eles. Enquanto falavam, por exemplo. Ou o modo como ela entrelaçava as pernas quando se ria; e as mãos dele, que ou agarravam o copo para o levar à boca sem de facto beber, ou se perdiam errantes pela mesa; depois, os ombros dela, atirados para a frente, num desafio mudo como se de faca na liga. Havia uma intenção de nudez. Que pairava no ar como o aroma adocicado de um puro ou uma névoa próxima e súbita. Tóxica. Que fazia com que ele a olhasse em câmara lenta, que a apreciasse devagar em toda a extensão dos seus gestos, o anel largo que lhe escorregava no dedo, o rimel ligeiramente esborratado na pálpebra esquerda, o guardanapo que lhe resguardava a boca enquanto engolia a custo, o paladar aleijado pela vontade de outra pele. A dele. Uma intenção de nudez. Perceptível para todos, até para o empregado que evitava aproximar-se da mesa para levantar os pratos, pressentindo o despudor íntimo nos gestos retidos, na fraqueza dos olhares, nos garfos que, timidamente e sem nunca se tocarem, partilhavam um petit gateaux que não lhes sabia a nada, apenas ao travo amargo da vida uma vez mais protelada.
agora não te queixes

foi contigo que aprendi a não fazer cerimónia com estranhos.
O candidato Nuno da Câmara Pereira, palhaço-mor da política nacional, diz algures num mercado que o preço do peixe está "enorme".
Agora o Santana Lopes equilibra a bóia abdominal numa bicicleta...
(por estas e outras é que deixei de ver telejornais, ai...).
Isto é tudo tão bom, que eu nem sei que parágrafo lincar.
mas mesmo nada, nestes 41 anos de vida, me havia preparado para ouvir o Pinto da Costa dizer poesia... (the horror! the horror!)

Ainda só vi um episódio de "As taras de Tara", mas Toni Collette é, como sempre, extraordinária.
Ando a viver no mundo da lua, aliás meu território habitual. Por entre as mochilas novas dos miúdos, os horários, os furos, os cadernos, os dossiers de lombada grossa, os manuais, os fatos de ginástica e os professores novos, flutuo. Quase nunca cá estou, deambulo, distraio-me, perco tempo em contemplações, interiores e outras.Tenho um mundo só meu, dentro da minha cabeça, onde resolvo todas as coisas. Consigo ser de um idealismo risível, patético. Dentro de mim tudo se encaixa; não há desencontros nem gente perdida; há apenas momentos perfeitos, como nos filmes. Respondo assim, com sonhos em catadupa nos olhos, que nem me deixam ver a estrada quando atravesso, aos encontrões pouco semânticos que a vida entendeu dar-me por estes dias.
Pronto, não me aguento, tenho mesmo de falar de Manuela Ferreira Leite, aquela mulher é como um eucalipto que seca tudo à sua volta. Viram como ela sugou o talento de Ricardo Araújo Pereira como se fosse um aspirador? Não havia ponta por onde se lhe pegasse, foi um deserto de graça, de humor, de fina inteligência. As hesitações, a falta de jeito, os indisfarçáveis tiques autoritários sempre a virem ao de cima, numa pobreza verbal e intelectual que arrastou consigo o humorista, incapaz de dar a volta a tamanha aridez. Acho absolutamente delirante, alguém pensar sequer duas vezes em dar o seu voto àquela criatura com vista a pô-la a governar o país.
Por acaso até vinha cá falar da execrável Ferreira Leite e do subitamente medíocre RAP, mas de repente acontecem coisas esquisitas na nossa vida, que não sabemos bem como classificar e que, de alguma forma, nos sugam durante uns dias. É como se no nosso sistema de arquivos, suponhamos, ordenado alfabeticamente, nos faltasse um separador com a letra, sei lá, dê, e de repente nos surgisse uma situação começada por essa mesma letra; e que, por mais voltas que lhe demos, encalhemos sempre na puta da única letra que não consta do nosso património de memórias possíveis. E a gente anda por ali, com a coisa na mão, a abrir e a fechar gavetas, sem saber onde encaixá-la, sem conseguir arrumá-la noutra letra qualquer, sem saber se há de rir ou de chorar, se foi bom ou mau, se valeu ou não a pena. Em última instância, com o nada pela frente, rasgamos tudo ou amassamo-lo e atiramo-lo em bola para o cesto do esquecimento, ao mesmo tempo que pensamos, atordoados pela estranheza de nós próprios, mas que raio me passou pela cabeça? É, às vezes, acontece-nos sermos uma letra fora do alfabeto. Nos últimos dias, fui uma espécie de eu fugido de mim. E não gostei.
que Sócrates se safou bem com os Gato? É certo que RAP foi meiguinho, mas o nosso PM estava com um excelente auto-controlo, sorridente, provavelmente com a medicação certa. Não se pode dizer que tenha sido um momento Daily Show, mas os Gato conseguiram o impensável: fazer com que Sóctares fingisse gostar e estar à vontade com um exercício democrático de humor sobre a sua intocável pessoa.
Mas por agora temos o problema dos hamsters, uma nova modalidade siberiana ou lá o que é, mais pequenina - como se o nojo fosse directamente proporcional ao tamanho - que ofereci ao meu filho do meio. Em não sendo uma mansão digna de um hamster Jolie-Pitt (v. notícias recentes, não me apetece lincar), é uma jaula tecnologicamente inovadora, com três andares, de formato oval, reentrâncias várias para os ratinhos não se maçarem, uma casinha em forma de casinha verdadeira com janela e tudo, uma rodinha para eles se exercitarem, não ficarem obesos e controlarem o colestrol, e múltiplas escadinhas. Tudo muito colorido, até o algodão para o ninho é cor-de-rosa, apetece viver lá dentro. Bom, a nós, humanos, apetece, porque a eles, ratos, pelos vistos, não. Ao segundo dia, evadiram-se. A gaiola estava fechada, pelo que presumo que tenham conseguido esmifrar-se todos pelas grades, atendendo a que são quase microscópicos. O facto de haver um gato nas imediações poderia ser um problema se não fosse o gato mais atrasado mental e menos dotado de instinto de caça/sobrevivência, enfim, de qualquer coisa minimamente aparentada com um lado selvagem. Este gato (um querido, reparem) só tem um lado, e não é o selvagem. É mais o lado para onde se vira e dorme, o dia todo. Noto no entanto, uma subtil agitação na criatura. Anda a cheirar muito atrás dos móveis e movimenta-se de uma forma que diria quase próxima da agitação. Os trilhos de caganitas que, volta e meia, vou encontrando casa fora, permitem-me concluir que os filhinhos da mãe estão vivos da silva e que o meu gato é, basicamente, um inutil. Ontem, um deles foi recuperado no quarto da minha filha, no canto oposto da casa.Deve ser o irmão estúpido, porque pusemo-lo na gaiola e não voltou a sair. Falta agora o irmão esperto, que anda a gozar com a nossa cara e, muito provavelmente, a dormir nas nossas camas, que eles gostam de se enroscar no algodão quentinho e assim. Circulo relativamente enojada e em sobressalto constante, pela minha própria casa, o que não é especialmente agradável. A próxima vez que me lembrar de acrescentar mais animaizinhos estranhos à longa lista de criaturas que já passaram por esta casa (algumas felizmente já cadáveres - eu sei, a realidade é crua e tal), dêem-me uma marretada na cabeça antes, sim?, a ver se me passam os calores naturalistas.
Os Vermes dos Dias Iguais
"Combinaram encontrar-se no cartório, que ficava exactamente por cima da conservatória onde, um mês antes, um velho de voz enrodilhada e articulações rangentes lhes decretara o divórcio e ela vomitara o almoço aos pés da funcionária que assessorava o acto. Desta vez, porém, segurara o estômago com um jejum prolongado e apresentava-se calma, decente, vá, de sapatinho de salto e saia travada, a emanar respeitabilidade suficiente para aquietar qualquer desconfiança negocial da contraparte. Ele chegou-se-lhe de gravata às riscas, fato completo e corte de cabelo à barbeiro de bairro, as patilhas demasiado compridas e acertadas à navalha, reparou ela, a transpirar honestidade, confiança e força de trabalho por todos os poros, na sua pose habitual de vencedor nato. Encontraram-se à entrada do prédio, ambos atrasados (o mesmíssimo atraso, ao minuto, não: ao segundo!), já os promitentes compradores fungavam e o notário arfava de calor e impaciência, desculpem, desculpem, aqui estão os nossos bê-is (nossos, não, o meu e o teu, pensou ela, num daqueles preciosismos desnecessários de alma xupa-limões, arrepiada e amarga que só visto), estado civil? casada, ai desculpe, divorciada, é que ainda não me habituei. Ele sentou-se ao lado dela, afastando-se uns precautos dez centímetros, espaço contentor, não era o que querias?, o squiiiiiich das pontas das pernas da cadeira, a riscarem o soalho sob o peso dele e a arrepiarem a pele dela, e o sobrolho franzido do velho, que ajustou os óculos e começou a ler a escritura. No entretanto, ela a reconhecer-lhe o perfume e ele a topar-lhe o tom ruivo das madeixas e a extrapolar os motivos, porque raio já não estás loura?, ambos demasiado próximos, demasiado tristes, demasiado frágeis, afasta-te, vá!, não era isso que tu querias, distância? então chega-te para lá, olha para outro lado, não me inspecciones como se tivesse piolhos, primeiro outorgante; e tu não me cheires dessa maneira que mais pareces uma cadela de focinho alçado, a farejar-me, segunda outorgante. Mantiveram o diálogo telepático durante toda a leitura, como dois miúdos de escola, colegas de carteira que passassem a aula a empurrar-se e a acotovelar-se, a ver quem cai primeiro, não fui eu senhora professora, foi ele, ele é que começou tudo! Às tantas, ela compôs um ar urgente e fingiu ler mensagens no telemóvel, vês? estou muito ocupada desde que nos separámos, repara bem!, enquanto lhe media as patilhas pelo canto do olho e lhe espreitava a nuca imóvel, imóvel inscrito na matriz coiso e tal, a cabeça dele virada para a rua, sito na rua não sei das quantas, lote xis, rés do chão, e ele a acreditar na farsa , no chão, sim! conseguiste, estou no chão, arrasado, buldorizado, espalmadinho de tanta saudade e ciúme. Quando chegou a altura de assinar, passou-lhe para a mão a caneta que ela lhe oferecera três natais antes e trocaram cheques, sorrisos e apertos de mão com os novos donos do apartamento que fora deles, prometendo-lhes que, atéao fim da semana, o limpariam dos destroços do naufrágio do seu casamento. Foi ele quem pagou os emolumentos devidos e requisitou duas cópias certificadas da escritura, a puta da escritura (uma para ela). Desceram juntos até à rua, concentrados no tum tum tum síncrono dos passos matraqueados nos degraus. Despediram-se de vista baixa, fingindo ignorar o pestanejo aflito do olhar do outro, SOS!, três curtos, três longos, três curtos, SOS!, e viraram-se as costas num rompante de sevilhanas, rua acima um, rua abaixo o outro. Chegado à esquina, ele tirou o bê-i do bolso para o guardar na carteira, mas saíram-lhe dois: dois documentos de identificação, agarradinhos ao outro, a filiação dele colada na fotografia dela. Respirou de alívio, finalmente, tinham chegado os meios de salvamento, os marítimos, os terrestres, os aéreos!, pelo que poderia dar início à operação de resgate. Virou-se num pé, como um bailarino num soustenu desequilibrado e desencabrestou rua acima, a chamar por ela, exibindo o documento como se fosse um colete insuflável e ela se estivesse a afogar, já a ouvir violinos e a ver ao longe uma luz que a chamasse. Quase esbarrou nela, que descia, lebre-de-corrida, com a caneta dos três natais anteriores na mão, a gritar por socorro e preparada para lhe disparar um verilaite no estômago. E ali, no meio da rua e a meio caminho um do outro, respirando-se boca-a-boca, pensaram poder de facto resgatar aquele amor naufragado, sem saberem que um Amor, quando se descostura e rompe, não há desfibrilhação nem manobra cardíaca que o valha, e que o deles há muito que estava morto e decomposto, a servir de alimento aos vermes dos dias iguais que, à espreita nas esquinas dos prédios que lhes lançavam sombra por sobre as línguas molhadas, aguardavam o momento de se banquetearem de novo, num festim vampiresco. "
" Ele olhava-a como se nunca a tivesse visto antes. E, na verdade, não tinha, não assim, pensou: tão frágil, amorosa, as carícias a quebrarem-se-lhe nas mãos suadas, como vidros finos; os dedos errantes e fugidios, a voz escondida lá no fundo, um nó de marinheiro, daqueles corrediços, sem saída que não a que têm para dentro de si próprios. Ela rondava-lhe o olhar, contornava-o como se uma rotunda, guiava pela cara dele, ora acelerando nas sobrancelhas, ora travando a fundo sobre a cana do nariz, investindo contra o queixo, derrapando boca abaixo. O cabelo dela, de uma estranho louro quase verde, tanto lhe cobria as feições, num pudor compungido, como lhe descobria a expressão, afivelada numa determinação quase mística, à beira do fervor religioso. Então, ficamos assim, por aqui, atreveu-se ele. Pois, parece que sim, respondeu-lhe ela, a voz a soar-lhe de outrem, num gorgolejar desconhecido e longínquo, embora irreprimível. E as minhas cois… Podes ir buscá-las quando quiseres: hoje, amanhã, para a semana, interrompeu-o, arrebanhando coragem. Tens a chave, podes entrar à vontade, pelo menos, por enquanto. Ele anuiu com a cabeça, um huhum meio engolido, meio regurgitado, como um comprimido grande que não desce, que se nega ao caminho, nem para cima nem para baixo, nem para dentro nem para fora, come um bocado de pão que isso passa. Bom, então…, repetiu ele, olhando em volta, como se alguém o chamasse, olhando para lá dos carros, dos prédios, das antenas de televisão, num pedido calado de socorro. Ninguém parecia perceber como estava doente, terminalmente doente; ninguém parava para o ajudar, nem chamava a ambulância; bastaria um telefonema, porque ele ali, em coma profundo, paralisado, ferido de morte, quase um último suspiro. O mundo com as cores de sempre, num corropio desacautelado e ele, incontinente, epiléptico, exangue, as tripas de fora, os estertores finais. O cabelo dela voltou a tapar-lhe por momentos as feições, agora esbatidas, quase impressionistas, e, também por momentos, ele voltou à vida, distraído com aquele bailado esverdeado, as mãos num latejo, a formigarem, comichosas, com a imperiosa necessidade de afastar uma madeixa colada ao canto da boca dela, essa boca que encerrava certezas tão absolutas. Aparece quando quiseres, repetiu ela, impessoalmente, dando o mote, o sinal, o pontapé de saída, enquanto esboçava uma festa ao de leve na sua barba mal feita, o alívio estampado no sorriso sincero, como se refém resgatada. Deu-lhe com cuidado as costas, quase com delicadeza, e afastou-se, os saltos a baterem na calçada e ala que se faz tarde, tenho muito que fazer, hoje (e amanhã e depois, e em todos os dias que se lhes seguirão). Ah!..., como tenho coisas para fazer!, pensou. Coisas. Ao fim da rua, já gargalhava, quase corria. E ele, a ficar para trás, a olhá-la como se nunca a tivesse visto antes: frágil, amorosa, as carícias caídas no chão, partidas de vez, sem conserto; as mãos agora secas, os dedos firmes como pinças, a voz resgatada aos fundilhos do passado, o nó desfeito. "
14 de Maio de 2007
" Brincar com as palavras é mais difícil do que comandar à distância um míssil gugu dada vem daí anda cá vai lá que eu tomo conta de ti faço de conta que não te vi és mesmo tolo no topo do bolo a cereja o sino da Igreja faz-me sombra prefiro uma alfombra e uma atitude zen amen dona zinha sua parvinha eu não lhe disse que ele vinha? Deprimido mas feliz que quem o sabe é quem o diz e lá vem mais um oximoro e nada que rime com isto só talvez parquímetro mas teria de ser parquímoro e uma casa feita de xisto que sinto um misto de joelheira com jardineira é primavera é dia de feira e não posso ir quem dera não me deixam sair fico aqui a rimar e a pensar de onde é que eu já te vi que até parece que te conheço a cabeça do avesso tu fica mas é caladinho menino dos anzóis que vieste e fizeste um milagre vejo sóis a girar a tirarem-me do lugar um cheirinho de vinagre o meu ser a desmaiar mas de onde vem este apreço? Ah já sei de onde te conheço desiste que não adivinhas: é de umas palavras que eram minhas."
30 de Março de 2007
" Tinham muitas coisas em comum: um cão, uma mangueira de jardim, um puto ranhoso, a trela do cão. Não que se entendessem por aí além, mas penhoravam-se mutuamente e juravam-se pelas alminhas, a cada muda de fralda e aparo de relva. Entretanto, o puto cresceu, passou a assoar-se e a controlar os esfíncteres e a fé diminuiu-se-lhes: deixaram-se de mãos no fogo e passaram a talvez quem sabe, não posso garantir nada. Para piorar, um dia, ela perdeu a trela, o cão roeu a mangueira e a relva amarelou, à conta de uma geada que lhes caiu em cima e lhes borrou a pintura sem a devida licença (que se queria em papel timbrado de três vias). Pouco depois, e estavam a viver de fotografias: recordações desbotadas de baba e ranho, de aparelhos de rega e de ossos entre dentes, a um passo do descrédito. Tempos volvidos e já não se jogavam nem a feijões, não se apostavam numa rifa, sequer, entre mil, pois tinham a certeza de (se) perderem e de não terem como pagar, endividados que estavam para consigo mesmos por toda a eternidade. Para compensar, ela arranjou um gato, ele arranjou-se como pode (ou terá sido o contrário?). No seguimento de uma bica escaldada (a bica, não o gato, que até gostava de água fria) morreram por fim afogados, culpa toda de um cansaço que os venceu, depois de anos em que se haviam mantido à tona de vagas gigantescas de rancores salgados, daquelas muito boas para a prática de surf a dois. Acabaram comidos pelos peixinhos, lamentando-se por terem perdido tanto tempo terrestre a limpar rabos, passear cães e aparar relva, e por terem fodido tão pouco. Tantas mãos no fogo um pelo outro e tão poucas mãos em fogo um no outro... enfim, quase esqueletos no fundo do mar e ainda lhes saía o trocadilho, e dos bons! Nem tudo é mau, pensou ele, enquanto um caboz lhe chupava o olho direito, que faiscava raivoso em direcção ao maxilar meio descarnado dela, por sua vez escancarado numa expressão de gozo e já meio soterrado no leito oceânico das cínicas virtudes. Escusado será dizer que, na senda de neptuno (mas sem a respectiva dignidade divina), se atiram raios e coriscos para todo o sempre a vários metros de profundidade, no esconjuro eterno da maldição conjugal."
11 de Dezembro de 2005
quando se lixarem todos os homens que odeiam as mulheres e a Salander se safar de vez.
(até já).

Não, não esquecemos. Filhos da puta. Fuck you.
que sou muito boa a deixar coisas para trás.
E ela esperou. Obrigou toda a casa a um silêncio de monges, ordenando aqui e ali às paredes que nem se atrevessem, ao soalho que não rangesse, apertado com o calor pegajoso que cobria toda a cidade. Carregou a bateria do telemóvel no máximo, garantiu que o telefone de casa se mantinha seguro no descanso e fechou as janelas para que os barulhos da rua não lhe desafinassem o tom da espera. Tapou com um pano opaco a gaiola dos pássaros, para fingir que era noite e não cantassem, correu ao rés-do-chão e tocou a sua própria campainha, aferindo do bom estado da mesma, esticando o ouvido para o terceiro andar onde vivia. Desligou a música e, pelo sim pelo não, combinou a lingerie, duas peças da mesma cor, normalmente não ligaria nenhuma. Deixou a casa numa penumbra expectante e sentou-se no sofá muito quieta, o coração um músculo aflito, de acordo com a solenidade em pulgas do momento, em frente à televisão apagada e ao lado do computador, o telemóvel estrategicamente colocado para uma melhor captação, à espera que ele desse sinal. Ambos sabiam que esta vez não seria como as outras. Daí a importância extrema do pormenor daquele ritual de silêncio absoluto, não fosse ele escapar-lhe por entre ruídos mindinhos, enquanto ela distraída, sabe-se lá. As horas foram passando e a noite começou a crescer-lhe em cima, minando-a de ansiedade e de coisas más e irreversíveis, que trepavam por ela como bichos escamosos de sangue frio. A cada hora a mais, dizia-se que ainda era cedo, mas a noite a pesar-lhe como chumbo, o silêncio antes induzido agora a tornar-se-lhe insuportável. Ligou a aparelhagem baixinho, ainda assim poderia ouvi-lo se tocasse, se ligasse, se aparecesse. Uma cantora de jazz, com um timbre algures entre o infantil e o jocoso, experimentava uma nova versão de dance me to the end of love, o ideal para um final ensaiado e cronometrado ao minuto e ao milímetro, como o dela. Depois de desatar a chorar estupidamente, com uma raiva sanguinária que até a si própria surpreendeu, foi ao armário da casa-de-banho, aplicou uma máscara de pepino sobre as olheiras disformes, abriu as janelas de par em par, deixou entrar o barulho do camião do lixo e dos grupos de adolescentes que riam alarvemente encostados às colunas sujas dos prédios lá em baixo, ligou a televisão e elevou a voz dos candidatos que se enfrentavam em mais um espúrio debate eleitoral, baixou o tampo do pecê com desnecessária força e pôs o telemóvel no silêncio. Apercebera-se de que ficara aquele tempo todo, não à espera dele (ele não existia) mas à espera de notícias sobre uma história que nunca lhe dissera respeito.
Joel Neto
Era por demais evidente que, desde a saída de Moniz da TVI, a situação de Moura Guedes e do seu Jornal se tornara insustentável. Os desmandos desta, por muito que às vezes acertassem na mouche do governo de Sócrates, tornar-se-iam com o tempo numa espécie de contra-poder fanático, obsessivo, e não raras vezes pouco objectivo. Manuela Moura Guedes (MMG) manteve-se firme e hirta no lugar, contra tantos ventos e marés, porque era mulher do chefe, ponto. Com Moniz fora do baralho, foi apenas uma questão de tempo até ser corrida. O suposto timming se calhar não quer dizer nada de especial. Porque, a ter sido uma "ordem" de Sócrates, dada por interposta pessoa colectiva (a Prisa), parece assim de repente um enorme tiro do pé. Não é preciso ser a Maya para, num exercício básico de previsibilidades futuras, concluirmos que pode ser muito mais prejudicial para o PS, à beira das eleições, "calar" um jornal que faz "oposição" do que não fazer nada. Isto porque já saltam por todos os lados os paladinos da liberdade de expressão e da democracia, e não é de todo do interesse do governo, nesta altura, que lhe seja atribuído um acto aparentemente censório desta magnitude. Parece mal - parece mesmo muito mal - , e se calhar muitos indecisos, que nunca simpatizaram com os tiques despóticos de Sócrates mas que até terão concordado com algumas das suas políticas, só para chatear já não votam nele, chocados com esta alegada manifestação de insegurança política. Que, para a oposição, é obviamente um prato cheio, a ser lambuzado e espremido até à exaustão, leia-se: até ao último voto. MMG vem falar de "cachas" sobre o Freeport que terão sido, eventualmente, "silenciadas" com esta decisão. Francamente, não acredito, só se existirem na cabecinha dela; o zé povinho está mais do que farto do "caso Freeport" e de insinuações que não deram - e não dão - em nada. Com a histeria Freeport, MMG conseguiu essencialmente dar uma imagem de inoperância da Justiça. Já quanto à imagem de Sócrates, francamente, só lhe faltou criar asas e nascer-lhe um halo, de tal forma soube explorar a ideia da vítima e do coitadinho. Portanto, não vejo que grandes danos uma depauperada Moura Guedes, sem a muleta do chefe-marido, poderia provocar, a três semanas das eleições, na imagem do PS. A paranóia mediática, alimentada pela oposição, que já se começou a gerar em torno da suspensão do "Jornal de Sexta" ou lá como se chama, essa sim, parece-me potencialmente mil vezes mais prejudicial.
(a uma hora dessas/por onde andará seu pensamento/por dentro da minha saia/ou pelo firmamento)
O miúdo largou a mão do pai e desatou a correr escada acima, a alegria a soltar-se dele e a chegar primeiro. A mãe já o esperava à porta e abraçou-o, gulosa, lançando um olhar triunfante a Pedro, que subia devagar, como se cada degrau o puxasse para o centro da terra. Olá, disseram-se friamente, mais ela do que ele, cujo tom era antes cansado, como que de capitulação ou, pelo menos, de resignação. Correu tudo bem, está entregue, disse-lhe, escondendo um tremor que lhe roubou de súbito a firmeza natural da voz. Está mesmo tudo bem, não te aleijaste?, perguntou a mãe ao miúdo, rodando-o sobre si próprio, apalpando-lhe os ombros, mexendo-lhe nos cabelos, fingindo ansiedade. Não mãe, estou bem, mas tinha saudades tuas, confirmou, abraçando-a com mais força. Ela olhou vitoriosa o ex-marido, Bem, adeus, então até daqui a quinze dias, o próximo fim-de-semana é meu. Pedro hesitou, uma angústia palpável instalou-se no átrio do prédio, um espaço feio e hostil, as paredes de marmorite a quererem comê-lo vivo, Se calhar podia ir buscá-lo uma vez por outra para almoçar, quando me pudesse safar do emprego; podias avisar lá no colégio, almoçávamos por perto... Não sei, responde a mãe, não foi isso que ficou combinado no Tribunal. Adeus pai!, interrompeu o miúdo, correndo para o quarto com pressa de retomar o Medal of Honor no nível em que o deixara dois dias antes. Adeus..., a voz de Pedro morreu-lhe na garganta, nem um beijo ou um abraço, vai ter uma semana de merda só porque lhe faltou o carinho do filho no momento da despedida. Inspirou fundo, a engolir o ódio que naquele momento sente pela ex-mulher. Então?, a voz saiu-lhe afiada em vez de mansa, como era a sua intenção. Não sei, veremos, tenho de falar primeiro com a psicóloga. Mentalmente, Pedro mandou a cabra da psicóloga, os cabrões do juiz e do curador de menores, e ainda a merda do T1 a quilómetros do colégio que lhe levava metade do ordenado e que não lhe permitira a guarda conjunta, para a puta que os pariu. Vê lá isso, era bom para mim e para ele, vemo-nos tão pouco... Pois para mim, chega e sobra, respondeu-lhe, altiva. Pedro embrulhou a raiva na garganta, para que não saísse e respondeu-lhe suavemente, Pois para ele, não, afinal, sou o pai. Ela atirou-lhe um olhar de desdém como se dissesse grande coisa, os gritos de guerra do filho já agarrado ao comando a morrerem ao fundo do corredor enquanto lhe fechava a porta na cara. Pedro virou costas e começou a descer as escadas, as lágrimas a saltarem-lhe por detrás dos óculos graduados, Ah Caralho, um homem não chora!, ordenou a si mesmo enquanto tirava os óculos embaciados, os limpava com a ponta da camisa e gritava baixinho, puta de merda. Saiu para a rua, o ar livre a regenerar-lhe a tristeza, enfiou-se no primeiro café que viu, tirou do bolso a pequena máquina digital comprada no Lidl, ligou-a e, por entre grossos goles de cerveja, reviu vezes sem conta as fotografias do jogo da bola naquela tarde nos jardins de Belém.
Amo-te, escrevera-lhe ela, sem pensar duas vezes. Amo-te. Depois ficou a olhar a palavra, como se nunca a tivesse visto. Há anos que não dizia aquilo a um homem, nem sequer ao marido (muito menos ao marido). Apetecia-lhe repeti-la à exaustão, escrever-lha em maiúsculas como quem grita, encher-lhe o ecrã com ela, dizer-lha tantas vezes até a palavra perder a importância e a solenidade originais. A transbordar de si, apagou o computador, acendeu um cigarro e foi à janela olhar o céu de Verão e sentir ao de leve uma brisa choca, que não chegava para a arrefecer por dentro. No fundo uma romântica, a palavra despoletara nela um desejo físico inusitado; queria sussurar-lha, enquanto lhe lambesse o ouvido; queria contornar-lhe a nuca com ela, como se cada letra fosse a conta de um fio, a-m-o-t-e-a-m-o-t-e, queria descer por ele abaixo, fazendo caminhos com a língua e tatuando a palavra uma e outra vez a cada cruzamento, a cada entroncamento do corpo dele, soprando-a baixinho. Experimentou dizer alto a palavra, em direcção à noite, Amo-te. Evitou o tom desbragado, feliz e carinhoso que devotava ao filho, quando dizia que o amava. Tentou dar-lhe uma conotação adulta, definitiva, sem pieguice, mas viu-se ridícula, falha de emoção, de fervor. O amo-te saiu-lhe como se dissesse está bem, obrigada ou por favor fecha a porta. Percebeu que lhe faltava o objecto daquele amor. Fechou os olhos mas nem mesmo assim o conseguiu imaginar. Não o conhecia, talvez nunca o conhecesse, não sabia o que amava, quem amava. A palavra perdeu-se na noite, sem destinatário fixo. Ana soltou a beata no ar e viu-a cair no passeio em baixo, ainda acesa. Expeliu o fumo que travara nos pulmões, fechou com força a janela, e enfiou-se na cama a puxar pelo sono, como quem arrasta uma carroça. No sonho, que veio só com a madrugada, ela dizia-lho finalmente na cara (uma cara indefinida, de olhos grandes), com a convicção febril das criaturas apaixonadas, amo-te!; e era, sem dúvida, um amo-te daqueles das entranhas, uma estrela de muitas pontas que trazia guardada dentro. Mas ele olhara-a, sorrira-lhe um poucochinho e depois virara-lhe as costas.
Resolvera voltar para o marido. Não aguentara a solidão, as recriminações familiares, o dedo de Deus a apontar para ela. Estava farta, dos longos interregnos em que deixava de ouvir os risos e as brigas das crianças, das mudas constantes de roupa, das refeições que saltava porque não tinha quem a acompanhasse. Sabia que, tal como havia sido ela a criar a situação, o nó górdio, facilmente o desfaria, bastariam um telefonema, uma conversa, um arrependimento sincero e uma demonstração de fé no futuro. Não aguentara, não saber o que a esperava no dia seguinte, nem as longas conversas com o advogado sobre a impossível divisão dos bens, mas, mais do que tudo, achava insuportáveis e dolorosas, as secas e frias trocas de palavras que agora exercitava com o marido, aquele que fora o seu homem de sempre. Odiava a sensação de estar sozinha, como se fosse uma faca de gume afiado e comprido que todas as noites se enterrava mais e mais no seu cérebro, fazendo-a sentir uma série de coisas desagradáveis, que iam desde o pânico à mais pura orfandade. O pior era quando o silêncio era tal que ela tinha de se confrontar obrigatoriamente consigo própria e com todos os seus medos. Aqueles momentos do dia em que os miúdos não estavam, o trabalho acabara e o telefone não tocava. O que é que eu vou fazer ? Perguntava-se. Se morresse aqui e agora, ninguém daria por nada, e daqui a uns dias encontrar-me-iam a apodrecer, provavelmente os miúdos, quando voltassem para casa. Pensava frequentemente que qualquer coisa era melhor do que aquilo, apetecera-lhe vezes sem conta rebobinar a vida e voltar atrás, ao momento antes de ter tomado uma decisão tão definitiva e de ter mudado a vida de tanta gente tão de repente, do pé para a mão. Sentia-se uma caprichosa, uma odiosa caprichosa, que descosera os bordos da família, já meia esfiapada das discussões, das mentiras e dos silêncios. A culpa soterrava-a em casa, em frente à televisão ou agarrada a um livro. Às vezes tinha pena de não fumar, de não beber, de não se drogar ou de fazer qualquer tipo de medicação que a atordoasse num estado de semi-imbecilidade, tal era a vontade de se alhear, de se entorpecer, de fazer o tempo andar mais depressa sem que ela desse por isso. Não tinha querido nada daquilo, pensara que tudo fosse ser muito mais fácil. A civilidade aparente da separação escondia um ressabiamento mútuo que latejava por entre os cumprimentos educados e a aritmética correcta quanto aos dias para cada um com os miúdos. Tudo muito pela rama e à superfície, para não despertar fantasmas adormecidos, mas que parecia resultar, por ora. De vez em quando, assaltavam-na uma espécie de saudades, não sabia bem de quê mas desconfiava, que ela não deixava que se desenvolvessem, atabafando-as de imediato numa qualquer lembrança cheia de rancor que lhe era, decididamente, muito menos dolorosa do que aquelas vontades súbitas de um corpo e as lembranças de um cheiro familiar, um cheiro de toda a vida. Resolvera voltar para o marido, fizera as malas e preparava-se para ir ter com ele e com os miúdos, estava decidido. Mas antes, fez um exercício mental; um exercício que se impusera a si própria desde que tomara a dramática decisão de que agora aparentemente se arrependia. Pensa, Rita, pensa, dizia para si própria, Pensa em quando estavas com ele, mergulha dentro de ti nesses momentos, lembras-te? Pensa no tédio, na indiferença, na vontade de não estares ali, nas camas separadas, na tristeza miudinha de te saberes a dormir com um estranho. Mas pensa, acima de tudo, na vida que existe para além de tudo isso, e que só poderás eventualmente descobrir se agora passares por isto. Desfez as malas, foi ao frigorífico, abriu um copo dos grandes de strawberry cheesecake, atirou-se para cima do sofá a ver um documentário sobre pinguins e pensou, logo à noite vou ao cinema.
Ela pousou o livro na cama, o segundo da trilogia millenium, para ler um email que acabara de receber no telemóvel. Leu-o atravessado e à pressa, pois estava na parte em que se descobre quem assassinou o Dag e Mia; era uma declaração sincera e amigável, mas cobarde - não pelo que dizia mas por ter sido enviada por aquele meio, impessoal e distante, sem possibilidade de resposta imediata, de reacção adequada, de uma eventual explosão emocional (bastante razoável dadas as circunstâncias, aliás). Daquela forma, tinha seguramente custado menos a quem o escrevera: não havia confronto possível, nenhuma explicação adicional a dar, nenhuma hipótese de contraditório. Qualquer resposta que ela lhe desse, ficaria perdida por milhões de bites e bytes, e seria sempre um golpe em diferido, mole, sem a eficácia imediata e demolidora que pedem as declarações sinceras e amigáveis como a que acabara de ler. Apeteceu-lhe gravar no peito dele uma frase que o identificasse como pérfido e perigoso perante todas as mulheres que se lhe seguissem, à semelhança do que Lisbeth Salander fizera no torso do seu tutor, talvez qualquer coisa como "eu sou um cobarde que gosta de brincar com os sentimentos das mulheres", atravessado na diagonal. Felizmente que ela tinha ligado todos os sistemas de protecção, todas as firewalls internas, alertada por mais do que uma contradição, por uma mentira aqui e ali, por estranhos recuos após insinuações de ataque, por gente de fora que lhe tinha dito que não confiasse. Tinha o coração bem protegido, todo ele acolchoado, nem um bocadinho de fora para amostra, nada onde lhe pudessem tocar. É óbvio que se abriu, e confiou e deu, mas porque lhe ensinaram que a reciprocidade pode ser um valor moral a preservar em certas circunstâncias, e que quando se recebe, tem de se dar qualquer coisa em troca. E, apesar de tudo, ela recebera algo. Recebera, por exemplo, uma espécie de amor aleijado; um amor intermitente que só lhe chegava a espaços, mas sempre de forma violenta, como se uma espécie de ultimato. Era algo que a assustava e a retraía, que a fazia esconder-se por detrás do riso e de uma falsa segurança, que exibia perante ele como uma parede de tijolo. Mas depois arrependia-se, pois ele, em todo o seu desnorte, acabava por ser-lhe sincero, devoto, quase fiel. E então, um dia, ela disse-lhe tudo; despejou literalmente a sua vida na cabeça dele, e ele que fizesse o que quisesse. A partir desse momento, julgou ela, passara a haver um laço indissolúvel que os unia, a partilha dos segredos, das inseguranças, dos medos. Agora, ao olhar para aquele email, definitivo e manso, dava graças por ter mantido o coração abotoadinho durante todo o processo, caso contrário estaria a sofrer que nem um cão vadio. O que não invalidava a crueldade objectiva da situação por ele criada e alimentada, como se alimenta um animal selvagem em cativeiro. "Eu sou um cobarde..." pensava ela ao rasgar-lhe a frase no peito, uma e outra vez. E, como Lisbeth Salander seguramente faria, virou-lhe as costas, saiu e bateu com a porta sem sequer olhar para trás.
É só para dizer que eu também aceito.
É um facto: os homens tendem para o pavoneamento, intelectual ou físico, consoante aquilo em que sejam menos maus, o que é um bocadinho patético. O exibicionismo masculino perante as fêmeas, em especial as inteligentes, é geralmente recebido por estas com algum escárnio, o que pode ser confundido com falso desdém. Eles pura e simplesmente não acreditam que nós possamos não estar interessadas. O que acontece muitas vezes, na verdade. Em contrapartida, o interesse genuíno de uma mulher bem resolvida num homem em particular é quase sempre visto como uma outra coisa qualquer; como uma ameaça mais ou menos indefinida de que os homens fogem a sete pés porque não sabem como a interpretar, ou interpretam-na mal. E fogem, mesmo que isso implique escolherem uma outra, ainda que pior: ao menos ficam com a impressão de que optaram voluntária e conscientemente sem terem sido manipulados. É uma mulher mostrar a um homem que o quer e é vê-lo recolher-se na sua concha, desconversar, mais um bocadinho e ela é uma piranha, uma viúva negra que o quer sugar até ao tutano, seja de que forma for. Demasiadas vezes, os homens não entendem que as mulheres nem sempre querem só uma coisa deles (designadamente, aquela em que eles estão a pensar). E que os graus de inteligência e de confiança que têm em si próprias (independentemente dos seus reais atributos físicos) as fazem querer coisas diferentes consoante as fases da vida, da lua, dos ciclos menstruais, do dia. Um companheiro, uma companhia, um amigo, um boneco, uma queca, uma diversão, um marido, um amante, um contabilista - depende. Eles têm a sua interpretação particular e maniqueísta dos sinais que uma mulher disponível lhes envia, sendo que tal interpretação é geralmente uma expressão dos seus próprios medos. Para eles, se uma mulher está sexualmente disponível, é promíscua, quem sabe uma tarada; se está afectivamente disponível, é desesperada e sozinha, talvez restos que outros não quiseram. Em qualquer dos casos, uma muito possível fonte de problemas. Na origem deste preconceito masculino está, para além de um atrofio cultural de séculos, uma evidência numérica: nós somos muito mais do que eles. Os homens vêem-se a si próprios como mercadoria preciosa e escassa, numa interpretação simplista da lei da oferta e da procura. O resultado do preconceito? Ah, sou cínica na apreciação mas inevitavelmente romântica na conclusão: almas gémeas que porventura se cruzam mas que nunca se encontram.
do que leio por aqui.
(até já)
pode ser um acto de fé.
é que a minha voz é igualzinha à dela, juro (só que ao pé de ti e dessa atitude de solista do king´s college choir fico nervosa e desafino).
a David Letterman como conseguiu entrevistar um terrorista islâmico em "Bruno":
(e ele é tão tão giro)
Ando cheia de inveja do amor dos outros. Invejo, por exemplo, o casalinho obeso que passa por mim de mão dada; ela, com um top de riscas horizontais que lhe alarga ainda mais a cintura indefinida, a lambuzar-se num corneto de morango; ele, o cabelo oleoso laboriosamente puxado para trás, os calções por baixo do joelho, atarefado a lamber a colherzinha com que rapara o copo do epá, entretanto atirado para o chão. Passam por mim deixando no ar um ligeiro perfume a alegria simplória e a essência barata, e afirmam-se orgulhosamente como um só aos olhos dos outros, fazendo coincidir o clap clap clap das chanatas que arrastam nos pés inchados, cobertos de dedos gordos e pequeninos. Olho-os com a raiva que só os que já amaram e foram um dia muito amados conseguem sentir: é uma espécie de despeito, misturado com uma sensação de perda e de luto. Vejo-os afastarem-se, os traseiros pesados numa coreografia deselegante, e penso que dava tudo para que alguém me agarrasse assim de novo a mão, como quando não reparamos que nos estão a dar a mão e há apenas aquele difuso bem-estar que advém de tudo encaixado nos devidos sítios e de a brisa, na cara. No fundo, é isto: não ter noção da felicidade que se sente naquele preciso momento, não saber sequer que tem esse nome, e não reparar no suor que escorre por entre os dedos do namorado, que apertam os da namorada com um orgulho rechonchudo, desafiando o mundo em geral e a brisa na cara em particular.
Parece que o 31 da Armada trocou a bandeira que ostenta o edifício da Câmara Municipal de Lisboa por uma outra, monárquica. Parece que um ou mais deles terão entretanto sido constituídos arguidos, porque o que fizeram é crime (e eles sabiam-no). Também parece que acusam António Costa e as autoridades de falta de sentido de humor, por terem levado a palhaçada a sério, não terem rido muito e não terem deixado cair o assunto, fechando os olhos à ilegalidade. Ficamos assim a saber que, para os membros do 31 da Armada, seus leitores e fãs, e também para alguns monárquicos (imagino que não todos), podemos cometer um crime e devemos ficar impunes desde que, um, o anunciemos num blogue, dois, sejamos originais e irreverentes quanto ao modus faciendi, e três, que o pratiquemos com presuntiva graça.
Há um conceito em direito penal muito controvertido que é o do crime continuado. Significa mais ou menos que, quando o agente é confrontado várias vezes e de forma seguida com a mesma solicitação exterior, por isso incorrendo repetidamente no mesmo tipo de ilícito, a lei considera que ele comete, não vários, mas apenas um crime que se prolonga no tempo, vendo assim atenuada a sua culpa. Da mesma forma, existe o engano continuado, que aparentemente não é uma filha da putice tão grande como inúmeros enganozinhos pequenininhos, porque o agente se limita a reagir sempre da mesma forma perante a tal solicitação exterior. No caso, esta mais não é do que uma predisposição da vítima em ser ludibriada, uma e outra vez. Muitas vezes, não é por ser estúpida, mas porque quer muito acreditar em todas as mentirinhas que lhe vão sendo despejadas em cima: porque está carente, porque é boa pessoa, porque não tem mais nada que fazer, porque acha que do agente até pode advir qualquer coisa boa se raspar bem lá no fundo. Tal como na ideia de crime continuado, o engano continuado assenta num pressuposto nunca confessado nem admitido, o da provocação, ou seja, a de que o enganado, ao não cessar fazer cessar o engano, ao não abrir os olhos e ao continuar a pôr-se a jeito, está mesmo a pedi-las. E, apesar de me repugnar esta ideia de transferência parcial da responsabilidade para a vítima ou para uma situação externa ao próprio agente, não deixa de ser verdade que pode haver um estranho e doce prazer em deixarmo-nos levar numa mentira que se prolonga no tempo e que assume diversas matizes a cada vez que, sem a necessária convicção, tentamos fugir-lhe.
Mas que conversa é esta do ponto de exclamação?! Está tudo parvo ou quê?! Eu gosto do ponto de exclamação. Gosto, por exemplo, daqueles blogues de miudagem que não sabe escrever doutra maneira, que o faz como se estivesse sempre aos pulinhos, numa grande excitação, em confidências e recadinhos parvos que acabam invariavelmente em exclamações e reticências, como é próprio da vida adolescente, mesmo quando se trata de uma adolescência tardia. Gosto do entusiasmo pueril que traduz, do ênfase, da determinação, da raiva, do êxtase, do excesso, da inconsequência. Às vezes, apetece gritar quando se escreve, caramba!
Num ataque de insanidade temporária, resolvo arrastar a família para a "Feira do Livro e do Artesanato" no passeio (?) de Quarteira. É uma coisa quase pavloviana: falam-me em artesanato e eu estou lá, a encher-me de colchas indianas, mesinhas pintadas à mão e brincos coloridos que me descem até aos ombros, a regatear, se preciso for, em hindu ou num dialecto árabe qualquer que nunca aprendi, como aqueles possuídos que recitam em aramaico. É claro que, no caso em apreço, a pobreza artística era tal que acabei por me concentrar apenas em sair rapidamente do meio da multidão, que se atulhava em rajás e gomas, para o reduto civilizacional mais próximo (no caso, Vilamoura). E, enquanto fugia e tentava desesperadamente salvar os meus de mais uma cigana com malas tipo Guess, constatei um facto interessante que deveria ser aprofundado, quiça objecto de tese académica: o povo tem uns canitos horríveis.
só queria dizer que peço muita muita desculpa, mas que sempre embirrei solenemente com o Raúl Solnado.
... porque acho que estou com a gripe. Ai.
(febre, dores de garganta e erros ortográficos de algibeira)
Quando o amor ainda existe mas está doente, seca tudo à sua volta, como a fúria dos eucaliptais que medram. No entanto, e apesar de todas as evidências em contrário que ultimamente me têm entrado vida dentro, continuo a acreditar que aquele amor inesperado e contra-corrente, que às vezes surge e borbulha por entre as adversidades que nos coalham os dias, pode ser pura e simplesmente salvífico.
Esta miúda, apesar de ter o blogue com o nome mais disparatado que conheço (bom, diz o roto ao nu), tem muita graça.
Não é de todo bipolar, nem sequer ciclotímica, descansa-me o médico, sorrindo, isso é mais feitio do que outra coisa. Suspiro de alívio, mas isto de oscilar entre o comportamento obsessivo e o profundo desprezo pelo alheio, consome-me demasiadas energias. Convivo diariamente com o paradoxo mental de ser uma criatura aérea e esquecida, incapaz de fixar uma data, uma cara, um nome, de reparar num boi à sua frente, nas tintas para quase tudo em geral e para a maioria das pessoas em particular, mas com uma acentuada tendência para a compulsão e para devotar temporariamente a minha súbita e excessiva atenção a um determinado objecto, se para tanto estiver para aí virada. Se calhar, não há contradição: o modo superficial e distraído com que olho para o resto do mundo, faz com que consiga investir atentamente - para dizer o mínimo - naquilo que, por qualquer razão, me interessa. O pior é o resto, é essa por qualquer razão, que, por vezes, não é boa nem avisada (é seguir em frente para a prisão sem passar pela casa de partida, que o tom pseudo confessional deste blogue está insuportável, eu sei, deve ser da canícula algarvia).
a família e os amigos mais próximos, aqueles que não pedem licença para entrar, a maioria das pessoas afasta-se da tristeza alheia como se da peste ou de uma outra qualquer doença contagiosa. Só somos socialmente aceitáveis enquanto derramamos alegria, jovialidade, sentido de humor. Uma tristeza abertamente confessada é uma debilidade, um aleijão do qual os outros acham que devemos libertar-nos o mais rapidamente possível, para que fiquemos novamente bem, isto é, para que eles próprios (que levam, por qualquer razão, com a nossa presença) se sintam confortáveis. A tristeza é um incómodo, um empecilho, um obstáculo a ultrapassar ou, pura e simplesmente, a ignorar. Estar triste é próprio de uma criatura pusilânime que demonstra abertamente a sua inferioridade, não um estado de alma normal - e até saudável, de quando em vez. São raros, os indivíduos dispostos a arcar com a tristeza dos outros de forma a lhes aliviar o fardo, e que não os queiram imediatamente animar, ou seja, curá-los da doença de se estar triste. Há que se ser permanentemente a alma da festa, espirituoso, atraente, sorridente, corrosivo, forte, engraçado, irónico, surpreendente, para se merecer a atenção e a admiração de terceiros - para se ser gostado, mesmo que de um modo superficial e en passant. Isto, nas relações que se constroem via net, é particularmente notório. Embora, na verdade, as pessoas sejam susceptíveis de ser estúpidas em qualquer lado.
Este post está muito, muito, muito bom.
A lembrança dos risos deles vai de encontro às paredes do quarto, tropeça num eco imaginário e rasa os ténis sujos que deixaram espalhados no soalho, riscado de tanto nele arrastarem coisas inúteis, enquanto a mão invisível da saudade me aperta o peito e me impede de respirar. Para evitar ensurdecer com o silêncio, ou pura e simplesmente morrer, vou à sala, ponho a música alta e cantarolo pela casa como se não fosse nada, mas agora eles já estão em todo o lado: no frasco dos chocapics há dias por esvaziar, nas fatias de limiano por encetar, nos danoninhos fora de prazo, nas toalhas empilhadas no banco da casa-de-banho, e não encharcadas em cima das camas, nos champôs com as tampas postas, no rebordo do lavatório sem bocados de pasta de dentes, no tapete do corredor direito ao milímetro, em vez de enrodilhado a um canto depois de um slide, nos comandos arrumados lado a lado e que costumam estar perdidos nos interstícios do sofá, na mesa da sala livre de migalhas, dedadas de chocolate e solas de sapatos, no pacote de leite guardado no frigorífico e não a azedar cá fora, no quarto arejado que cheira à rua lá em baixo, em vez de a suor e a pés como depois de um dia de corridas felizes. Os quadros estão perfeitamente alinhados com a superfície dos móveis e os arcos das portas; ultimamente, ninguém passou por eles a correr de braços abertos como se voasse. No quarto dela, o gato dorme em cima da colcha, esticada e sem um vinco, como se nunca uma adolescente ali se tivesse contorcido e revirado em gargalhadas soltas e insanes, horas e horas ao telemóvel, os pés parede acima, a cabeça virada para baixo, a cabeleira dourada a lamber a carpete rosa, o mundo é meu e dos meus amigos e o resto que se lixe. O skate, debaixo da cama, e não atravessado perigosamente no meu caminho, os microfones do singstar, enrolados nos próprios fios e arrumados ao lado da playstation, que por sua vez está recolhida atrás da televisão, penso até que já com um ligeiro lastro de pó. Olho em volta, conto os dias que faltam, ajeito-lhes as almofadas e vou ficando por ali, a guitarra do mais velho muda e queda a olhar para mim, mas mesmo assim a fazer barulho, muito mais barulho do que a música que vem da sala. É uma tristeza em esquadria, a minha, aprumadinha, milimétrica e lavada de fresco.
(gosto muito da Pink)
de homens certinhos, daqueles que cumprem os seus deveres, trabalham, pagam os impostos, seguem rotinas, amam a terra e o mar. Gosto de homens fiáveis, com força, com um projecto de vida, que gostem de filhos mesmo que não os tenham. Não gosto de homens erráticos, que se comportam como o estereótipo geralmente associado às mulheres, incoerentes, que dão o dito pelo não dito, que perdem o controlo e arranham como gatas. Gosto de homens nos quais a loucura corre subterrânea. Que apenas me mostrem breves relances dos seus temporários desnortes. No fundo, gosto de homens que sejam um bocado como o homem que uma parte de mim também é.
em quase seis anos de blogoesfera, nunca me tinha acontecido nada igual. Extraordinário, a sério. Eu, que me gabo de ter olho para as pessoas... Quer dizer, por aqui já me enganei pelo menos uma vez; esta será a segunda. Mas isto não foi um engano, foi um verdadeiro disparate - uma calamidade em forma de gente, credo. Mais uma vez, salva-me o humor e a risota à conta de mim mesma, palise. Pronto, não posso contar mais, agora é seguir em frente que atrás vem gente.
"(...) Eu, infelizmente, não pude ir. Também não ia lá fazer grande coisa, dado só ter uma pergunta para fazer ao Engenheiro José Sócrates: "Está tudo bem, engenheiro?". Outra coisa que me desadequaria ao local era a violência com que todos estavam compenetrados naquilo. Não tenho capacidade de concentração suficiente para estar naqueles locais; normalmente consigo estar atento só o equivalente ao tempo que medeia entre a Sharon Stone se ter sentado na cadeira até que se lhe vê a rata. (...)"
Maradona (who else?), a propósito do encontro entre bloggers e Sócrates.
Ter um filho de 13 anos que toca guitarra e é doido por rockalhadas dos anos oitenta deu nisto: fui arrastada sem dó nem piedade para o concerto dos Eagles no Pavilhão Atlântico. A função até correu bem, muito profissional, uma data de homenzarrada cheia de rugas mas com energia para dar e vender, muita guitarra eléctrica gira (gosto de guitarras eléctricas, deve ser qualquer coisa sexual, Freud explica), uns efeitos especiais totally eighties (nem faltou a famosa luz negra) e um Hotel Califórnia cantado em coro com o puto que me deixou de lágrima à espreita. Porque eu a lembrar-me que devia ter a idade dele quando decorei aquilo tudo, cantava-o pelo Campo Grande fora com as minhas amigas, a caminho de casa, o papel com a letra rabiscada na mão, warm smell of colitas, sem saber o que seriam colitas, talvez flores?, e de imaginar a história daquele hotel como um filme de terror, dali nunca mais se saía, uma coisa assim tipo Bates Motel (sim, na altura dava muito Hitchcock na erretepê). E, hoje, trinta anos depois, ele a meu lado de olhos fechados, a cantar e a dedilhar uma guitarra imaginária, e eu a pensar que uma canção, por mais que passe de modo exaustivo em todas as rádios comerciais até quase se tornar música de elevador, tem de ser muito boa para resistir assim ao tempo, para passar de mãe para filho sem qualquer testemunho de permeio. E é assim, é isto a que me refiro quando falo de felicidade: um momento fugaz que se vive num refrão gritado em conjunto e em dois sorrisos branqueados pela incidência da luz negra, such a lovely place such a lovely face.
sobre "Leite Derramado", aqui. A não perder (embora fosse dispensável ter ficado a saber que não leu "Memórias Póstumas de Brás Cubas" : parece que afinal nem mesmo ele é perfeito).
deste blogue. Já aqui o tinha dito mas, por distracção, apenas constava da lista de links do Atrevido. É dos poucos cuja escrita me desconcerta e incomoda, por isso tomo-o com moderação, indo lá poucas vezes. Revejo-me demasiado naqueles interlúdios conjugais, na indiferença silenciosa que atravessa as intimidades estabelecidas, no mecanicismo convivial das relações familiares. Quando o leio, espreito-me.
... no fim de um parágrafo, ele escreve assim, “(…) Porque tudo é mesmo uma merda, mas depois melhora um pouco, quando de noite a namorada vem.”
Quando de noite a namorada vem. E eu passei o dia a lembrar esta frase, a associá-la a coisas que vivi e escrevi, noites minhas em que as namoradas vieram e vêm, a minha escrita baça, pedante e sem graça, por comparação a esta luminosidade que cabe numa frase tão simples, depois melhora um pouco, quando de noite a namorada vem. É isso.
Eu já devia saber: ir ver o Bruno com a minha filha de 16 anos, por muito que sejamos uma família liberal e aberta a novas experiências, só podia conduzir a momentos estranhos e até um bocadinho penosos, tadinha. A perversão partilhada entre mãe e filha não é de facto uma boa ideia; neste caso, os momentos de bonding só resultam quando bonding significa “estreitar laços” e não “fetiche homossexual explícito”. Posto isto, e com ela seguramente mais envergonhada do que eu, que ri a bandeiras despregadas o tempo todo, só me resta dizer que algures umas filas mais abaixo se encontrava um desconhecido que supus ser a minha alma gémea: nas cenas mais constrangedoras, naquelas insuportáveis que só mesmo o Sasha Baron Cohen consegue criar, por entre uns sorrisos envergonhados aqui e ali, e uma e outra expressão abafada de nojo e repulsa, ele, o desconhecido, fazia comigo um coro de gargalhadas que pairava de modo reconfortante sobre o constrangimento colectivo da sala.
Era por isso que ela o queria ver de perto, farejá-lo primeiro como um bicho desconfiado e amá-lo depois sem condições: para se assegurar da loucura que lhe bailava nos olhos; essa loucura onde se via e reconhecia como num espelho, essa desordem súbita que lhes enevoava por vezes o discernimento e lhes deitava tudo a perder por dá cá aquela palha. Havia neles um desarranjo interior selvagem e violento, que num momento tudo queria mas depois tudo perdia só porque sim, um buraco negro onde nenhuma lógica matemática os poderia salvar, uma loucura enredada em si mesma, em círculos a morder-se a cauda, um desvario que acalmavam com o envio, para as suas guerras interiores, de milhares de pequenos soldados seguros de si e razoáveis. Cada um com o seu exército carregado das defesas possíveis, porque aquilo eram mais armas rombas, falhas tácticas e gente ferida do que outra coisa. Travavam quase diariamente batalhas sangrentas onde combatiam desejos enegrecidos e a vontade de renegar uma felicidade prospectiva por pura teimosia, como se viver fosse um jogo arbitrado por um fraco que, a pedido, lhes concedesse segundas e terceiras oportunidades para fazerem as jogadas certas, fechando os olhos às erradas. Não é.
Os funcionários d`A Loja do Gato Preto usam umas camisolas nas quais, numa das mangas, se pode ler em letra pequena "dogs have owners". Depois, na parte de trás das mesmas (acho que é atrás) aparece em letras grandes, "cats have staff". É exactamente assim, e só quem tem ou teve gatos e cães percebe como esta ideia, que aproveita a dois fins, é de uma simplicidade genial. Os meus sinceros parabéns a quem trata do marketing daquilo.
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