Domingo, 29 de Abril de 2012
Muito, muito ricos

A Ministra da Justiça é uma boa ministra. O que confirma a minha tese: os ministros deviam ser inteligentes e ricos, ou seja, terem fortuna pessoal antes de entrarem para a política por forma a poderem decidir desinteressadamente. Evitava-se o nojo que é esse fenómeno do  carreirismo e isto de querem chegar lá cagando para os interesses do povo, ignorantes dos dossiês, debitando asneiras e gaffes a toda a hora, roubando onde podem e deixando-se corromper só para amealharem uns milhares de euros para poderem construir a vivenda Marisol no Ribatejo.



publicado por Vieira do Mar às 15:53
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Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
pornografia infantil

Fazendo um zapping entre foxes e axenes, descobri um programa extraordinário: "toddlers and tiaras". Já desconfiava que fosse sobre aqueles inenarráveis pageants com crianças, que se realizam América fora, mas resolvi espreitar e descobri a demência. A demência dos concursos em si mas, principalmente, a demência daqueles paizinhos.

A aberração divide-se por idades e começa pelos bebés. Pintadas como palhacinhas, vestidas com desconfortáveis folhos e cetins, cabelos armados cheios de laca, enfeitados a enormes fitas e flores, as crianças parecem marionetas tristes, assustadas com o barulho das luzes,  ao colo das mães babadas que lhes pegam nas mãozinhas para acenarem ao público.

Há várias categorias: os olhos mais bonitos, o cabelo mais bonito e por fim, a vencedora. Depois as dos dois anos. Metem dó. Ainda tropeçantes e sem qualquer consciência do que estão a fazer, mais uma vez tão pintadas e encaracoladas e acetinadas que  parecem aquelas bonecas de porcelana escondidas nos sotãos  que, invariavelmente, se mexem sozinhas porque contém espíritos malignos e assustam toda a gente, passeiam-se de mão dada pelas mães como cãezinhos à trela numa exposição, bem escovadas e, no geral, bem treinadas. Uma leva uma sapadela subtil porque meteu o dedo à boca, para o chuchar. Dois pontos de penalização.

Nas dos cinco anos já a coisa começa a roçar a violência infantil e o abuso sexual. Literalmente empurradas para o palco, entregues a si mesmas, com fatos sexy de adultas, muito trashy, sapatos com salto, parecem umas pequenas prostitutas a quem lhes foi dito que abanassem as ancas o mais possível e que colassem os sorrisos à cara (uma das mães, aliás,  di-lo literalmente). O mesmo se diga das dos sete aos nove anos, onde concorre uma pequena badocha de tratamento caseiro que não tem qualquer hipótese contra as outras concorrentes, tubarões profissionais há anos nestas coisas e que carregam atrás de si, além de mães e pais tarados, uma equipa de cabeleireiras, maquiadoras e treinadoras de postura.

A crueldade daqueles pais rústicos ao meterem a miúda simplória no meio daqueles cânones de beleza futura é insuportável de se ver. Sem qualquer treino, tropeça nos sapatos, anda pelo palco como uma patarata até o sofrimento (dela e nosso) acabar e dar lugar à entrada de uma call girl em ponto pequeno, já um bocadinho arredada da inocência, certeira nos requebros, nos piscar de olhos sensual, no chamamento da multidão com um gesto de assédio de cariz sexual. Estou à beira do vómito.

No fim, as entrevistas. A badocha, desiludida que mete dó, agarra-se aos anormais dos pais, que choram com ela, em vez de a animar. Desiludiu-os (como não o poderia?) e eles cobram-lhe por isso. Cabrões. As dos bebés exibem as suas assustadoras bonecas de porcelana, alisando-lhes os folhos dos vestidos para a fotografia, e as de 5 e 9 anos, com arremedos de auto-determinação, apressam-se a libertar-se dos saltos e dos vestidos, enquanto se queixam de que lhes doem os pés, algumas nitidamente cagando e andando para se ganharam ou perderam.

Tudo isto se passa num dos maiores países do mundo, anquele que manda em quase todos os outros, os US of A. Eu sei que é um país de contrastes e tal, que enquanto descobrem a cura para o cancro, em liceus do interior darwin é proibido e eva nasceu da costela de adão, mas  porra, se dão 25 anos a perpétua a um gajo que roubou, se obrigam os agressores sexuais que cumpriram pena a afixar pela vizinhança quem são e o que fizeram, como admitem este tipo de violência infantil, pornográfica, que força as miúdas a fingirem uma maturidade sexual que não têm, uma idade que não têm,  como se os paizinhos e a tropa que se move à volta daqueles concursos fossem simples voyeurs excitados?

Podemos ser atrasadinhos, pobres e comidos sucessivamente pelos governos, pelas troikas, alheios ao nepotismo - uma carneirada silenciosa, vá. Mas cá, facilmente encaixaria esta merda num ilícito criminal ali algures pelo Capítulo V do código Penal, garanto-vos.



publicado por Vieira do Mar às 13:03
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Domingo, 25 de Março de 2012
dos amigos (ou dos não-amigos)

De um amigo exige-se duas coisas: que esteja lá quando é preciso, seja de que maneira for, e lealdade incondicional. Isto não significa que um amigo nos defenda sempre perante os outros, em especial quando estamos errados, porque um amigo, como ser humano que é, tem uma consciência que formiga.

Mas um desacordo entre amigos exige recato, pudor, afastamento dos outros, gritos em privado, zaragatas, silêncios que ficam com cada um dos amigos e reconciliações a dois. Porque os amigos não deixam de o ser. Só quando andaram a fingir que o eram e, por qualquer razão, se mostram subitamente como não-amigos.

Uma relação entre dois amigos tem regras, como qualquer outra relação humana que une pelo coração duas pessoas diferentes que devem entender o que as divide, integrando essa fractura na própria amizade, como um osso partido e regenerado. A primeira dessas regras é ouvir o amigo antes de todos os outros, para evitar juizos apressados e mal-entendidos.

Não se exige a um amigo de um amigo que também é nosso amigo que tome partido. Exige-se que se afaste de uma relação que lhe é exterior e que no máximo, aconselhe e concilie, para bem de ambos os amigos.

Acima de tudo, há a regra que obriga ao Amor, querer bem ao amigo e vice-versa. Se tudo discorrer tão simples assim, como o fluir de um rio, as outras regras nem precisam de ser enunciadas.

A invasão do virtual veio perturbar as regras do jogo dos amigos. Não existem amigos apenas virtuais, mesmo que a distância nos liberte do crivo do pudor e nos leve a confidenciar-lhes o que mais íntimo temos. Estão fisicamente longe, logo, achamos que não há mal fazê-lo, que não haverá qualquer intromissão na nossa vida real. Que estamos longe do escrutínio crítico de quem verdadeiramente nos conhece.

Só que nada cria laços como o toque, os beijos, os abraços, os olhos nos olhos, as dores sofridas a dois quando estamos em apuros. Se o suposto amigo não conhece na verdade o outro suposto  amigo, os coraçõezinhos, os likes, os elogios, os blinks, as palavras de elevação moral, valem zero. Bites e bytes.

Os não-amigos virtuais, os que fingiram sê-lo (por interesse, engano, admiração, inveja, voyeurismo), são perigosos, tóxicos, porque, ao saberem demais sobre a nossa vida pessoal (por negligência, distracção, conveniência ou credulidade nossa), minam as amizades reais, são dalilas que cortam a força que une os amigos quando estes não estão a olhar.

Gosto de pensar nas amizades que foram cerceadas pela intriga alheia como um interregno, porque um amigo não deixa o ser, fica apenas ferido, magoado, a lamber as feridas até sararem e se sentir pronto à reconciliação, que mais não deve ser do que um retomar.

Eu continuo a gostar de amigos que me foram desleais. Na verdade o coração não se atém a regras, tem vida própria. E então entro em contradição: se é desleal, não é amigo. Pois não. mas eu continuo amiga do meu amigo. Pronta a acorrer-lhe se precisar. Ninguém disse que a amizade tinha de ser bilateral, embora só seja plenamente satisfatória se o for. 

Esta perenidade do sentimento de amizade em relação ao amigo que não perdoa, que finge que não se interessa, faz de mim uma pessoa melhor embora me confira uma certa sensação de superioridade, confesso. Não sou eu quem fica a perder e, mais do que isso, estou em paz comigo mesma e com aquele de quem sou amiga. Já este não poderá dizer o mesmo.

 

Disclaimer: qualquer semelhança deste post com pessoas reais é pura coincidência.



publicado por Vieira do Mar às 00:24
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Segunda-feira, 12 de Março de 2012
ah! que saudades de escrever neste blogue...

... mas agora não dá. ando a escrever noutros lados. mas em breve terão notícias minhas. até já!



publicado por Vieira do Mar às 00:02
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Domingo, 11 de Março de 2012
ou quando acontecem as duas coisas com o mesmo desconhecido

"Se um desconhecido me tentar saltar para a cueca eu percebo e até posso dar um jeitinho, se um desconhecido me tentar saltar para o disco rígido eu mando-o brincar com o seu próprio html em menos de um bit."

 

Teresa, cabra de serviço


 



publicado por Vieira do Mar às 23:40
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
conseguida a custo *

... a entrega temporária dos miúdos, encontram-se a meio caminho entre a casa dos avós e o escritório dele. Acorrem sem pressa à bilheteira e aceitam sem reclamar as sobras que a mulher sisuda do lado de lá do vidro lhes impõe. Afinal, é segunda-feira e chegam atrasados, não têm por que se queixar. Dão por eles nos lugares mais escondidos da sala mais recôndita de um megacomplexo recém-inaugurado, enfronhados no pesadelo neurótico-estático de um realizador nórdico muito premiado. Mergulhando os dois as mãos no balde das pipocas, lembram-se daquela vez em que aterraram também de chofre nos delírios onanistas de um outro realizador, este francês (só podia!), o que lhes vale um ataque de riso seguido de um chiuuu! sibilado do outro canto da sala. Parecia que, de cada vez que tentavam fugir, por uma hora que fosse, da esquizofrenia do seu próprio quotidiano, o acaso trocava-lhes as voltas e contemplava-os com a esquizofrenia dos outros, esparramada num ecrã gigante. Não é que achassem aquilo mau, aliás, quem eram eles para criticar o chamado cinema de autor, eles, soberanos incontestados das matinés walt disney presents. Mas fazia-lhes espécie, aquela ausência de ruído das emoções dos personagens, que os obrigava a deitarem-se a adivinhar. Às tantas, algures entre um divórcio e uma tentativa de suicídio filmados em tons sépia, ele sussurra-lhe, o que me apetecia mesmo, mesmo, era um big mac... Ela sacode uma pipoca colada no canto da boca e, sem se dar ao trabalho de fingir-se enjoada com a sugestão, como teria sido politicamente correcto, atira-lhe um sintético, bora!. Enquanto, no ecrã, a neve cai e os personagens se abrigam em monólogos que se pretendem diálogos, eles dão-se as mãos pegajosas, levantam-se e furam sem cerimónia a circunspecta fila, deixando atrás de si um lastro de desculpas não aceites. No corredor e a caminho da porta, por entre fiapos de escuridão e luz, ela arrisca, queres namorar comigo? Ele entra no jogo, está bem mas só esta noite. Acabam empoleirados em dois bancos altos de fórmica, rodeados de putas e chulos, a lamber ketchup dos dedos e a recordar episódios do Seinfeld. Nessa noite, não pediram três happy meal com cheese natura, dois para rapaz, um para rapariga. Mas arrecadaram o brinde.

 

* dado que me apagaram o controversa no blogspost vou fazer de vez em quando reposts dos meus textos mais antigos.



publicado por Vieira do Mar às 00:21
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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Aos...

Aos que namoram  e acabam todos os dias e à vez, presos nos desmandos conciliatórios da juventude; aos miúdos que limpam o ranho com o bibe enquanto espreitam a miúda loura que dá uma cambalhota no recreio; aos que têm medo de se aproximar delas, às que têm medo de se aproximar deles; aos que se uniram pela primeira vez, num amplexo furtivo e desajeitado; aos que precisam de respirar o mesmo ar senão  morrem;  aos que já se uniram tantas vezes que sabem descrever o outro no escuro; aos que estão apartados, e usam o twitter, o face e os chats e que com as palavras se juntam; aos que se chateiam e partem pratos, e gritam e choram e depois se lambem as lágrimas; aos casais presos por um fio; às almas gêmeas separadas pelos atritos do dia; aos que se oferecem peluches foleiros e aos que os recebem como se diamantes;  aos casais roliços que passeiam de mão dada no shopping com fatos de treino a condizer; aos velhotes rezinguentos, que se amam negando sempre  a razão ao outro, em intermináveis arrazoados, que só eles entendem;  aos que se dão um beijo cansado à noite e no entanto adormecem entrelaçados; aos casais com filhos pequenos, que hoje jantam em casa mas não se importam, porque o mundo que aí vem é todo deles e da sua descendência;  às putas que amam os seus chulos, aos chulos que hoje lhes levam flores; às glorinhas à janela que beijam sentidas o seu príncipe imaginário; aos que acham que casaram para sempre, aos que casaram mesmo para sempre;  às mulheres que levam aos maridos as amigas para a fantasia a três; aos maridos que não vão tão longe e se ficam pela lingerie comestível; aos  viúvos que dormem abraçados ao cheiro  de quem se lhes morreu; aos casais entediados que acordam a meio da noite quando o outro tosse ou espirra; aos velhos que não contrariam as mulheres quando estas confundem a filha que os veio visitar com a empregada da casa;  às mulheres que mudam as algálias aos maridos e lhes dão a comida à boca e não lhes largam a mão enquanto eles fazem diálise; aos homens que não viram costas quando as mulheres lhes moem o juízo com aquilo que não entendem; aos  que por acaso ainda não se cruzaram;

 

às caras-metades que (ainda) não sabem que o são...

 

Um Feliz Dia.



publicado por Vieira do Mar às 15:51
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
olha que dois! uma pérola, isto.


publicado por Vieira do Mar às 13:24
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
a mamificação das massas (ou a massificação das mamas)

Aligeirando, vamos à lingerie. Mais propriamente ao sutiã. Ainda outro dia estava numa grande superfície (sempre quis usar esta palavra: grande superfície); uma loja daquelas para gajas, que são na verdade hipermercados de roupa mas que não envergonham ninguém porque até já fizeram nome e têm cenas com estilo e tal. Dirigi-me à lingerie, porque rebentara-se-me uma alça do sutiã. Saltaram-me logo à vista os ditos,  esponjosos por dentro e artificialmente sobredotados. Eu, que sou do antigamente e que, para além do mais,  não preciso de reforços de enchimento, vagueei, vagueei, à procura de sutiãs normais, daqueles de renda ou de algodão, sem engrossanços supérfluos. Debalde. Reparei que um sutiã copa B, por exemplo, nos faz parecer ter copa C ou D. No meu caso, copa EE (rapazes, googlai, nisto das copas). Comprei um dos insuflados porque não havia de outros e aquele até tinha umas florzinhas queridas. Um inferno. Quando saí da loja já parecia a Pamela Anderson, mas sem o resto do pacote (cintura 22, lábios grossos, longos cabelos oxigenados, prancha de salvamento, etc.). Antes de entrar em qualquer sítio, primeiro entravam as minhas mamas, como que a pedir licença. Ainda por cima,  os desgraçados são curtos em cima (para serem usados com grandes decotes), pelo que  as ditas estão sempre a saltar para fora e a pessoa a revirar-se, a esconder-se, a torcer-se,  para enfiar aquilo para dentro e  acomodá-las como deve ser, por entre camisola interior, camisolão, cachecol e casaco. Devorada por tudo quanto era trolha, balconista-não-gay (uma minoria, é certo) e bancário na hora do almoço, consegui chegar a casa viva. E concluí  três coisas: primeiro, que hoje em dia nenhum exemplar do sexo feminino se contenta com aquilo que Deus lhe deu; segundo, que quem desenha aquilo só pode ser homem; terceiro, que as secções de lingerie das grandes superfícies são mais sex shops camufladas cujo objectivo é transformarem as teenagers em miúdas bregas e oferecidas, aspirantes a calendário de oficina,  e as mulheres de quarenta, em matronas igualmente oferecidas - mas sem direito a calendário, aparentemente acabadas de sair da clínica de implantes, em desespero de causa.

 

 



publicado por Vieira do Mar às 13:44
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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
o divórcio

Quase todos os meus amigos já se divorciaram; alguns, mais do que uma vez. Uns dizem que é como morrer alguém próximo, há que fazer o luto, pelo menos dois anos. Tretas. Há quem saia de um divórcio cantando e rindo e quem sofra penas por longos e largos anos. Por vezes quem mais sofre foi quem o quis; e não por arrependimento, mas porque sim. Porque sem esperar se perde demais, e a esperança, insuflada pela noção de liberdade, só nos incute a ideia de ganhos. Um divórcio é doloroso; dói de facto como a morte de um ente querido; ou melhor, de uma vida querida que acarinhámos até se transformar num inferno ou num nada, num vazio. E tem momentos de volta atrás, se decorre de um casamento que, em tempos, até foi feliz. Temos que nos esforçar por nos mantermos nas partes más, se não estamos aqui e estamos no mesmo. Um divórcio provoca truques na nossa cabeça, que continua casada mesmo depois dos papéis assinados;  porque é uma cabeça que, para lá do desinteresse do corpo,  continua casada com a vida que tivemos, a única que conhecemos, e não com a pessoa em si. Muitas vezes, o outro  é o menos importante e o mais fácil de esquecer. O luto pode estender-se por anos; num lágrima a despropósito que corre pela cara  de  um filho, que só nós sabemos porque está lá, numa torneira por arranjar, numa ceia de Natal partida ao meio, numa viagem só para quatro, numa cama king size só para um. É  um processo de libertação e, ao mesmo tempo, de desconfiança. Interrogamo-nos muitas vezes para que serve a liberdade que ganhámos  - e que nos sabe tão bem – mas  desconfiamos do futuro, e se poderá alguma vez bater o passado, quando ainda era bom.  Um divórcio é um compasso de espera para os optimistas e uma experiência a não repetir, para os pessimistas. O acto de assinar os papéis é absolutamente simbólico; o que todos guardam é quando um deles  sai de casa de malas na mão, para não voltar. Consoante as situações, instala-se o vazio, o alívio ou o desespero. Às vezes, as três coisas juntas. Toda a casa nos lembra quem partiu, mesmo que tenhamos sido nós a desejar a partida (...quando vem o teu cheiro, dentro de um livro). A culpabilização é enorme, quando existem filhos, mesmo quando foi o outro a sacanear-nos por todos os meios. Os filhos de um divórcio, nos primeiros tempos,  são o fracasso a olhar-nos nos olhos, e esta impressão desvanece-se lentamente. Eu acredito que quando as pessoas se casam é porque se amam. E que, se se divorciam é porque se deixam de amar, apagando  nos filhos o selo de garantia que lhes estampámos quando nasceram: “Aqui está o fruto do nosso amor. Marca registada”. Dizem-me, vezes sem conta,  os miúdos adaptam-se, os meus estão óptimos, são os maiores amigos do meu novo companheiro, têm boas notas, nunca deram trabalho, não precisaram de psicólogo, eu e o meu ex damo-nos bem o que é bom para eles, gostam muito do novo irmãozinho. Mas, não esquecer: para eles, até em adultos, o pai era para ter ficado com a mãe e a mãe com o pai. Que tinham obrigação de se ter entendido. Por eles, que não pediram para vir ao mundo. A nossa sorte é que os nossos filhos gostam muito de nós, independentemente dos disparates que façamos, e fingem que se fartam só para verem em nós uma centelha da felicidade de que se lembram de quando os pais ainda eram casados, mesmo que estejamos com outras pessoas,  eternos estranhos para eles.



publicado por Vieira do Mar às 15:15
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