Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2015

...

PAI

 

Cada vez que empurro a porta que diz acesso restrito sinto uma breve náusea. Não sei se pelo cheiro típico a desinfectante, se por saber que no corredor à direita te vou encontrar logo à entrada, na primeira cama da enfermaria. As auxiliares passam nas suas limpezas, arrastando os tornozelos gordos. Falam demasiado alto e cospem confidências, estou prenha outra vez, como se todos nós os outros fossemos invisíveis. Só te vejo quando entro, estás escondido pela parede, e assalta-me ao mesmo tempo um alívio e uma vontade de fugir. Primeiro a tua cara, a expressão, os olhos, para ficar logo a saber se estás desanimado e a baixar a guarda ou se, pelo contrário, alguma notícia prévia te animou o dia. És mandão e controlador, sempre foste, e insistes em tomar conta de nós quando agora temos de de tomar conta de ti. Antes de me dizeres olá já estás, numa voz fraca, a dar ordens, a perguntar se fiz isto ou aquilo, se não me esqueci de trazer aqueloutro ou de pagar não sei o quê. Olho-te com o sangue a começar a ferver e digo, feroz, Bom dia! Demoras algum tempo a perceber a intenção (já eras assim antes, mas não é por isso que deixarei sempre de te corrigir) e lá me sussurras de volta, bom dia. A partir daí são várias horas em que te dou beijinhos, faço festas, massajo-te os pés, dou-te água a beber e luto desalmadamente para não fazer todas as perguntas que me estão entaladas na garganta à enfermeira de serviço e não me chatear contigo, porque não queres que pergunte nada, que fale com ninguém, para não incomodar. A falta de atenção resultante do desinteresse congelado pelos anos de serviço, no fundo a frieza de quem te assiste, dá-me cabo dos nervos. Afinal, tu és o paciente mais importante ali dentro, és único, especial, vales mais que todos os outros, e elas deviam rodear-te como formigas, mimar-te como família, atender ao teu mais pequeno desconforto ainda antes de o sentires. Insistes em cumprir escrupulosamente as regras e eu, em fazer exatamente o contrário. Agora, para não nos chatearmos, vou às tuas escondidas perguntar o que me inquieta, exigir que apaguem as luzes de circo quando estás a a querer dormir, e quero saber débitos, pesos, e se é normal ou não algo que noto de diferente em relação ao dia anterior. De dez em dez minutos venho cá fora sugar um cigarro e apanhar ar, porque começo a hiperventilar lá dentro, em especial quando ficamos sozinhos e o silêncio se instala entre nós. Com as embirrações mútuas posso em bem, com o silêncio, nem por isso. Tenho uma coisa com enfermeiras gordas desde que tive internada depois do acidente de carro e fui maltratada por uma; uma coisa que entretanto se tornou numa tese empiricamente comprovada. As gordas, apesar do ar maternal, são as piores. As mais brutas, as que mais abusam do seu poderzinho, talvez pela frustração de serem gordas ou por terem de se arrastar com esforço por entre as enfermarias. Tens tido a sorte de as ter bonitas. Se estivesses bem, estarias todo contente, rodeado de mulheres giras. Mesmo assim, aí deitado e todo entubado, parece que não perdeste o charme, todas te conhecem e se metem contigo. É pena passarem poucas vezes. Durante o dia é raro verem-se. Eu e a Beatriz fazemos-lhes as vezes. Cá dentro dá-me raiva não teres querido ir para o privado, "são todos uns ladrões e que num hospital médico estão os melhores médicos e que é sempre melhor se alguma coisa correr mal". O teu último argumento é sempre um acabou a conversa e pronto. Mas terias mais mimos. E uma cama decente que não te desse tantas dores na bacia, atendendo a que acabaste de perder um rim. E televisão para estares a par das tuas notícias, não apenas um MP3 que te levei carregadinho de música clássica para te adoçar a alma ferida, como pediste. E todos os dias te leio o Diário de Notícias, ao menos isso. Mas tu mandas. Mesmo aí, frágil como um pássaro, praticamente imóvel, continuas a mandar. E, mais do que nunca, nós obedecemos - ou fingimos que o fazemos, para teu (e nosso) descanso. De vez em quando dormitas, e é quando o tempo custa mais a passar. As incógnitas avolumam-se, a revolta e a impotência também. Não é bom o cérebro andar à solta perante a visão da tua pessoa inerte e doente. Prefiro mil vezes que me chateies o juízo e que a fúria momentânea que me assalta ocupe o lugar do medo e da incerteza. Enquanto eu me preocupo com o que vejo nos sacos, débitos, débitos, débitos, menos, mais, normais, para quando?, tu ralas-te com os sonhos. Nunca sonhaste, sempre foste abençoado com um sono profundo. Agora, com as dores e as drogas que te injetam no organismo, dormes pouco e mal e tens sonhos realistas que insistes em contar ao pormenor, aflito com a súbita vida própria que o teu subconsciente adquiriu. Eu apenas te digo, bem vindo ao meu mundo, porque é assim que durmo todos os dias desde que me conheço: inquieta, a sonhar tramas complicadíssimas pejadas de personagens estranhas, e a acordar exausta, como se saída de uma grande e perigosa aventura. Digo-te que é normal mas não me ouves, insistes em falar e falar e falar, e mandar e mandar, mesmo com a garganta ocupada por um tubo grosso que mal te deixa a voz sair. Vejo nos teus olhos que tens dores mas nunca te queixas. Às vezes, venho cá fora chorar. Outras, vem a Beatriz, a Catarina ou a mãe. Revezamo-nos na exteriorização da dor; o nosso choro tem os minutos contados, implica um esforçado rateio de lágrimas e a quantidade certa de inspira, expira. Há que entrar de cara alegre e expurgar um bocadinho a revolta. Tem de ser. Não quereríamos começar a desancar com um pau em todas as auxiliares rascas que acendem os holofotes de uma enfermaria às oito da noite, ou nas enfermeiras gordas que tivessem o azar de, naquele momento, passar por nós.

 

(desta vez vai ser mais fácil, prometo)

publicado por Vieira do Mar às 22:48
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