Disclaimer: este é um post fascizóide. Portanto, esquerdalhas defensoras do subsídio social, das férias negociadas, do seguro de saúde e do basicamente "aqui quem manda é a minha empregada", sigam.
Por razões que me ultrapassam, juro (tipo mortes e doenças improváveis), tenho tido várias empregadas domésticas nos últimos tempos. E, como mais do que duas já me chegam para teorizar, tenho chegado a várias conclusões, sendo a principal a seguinte: mesmo a mais angelical das moldavas, a mais fofinha das amas-de-leite angolana ou a mais honesta das mães de família portuguesa, é na verdade um demónio, todas uns penates invertidos que vieram ao mundo para foder o nosso caos natural de patroas, desajudando enquanto, alegadamente, "arrumam".
E quem esteve algum tempo sem as ter, percebe ainda melhor o que quero dizer: ao princípio é o pânico: ai!, ai!, ai!, e agora o que é que eu vou fazer?. Ele são as pilhas de roupa que se acumulam pelos cestos, os pêlos de gato em tufos pela casa, as camas por fazer quando chega a noite, a loiça que se acumula porque nem há tempo de a enfiar na máquina e de repente já é o dia seguinte. São as teias de aranha, o pó e as casquinhas que oxidam. Mas, aos poucos, lá nos vamos organizando, distribuindo algumas tarefas por terceiros (poucas, que as crianças continuam a achar que um grupo de duendes lhes arruma os quartos durante a noitem enquanto dormem). Aprendemos expressões populares e giras como "fazer máquinas de roupa", que partilhamos triunfantes com os que nos são próximos, que nos ouvem, horrorizados: "Olha, ontem fiz quatro, QUATRO!, máquinas de roupa!". Também é natural que, por alguns tempos, toda a roupa ganhe o mesmo tom acinzentado, dito de burro quando foge, porque nos é desconhecido aquela coisa básica de "não misturar cores diferentes": a bem dizer uma patroa não nasce ensinada. Entretanto, lá aparece uma empresa que nos carrega a dita roupa depois de lavada dali para fora e no-la entrega já passada; as camas vão sendo feitas à má-fila, o pó é esquecido e as pratas também e, desde que apareça comida na mesa, está tudo bem e a vida segue. Até que um dia concluímos que, por mais que nos esforcemos, a casa não tem maneira de se compôr, de brilhar, de ficar bonitinha como dantes. Apercebemo-nos disso quando damos por nós a desculparmo-nos perante as visitas e a enfiar boxers sujos para debaixo do armário com o pé. Enquanto isso, as plantas morrem de sede, não há quem dobre a roupa interior, a aranha no canto já gerou descendência e às tantas não sabemos se a casa é nossa, se dela e das filhinhas dela. Os recantos mais obscuros da cozinha acumulam porcaria - como os fundos da dispensa e das gavetas, onde nunca chegamos. Instala-se o pânico das baratas e de outros rastejantes, daqueles que sobem pelos canos. E começa mais uma vez o calvário das entrevistas ao sopeiral.
São sempre todas recomendadas por amigas e tias, do melhor não há, conhecidas da Svedlana, "que está há dez anos em nossa casa". Estranhamente, as entrevistadas querem logo saber das férias, dos subsídios, dos descontos para a segurança social e do horário de trabalho, e todas elas são limitações, embora nos exijam este mundo e o outro. Oito euros por hora ou setecentos euros de ordenado fixo, logo à cabeça. Nunca perguntam se há crianças em casa, que idades têm, como se chamam cagando e andando. Uma ficou logo ali quando lhe disse que, periodicamente, tinhamos um cão. Grande. E ela: "é que se ainda fosse pequeno... tenho horror a cães!". Portanto, a estatura do cão (dócil, estamos a falar de um labrador), impediu-a de aceitar o emprego. Talvez tivesse preferido um pincher daqueles que vão logo às canelas. Ou apenas não queria trabalhar (o mais provável). O que nos leva directamente para a próxima questão (e aqui entramos na tese propriamente dita):
a) as sopeiras são todas umas esquisitas. O que é bom para nós nunca é suficientemente bom para elas. Só comem pão assim e assado, ou integral, ou saloio, ou de sementes, ou alentejano ou o caralhinho, e nós de carcacinha com manteiga, todas contentes. A carne, só do lombo porque os dentes, ai os meus dentes são muito sensíveis e o senhor doutor disse-lhes que só podiam comer da tenrinha. Então mandamo-las ao talho comprar frango para fazer com esparguete, e elas vêm com o saquinho de bifinhos do lombo para jantarem em casa. E a fruta, só da melhor: mangazinha e papaia, das madurinhas, porque a minha Rute só gosta de fruta muito doce, e o ananáz tem de ser abacaxi que ela tem tendência a fazer aftas, diz-me uma enquanto eu rôo uma maçãzita (pronto, é bravo-esmolfe, é verdade, mas não chega aos pés de uma manga madurinha).
E os restos? Não conheço sopeira que coma restos de refeições anteriores. Já tive várias a quem dizia, expressamente: "oh dona xis, para o almoço tem aí o resto do empadão que fiz para o jantar, está guardado no frigorífico; também sobrou salada". Qual quê. Caso calhasse vir a casa à hora de almoço, lá estavam elas a alambazar-se com queijinhos frescos e tostinhas e ovinhos mexidos e manguinhas e o empadão à espera, para o comermos nós ao jantar. Também não bebem qualquer coisinha: água, só mineral ou purificada, que a da torneira pesa no estômago e sumos, só de laranja e naturais, porque os outros é só corantes e açucar. E isto porque:
b) todas as sopeiras estão sempre doentes. Não sei se já repararam, mas não existe uma empregada doméstica que venda saúde e que chegue energética e a fazer jogging para o trabalho. Têm sempre milhões de achaques: ou de coração, ou pernas inchadas, ou tendinites, ou são fracas de estomago (daí só poderem comer iguarias, e não empadões requentados), ou são as cruzes e não podem estar muito tempo em pé, ou têm tensão baixa ou tensão alta. Isto não seria dramático se as casas não tivessem esquinas e se a gente, patroas, não tívessemos de nos cruzar com elas de quando em vez. Porque quando somos apanhadas elas já não nos largam e estamos feitas. Normalmente, têm ou já tiveram todas as doenças catalogadas pela OMS - elas e as respectivas ninhadas; e, enquanto vão contando os meses que estiveram internadas e os procedimentos previsivelmente carérrimos a que estiveram sujeitas para ficarem boas, depois de cem tacs e duzentos exames acabados em ias, daqueles que a gente só ouve falar no house, cospem sem dó nem piedade no sistema nacional de saúde. Que um dia uma enfermeira passou por elas e nem lhes disse bom dia, que outro dia o médico nem olhou para elas no corredor, o ordinário. E depois vão sempre a muitas juntas médicas e estão sempre muito de baixa. Mas, para elas, é sempre "uma vergonha, senhora doutora! uma vergonha! ai o que eu sofri, que estava a ver que me ficava ali naquela cama de hospital!".
E não são só as doenças, ná. Quando coincidimos com elas numa qualquer divisão da casa (valha-nos deus!), temos de correr, correr muito!, senão somos fulminadas com a conversa sobre "qual o melhor detergente para mosaicos" ou "a minha filha teve notas muito boas na escola e ganhou uma bolsa de estudo" (e nós lixadas porque os nossos tiveram suficiente, as putas), ou ainda o clássico: "o meu irmão que está emigrado vive numa cidade alemã muito linda e lá têm regalias de saúde a sério, não é como cá" (esta versão é em especial para as sopeiras tugas da bata, de preferência as que já foram operadas três vezes ao coração sem pagarem um tusto e que ganham de vários lados sem nunca terem feito um único desconto).
Quando finalmente nos libertamos das suas garras queixosas, e elas vão trabalhar qualquer coisa, e aí é pior a emenda do que o soneto. porque:
c) as sopeiras querem sempre transformar os nossos apartamentos à imagem e semelhança das suas casinhas na pontinha ou em rio de mouro - e fazem-no quando nós não estamos a olhar. Por exemplo, a obsessão pelas molas de roupa: elas usam molas de roupa para tudo, não apenas para pendurar a roupa propriamente dita. Gostam do objecto, pronto. Fecham os saquinhos todos com aquilo "pra não entrar ar" e deixam-nas espalhadas pela cozinha, não vão ser precisas a qualquer momento. Depois lavam e guardam os boiões dos iogurtes, onde metem terra e algodão para nascerem sementinhas não sei de quê, porque têm a mania que são jardineiras. E de seguida vão-me para o terraço escavar ceninhas e trocar as plantas de vasos, e transplantar as ervinhas dos boiões para os vasos maiores, e cortam-me rosas para fazerm arranjos que metem em jarras no meio da sala. Além de prenderem cordas de roupa com nós impossíveis, com que me atravessam o terraço de lado a lado, e onde balançam meias e cuecas - que o estendal que lá pus, escondidinho atrás de umas treliças, nunca lhes chega. A minha presente empregada, por exemplo, fodeu-me o ambiente lounge: neste momento, tenho aquilo transformado numa mini-marquise da rinchoa, que até cactos tem (cactos!), o que só ontem descobri. Estou com uma fúria destrutiva digna de um transformer, um dos maus.
Mas elas ganham sempre: agora, por exemplo, vou comer o resto das almôndegas de ontem e fazer as camas de lavado, que a gaja não vem há dois dias, parece que está com uma merda de varizes, e já me telefonou a contar que o doutor lá do centro de saúde não sei quê, agora só para a semana, senhora dout..., mas entretanto fiquei sem bateria e parti-lhe a merda dos boiõezinhos todos.
Mas eis que chega o mimo. Ah... o mimo. Os diminutivos sussurrados, as blandícias, os gestos escondidos, as palavras inventadas porque nenhuma chega para definir na perfeição os trilhos que a alma segue e as encruzilhadas onde se esgota. Os afagos pelos cotovelos, o amor que respinga e que ambos apanham em concha com as mãos, os dedos dos pés em flor. Ela, que o agarra por trás tentando abarcar-lhe a cintura quando se deitam e moendo-lhe as costas de beijos, traçando-lhe mapas húmidos na pele e às cegas, enquanto o sono hesita. O ambos se permitirem o ressono do outro, ele que não a manda calar quando a sinusite dela assobia na noite, e ela, que ligeiramente o abana no contratempo de um rouco profundo, apneico e aflitivo. Trocam-se juras enquanto se dorme, promessas esquecidas no dia seguinte, mas que nem por isso perdem a validade do primeiro dia, do primeiro olhar, das primeiras mãos: suadas e nervosas a desbravarem caminho no corredor de um quarto de hotel, numa cidade estranha. Ele, que às tantas ataca o frigorífico e que a ataca na cozinha, e que não sabe o que comer primeiro, e ela, que o arrasta quando as luzes cuscas da rua se acendem, a maionese aberta na bancada, a coca-cola a perder o gás, e pelo caminho até ao quarto um trilho de roupa interior onde a gata se enrosca e adormece, indiferente ao bulício carnal e ao perigo iminente do desmembramento do estrado esquerdo da cama king size, comprovando-se assim que o material sueco nem sempre é de primeira qualidade.
© sofia vieira
E de vez em quando o reverso, o drama, a destruição, a ventania. Os braços abertos que a deixam fugir, que a empurram para os confins da estrada, e ela a esparramar-se no asfalto, à mercê de qualquer coisa, de quem quer que seja, azaramboada, morta se o arrependimento matasse. Ele a rainha do drama, a fúria do gigante, a insensatez, o desvario, o fim tantas vezes anunciado, o abrigo precário, o sopro do coração. Ele, os cacos que ela apanha do chão e que varre com parcimónia doméstica, o chão que desinfecta com lexívia; os sacos de plástico com os despojos de guerra dos quais ele se desfaz a horas mortas, para que os vizinhos não saibam que o mundo acabou, ponto final, parágrafo. Entre ambos, um silêncio que mortifica, deambulante, uma desconfiança hostil e a certeza de que tudo é nunca, que o que foi já não volta, maldito o dia em que te conheci, esquece-me, odeio-te, morre. A posição fetal e quieta na cama que não mais se desengonça nem descabela, a escuridão onde o mar não entra, o queixume silencioso, a dor rouca, o fado vadio, as malas aviadas à porta, a saída intempestiva que ela ensaia e ameaça, que coreografa vezes sem conta, só para ver se ele a impede. E ele, que umas vezes lhe barra o caminho e que outras, nem por isso.

© sofia vieira
E depois tem a maneira como ele a abraça, nunca vira nada assim. Vira de ver, mesmo. De como os ombros dele se encurvam, contemplando-a toda, primeiro com uma aparência devoradora, como uma piton escancarando as mandíbulas e preparando-se para a deglutir inteira, anestesiando-a primeiro, hipnotizando-a, açambarcando-lhe a pele, crescendo perante ela, tapando-lhe o sol. Há uma falta de ar que se insinua nela, como se pressentisse o fim e nada mais valesse a pena, respirar para quê?, mas depressa cede ao calor daqueles braços que crescem e descem sobre ela, redondos, um cordame que se enrola e aperta, o tronco dele a acompanhar o movimento, a ajeitar-se de lado, descaindo um pouco por forma a fechar sobre ela o círculo, comprimindo-a com uma suavidade determinada de ressuscitar corações. Ele é alto, e por mais que se ajeite e se entorte e a circunde, ela esparrama-lhe sempre a cara no peito, expirando tanto receio como alívio, escondendo o nariz entupido de emoção naquele torso largo, que carrega lá dentro um compasso cardíaco acelerado, o compasso de quem quer guardar o outro para sempre dentro de si, carregá-lo em modo marsupial, levá-lo ao médico, às compras e para a cama, porque senão morre. Depois ele embala-a, como se faz a um bebé, numa cadência fina que transmite a certeza de ainda ali estar no dia seguinte, de pé embrulhado nela, porque não, os cavalos nem sempre se abatem, e ela não sabe se aquilo é amor ou se ele um corta-vento, só sabe que adormece e tudo o que ele podia fazer dela, se quisesse.
Bom, em primeiro lugar, e apesar do tom irónico do teu segundo parágrafo, consideraria que estás a extrapolar, ponto. Eu nunca disse que "(...) aquelas meias-horas de cozinha são engodo para atrair homens carentes e rapazes com saudades do tempo em que as mulheres exibiam «a opulência de uma madonna de Rafael» (...)". Não percebo porque é que um homem qualquer, vidrado numa Nigella gira, sexy, opolenta e badalhoca, tem de ser "carente". Parece-me apenas que é saudável e que gosta do que é naturalmente bonito, cedendo leve levemente ao magnetismo sexual da criatura. Tudo dentro dos conformes para qualquer macho (ou até para qualquer fêmea!) , portanto, Francisco, que não te sintas atingido na tua masculinidade, por favor!, tu vê-me a Nigella à vontade.
Quanto à cozinha dos chefs actuais, concordo contigo em praticamente tudo; e quanto à cozinha das mães e das avós, também. Infelizmente, se eu descobri a Nigella com um delay de alguns séculos, a tua tese sobre o complicómetro dos grandes chefs e a comida das nossas escravizadas mães e avós também não é propriamente uma novidade. Já o MEC dizia, no seu "Em Portugal não se Come Mal" (1ª ed. , Assírio e Alvim) , no magnífico texto "O sexo dos marmanjos", que "A boa cozinha é feita de trombas, resignadamente, porque, senão, não há nada de jeito para comer" (pág. 143). E ainda: " Enquanto os homens (...) insistem em dar uma mijinha pessoal no que cozinham, para marcar o território e proclamar com fedor " este magnífico lobo esteve aqui", as mulheres querem é reproduzir a comidinha de que tanto gostaram" (págs. 144/145). E por aí fora, sendo essa a ideia, aliás desenvolvida com génio em várias páginas. Recomendo a leitura.
Por outro lado (e já agora), não percebi muito bem onde e porquê intersectas a Nigella com as mães e as avós; só se tiveste mãe/avós lindas, desastradas e opulentas. Porque, no que concerne à comida propriamente dita e no caso da minha ascendência, nenhuma receita da Nigella bate o sável com açorda ou o bolo de vinagre da minha avó ribatejana, nem as arepas com manteiga enroladas em folha de plátano da minha outra avó, de costela venezuela. Só para dar dois exemplos, senão nunca mais daqui saíamos.
Quanto ao restaurante inglês que me sugeres, eu, que ao invés de ti sou pouco viajada e como mais por casa do que por fora, não duvido de que deve ser excelente. Mas parece-me que estás a confundir os planos: o facto de haver num dado país muitos bons restaurantes não torna a sua "cozinha" uma boa cozinha. Pelo menos, não no sentido que eu lhe quis dar, de que a "cozinha" tradicional inglesa (com as suas pies e os seus puddings), não é das melhores, e isto para ser simpática. Estamos a falar de coisas diferentes. Por isso, não me custa a acreditar que hoje em Inglaterra se faça uma das "melhores cozinhas do mundo". Seguramente, não à custa da Nigella.
Por fim, só mais uma coisinha. Os homens têm noções básicas acerca das mulheres, que incorporam sempre nos seus raciocínios quando querem atacar alguma em particular. Uma das mais insistentes, é a de que as mulheres são as principais inimigas umas das outras e que, por inveja, necessidade ou espaço vital, são as primeiras a saltar em cima de outras mulheres. Eu não costumo fazê-lo, sou democrática: tanto arraso homens como mulheres, quando é caso disso. Em contrapartida, tendo a favorecer pessoas giras, sexy, agradáveis e simpáticas. Gosto muito de ver homens e mulheres bonitos e de os ter à minha volta, na televisão e na vida real. Comigo, a lei da atracção funciona às mil maravilhas, e se às vezes sou uma cabra, seguramente não é por aí.
Portanto, por favor, não me insultem a inteligência (nem a aparência, porque também tem a ver com ela - ou com a falta dela) dizendo que é porque sou "mulher" e porque a Nigella é gira e boa, que sou a primeira a "atacá-la". Poupem-me. Sou é uma pessoa que gosta de comer, de cozinhar e de improvisar (não tenho bimby por isso mesmo), e de o fazer numa bancada relativamente limpa. A minha crítica, se é que fiz alguma, foi a de que a comida dela não me parecia grande coisa e que, portanto, o seu sucesso teria mais a ver com a pessoa em si e com o seu, digamos, magnetismo sexual, do que com as suas habilidades culinárias.
Por coincidência, estou a vê-la cozinhar um "salmão tostado com gengibre" que deve ser horrível. Os filetes de salmão atirados desastradamente para dentro de uma frigideira anti-aderente sem um pingo de nada, mal passados, depois despejados num prato e cobertos com um molho de soja com pedaços de gengibre de muito mau aspecto. De facto, quanto mais atento na Nigella, menos gosto do que cozinha e da forma como o faz. Mas continuo a achá-la boa, gira e engraçada, e a ter os olhos postos nela até aos créditos finais.
Na verdade, a questão parece-me simples e nada fracturante, mesmo.
Ao almoço, eu em frente a uma posta de bacalhau com grão e a um televisor na sport tv, onde acontecia um jogo do mundial entre dois países de louros, não percebi quais. O som, posto baixinho, dava para apreender um apitadela mais vigorosa do árbitro e era tudo. Nem palmas, nem assobios, nem exclamações colectivas de alegria, de desgosto ou de susto. De fundo, um ruído que primeiro pensei ser do ar condicionado, depois, das arcas refrigeradoras do próprio restaurante (uma espécie de cervejaria de bairro). Por pouco, não pedia ao Sr. Gil que, para além de me trazer outra imperial, me silenciasse o bicho, que aquilo já me estava a ir aos nervos. Era uma moinha constante, um béeeeeeeee ao longe que parecia abafar todos os outros sons. Foi então que me apercebi: o som vinha do jogo e era o coro infernal das vuvuzelas, só podia. E eu, que nunca antes tinha ouvido aquilo, nem uma nem mil, fiquei chocada, sinceramente. Mas como é que os jogadores conseguem fazer alguma coisa com aquela merda a zunir-lhes nos espíritos, incessantemente? Além de que, como espectador, estar sempre a ouvir aquilo é como respirar uma atmosfera estragada: sobrevive-se, mas o ambiente fica fodido. A solução é ver os jogos em silêncio, ou quase, para não enlouquecer - o que é de certa forma um paradoxo. Embora prognósticos só no fim do jogo, quer-me parecer que as putas das vuvuzelas acabaram com o espectáculo e mataram este mundial.
Desconfio sempre do bom-gosto e da joie de vivre de quem tem casarões frente à praia com umas janelitas miseráveis em vez de grandes janelas e portadas, daquelas com vidro por todo o lado em que o mar entra pelos quartos, pelas camas adentro, que têm a areia aos pés e uma vista sem fim para o resto do mundo - como as casas de praia nos EUA, por exemplo. É o caso da mansão do Mourinho, em Ferragudo. Horrível, com uma volumetria brutal e umas ameias minorcas e tristonhas que mal deixam entrar o esplendoroso sol algarvio. Razões de privacidade e segurança? pelamordedeus, então escondam-se na floresta, não venham para a primeira linha de praia, roubar o lugar (e a vista) a outros. A praia devia ser só para quem a sabe aproveitar/ver/cheirar: nisto sou fascizóide (e no resto também, pronto, eu sei). Uma barraquinha, dêem-me uma barraca, uma casinha de pescadores, uma rede, o mar a perder de vista. E eu, acho, mereço, aquela maresia toda, o arrulhar da maré só para mim. O Mourinho, não.
Finalmente, vi um ou dois programas da Nigella Lawson, isto depois de ter lido sobre a dita em tanto babado blogue masculino. E percebi finalmente a razão do babanço: a criatura tem um charme irresistível, que mistura a beleza de um anjo de Boticelli com a opulência de uma madonna de Rafael, a par com uma aillure natural e um modo de estar desastrado mas sincero, que desarmam o cínico ou o crítico mais empedernidos . É claro que o sucesso de Nigella nada tem a ver com comida, pelo menos na vertente gourmet. Aquilo é sexo puro e duro, é um apelo aos sentidos mais primários, aquelas mamas, as ancas, a lambuzice desastrada, o tom confessional de boudoir, a insinuação do pecadilho, a assunção da gula, do excesso, da entrega ao prazer e ao gozo, da sedução com os convidados. Aquilo é um programa erótico, senhores!, que pouco tem a ver com culinária (e ainda bem, diga-se). Porque, quanto à badalhoquice na bancada (ingredientes esvoaçantes, coisas a pingar, dedos a mais) achei-a uma digna sucessora daquelas duas velhotas suas conterrâneas que chegavam de mota com sidecar ao countryside britânico e cozinhavam mistelas inenarráveis para messes inteiras, enquanto se embebedavam e se zangavam uma com a outra. Era um programa extraordinário, esse, mas de entretenimento, não de culinária, credo. Nigella, com os seus dedinhos rechonchas que acabam numas feias unhas quadradas (eu sei, eu sei: deve ser a única parte da criatura que não é bonita), lembra-me as velhas em questão, quando mergulhavam nos cozinhados até aos cotovelos e aquilo espirrava por todos os lados, antes de ser servido a uma soldadela feliz e sem papilas gustativas. No fundo, o mesmo de sempre: a cozinha dos ingleses não presta, Nigella tem o sucesso que tem porque é um portentoso objecto sexual e o Jamie Oliver só se safou porque se atracou à cozinha mediterrânica e esteve-se cagando na sua penosa herança gastronómica, à base de kidney pies e saladas de rabanetes.
cooked to the portuguese:

chicken roasted in the oven to the peasent:

dish of kidney beans of conches, rabbit to the hunter:

with you crumble cod, haunch of pig to the fashion of the bairrada:

beef of the empty one of the inn:

cod to maria (I try c/ batatas to the punch):

secret of "black" pig from alentejo:

grilled carapaus c/ molho to the spaniard:

Mesmo com vitórias pífias, a selecção deprime-me, em todo aquele seu esplendor apatetado. No domingo foi tudo pró Jamor aplaudi-la e, segundo o jornalista da RTP e a mamalhuda que o acompanhava, o ambiente estava "fantástico". Algures em estágio, nos balneários, a malta apresentava-se bem-disposta e folgazona, indiferente à mediocridade até agora exibida, a qual, não só não lhes quebrou o ânimo, como não lhes conferiu um pingo de decoro ou de vergonha. O ar descerebrado da matilha obrigou-me a concluir que existe indiscutivelmente uma relação inversamente proporcional entre o pontapé na bola e o desenvolvimento cognitivo. E, algures por entre risinhos, encontrões e apalpões (há grande dificuldade na articulação da palavra, é um facto), um Carlos Queirós com ar enfiado, ombros caídos e looser escrito all over. Quer-me parecer que esta atitude galhofeira da malta do balneário não é exactamente do agrado do povão. Os portugueses são gente sisuda e desconfiada, incompetentes quando no seu habitat natural (leia-se; quando em território nacional, deve ser do ar), mas estão sempre danadinhos para exigir profissionalismo aos outros. Um bocadinho de seriedade, caramba!, parece que estou mesmo a ouvi-los. Pois é, continuem no recreio, meninos, continuem assim, que não haverá nossa senhora da vuvuzela que nos salve. Sendo certo que eu, pessoalmente, não pretendo ser salva. Ou, nas palavras prescientes do homem da casa que, perante um estou farta desta porcaria da selecção e do mundial!, já não se aguenta!, responde, deixa lá, querida, depois de começar, vai ser rápido...
No novo anúncio da Elancyl, que promove um creme de emagrecimento, aparece a imagem de um corpo de mulher magérrimo, com os ossos secos de carnes, pontiagudos, a espinha a sair das costas. Um corpo que só pode ser fruto da cirurgia plástica ou do photoshop, não por ser absurdamente magro, mas porque todo o músculo e toda a gordura se acumulam no rabo, em dois semi-círculos perfeitos, redondos, simétricos, lisos. São duas saliências desproporcionadas, que lembram comida, bebida, apalpões, coisas boas e suculentas. Em total desacordo com o resto, portanto, que é escanzelado, famélico, tristonho, quase impossível de agarrar. Não percebo, juro. A harmonia não é isto, desculpem lá; a harmonia pode revelar-se na aparente falta dela; o equilíbrio nem sempre se consegue com os dois lados iguais, como qualquer arquitecto ou designer melhor explicarão; e a beleza pode encontrar-se no desnível, na falha, na brecha: uns joelhos ligeiramente tortos, uns dentes encavalitados, uma cintura estreita que se espraia num rabo grande, uma mama mais pequena do que a outra, manchas, sinais, mapas, avisos, defeitos. Pormenores que nos tornam únicos, diferentes, ideias a desenvolver, apostas, projectos, curiosidades, obsessões. É claro que não me apetece entornar celulite só para me distanciar da boazona rija que se cruza comigo na rua, mas gosto de algumas coisas em mim que são tortas, imperfeitas, excessivas. De outras, claro, não tanto, e faço por combatê-las, o que me parece saudável. É que, apesar da ditadura social e mediática de que todas as mulheres comuns se queixam, não acho que os actuais ideais de beleza sejam uma chatice para aquelas que se interessam por homens inteligentes; afinal, só os homens estúpidos gostam de exibir, a título permanente, troféus de caça escanzelados a rebentar pelas costuras no rabo e nas mamas. Os outros, gostam dos sinais, das sardas, das assimetrias; e não desamam por uns quilos a mais ou por qualquer membro subitamente descaído . Uma cara e um corpo só bonitos e só (aparentemente) perfeitos provocam, em quem deles usufrui, um entusiasmo e um prazer que duram o tempo exacto que demora a desembrulhar um presente lindo, apenas para depois se descobrir que não há nada dentro da caixa. O que não significa que não me irrite um bocadinho, o quererem fazer-me passar por parvinha tonta ao criarem em mim a necessidade - momentânea, é certo, mas nem por isso menos real -, de ter aquele corpo irreal, que tresanda a retoque, a vazio e a papel de embrulho.




De vez em quando, espreito-os. Ela, ocasionalmente, a destapar o que a consome. Ele, jogador, compulsivo, procrastinador, vaidoso, precisa da atenção dela como de pão para a boca, precisa daquele desalento de quem rodopia no escuro, mas mantém a distância como um falso tímido, para não contaminar a doce benesse da ignorância em que ambos se mantêm. Já vi isto, antes: ela, coitada, de vez em quando derrama-se, entupida e frustrada, desasada, mal-amada, deprimida. E então escreve. Escreve sobre a verdade falsa que os une, a distância que os separa e sobre a etérea familiaridade que julga encontrar nas palavras dele (e que lhe são, as mais das vezes, efectivamente dirigidas). Acha que, na pior das hipóteses, ficarão amigos para sempre e trocarão presentes e mimos e palavras, cada um no seu canto do mundo, num lirismo sedutor que lhes adoça as margens. Contenta-se com uma pequena parte dele e mesmo essa não a conhece: no fundo, sabe que é adulada por um personagem fictício. Dá-lhe o nome de amizade, porque do amor arredou-a ele desde sempre, apesar de lhe falar muito no assunto, como quem não quer a coisa. Promete-lhe afectos sob a forma de fantasmas, mas daqueles que nunca foram vivos, sombras que não vêm de lado nenhum, que nasceram de dentro dele, por geração espontânea. Mas voltemos a ela. Já sabemos que anda desasada, contendo-se a esforço no registo impessoal, mas regurgitando de tempos a tempos aquela funesta paixão, que de imediato limpa e enxuga, com uma urgência doméstica. E ele a responder-lhe, gracejando, como se a confissão tivesse sido mero exercício de estilo. Já vi isto antes, eu (oh!, se vi). Ela, desconcertada, sem saber se leva ou não a sério o remoque, se retorque em público ou se se espraia em privado, telefonema, mail, mensagem privada, num chat? A ela, não lhe agrada o tom dele, pudera, o que escreveu saiu-lhe de um sopro, de uma insónia demente, é um desejo maior que ele agora conspurca, como se não soubesse da gravidade desse amor, que nunca meteu pele nem cheiro, que não é de lado nenhum, de ninguém, que ela apanhou na rua, orfão de pai e mãe, um sopro de amor (apenas). Ele usa-a como desvio, terapia de substituição, talvez; sabe que nunca ficará com ela, já lho disse, mas fê-lo de um modo reticente, como se ele próprio não acreditasse nisso, lançando nela uma breve semente, uma possibilidade de corpo. Não sei se ela sabe como são infundadas as esperanças que finge não ter. Claro que não se conhecem, mas de vez em quando, escrevem para os outros fingindo que algo aconteceu. Histórias, desculpam-se, ficção, podia ter sido mas não foi. Vegetam numa mentira, cada um na sua, mas são ambos patéticos: ele a fingir que um dia sabe-se lá, ela a fingir que acredita, e eu (e não só) a assistir, de camarote. Assisto à crueldade dele e à aparente ingenuidade dela, ao entusiasmo adolescente que tenta domar e ao negrume que de quando em vez lhe tolda a pose, quando a realidade a atinge em cheio. Vejo o que se passa, e tenho pena dela. Encontram-se ambos no exacto ponto fulcral, egocêntrico, egótico, de toda uma existência; estão no umbigo do mundo, no centro da mira, no cerne mais doentio da alma e têm, seguramente, pelo menos, um ponto em comum: ela sofre por ele; ele, também.
Já o disse aqui e repito: sou a favor do casamento entre homossexuais e contra toda a espécie de discriminação de pessoas de bem. Posto isto, confesso que não entendo o enorme sururu, com direito a petição e tudo, a propósito de um teste de um professor da FDL, de conteúdo absurdo e aparentemente "discriminatório". Parece que a dita petição teve origem num grupo escandalizado de alunos, quando confrontados com o enunciado do mesmo. Eu, se este me passasse pelas mãos, garanto-vos que arranjaria argumentos tanto contra como a favor daquele absurdo... e faria um brilharete. Independentemente da parvoeira latente - ou talvez por causa dela - estamos perante um enunciado que puxa ao malabarismo jurídico: é preciso ser-se muito bom para defender aquilo. Mas lá que é perfeitamente defensável, é. Basta conhecer as leis que nos regem e instrumentalizá-las, interpretando-as depois como melhor nos convém, ou seja: como melhor convém às nossas convicções, aos nossos preconceitos ou aos nossos clientes. O Direito é isto mesmo, meus amigos, e quem não o entende, francamente, está no curso errado.
As autarquias de esquerda, em especial as comunistas, têm um gosto horrível no que concerne à arte pública e ao mobiliário urbano. Eu não tenho qualquer explicação para isto, mas vou tentar (what´s new?). As rotundas (e o que eles gostam de rotundas!) são quase sempre delírios de fúria criativa artesanal, de artistas sem génio mas com cartão vitalício do partido ou, então, primos ou amigados de alguém do mesmo partido. Que concebem coisas retorcidas em aço e pedra que supostamente representam os símbolos da "terra" e as forças vivas da região, cubos de cimento e tumores gigantescos de relva que tapam qualquer visibilidade e que tornam a entrada e saída das ditas rotundas numa espécie de roleta russa, completamente às cegas. Mas pior são os jardins. Estes novos jardins, meu deus!, são sítios onde não apetece estar. Imaginados (?) por gente que não dá valor ao lazer, ao ócio, ao pipilar da bicharada: em suma, à função de refúgio que os jardins devem ter dentro de uma cidade ou vila. Agora estão na moda os descampados imensos, e verde, só se for relva, sendo que os arquitectos paisagistas teimam em plantar árvores ainda em tamanho de arbusto, a um metro uma das outras para ficar "bonitinho", só para mais tarde terem de ser arrancadas, quando se começam a estrangular umas às outras pela raiz ou pelas copas. Os bancos são invariavelmente paralelipípedos de cimento sem costas, o que dá muito jeito às cruzes dos pobres velhinhos, que são os principais clientes dos mesmos, pois gostam de apanhar solinho uns com uns outros enquanto se queixam da vida. Para aquela gente, a função de um banco de jardim não é permitir o relaxe nem o descanso, claro; e qual anatomia, qual quê: vê-se mesmo que imitaram uma merda qualquer que viram numa revista estrangeira de arquitectura, construída num país do norte da Europa, daqueles sem sol nem arabescos, mas com muito frio e muitos ângulos rectos. E as fontes? Oh, quanto haveria a dizer sobre as fontes! É certo que não precisaríamos de uma Fontana di Trevi em cada freguesia, mas há necessidade de pôr águas invariavelmente mal-cheirosas a escorrer e a jorrar de sólidos geométricos de betão? Seria assim tão demodée, tão fascista e reaccionário, fazer qualquer coisa para gente de verdade e, já agora, com figuras reconhecíveis e não abstractas? Com pessoas, por exemplo? Animais? Se calhar, sim, seria: afinal, todos sabemos que reproduzir a forma humana, ou outras já existentes na natureza, é difícil: há que ter olho, arte e aquilo a que se chama "motricidade fina". Lembro-me sempre da história daquela senhora, natural de uma aldeia que conheço bem, que esculpiu o famoso "cauteleiro", e que só é famoso porque pespegaram com ele no Largo da Misericórdia. A dita senhora, um exemplo acabado de falta de gosto e talento, é sempre recebida com pompa e circunstância quando regressa à terrinha, e parece que até já doou mais uma ou duas das suas obras para compôr a paisagem urbana local. O que é chocante. Quem já viu de perto o "cauteleiro", quem já andou por ali pela misericórdia e olhou aquela amálgama mal-parida de bronze, percebe esta minha indignação, juro que percebe. Por isso, artistas/paisagistas/irmãos de presidentes de câmara ou filhos de presidentes de junta, amigados de todos os tipos, desde que conservadores e da velha escola, apologistas do banco de jardim de ripas anatómicas, dos repuxos e das fontes em pedra, das árvores de copas grandes e frescas, e de um ou outro apontamento neo-clássico sabiamente disposto por entre o verde: ao Poder, já!

Agarro-me ao dia com unhas e dentes, e tento passar de raspão pela noite. A noite é um trapézio sem rede, um cadinho de diabos à solta e, nela, os meus medos são ancestrais, gerados no princípio do mundo. Sei que as coisas não são as mesmas no escuro. Ensinam-nos de pequenos que são, mas não: esta cama não é apenas um colchão ortopédico assente num estrado encostado a uma cabeceira florida: é uma eira de mágoas e um amontoado de vigílias.
Estar de férias e sem (quase) nada que fazer também tem as suas desvantagens, designadamente, apanhar inopinadamente com os programas da manhã na televisão portuguesa. Desta vez, calhou-me o da Rita Ferro Rodrigues. E eu, que até nem tinha má impressão da pessoa, e que achava que todos temos que fazer pela vida, que remédio, fiquei chocada. O tema: a condenação da condutora que matou, por negligência, duas pessoas no terreiro do Paço, a três anos de prisão efectiva. Quem conhece os meandros dos tribunais e das sentenças judiciais sabe que esta condenação, por um clime negligente (ou três, neste caso, em cúmulo), é uma brutalidade. Em termos relativos, claro, não estou a falar da justiça ou não da decisão em termos absolutos e retributivos. Mas RFR insiste em dizer que lhe parece "muito pouco", ideia que repete à exaustão perante o filho de uma das vítimas. De seguida, passa à crucificação pessoal da condenada, atacando-lhe o carácter, confabulando sobre o que lhe terá (ou não) passado pela cabeça e o que terá (ou não) sentido, mostrando um total desconhecimento quanto à diferença que existe entre agir com negligência e agir com dolo. Qualquer pessoa que conduza e que tenha tido acidentes graves sem razão aparente, mesmo que no cumprimento das regras de trânsito e na posse de todas as suas faculdades mentais (como foi o meu caso), sabe que shit happens e tem algum rebuço em julgar alguém numa situação destas de ânimo leve e em chamá-la de "assassina". Pelo menos, tende a deixar a parte jurídica para os tribunais (que, sim senhora, deverão condenar caso se prove o que houver a provar, como parece ter sido o caso), abstendo-se de julgamentos morais em público, mais adequados a conversas de café nas quais se exerce a ligeireza intelectual por mero desporto, em frente a uma imperial. Mas RFR armou-se em carrasca, ainda por cima de alguém que não se estava ali para se defender, o que me pareceu uma baixaria. Porque se a intenção dela foi apelar à vindicta privada e à revolta familiar e popular, pois no que me concerne o tiro saiu-lhe pela culatra: sem querer, dei por mim a criar empatia com a condenada e a sentir exactamente o inverso pela apresentadora.
De há uns anos a esta parte, é sempre a mesma coisa: as montras das lojas de roupa espraiam as suas colecções de Primavera, invariavelmente uma espécie de moda trashy suburbana que cuida de que as miúdas, com os poucos euros de que naturalmente dispõem, mantenham o look lil´slut. Olha-se os manequins e aquilo é tudo à base de muito poliester colorido e de muita ganga carcomida: ele é a meia pelo joelho à colegial muito naughty, o soquete com a sandália de salto alto com o dedão a espreitar (vómito), o mini kilt por cima das leggings (sim: odeio leggings), uma profusão de echarpes rafeiras e desbotadas a enforcar pescoços impossivelmente magros, umas correntes presas nos cintos grossos à gangue da cova da moura, uma luvas sem dedos que aquilo nem a Madonna há trinta anos, uma data de coletes manhosos sobre blusas enxovalhadas, e folhos, muitos folhos: uma folharada que aparece por todos os lados, mas que tapa quase nada. Manequins que, entretanto, têm alvas perninhas de alicate com joelhinhos ossudos metidos para dentro e umas boquinhas semi-abertas com ar de quem tanto pode estar a lamber um chupa de morango como a preparar-se para um broche ao transeunte mais próximo. Detesto. E não é por causa do broche, nem do apelo que se faz a um modelo de juventude entre o debochado, o desleixado e o anoréctico: todos sabemos que a perversidade feminina é inversamente proporcional à idade, e que na verdade atinge o seu expoente quando ainda somos lolitas - e não quando temos de começar a negociar e a contemporizar porque só a beleza já não nos chega para podermos ser cruéis. É porque põe as miúdas menos giras e lhes dá um ar vulgar e standardizado: podiam parecer putas, mas umas putas engraçadas e com bom-gosto, tipo Julia Roberts depois de o Richard Gere a mandar às compras com o cartão de crédito dele (sem o espavento do Rodeo Drive, é certo, e sem os calções-saia dos anos oitenta, graças a deus). Assim, andam todas igualmente mal-vestidas, parece que atacam todas na mesma esquina e que apanharam todas a mesma DST. Malditas bershkas, stradivarius e quejandas, que insistem em standardizar a vulgaridade adolescente, o mau gosto e a péssima qualidade dos tecidos, que (ainda por cima) nem aguentam a merda de uma centrifugaçãozinha.

Volto ao blogue, só eu e com os meus botões. Dantes desconfiava, mas agora tenho a certeza: as pessoas que persistem nisto, diária e profusamente, são criaturas solitárias, por necessidade ou por vontade. Aqui não há ninguém para ninguém: há um talvez alguém que aparece, alguém que não seja doido, nem troll e que até perceba os nossos pontos de vista - esquizóides, deformados, fora deste mundo, cheios de rancor por só meia dúzia nos lerem enquanto achamos que temos toda a razão do mundo, mas não há quem nos ligue, foda-se. Volto só, mas agora tenho a certeza, pois enquanto o amor tomou conta de mim como uma ama-de-leite: extremoso e excessivo, a alimentar-me o corpo como a loba de roma, eu não tive nada para vos dizer. Nada. Aqui corre-se só: maratonas de palavras, noites insones, bilhetes privados, bocas, espadalhadas políticas, amorosas, familiares. Ninguém nos segura o ombro enquanto, pela noite fora, achamos que escrevemos o melhor e mais interessante post do universo. Quando perdemos tempo aqui, há alguém que nos perde noutro lado. Que não se diverte como nós, que nos esmiuça a gramática a tentar conhecer aquela ou aquele que lhe escapa sorrateiro aos lençóis para vir fazer-se ler. Para estar só. Por isso voltar a escrever não é bom. Volta com isto a puta da melancolia que se esfrega no focinho dos desasados e volta a ironia, que a enxota temporariamente para longe. Sinceramente, o que eu queria era cama suada pela noite dentro e espreguiçadeiras alancadas do ikea, o mar a perder a vista e eu a fingir que era da maré vazia e não da etar subdimensionada. Preferia não ter nada para vos dizer, levar a minha desinformada opinião a outros quadrantes, e ser toda uma alegria que não se escreve nem sequer se menciona para não estragar, tratada nas palminhas, com vozes baixas de monges reclusos, só pequenos ecos nas paredes de pedra, a ser docemente mexida, mexida, mexida, sempre na mesma direcção para não talhar. infelizmente, volto ao blogue porque estou só e quando se está só ganha-se esse vício doentio da auto-análise, de se olhar para dentro, de procurar nas entranhas alguma justificação para a vida, motivos de riso. Parece pois, minha pouca meia dúzia de leitores inexplicavelmente ferrenhos que ainda por aí pululais, à mingua da minha escrita, que estareis com sorte. Neste momento, preciso da companhia das palavras como de pão para a boca. E de um bom bloody mary, mas isso está mais difícil.
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Olha, olha!, o Passos Coelho está a fal...zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
Como se pode ver pela cretinice da frase em epígrafe, este Aguiar Branco também não vai longe. Além de que, referindo-se àquela cena de alta velocidade, diz "tegebê", "estiça" em vez de Justiça, e os "como os socialistas" diz "cumusxoxialistas". O resto são banalidades e clichés, tipo "novo pardigma social", perdão, "secial". Próooximo.
Já Rangel tem nitidamente um problema de colocação de voz: o seu histrionismo desafinado impedi-lo-á de conquistar a credibilidade necessária a um vencedor (lembra a estória do tuburão!, tubarão!, tubarinho...), apesar do dramatismo esforçado e daquela demagogia gordurosa que transpira por todos os poros.
Liguei neste momento a televisão e apanhei com um tal de Castanheira Barros, candidato (?) à liderança do PSD. Estou a morrer de vergonha indirecta, o homem disse coisas inenarráveis e conseguiu algo que pensei não ser possível: ao pé dele, o Santana Lopes é um palhaço menor.
mas hoje os óscares estão a dar no facebook. Portanto, só para quem é amiguinho.
Quem me lê sabe que acho o Gonçalo Amaral (GA) uma criatura abjecta; não só pelas suas intervenções públicas, mas pelo conteúdo do livro que escreveu - e que li com atenção. Basta vê-lo e ouvi-lo para se perceber a incompetência tendenciosa que dele transpira. Fala mal, explica-se pior e, neste momento, tem a lata de estar a dizer a MST que "não defende nada" e não "acusa ninguém". MST, e bem, repara que GA, antes de fazer o que quer que fosse, desconfiou dos progenitores, logo no primeiro dia, e que esta foi sempre a única hipótese de trabalho - e é exactamente isto que se passa no livro: todas as outras pistas ficam por explorar, a partir do momento em que o caso se transforma apenas numa perseguição aos McCann. As objecções de MST, inevitáveis, são aquelas que coloco (eu, e qualquer pessoa minimamente sensata) sempre que converso com alguém sobre o assunto: como é que dois ingleses que não conheciam o local, à noite, matam a filha e se desfazem do corpo em apenas meia hora?!. Para isto, GA não tem grande resposta, aproveitando para acusar o Ministério Público (who else?), por causa do arquivamento. Entramos, então, no tema "Leonor Cipriano", a quem a criatura e alguns amigos resolveram moer de pancada para sacar uma confissão. MST fala da sentença de condenação, que põe em causa, por nunca ter sido encontrado o corpo da filha da condenada: concordo plenamente, o acordão em questão é feito pala rama e assente em pouca prova. GA, mais uma vez, engasga-se e mete os pés pelas mãos. Voltando a Maddie, e a propósito de os McCann terem regressado a Inglaterra cinco meses depois, e de terem sido apontados a dedo pelo facto de se terem ido embora, não diz sim nem não, engasga-se. Entretanto, põe-se a fazer uma declaração a favor da liberdade de expressão, espraia-se um bocadinho, mas logo MST lhe corta o pio, acabando por lhe perguntar o óbvio: se alguma vez pôs a hipótese de o casal ser inocente e se, perante essa hipótese, dorme tranquilamente. O tempo impede que GA entaramele mais uma resposta parva com aquele seu ar esbugalhado de vítima. Fim da entrevista: mais uns minutos e MST acabava com ele, que pena.
Temos, então, os amantes. Amantes no sentido literal do termo e não no clandestino. Ele debruçado nela, num vaivém espacial, cada vez mais rápido, frenético, ele o homem bala, o senhor incrível, o inspector gadget. Por fim, dá-se o big bang e há um universo que se expande, uma explosão nuclear no atol, um meteorito que cai e extingue os dinossauros, crateras no corpo que se abrem, a pele rasgada de gozo e tudo neles bate palmas, plateias inteiras de pé. E há gritos que rasam a pintura da parede nova, deslizam pelo chão, escoam-se pelas frinchas e abafam um trrrriiiiiiim metálico, de alarme, que se ouve por uns segundos na casa, noutro lado da casa, talvez na cozinha. Momentos depois, e o corpo dele amolece, agora tombado no dela; as mãos de ambos descolam-se a custo e, aos poucos, o olhar circula em volta, preguiçoso: ali uma meia caída, uma bota amarfanhada no canto, o jornal da uma na televisão, a porta da rua a bater, o telemóvel que acende a luz de mensagem. Há a consciência a desemaranhar-se e há um latejar que esmorece. Regressa a visão periférica: o mundo já não é só o outro. As coisas reclamam de novo os seus lugares. E é então que ele, quando ela ainda se esfrega e desenrosca, lhe apanha o ouvido a jeito e lhe diz: "Bom, acabámos ao mesmo tempo que a carne assada."

Os desastres naturais em sítios com uma população (ou parte dela) pobre, são sempre um maná para os fotógrafos de ocasião - e para os outros. Há sempre algures uma criança orfã ou desalojada com olhos tristes e cara suja cujo desalento sobressai por entre os escombros. Sob a capa do "fotojornalismo" dito sério, na onda World Press Photo, o sofrimento humano extremo transforma-se, através da câmara, num evento triste mas delicodoce - tristezinho, vá -, que suscita por um lado a piedade alheia, mas, por outro lado, a admiração pela sensibilidade e sentido de oportunidade do fotógrafo em questão. Que, com um bocado de sorte, ganhará um prémio qualquer e o concomitante reconhecimento público. E, embora qualquer imagem comovente que se preste a metáforas lamechas seja de todo preferível à brutalidade frontal da última capa da Visão - Madeira (que mostra em grande plano um corpo enlameado em posição fetal - um pai, uma mãe, um filho de alguém - a ser retirado dos escombros), ambos os modos de "olhar" a tragédia debitam um exibicionismo pornográfico e um pressuposto venal que me repugnam. Ao invés de prazer, falamos de sofrimento, mas o princípio é o mesmo: descontextualizar, mostrar... e vender.

© sofia vieira

© sofia vieira

© sofia vieira

© sofia vieira

© sofia vieira
Sinceramente, não percebo porque é que os jornalistas insistem em entrevistar Sócrates; o resultado é sempre uma farsa patética da qual ninguém sai a ganhar. É óbvio que o homem não sabe (ou não lhe interessa saber) o significado de entrevista em democracia, entrando invariavelmente em estúdio para o seu habitual monólogo de defesa propagandístico, e pouco mais. Mas o que me espanta é que ainda o levem a sério e lhe dêem tempo de antena para ele espraiar o seu mau génio e fazer-se de vítima . E que um indivíduo esperto como MST tenha a ingenuidade de pensar que vai tirar-lhe nabos da púcara ou levá-lo a dar-lhe explicações sobre o que quer que seja. Que desperdício de energia, de meios técnicos, de mão-de-obra, da atenção dos outros... de tudo. Desistam, porra. Isto só lá vai com moção de censura ou com eleições daqui a quatro anos. No entretanto, evitem dar-lhe mais tempo de antena.
Não há casa portuguesa que não tenha um exemplar; pode ser um frasco, uma caixa, um saquinho pendurado ou pudicamente escondido: tal como, nos anos setenta, os quadros com o menino da lágrima, os naperons sobre os televisores ou os acessórios têxteis onde perigosamente se combinavam castanhos e laranjas, hoje não há cozinha lusa que não albergue o recipientezinho onde se vão guardando as tampas de plástico dos pacotes e garrafas para, mais tarde, serem supostamente trocadas por cadeiras de rodas para os delas necessitados. É um exercício colectivo de caridade, feito de muito consumo, tempo e paciência. Parece que são precisos quilos e quilos daquilo para se conseguir uma cadeira, uminha só. E quem as consegue? Quem as dá, em troca das tão ciosamente guardadas tampinhas, esse novo acessório kitch? Alguém já as viu, às preciosas cadeiras de rodas, tão penosamente angariadas, anos e anos de compais, sumois e coca-colas de litro? Na verdade, ninguém. Toda a gente tem uma irmã de uma prima de um tio que..., mas nunca ninguém assistiu à troca verdadeira entre A e B, toma lá quilos de sacos cheios disto, passa pra cá uma cadeira, toma lá uma cadeira. Os rumores agigantam-se: segundo uns, são precisos apenas cinco quilos para o milagre das rosas ocorrer; segundo outros, menos de cinquenta não chegam. Também no que respeita às entidades envolvidas não existe consenso definitivo, variando estas entre as misericórdias e vários hospitais. Mas, o que mais me intriga é: quem é que vai de casa em casa recolher as tampas e as entrega no sítio certo? Temos que ser nós a ir entregá-las? Porque eu ando há anos nesta faina recolectora, sendo que o saquinho parece nunca subir significativamente de nível (e olhem que tenho a casa cheia de adolescentes perdulários e sequiosos); portanto, alguém se deve encarregar de, periodicamente, as ir buscar e as fazer chegar ao sítio certo. Gnomos? duendes? penates? Eu não sou: limito-me a recolher tampas há anos em saquinhos (matando assim qualquer hipótese de ter uma cozinha-design), mas nunca comprovei qualquer resultado do meu esforço inglório; aliás, tenho a certeza de que nunca terei passados dos cem gramas de armazenamento total, o que nem para uma roda deve dar. De qualquer modo, sempre me apazigua a consciência individualista em pequenas doses homeopáticas, pois não há nada como contribuirmos para o bem da humanidade, enquanto achamos que diminuímos a nossa pegada ecológica no planeta. É um bocado como aquela história que correu há uns anos por aí: o cenário e a ocasião variavam (tanto era na marginal, como na Malveira da Serra), bem como os intervenientes, mas a ideia-base era sempre a mesma: um casal/grupo de amigos vinham à noite numa estrada, eram mandados parar por um desconhecido/desconhecida (o género também variava) e estranhamente instados por uma força interior a dar-lhe boleia. A determindada altura do caminho, e perante várias tentativas para, debalde, tornar o pendura minimamente comunicativo, este avisa com um ar espectral o condutor: cuidado com aquela curva, foi ali que eu morri!. Os ocupantes olham espantados para ele e bam!, de repente já lá não está ninguém. Com o susto, despistam-se, sendo que uns morrem e outros ficam em coma. Também então não havia quem não tivesse uma prima dum irmão duma tia que conhecera pessoalmente os envolvidos (ou um familiar dos envolvidos, sempre dava mais jeito para a credibilidade na propagação da estória), e que lhes contara a cena num misto de aparvalhação e horror. Eu, quando a minha sogra me contou que se tratava do filho e da namorada de uma colega de trabalho, e em sendo a minha sogra uma pessoa séria, acreditei piamente. Uns tempos mais tarde, soube que até houvera um realizador principiante (ou não) que fizera um filmezinho sobre a coisa com actores amadores e o botara na net, no seu site, e resolvi falar disso no meu blogue pessoal, então aberto a comentários (a minha ignorância era atrevida). E foi através destes que percebi que cada pessoa tinha a sua versão para algo que não passava de um estranho mito urbano, uma aldrabice involuntariamente disseminada pelas mais honestas e insuspeitas pessoas. Aliás, e voltando às tampas, uma edição recente do Correio da Manhã comprova o mito, através de uma notícia patética e deprimente (sim, já sei, nunca receberei o prémio Laurinda Alves): um pobre rapaz deficiente aparece na foto com os progenitores, acompanhados de um saco gigantesco de tampas e tampas e de plástico (quilos!) que, ao que parece, ninguém quis trocar por uma cadeira de rodas: deram-lhes tampa (mais uma, portanto). E eu, que na verdade não acredito em seres pequeninos e faxineiros, tenho uma tese: acho que as tampas entram de alguma forma directamente nos cofres da Valorsul, essa máfia do entulho e da reciclagem que recebe imenso dinheiro do estado só para o país parecer mais ecoverde. Mas essa já é outra estória.
"Lembro-me de ter visto na televisão um programa em que uma gralha, equilibrada no braço de um semáforo que atravessava a via rápida, num momento calculado, deixa cair no asfalto uma noz que tem no bico e vê-a ser esmagada pelo pneu de um carro que passa. Depois, num ruminar estratégico digno de um Júlio César às portas da Gália, a gralha espera que o sinal fique encarnado e mergulha em voo picado para o chão, recolhendo apressadamente os bocados esmagados da noz. Recordo-me de uma outra que, em cativeiro, olha com olhos de ver um tubo de vidro estreito em cujo interior é colocado um cesto pequenino com comida. O cesto tem asa e tudo. Em cima do tubo, na horizontal, está um arame fino e direito com cerca de vinte centímetros. A gralha olha para aquilo e pensa, imagina, coloca hipóteses, xacáver. Primeiro, pega no arame com o bico e introdu-lo certeiro no tubo, mas não consegue sacar o cesto. Tira o arame, pensa mais um bocadinho, huumm, voa com ele no bico até ao poleiro, preso a uma parede comfissuras, e enfia-o num pequeno orifício. Empurra-o com o bico até lhe curvar a ponta em forma de anzol, retira-o, voa de novo atéao tubo, espeta com o arame por ali adentro e engancha a parte retorcida na pega do cesto, puxando-o para cima. Come o que estava lá dentro, ufana de se ver tão esperta. Enquanto engole mais uma garfada de bife do lombo, recorda os chimpanzés, capazes de interiorizar um léxico superior a sete mil palavras e que, carregando nas letras de uma máquina, compõem frases como eu quero água (assim mesmo, com sujeito, predicado e complemento directo), gosto de ti ou estou triste. Sim, esses mesmos, que encarceramos nos zoos para gaúdio das nossas criancinhas, e que embalam os seus bebés, atrás das grades, como nós as embalamos a elas (parecendo, até, que também lhes cantam ao ouvido). E as formigas? que, em África, constróem formigueiros gigantes dotados de sistemas de ar condicionado cuja sofisticação é digna de um open space no centro de Manhattan. E a minha cadela? Uma pequinois gentil que um dia se travou de amores por uma ninhada de gatinhos órfãos com empenho tal que ela, que nunca havia sido mãe, encheu as maminhas de leite e alimentou-os a todos até lhe terem o dobro do tamanho. Ainda hoje, quando brigam com o outro cão cá da casa, preto e grande, ela atira-se-lhe ao focinho atéque ele, esparvoado com tamanho arrojo, desiste dos seus intuitos trucidantes e mastigadores. E lá acaba a lamber os gatos, como uma mãe que seca as lágrimas do filho com as costas da mão e lhe sussurra pronto, pronto, já passou. Também já vi um polvo a desatarrachar um frasco com os tentáculos e a abrir a fechadura de uma porta de entre várias, aprendendo que era aquela que lhe permitiria sair (ou entrar). E bastou-lhe uma única vez , sem estímulos repetidos ou qualquer outro engodo pavloviano, uma única vez, caraças!, e o bicho ficou a saber para sempre qual era o caminho da liberdade. E aquele mistério dos elefantes, que vão todos morrer ao mesmo sítio, e o das baleias, que se suicidam aos molhos de encontro à praia, e o dos golfinhos, que derramam ternura sobre crianças doentes e as ajudam à cura, sem nada pedirem em troca. Por tudo isto, lamento não me conseguir livrar do pé para a mão de tantos milénios de escravidão à voragem carnívora que os antepassados me inscreveram no ADN, e de me vergar amiúde ao peso de uma gula que me deixa à mercê de um bom bife do lombo com molho à café. Às vezes, no entanto, sou atacada pela calada da noite por estertores franciscanos e dou por mim a pensar que isto de comer animais mortos que são quase meus irmãos e que de mim diferem, apenas, por milionésimos de ADN, é assim como que uma espécie de canibalismo e que, para além de os comer, ainda os destrato com aquela sobranceria própria dos humanos, o que não está nada bem. O prólogo é sempre o mesmo: determinada, a cada ataque sorrateiro de culpa, acabo na fila d´Os Tibetanos e finjo proveito, embora quase vomite com a consistência espumosa do tofu e do seitan. Ao fim de uma semana de jejum vegetariano a experimentar todas as receitas de massa e batata com courgettes que me aparecem nas revistas femininas, começo a ter sonhos eróticos com bitoques e alheiras de caça, de preferência com ovo a cavalo, e capitulo. Não sem deixar de admirar profundamente quem o consegue, diga-se. Acho, aliás, que um vegan convicto se encontra num estádio superior da existência: mais perto da perfeição, de Deus ou seja lá do que for que represente aquele todo místico em que muitos acreditam (e que tem a obrigação de ser bem melhor que a mera soma das suas desgarradas partes). Mas eu por aqui continuo, no meu limbo moral privado, resignando-me à ideia de, na reencarnação seguinte, vir a este mundo sob a forma de uma aranha peluda, nojenta e potencialmente espezinhável logo na primeira semana de vida. Não obstante esta fraqueza assumida, intuo facilmente que somos todos muito estúpidos e que, se não conseguimos deixar de os fazer sofrer para nosso prazer (nos matadouros, nas touradas, na caça, no circo), ao menos que não estejamos tão contentes com a nossa presunçosa superioridade no pódium da cadeia alimentar e tão convencidos de que somos muito mais espertinhos do que eles, os animais, essas bestas irracionais que sobreviveram ao dilúvio na arca flutuante de um velho lunático, apenas para se reproduzirem e nos servirem. Porque (quem sabe?) talvez as preguiças gostem de sexo tântrico e por isso demorem horas a assegurar a sua descendência; e talvez os leões, bichos gregários por natureza, tenham problemas com a sogra e já não a possam ver à frente; e os ursos, quando hibernem, sofram de claustrofobia e depois tenham pesadelos; e os pinguins, todos iguais e aos milhões, tenham crises de identidade; e os salmões, tenham tendências depressivo-suicidas e por isso venham morrer rio acima; e as baleias, saibam de facto cantar , e algumas de entre elas sejam prima donnas com direito a privilégios especiais de diva e a camarote individual; e as coelhas só tenham orgasmos múltiplos e por isso fodam tanto; e os gatos sintam um profundo desprezo pelos humanos e por isso não os olhem quando eles os chama; e as formigas não gostem de estar sozinhas; e as toupeiras sofram de agorafobia; e os cães se comportem como groupies à beira da histeria porque nos adoram e quando crescerem querem ser como nós, as pessoas, os seus maravilhosos donos. Quem pode garantir que não seja assim? Quem? Talvez que o universo em que se move esta Terra onde nos encontramos mais não seja do que um grão de poeira reflectido na retina de um grilo e, este, um habitante microscópico de um outro planeta, em órbita numa galáxia diferente e encaixada num universo muito maior. Portanto, embora aí apanhar do chão um bocadinho de humildade, dessa que anda por aí espalhada, que todos espezinham e ninguém quer, assumir a nossa ignorância no que respeita a esta merda toda e ter algum respeitinho, designadamente, pelo grilo."
Algo se passava, ultimamente não lhe parecia o mesmo. Ele era os ivas conjuntos por entregar e o condomínio por pagar, com o administrador a bater-lhes à porta às onze da noite a pedir meças. Saía com o jornal de baixo do braço, o troco certo a baloiçar-lhe nos fundilhos das calças, a dona da papelaria a chamá-lo de longe mas ele nem mesmo assim; até o empregado da cervejaria da esquina se via à míngua da gorjeta habitual e a chave fixa do euromilhões ficava esquecida na gaveta da cabeceira. Chegava da bola num silêncio introspectivo, quer o Benfica ganhasse ou perdesse e não tardou que ela, atenta àquele vegetar distraído, alinhavado com uma tristeza ao mesmo tempo comprometida e entusiasmada, percebesse que o jogo dele era outro. Houve choro e ranger de dentes a ecoarem forte e feio ao longo das rachas do estuque das paredes do tê três, os miúdos fechados no quarto com os aipodes no máximo, a fingirem-se surdos ao esgoelanço raivoso de mulher traída, as malas dele à porta e ala que se faz tarde, amanha-te lá com a brasileira de vinte anos que te bate as punhetas e os tapetes do escritório em ritmo de samba e forró. Amparada por machos alfa, primeiro o pai, depois o marido, soçobrou ao pânico quando se viu sem ninguém, emagreceu os vinte quilos que ganhara durante a reclusão conjugal, enfiou-se a ela e aos putos no psicólogo para que lidassem com a perda e, ao fim de um ano de luto, quinhentos euros de extensões louras e um par de mamas novo, insuflado a preço de saldo no Rio de Janeiro na época das chuvas, empandeirou-os para o pai, uma carga de trabalhos, que os metesse na ordem, e iniciou-se na via sacra do circuito nocturno das quarentonas divorciadas, onde descobriu o orgasmo e a solidão, ambos a dobrar.
(repost)

"Summertime 1987. A young man out surfing a popular left-handed beachbreak with his friends (...). The crowd reacts competitivley with each passing wave, a heaving uncertainty of water. Suddenly he notices, off to the side, that the ever changing tides are producing a decent right hander, clean and unridden. Seizing the opportunity, he takes a chance, paddles over to the fleeting apparition and surfs unhindered to his hearts' content. His efforts have been rewarded, the ocean gives up its bounty, her waves are his to do what he pleases. Back on the beach, the boys delight in that post-surf euphoria, discriptions of magical moments, tremendous wipeouts, a unique blend of pleasure and achievement, a celebration of shared endeavor. Its obvious to the crew that Bernie did the right thing, his efforts were worth while - he made that elusive right hander his own. (...) Bernie's Right its a place, a moment, a State of Mind."
Faz hoje dois anos que quase morri. Encarcerada durante três horas num descapotável virado ao contrário, com um traumatismo craneano, um buraco na cabeça (28 pontos em forma de caracol), vértebras partidas, o baço perfurado, derrame na pleura e uma claustrofobia congénita, o que me safou foi ter ficado semi-inconsciente, senão ter-me-ia matado a esgatanhar-me dali pra fora. Esta escabrosa descrição é só para realçar que aquela coisa que dizem sobre depois de termos visto a morte passarmos a apreciar melhor as pequenas coisas da vida, sabem?, é uma grande treta. Continuo a ver as coisas pelo que elas são: más quando são más e boas quando são boas, sejam grandes ou pequenas. Isto não desdenhando o facto de ter a perfeita noção de que tenho uma sorte do caraças em estar viva e de nunca (nunca!) me esquecer de tal.
Passei um fim-de-semana como há muito não tinha: a anhar pelos sofás, a ver televisão e a ler tudo quanto é jornais. Sentia-me mal, na verdade: toda a gente a bitaitear sobre a crise no governo, as finanças locais, as escutas, os crimes contra o estado de direito democrático, o crespo, a bárbara, os desmandos do líder, os favoritos dos ídolos e eu... nada, numa ignorância quase completa, a cheirar todo este fedor de longe. Portanto, li tudo. Comprei o Expresso, o Sol, o i, alguns diários e a Hola (tinha que descontrair depois, não?). A cena do crespo achei conversa de sopeiras e passei rapidamente à frente, cada um pior do que o outro, santa paciência. Já a questão das escutas e do suposto cometimento de ilícitos por parte do nosso primeiro é outra loiça (embora também tenha o seu quêzinho de sopeiral ao estalo). Li com atenção os despachos do Procurador e do Juiz de Instrução. Sei como os magistrados deste país têm tendência para fazer do Princípio da Legalidade, consagrado no art.º 1º do Código Penal, uma norma um bocado volátil e de como, apesar de a lei penal não o permitir, interpretações extensivas são esgalhadas todos os dias por esses tribunais fora, por forma a fazer a lei encaixar nas teorias peregrinas e preconceituosas de certos juizes e procuradores. Sei, por isso, que quem decidiu assim, podia ter decidido assado, e que os factos descritos nos jornais tanto podiam dar para uma acusação, como para um arquivamento por falta de indícios suficientes, como para outra coisa qualquer. A nossa lei penal continua cheia de conceitos abertos e indeterminados que dão demasiado trabalho à pobre da nossa jurisprudência superior que, por sua vez, tanto faz luz sobre o assunto (enfim, raramente), como produz decisões aberrantes. Isto para dizer que, depois de tanta leitura, continuo sem saber se foi ou não cometido qualquer crime e derramadinha para saber, afinal, aquilo que verdadeiramente (e neste momento) interessa: quais os fundamentos do despacho do Exmo. Procurador Geral da República, a propósito. Isso sim, seria uma verdadeira cacha jornalística. No mais, devo ser especialmente burra - juridicamente falando -, porque continuo sem perceber aquilo que é óbvio para tanta gente: onde é que o primeiro e os seus amiguinhos tentaram destruir ou subverter o Estado de Direito constitucionalmente estabelecido. Pelo que retiro da leitura do art.º 9º * da Lei 34/87, de 16/08, este é um crime que tem de ser praticado pelos titulares de cargos públicos com dolo, ou seja, e muito pela rama, com intenção de. Portanto, a violação dos direitos, liberdades e garantias estabelecidos na Constituição da República, ou dos princípios estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos do Homem ou na Convenção Europeia dos Direitos do Homem, é apenas um dos meios possíveis (vd., nomeadamente) de o agente atingir o seu objectivo primero, que é abalar os fundamentos do Estado de Direito. Ora, despachos da natureza daqueles que li têm de fundamentar e demonstrar, através da descrição de factos, que o agente quis praticar aquele crime em concreto. Se assim não fosse, o artigo limitar-se-ia a dizer "O titular de um cargo público que violar os artigos tal e tal da CRP que consagram Direitos, Liberdades e Garantias, e os princípios tal e tal... comete o crime previsto neste artigo". Só que existe aqui um maius que quase todos parecem estar a esquecer: o verdadeiro crime está na intenção da subversão do Estado de Direito Democrático, e não nos meios que a lei descreve com possíveis para alcançar tal fim. E eu, das leituras que fiz, francamente, não consegui descortiná-la, à especificidade da intenção. Independentemente de estarem efectivamente em causa questões de imoralidade grave, que aquilo é tudo uma sabujice pegada, claro. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


Recebi uma carta de amor manuscrita. Um sobrescrito branco, com um selo verdadeiro carimbado pelos Correios de Portugal, o remetente (tu) no canto superior esquerdo, as palavras a descaírem ligeiramente para a direita. E em baixo o meu nome completo (poucos, os que têm o privilégio do meu nome completo), a minha morada, o código postal certinho. Acho que a última vez que recebi uma carta, destas que vêm por carteiro, foi há quase vinte anos, e era de uma amiga (eu e as minhas amigas de Torres Vedras enxotávamos assim a distância: com cartas virulentas e demolidoras sobre os rapazes, mesmo aqueles de quem gostávamos). Pouco tempo depois, receberia um telegrama de um namorado desesperado, que a minha mãe recebeu à porta, leu alto entre stops e eu quase morri de vergonha. A partir daí, foi tudo entregue em mãos, bilhetinhos, promessas de amor eterno, um marido deslumbrado com os filhos que iam saindo de dentro de mim, sonhos transformados em poemas, desenhos rabiscados em guardanapos de restaurante, ah e o futuro todo pela frente, até um dia. Hoje, agarrados ao computador para todas as tarefas, incluindo as que nos divertem, nem nos lembramos que cada um de nós tem uma letra. Assertiva, suave, indecisa, torta, hesitante, difícil, de médico, maiúscula, cursiva, divertida, redonda, severa, poética. Uma letra que, segundo alguns, diz muito sobre o que somos. Eu não sei o que diz sobre ti a tua letra; ao contrário da minha, que é cheia de arabescos (um dia mostro-ta), pareceu-me normal, pouco esforçada, um bocadinho arrastada, a letra de alguém que nunca cresceu verdadeiramente. Mas sei o que diz sobre ti a carta que me escreveste, embora, é claro, não o vá dizer aqui (eles que se escrevam uns aos outros).

(engasguei-me)
Os donos dos carrosséis - a fine gentlemen´s league - protestam o facto de serem obrigados a cumprir normas de segurança por forma a que os utentes não estatelem as trombas e os ossos no chão de gravilha das feiras. Querem manter o direito de continuar a estropiar gente, pois então. Um desgraçado de um rapaz apanhado na reivindicação viu o carrito todo partido pela investida do camião de um carrosseiro - ai, perdão! - de um carrosseleiro, e ainda ia sendo linchado pela população revoltada e em fúria. No fundo, acabaram, os protestantes, a lixar a vida de quem por ali passava e a alarvarem-se com pizzas familiares na berma da estrada, perante a interrogação pungente do condoído repórter de serviço, então?, não têm outro sítio para comer? (juro, foi mesmo assim)

Na rádio, anunciam uma série original e inovadora, ao que parece composta por vampiros adolescentes. A dada altura, ouve-se uma criatura geração morangos-com-açucar dizer, com a voz carregada de emoção, "sou uma vampira". Se ela dissesse que era uma prateleira de supermercado, talvez acreditássemos. O absurdo risível abancou em definitivo na "ficção nacional". Não sei quantos anos depois de Entrevistas com o Vampiro, de Crepúsculos, de filmes baseados na saga, de livros a imitar a saga, de séries americanas baseadas na saga... eis que chega agora uma inovadora e original série portuguesa... inspirada na saga. Eu não vejo novelas portuguesas por uma razão: a da credibilidade (ou melhor, a da falta dela). Nas séries portuguesas, jovens rebeldes sacados das ruas fazem sempre de jovens rebeldes, jovens gays tentam parecer hetero e fingem babar-se para cima das protagonistas, engradaçaditas mas invariavelmente sem glamour. E os actores conceituados fazem sempre de eles próprios: por exemplo, a Helena Isabel faz sempre de Helena Isabel. O que vemos no ecrã são actores portugueses que aparecem nas revistas porque trairam a namorada ou afinfaram uma murraça num paparazzo, a debitarem textos em que tentam passar por outras pessoas. As novelas portuguesas são um desfile de gente com pouco talento mas de grandes egos que só sabem fazer bem de si próprios. Quando a personagem é radicalmente diferente do actor e implica algum "trabalho de composição", socorrem-se do estilo revisteiro, assente na gritaria, no espalhafato e na mão na anca, para conseguirem distanciar-se de si próprios. Por isso uma série de vampiros em português, para mim, desce os níveis da credibilidade artística para pârametros nunca vistos. A certeza é tanta que falo sem ter assistido a um único episódio, apenas ao trailer. É certo que a icnografia vampírica me irrita sobremaneira desde sempre (quase tanto como esta palavra: sobremaneira). Só um vampiro mexeu comigo até hoje, e esse foi o Dracula de Bram Stoker, há muitos anos atrás, pela mão do Copolla, mas isso é outra história - uma história para adultos. O mais engraçado é que esta parvoíce colectiva é desdenhada por muitos adolescentes que conheço (que a acham risível) mas idolatrada por outros tantos adultos, muitos deles gente magoada que perdeu a fé no real e que se alimenta da línguagem virtual dos amores impossíveis.
Sofia became a fan of Guronsan.
Não admira que Moita Flores dê o seu apoio a Gonçalo Amaral, aquilo é tudo farinha do mesmo saco. Não sei se fui só eu que, quando li o livro deste sobre Maddie, oscilei entre o riso escarninho e a náusea. Também não faço a mínima, se os McCann são ou não culpados mas, se estivesse no lugar deles, atirava com tudo o que fosse procedimento legal contra o pêjota: penal, civil, o que houvesse à disposição para o esmifrar e fazer sofrer. A sanha persecutória da criatura contra o casal é algo patológico e doentio que nada tem a ver com Liberdade de Imprensa. Porque o livro em questão não é a narração de factos em prol do conhecimento público, mas sim a distorção e adulteração dos mesmos, para os fazer caber na tese encasquilhada pelo seu autor. A improbabilidade prática de muitas das teorias que defende, como se fossemos todos parvos e engolíssemos assim, sem mais, a culpabilidade do casal, os buracos na narrativa, as contradições por explicar, nada disso trava Gonçalo Amaral, que se acha uma espécie de Justiceiro, que acerta onde todos os outros falharam e redime a incompetência acusatória do MP. Quando a esperteza saloia se alia à arrogância e a um naco de poderzinho mediático, pode fazer muitos estragos, alguns irreparáveis.

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, --- I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! --- and, if God choose,
I shall but love thee better after death.
(Elizabeth Barret Browning)
da Rititi:




Primeiro, chegam-me os cheiros: o da lenha no ar a aconchegar as alvoradas, o da alfazema roxa junto à porta, o da relva fresca acabada de cortar e o dos oregãos, que salpicam aos molhos o terreno do lado. E o cheiro dos meus próprios cozinhados, a janela um tudo nada aberta a travar o atrevimento dos gatos, e o aroma do refogado a fugir para o exterior e a perturbar os cães, que farejam sem descanso uma possibilidade de entrada. Depois vem o resto: os miúdos a rebolarem no jardim com o cão à rabia, de bola presa na boca babada, as hortênsias que namoram o musgo agarrado aos muros de pedra molhados, as citronelas acesas no alpendre, os amigos acampados na antiga vinha, o som da guitarra de alguém, os mergulhos na água fresca, a hera que cobre o azulejo antigo, o santo de gesso esboroado que nos benze à passagem para a casa-de- banho, o quadro cubano no pano da lareira - uma lareira a sério, com capitéis em pedra, e o ninho de corujas que todos os anos entope a saída do fumo, coitadinhas das crias, houve um inverno que nem lume fizemos nem nada. Mas, principalmente, os miúdos, felizes; felizes, os miúdos, o sol a lambê-los com alegria, é Verão (por ali é sempre Verão). Então ele pergunta-me, com um sorriso virginal, se não quero voltar, se não quero tudo aquilo outra vez, e eu sim, claro que quero, os nossos alperces são tão doces, e os pares de melros que nos orquestram as manhãs de domingo enquanto nós na cama, a espreguiçar o tempo. Sejamos exactos: eu na cama e ele noutro lado qualquer, talvez noutra cama, no sofá; ou então eu no sofá: afinal, este sonho é uma reprodução exacta daquilo que foi e é por isso que lhe digo que sim, porque tenho saudades do que tive. Aceito, sim, quero, e entro de chofre na minha vida antiga, a pensar como te hei-de dizer que te troquei por uma promessa de relva fresca; preocupada, com medo de que fiques doente, que me morras, sei lá. É aqui que tu entras, portanto. Não exactamente a tua pessoa, ou a imagem da tua pessoa, mas antes uma intuição de ti, um sentir-te por cima de todos os cheiros. De repente, não sei porquê, acordo, e dou contigo ao meu lado. Enrosco-me um bocadinho mais no teu calor e sorrio no escuro, que bom ser Inverno e estar tanto frio lá fora.
um tigre matou o dono, que o mantinha captivo numa jaula. Vejo na tevê que a pessoa em questão era "coleccionadora" de espécies salvagens, enquanto um amigo diz para as câmaras que os animais eram "família" para ele. Estranho conceito de família, este, em que os parentes são presos e criados em jaulas onde mal se podem mexer. A permissão legal de criação doméstica de espécies selvagens é um sinal de atraso, neste caso, do Canadá, mas podia ser dos EUA, ambos grandes países com paradoxos culturais chocantes, como toda a gente sabe (embora o Canadá seja mais chato e tenha menos piada). O desprezo pela natureza selvagem de um animal, apanágio dos respectivos donos (bem como do Estado que sanciona a sua prática), ou seja, o pretender que aquele se comporte como nós, com suposta civilidade, é de uma arrogância e estupidez muito pouco civilizadas, na verdade.

Entro de mansinho em 2010, são ainda muitos, os ecos de 2009. Foi um ano importante para mim, quase comparável aos anos em que nasceram os meus filhos. Aconteceu-me toda uma vida; aliás, olhando para trás, custa a perceber como é que tanta coisa encaixou e se arrumou em apenas doze meses. Vi o melhor e o pior da natureza humana e, felizmente, acabei o ano apenas com o melhor. Sobrevivi à ganância, ao ressaibo, à desconfiança, à paixão funesta, à obsessão, à culpa, ao desengano. Sobrevivi ao mês de Agosto. E ao Natal. E entrei com um pé a puxar para o feliz em 2010. Aprendi o valor do recato, que as primeiras impressões são sempre as mais certas, que aguentamos mais do que aquilo que achamos e que as coisas boas nos acontecem quando deixamos de as procurar. Mas, também, que o instinto nem sempre funciona e que uma cabeça com a mania que é inteligente pode ser tão tola como qualquer outra, fazer figuras tristes e não reconhecer o mal quando este lhe bate à porta, toca e foge. Mas, mais importante do que tudo, aprendi a estar sozinha, comigo apenas. E a gostar do silêncio que a princípio me estrangulava, a apreciar a minha companhia. Um dia de cada vez. Fiz amigos, em especial, homens. Percebi que são todos diferentes uns dos outros, como as mulheres e o resto, afinal: único e singular, numa escala que pode ir do péssimo ao excelente. Há que saber escolher, deitar o lixo fora, prezar o que presta. Tornei-me menos preconceituosa, alarguei o meu poder de encaixe, levei na cabeça, chorei que me fartei, mas também me senti desejada, querida, amada, como há muito não me sentia: houve uma espécie de cegueira enevoada que se dissipou e entretanto abriram-se caminhos. E é por eles que agora vou (entro de mansinho em 2010).



A noite passada tive um sonho lésbico, Foi uma coisa assim tipo fantasia colegial, ao melhor estilo manga japonesa, com direito ao kit todo, incluindo meninas de uniformes reduzidos pelas cuecas (não, esperem: elas estavam sem cuecas), No sonho, eu proporcionava-lhes, com brio e afinco, momentos de felicidade, sendo que não me lembro das caras delas mas recordo outros pormenores fisiológicos que se iam transformando ao meu toque mágico. Quando chegou a altura de entrarem em accção as regras básicas da retribuição, infelizmente acordei, sem qualquer possibilidade de provar do meu próprio remédio. É preciso ter em conta que eu, que adoro marisco, não como mexilhões porque me parecem vulvas. O que torna tudo isto ainda mais estranho.
Já agora: porque é que os nossos maridos/namorados/amantes/amigos coloridos/homem do tallho, quando dizemos que tivemos um sonho erótico com outro homem, ficam com vontade de se divorciar, de nos ofender, de nos degredar, de nos vender bifes fora de prazo, a achar que somos umas putas sem perdão mas, quando dizemos que tivemos um desses sonhos com mulheres, querem sempre saber mais, os pormenores todos, conta lá, conta, o que é que ela te fez? onde é que te tocou? e depois, o que fizeram depois? conta mais, vá...
Haja divã e, já agora, que chegue para todos.
sobrevivi. :)

Tu és o meu Natal.

Só mesmo num país atrasado e bacoco como o nosso, com uns media nivelados por baixo onde pontifica uma horrorosa TVI, é que o facto de uma juíza retirar uma criança de uma instituição para a entregar a um tio - que por acaso é homossexual e vive com outro homem -, se torna notícia quase principal de um telejornal no prime time.



O amor é feito de coisas pequeninas, microscópicas mesmo. É preciso perdermos a noção do todo, alijarmo-nos da grandiosidade meio saloia da paixão para darmos de caras com ele em nano momentos preciosos. O amor não é toda a vida, nem do tamanho do mundo, nem promessas impossíveis de cumprir. O amor não é sempre tudo. É rirmo-nos da mesma piada quando todos os outros se calam, é termos a mesma cor preferida. Mas é, acima de tudo, abastecermos o frigorífico com os mesmos essenciais, como becel de cozinha, água tónica, água das pedras, caldos knorr e limões. Isto não é apenas coincidência, é uma aleivosia kármica, é uma maldade cósmica que nos prende ao outro como se um oráculo qualquer no-lo ordenasse. Afinal há alguém que, como nós, só bebe leite vigor do dia e insiste em comprar manteiga milhafre dos açores. Os grandes planos são sempre os mais ínfimos: escondem-se na prateleira lateral de uma porta e selam futuros como lacre derretido.
que a controvertida marmota agradece a distinção e acrescenta que também a lê a ela.

Uma insónia como há muito não tinha. Os dedos, enferrujados e preguiçosos, a começarem a desenhar palavras no teclado, parece que já nem me lembro de como se faz. E era bom, não me lembrar de como se faz. Esta coisa da escrita é para gente solitária. Ou, ao menos, para gente sozinha dentro que vem aqui aquecer-se, no borralho das suas palavras ou no das palavras dos outros. Quando coisas boas nos preenchem os dias, nem nos lembramos de ficcionar as noites. Escusado será dizer que isto é quase de certeza o fim de um feliz interregno.

Vamos?

Muitas vezes os outros só têm a importância que nós lhes damos. Enquanto os conhecemos mal - ou não os conhecemos de todo - permitimo-nos com eles todo o tipo de excessos ou de cerimónias: afinal, somos nós que os construímos. Talvez por isso custe tanto a largar alguém que um dia idealizámos. Não interessa se o imaginámos a pender para os defeitos ou, ao invés, para as qualidades; muito menos interessa se o edificámos à nossa medida ou se, pelo contrário, nos deu mais jeito pensar que nunca caberia em nós. A verdade é que moldámos aquela pessoa às nossas necessidades da altura: de algum modo ela serviu-nos, colmatou falhas, preencheu buracos. Temos ali um ser desconhecido em toda a sua glória, cuja personalidade desenvolvemos no laboratório da nossa cabeça, e que se agiganta em nós a cada pedacinho mais que achamos que sabemos sobre ela, a cada peça do puzzle que acrescentamos. Depois, uma necessidade dolorosa, física, resulta dessa confabulação: uma precisão danada, que advém do facto de termos criado um monstro à nossa medida. No fundo, é uma outra versão de nós próprios, daí querermo-lo com um desespero egocêntrico e circular. Quase nada consegue romper a seriedade de uma fixação desta natureza, nevrótica, concentrada em si mesma, fantasista e desfasada do real. A não ser quando a nossa criação se humaniza, ao se tornar risível, gozável, ao apalhaçar-se involuntariamente perante nós. De repente, surge um ligeiro desprezo a permear a obsessão e há uma dúvida que se instala - e que sucede à certeza vibrante que até então nos minou por dentro. Que isso nos mate a sede e nos cure da doença, não sei, mas ameniza em muito os sintomas.
Não falar para não estragar.
(além disso, ando pelo facebook, até já)
Pôr o Zé das Couves (homofóbico, misógino e iletrado), cujas sinapses apenas dão algum sinal de vida quando comenta o Benfica (ou o Porto ou outra merda qualquer), que gasta o tempo entre o café da esquina, onde se embebeda com cerveja e bagaço, e o chegar a casa bêbado e malhar na mulher porque esta trabalha na fábrica, sustenta os filhos e o faz sentir-se ainda menos homem por isso, a decidir dos destinos civis dos homossexuais, esses paneleiros, é demasiado estúpido, francamente.
Engano-me poucas vezes e não costumo criar ilusões: tenho é um certo pendor suicida. Ou seja, nem sempre fico de cima a olhar o abismo, embora nunca subestime a profundidade da queda.
A primeira vez que acontece não acreditamos, é como um sonho, um sonho mau que penetra na claridade do dia (ou na luz artificial da noite). A realidade subsequente às escolhas que fizemos atinge-nos em cheio no estômago - no estômago, sim, não é em mais lado nenhum, tanto, que uma ligeira náusea se mostra inevitável. Apercebemo-nos então de que, para o outro, deixámos de, para sempre, ser. O que é bastante diferente de o outro ter deixado, um dia, de ser para nós.

Ando a fazer de detective e já cá volto (até tenho um Dr. Watson e tudo).
O caralhinho da moda dos casacos de peles verdadeiras voltou, ainda por cima agora acessível às manicures e às sopeiras. Ou melhor, dantes também eram as manicures e os sopeiras que as usavam, mas só as que entretanto haviam sacado um gajo rico ou qualquer outro meio de fortuna fácil que implicasse uma forma de elevação que não a espiritual. Pois, dizia eu, não há hoje H&M´s, Zaras, Cortefieis e Mangos, que não tenham, na sua colecção Outono-Inverno, o casaquito de raposa, de chinchilazita, de marta, quiçá de zibelina. Mil a dois mil euros a pagar em três prestações sem juros, baratinho sem dúvida, as peles quase de certeza de origem chinesa, como actualmente é chinês quase tudo o que se encontra nas grandes cadeias de moda, das lycras, às gangas e às sedas. As etiquetas dos casaquinhos têm ainda o desplante de nos garantir que os animais foram criados em quintas especialmente controladas para o efeito, como se isso fosse uma coisa boa, uma garantia de não-maldade para com os bichos. Vai-se a ver, e qualquer dia aparece escrito como nos créditos finais de alguns filmes, no animals were injured during the making of this film. Neste caso, coat. A crueldade tem agora um cheirinho acetinado a UE e vem certificada e garantida em papel crepe, num toque de finura hipócrita para engodar as papalvas. Desprezo-os a todos. Aos miseráveis que andam à paulada aos animais e que os esfolam vivos (uma chinchila pelamordedeus! eu já tive uma chinchila em casa, o bicho até vinha ao nome!), aos cabrões que lhes pagam uma ninharia pelo trabalho sujo, aos intermediários e aos donos das grandes cadeias de roupa que lhes compram o produto final mas, mais do que tudo, às parolas nova-ricas (ou nem isso), que se enfornam excitadas nas suas péis, as unhas muito encarnadas na ponta dos dedos que transbordam cachuchos comprados a prestações à espertalhona que vai uma vez por mês à repartição pública onde trabalham impingir-lhes mais uns quantos e recolher os cheques pré-datados, a acariciarem as dezenas de bichos mortos que carregam no lombo com um gozo quase erótico, as taradas. E depois, a questão estética: quem é que se quer parecer com uma chinchila gigante e prenha? Sim, porque um casaquinho de peles insufla qualquer uma para além do limite do aceitável, e algumas dessas pacóvias oxigenadas quase nem conseguem passar às portas, de tão inchadas que ficam com aquilo em cima. Portanto, e resumindo: milhões de animais são criados e mortos em sofrimento para que alguns milhares de dondocas ocidentais descerebradas se pavoneiem nos centros comerciais, nas missas e nos casamentos das afilhadas. Há poucos anos, com a divulgação das focas a serem mortas massivamente à paulada e vídeos quejandos, as peles de muita gente civilizada mas que andava distraída foram guardadas nos armários e transformadas em festim para as traças. Os casacos de pele passaram apenas a ser usados envergonhadamente por gente que sabia por alto como eram feitos, embora esse conhecimento não fosse suficiente para lhes debelar a vaidade. O comércio de peles tornou-se algo um pouco marginal, feito nas lojas da especialidade, onde os construtores e empresários despejavam as esposas dos seus BMW e Mercedes e ficavam no parque à espera da conta. O súbito afluxo de casacos de peles verdadeiras às grandes cadeias de moda e a sua consequente acessibilidade à populaça desinstruída mas com algum poder de compra (aka, a classe média), a par com a massificação da indiferença perante a crueldade para com os animais, representam obviamente um retrocesso civilizacional trágico.

A terra, plana, acaba num abismo que és tu. Espalhas o teu cheiro como incenso pela casa e eu a farejar-te rasteira pelos cantos do escritório, dos quartos. Quem sou eu? Que sou eu? Porque continuo a encapelar-me quando me tocas, mesmo se apenas me olhas, até quando só te imagino? Porque me queres ouvir dizer não quando toda eu sou sim e transpiras para cima de mim a raiva de não conseguires ser perfeito? Nada tenho para te dizer, tinha tanto para te contar.
não tem direito a escrever sobre o que lhe apetece?!
a quantidade de gente que escreve posts enormes, cheios de letras, de parágrafos, de argumentos e de explicações, só para dizer que se deve ignorar o vídeo da Maitê Proença.
Os amores impossíveis são o que são, ou seja, são como todas as outras coisas impossíveis: acarretam um maior ou menor grau de frustração que muitas vezes inferniza a existência de quem os vive. Ao contrário de outras coisas impossíveis, no entanto, a maior parte dos chamados amores impossíveis estão sempre à beirinha de deixarem de o ser. Aliás, de algum modo, a expressão "amor impossível" é um oxímoro: se o amor já existe, então não é impossível, quanto muito, haverá, sei lá, uma não concretização física desse amor, leia-se: não haverá cama ou coisas que se podem fazer numa. Mas, para efeitos de argumento, cinjamo-nos ao significado comum da expressão: um amor impossível é geralmente um sentimento (às vezes também uma situação, quando é correspondido), que - pelo menos nos seus estádios mais vibrantes - gera frustração, insegurança, tristeza, impaciência, obsessão, esperança, desespero... e não necessariamente por esta ordem. Só que as circunstâncias da vida mudam, as pessoas mudam e as prioridades que as fazem agir, mudam ainda mais. De repente, um amor impossível começa ao de leve a deixar de o ser, ou, pelo menos, a perder aquela sua característica de exasperante definitividade que às vezes nos dá vontade de (metaforicamente, em todo o caso) cortar os pulsos. Há qualquer coisa de bom que se imiscui e que se insinua, as cores mudam. E a gente não sabe porquê, não sabe mesmo. O discurso inabilitante mantém-se, os obstáculos também (estão lá todos, às vezes até mais), e no entanto... ele move-se. Um dia acordamos e a tristeza habitual pela qual afinávamos o diapazão dos dias é substituída aqui e ali por uma euforia miudinha, que agita só alguns recantozinhos da pele e do cérebro, nada de mais. No dia seguinte, mais um bocadinho de certeza (de certeza, não de esperança: a esperança é a pobre marca d´água dos amores estritamente impossíveis, não deste que vos falo agora e que começa a deixar de o ser), e uma ligeira alegria começa a tomar forma como se fosse um cavalo a aquecer e a preparar-se para a batalha, um bucéfalo nervoso a escoicear-nos o coração, que, subitamente e sem darmos conta, bombeia vida por todos os lados. Esta certeza do amor inunda-nos como o caudal de um rio e tarda nada sentimo-nos felizes. Estamos felizes porque sabemos, não porque achemos que (o coração é um bicho cauteloso que raras vezes se engana). Mas, para que a epifania ocorra, é preciso deixarmos de ter pressa e acreditar que o que está para acontecer já está escrito em algum lado, pelo que não vale a pena empurrar. Aceitar os termos, saber esperar e apreender uma coisa tão básica, mas tão básica, que até mete nojo não termos pensado nisso antes: o amor não é necessariamente impossível por ser à distância. Às vezes, basta praticá-lo com afinco e deixar que a felicidade se esgueire e se torne inevitável para que de repente se faça possível.
(pergunto-me como, lendo blogues há quase seis anos e jornais em geral há muito mais do que isso, só agora descobri o Joel Neto)
Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Durante anos enfiada no meu mundinho de privilégios a brincar às casinhas, nunca percebi muito bem porque é que certas pessoas detestam o Natal. Vejo agora, depois da perda que sofri este ano (mesmo que uma perda auto-infligida e deliberada que trouxe consigo o perfume de ganhos futuros), que faz sentido não se gostar do Natal, querer passar por ele como num sono e acordar já no ano novo, onde nos restam onze meses pela frente até querermos dormir outra vez. Onze não, dez, que agora o Natal começa em Outubro, como se vê pelas montras, fodido isto. Quando a gente se impõe uma perda, tudo na vida muda de repente. A diferença em relação às outras perdas, àquelas que nos são impostas, é que quando somos nós que as queremos, ao princípio tudo são ganhos, vantagens, benesses futuras. Como se, por mudarmos, mudássemos imediatamente para melhor. Perdemos uma vida mas ganhamos logo outra; abdicamos do nosso lugar numa hierarquia familiar estruturada segundo regras de anos e fazemo-nos à vida lá fora. De repente, uma perda é parecida com estarmos de férias, tudo é fresco, tudo é novo, a liberdade é quase eufórica, o mundo espera-nos e acolhe-nos. Mas, passados alguns meses sem que nada de extraordinário aconteça, as férias começam a prolongar-se para além do desejável. E a gente sente um apelo desgraçado pela rotina que perdemos, pelo rame rame de que fugimos, e começamos a ter saudades das pessoas e de tudo o que um dia, resolvemos - depois de muito pensarmos e sopesarmos - deixar para trás. É como se, depois de algum tempo a olharmos em frente e só em frente, começássemos como quem não quer a coisa a espreitar à socapa por cima do ombro. Será que fiz bem? São perigosos, estes estádios intermédios, de limbo, tenho perfeita noção disso. O canto da sereia que é o regresso ao status quo é muito poderoso e alimenta-se das incertezas e das pequenas desilusões. Felizmente, a minha memória longínqua é bem mais eficaz do que a imediata, que já nem me lembro do que almocei hoje. Mas lembro-me bem, dos rios de insatisfação que corriam fundo por debaixo dos presépios gigantes, das árvores e das decorações imaculadas, das fogueiras de Natal e das missas do galo. Lembro-me, principalmente, das palavras que, nos últimos anos, ficavam sempre por dizer. Por isso sei que, apesar das alegrias que tive e que foram muitas, não quereria voltar àqueles natais tão perfeitos. Se calhar, este ano os enfeites serão diminutos, haverá poucas estrelas, azevinhos e singalongs; e se calhar, o rat pack e o king´s college choir nem chegarão a este blogue: a perda que me impus (e que se estendeu a todos aqueles de que mais gosto, o que é a parte fodida) torná-los-ia insuportáveis. E a liberdade, mesmo que agora me pareça sobrevalorizada, trouxe-me ao menos uma coisa de que já não abdico: a verdade. Só entende isto quem já perdeu pessoas, momentos, partes importantes da sua vida. No fundo, o que eu queria dizer é uma coisa que nunca ninguém pensou em ouvir-me dizer: christmas sucks e temos pena.
a maioria absoluta de Costa em Lisboa.
" Eu podia ser uma história má daquelas que se têm que repetir a toda a gente que aparece. Como um desastre em que toda a família quer saber pormenores. Só que há um filho que se ri demasiadas vezes para ser infeliz. Sou capaz de me aguentar anos a fio para lhe encher os olhos de boas recordações. Para isso e para lhe dizer o que vale a pena, ou não, guardar lá de casa. (...)"
O João, que distribui pérolas com uma parcimónia intolerável.
Ainda não li nenhuma reacção blogoesférica ao Nobel de Obama, parece que há muita gente contra. Eu, que se fosse norte-americana provavelmente nem teria votado nele, achei bem. Independentemente daquilo que ainda não fez, porque não pode, porque não teve tempo ou porque mudou entretanto de ideias, o homem criou uma vontade unânime de paz, uma boa onda universal, uma consciência colectiva momentaneamente dirigida para o bem. E isso é mais do que alguns dos que já ganharam este prémio se podem gabar.
Entretanto, o Dan Brown (DB) Já foi. O tom pró-americano que perpassa todo o livro é francamente irritante; os monumentos são os melhores do mundo, os museus têm mais obras de arte do que todos os outros juntos no mundo, os obeliscos são os mais altos do mundo, os avanços científicos os mais importantes do mundo, e por aí fora. Em cerca de umas boas centenas de páginas, DB reduz a Europa a uma res nullius histórica. Parece que, depois das aventuras europeias, há que acarinhar especialmente o leitor norte-americano, intrinsecamente patriótico e ignorante além-fronteiras. O livro começa bem e agarra, mas rapidamente se torna, em vários aspectos fulcrais, demasiado previsível. E depois há as incongruências do argumento; detectei algumas, mas não as vou revelar agora, para não ser spoiler, o livro ainda nem sequer saíu em português, poucos o devem ter lido. Lê-se de um trago, é certo, mas só porque estamos até ao fim à espera de uma reviravolta, de uma surpresa, ná, não pode ser só isto. Mas é. Fraquito, portanto. Agora já estou agarrada ao Bolaño, embora a volumetria me desanime, tanta página, credo. Sim, porque eu embarco totalmente nas modas e sou demasiado cusca e influencável para não querer meter o bedelho naquilo de que os outros tanto falam. Pelo sim pelo não, comprei também o último do Lobo Antunes, a ver se é desta que consigo ler um livro dele até ao fim e abstrair-me da criatura insuportavelmente vaidosa que o escreve.
Costumo detestar versões das músicas de Amália; de repente, sintonizo a RTP 1 e ouço a Teresa Salgueiro a cantar Estranha Forma de Vida, o fado mais bonito de sempre. E gosto. Teresa Salgueiro continua a ter uma das vozes portuguesas mais bonitas que conheço, apurada, doce e cristalina E é bonita, ela mesma, quando canta. A milhas das feias caretas de Mariza, que me distraem da sua magnífica voz, que eu não sei porquê me agride a sensibilidade, em especial quando grita e espalha a boca pela cara. Ouço a Mariza e só penso na sua feiúra, naquela cara angulosa e espetada. Não gosto dela, aliás, não gosto de fado nem de nenhuma daquelas miúdas queques, meninas-família de apelidos sonantes, que usam e abusam dos chailes, brincos e de toda a farafernália fadista em geral, esgares tortuosos em especial. Gosto da Carminho, a Carminho é diferente, aquilo é o coração na boca; já me pôs a chorar, como a Amália põe. A Amália põe-me sempre a chorar, quando vou no carro e calha em sintonizá-la, mudo de estação, não consigo ouvi-la assim, a seco, por entre a cacofonia da cidade que me entra pela janela. E de olhos mareados a condução torna-se perigosa. Não sou purista, sou a favor de versões novas de coisas antigas, de versões novas de coisas novas, há lugar para tudo e para todos. Mas quando se reinventa a perfeição o que se consegue é, invariavelmente, ficar uns degraus abaixo dela. Alguns ficam mais abaixo do que outros, no entanto. Aquela coisa do Amália Hoje, por exemplo, que já vendeu não sei quantos milhares e até trás orquestra sinfónica e tudo, está no subsolo.
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