Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


analyze this (or not... who cares?)

por Vieira do Mar, em 13.05.13

Esta noite sonhei que havia uma revolução. Uma revolução de um povo irado, mesmo, nada de chaimites, nem cravos, nem soldados sorridentes com criancinhas às cavalitas. À porta da minha rua,  os polícias, que eram todos robocops dotados de uma força sobre-humana, atiravam pessoas à distância como anões bala e disparavam cenas de borracha que mais pareciam bolas de beach ball, mas doíam, segundo os ais. De repente, vejo-me de pendura num motard (estes hiatos nos sonhos que resolvem as partes absurdas dão sempre jeito), cuja cara não vi mas que era seguramente giro, porque até nos meus sonhos mais alucinados existe alguma coerência, calma aí. Estranhamente, a ideia era partir os bancos todos, e não derrubar o governo (por bancos, leia-se instituições bancárias e não bancos de jardim embora esses também já voassem). O meu motard não dizia uma palavra, mas voávamos em fúria para o covil do lobo; ele era túneis, corta-mato e saltos em ghost rider mode, a caminho da Av. da Liberdade. Lembro-me que ia cheia de medo, mas determinada em partir aquela merda toda. Quando lá chegámos, o ambiente era de pura  guerrilha urbana. Às tantas, começo a pensar, agarrada ao motard, tipo coelho da Alice: “Ai que estou atrasada, estou atrasada, tenho que ir trabalhar!”. No momento seguinte (mais um hiato que deu jeito) estava num táxi (partilhado com outra revolucionária desistente, sendo que o que eu queria era outro revolucionário giro com idêntico dilema existencial,  mas hey!, nos sonhos não se pode escolher), a implorar ao taxista  que me levasse ao serviço;  e ele, “Menina, já não dá para voltar ao Marquês, aquilo está cheio de gente à tareia!, mais vale seguir até à 24 de Julho”, e eu “siga, siga, mas despache-se!”, com mais medo de não picar o ponto na repartição do que levar com uma das balas que zuniam sobre a minha cabeça. Infelizmente, isto diz muito sobre mim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

putcrimonskin

por Vieira do Mar, em 22.04.13

Começou o Big Brother Vip. Nunca escondi que sou estranhamente atraída por certo tipo de lixo televiso no qual as pessoas mostram o pior de si. Ou é a sopeira que há em mim ou um genuíno interesse antropológico (ou uma sopeira com pretensões a psicóloga, quiçá). O Big Brother Vip é, como o nome indica, com “pessoas famosas”. “Pessoas famosas” são pessoas exactamente iguais às das edições anteriores, ou seja, anónimas, que ficaram conhecidas por, precisamente, terem passado por reality shows ou tido 15 minutos de fama na tevê e revistas. A diferença está apenas no polimento. Elas são as mesmas kátias vanessas do Porto e da linha de Sintra, mas com pele e cabelos tratadinhos e vestidinhos de marca. Eles são os mesmos marcos musculados da margem sul e os mesmos gays encapotados de origens elípticas; embora todos com um discurso inicial mais contido de quem tem “uma imagem a manter” (hahaha). E depois há o zezé camarinha, esse personagem atípico e fascinante, um espécime sui generis que aparece como uma espécie de crooner burlesco, no seu fatinho imaculado e discurso respeitoso, agora a tentar deixar para trás o putcrimonskin da pila que trazia atracada a si um pescador ignorante. A Teresa Guilherme, usualmente brilhante no género, está mais grosseira que nunca, a roçar o ordinário, com as insistentes graçolas sexuais, esquecendo-se de que, apesar de quase ninguém conhecer os concorrentes (para aí a décima quinta escolha de “famosos” que se prestaram àquilo porque precisam do dinheiro e de mais “fama”), os mesmos já aprenderam qualquer coisita e não se vão desbundar logo à primeira, como a kátia márisa, que chega de além Douro, assanhada e de perna aberta porque lá na aldeia os velhos ainda preferem cabras. O interesse da coisa, então? Bom, para quem gosta de sangue, como eu, há aqui uma “esperteza” da produção que me parece infalível: primeiro, separar os “famosos” – metade numa casa ikea pseudo chique, e a outra metade num “barracão”, sendo que podem comunicar entre si, acicatando desde o início o ressaibo e a inveja. E last but not least: aquela malta conhece-se quase toda de outros carnavais. Aposto que mais de metade se odeia entre si. Quando o verniz estalar e as chanatas, as tatuagens, os sotaques e as raízes pretas dos platinados delas aparecerem, aquilo vai ser uma mistura de chuck norris (sem ofensa, sabes que te adoro, chuck!) e neo realismo italiano, fase favelas. Podem vê-lo por qualquer prisma: como instrutivo ou como puro entretenimento. Mas podem ver. Eu prometo que não digo a ninguém. Afinal, todos temos uma reputação a manter, não é? Quanto mais não seja para nós próprios.

Autoria e outros dados (tags, etc)

timeline

por Vieira do Mar, em 12.04.13

Sai de casa dela à pressa; desprendem-se num beijo fugidio, que já lá não está e ainda as bocas juntas. Ele entra no elevador e já é outro. Atira-lhe um aceno rápido e foge com a mão antes que a porta se feche, olhando-se no espelho para se saber apresentável, compondo a alma desalinhada e a gravata torta. Sai para a rua e é já o profissional, o amante obliviente, a pegar pelos cornos a vida que escolheu para si. Deixa-a pela casa a apanhar do chão as réstias de ambos,  insatisfeita e mal amada, embora tenha esboçado um sorriso doce quando ele saiu, como se fosse a mulher a encaminhá-lo para mais um dia de trabalho, até logo querido. Vai à janela fumar um cigarro, o cheiro dele ainda nos dedos que leva aos lábios, confusa com a rapidez a que o mundo, mais uma vez, se moveu sem sair do lugar. É sempre o mesmo. Um café, a conversa de circunstância, dois amigos sem vestígio de qualquer sensualidade latente, nenhuma provocação sexual, nada.  Só quando se aproxima a hora de ele se ir embora é que cedem à urgência e passam de interlocutores civilizados a seres gulosos e primitivos. Sem preparo nem aviso. Só então o tempo lhes urge, selvagens. Ela fuma. Dois minutos e ele já distante, noutro continente. Nunca lhe diz nada, depois, num perverso paradigma emocional. Um dia? Uma semana? Um mês? Vai ser como ela quiser. Ou ele, às vezes. Sente uma inquietação directamente proporcional à violência com que trava e engole o fumo até à beata, que larga quando esta lhe queima os dedos. Revê-o a lavar-se à pressa, a pedir-lhe uma toalha da casa de banho enquanto ela, ainda na cama, ajeita as rendas da combinação e se toca entre as pernas húmidas, sem tesão nem intenção, apenas porque espera. Segue-o enquanto ele se veste, com olheiras de carneiro mal morto, ofuscada pelo sol da manhã que teima em tirá-los do escuro onde deveriam ficar para sempre. Não deviam nada. Cai-lhe uma alça como um bater de pestana, olha para os pés, escolheu o verniz errado, solta-se-lhe um fio de cabelo emaranhado. Pensa no beijo maldoso com que ele lhe entrou em casa, de revés, ao canto da boca: um prelúdio de promessas que não pretendia cumprir. Azar. Sente-se estranhamente fria, nada lhe dói, anestesiada ainda. Acaba de sorver o terceiro cigarro e telefona-me. Tem a voz calma, vagamente jocosa.

- Sofia?, pergunta-me.

- Oi! Estás bem?

- Sim, mas vamos almoçar outro dia.

- Porquê?

- Porque hoje não fiquei triste e vou ficar a pensar no porquê disto o dia todo.

- A pensar nele, queres tu dizer...

- Não, não é isso, desta vez foi diferente.

- …

- Nesse caso, liga-me logo à noite quando te cansares de chorar.

- Ok.

Autoria e outros dados (tags, etc)

os pais dos outros

por Vieira do Mar, em 19.03.13

 Os pais dos outros são muitos e este dia não é para todos. Não é para os que nunca se levantaram sonolentos aos trambolhões para acalmar o filho, não é para os que nunca lhe mudaram uma fralda, massajaram as cólicas, lhe enfiaram um bebegel ou passaram uma noite nas urgências embrulhados com ele numa máscara de oxigénio. Este dia não é para pais que nunca deram um banho ao filho, ou que não tomaram banho com ele, deixando a casa de banho num amoroso caos enxarcado. Não é para  os que nunca ensinaram, nem partilharam nem brincaram ou embarcaram em fantasias exóticas de soldados e lutas e dinossauros e corridas no chão de um T2; nem para os que só abraçam o filho para a fotografia em cima da lareira ou partilhada no facebook. Não é para os que exigem aos filhos o que nunca exigiram a si mesmos, projectando nestes as suas ambiguidades e frustrações, fazendo-os carregar consigo peso do mundo. Não é para os que fogem, recriminam e se ofendem quando as crias os desiludem e não correspondem às expectativas do que nunca foram. Não é para os que tudo permitem porque assim é mais fácil, nem para os que compram o seu descanso com playstations e viagens. E muito menos para os amorfos robotizados, de amantes ao almoço,  que chegam a casa, se sentam,  e vão mudando de canal até as palhaçadas solitárias dos filhos se esgotarem de cansaço. Não é para os que fingem não ter bens para escapar à pensão de alimentos, nem para os que nunca olharam uma ecografia sem se embargarem com a imagem daquele girino de olho enorme e coração pulsante de vida, que os espreita expectante. Não é para os que nunca ajudaram num trabalho de casa, nunca foram a uma reunião da escola, nunca os repreenderam por causa das notas, nunca os abraçaram, orgulhosos, dizendo-o bem nos olhos deles que o estão,  para que não fiquem nunca  na dúvida. Este dia não é para os que, bêbedos, batem nas mães, por vezes nos filhos, nem para os que o fazem sem sequer beber. Não é para os que põem entraves quando não detém a legítima autoridade que lhes advém de fazerem parte da solução e não apenas do problema. Não é para os que fazem dos filhos matraquilhos nos campeonatos regionais das separações; nem para os que os desprezam só porque desprezam o útero que os gerou e que agora os repugna. Este dia é para os outros PAIS que não estes: os biológicos, os padrastos, os padrinhos, os tios, os avôs, as mães que são mãe e pai. Este dia é para o meu PAI. E para mim, que também sou pai.

Autoria e outros dados (tags, etc)

mais uma letra na caligrafia dos dias

por Vieira do Mar, em 13.02.13

http://umamoratrevido.blogs.sapo.pt/54563.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

make up sex with my other blog

por Vieira do Mar, em 29.11.12

lacuna imperdoável

Autoria e outros dados (tags, etc)

passeai, flores...

por Vieira do Mar, em 28.11.12
Diálogo entre mãe e filha de 19 anos:

- Mãe, tens um livro do... do Proust, acho que se chama "Do lado de Swann"?

- Tenho, é o primeiro volume do "À procura do tempo perdido". Para que é que o queres?
 
- O professor disse que temos que o ler. E depois fazer um trabalho de interpretação.
 
- Ahahahahaha!
- ...

Autoria e outros dados (tags, etc)

o sonho sem trela

por Vieira do Mar, em 27.11.12

Tivera um sonho estranhíssimo. Sonhara que era uma marginal, talvez adolescente, que saía de casa às escondidas com propósitos prevaricadores, embora indefinidos. Lembra-se de um assalto, de fumar charros com a seita num cais à noite, de ouvir o mar a bater contra o molhe velho de cimento e ferro, o tom alaranjado da ferrugem a aparecer, acicatado pela lua cheia, enquanto o resto tudo negro, caras em esboço, risos intermitentes. Lembra-se do sexo com outra mulher dentro de um volkwagen carocha, que por acaso era um das suas melhores amigas da adolescência, não sabe qual. Estava sentada sobre ela no lugar do passageiro, e era uma mulher-homem pois enterrava-se na outra, embora o seu prazer fosse de mulher: uma explosão concêntrica que se esvai, difusa, até ao ponto mais afastado de si, como uma pedra que cai à água formando círculos cada vez mais largos. Isto pensou ela mais tarde,  pois não sabe como se manifesta o prazer no homem, apenas o imagina mais concentrado no membro do que nos recantos menos diagnosticáveis do corpo. Depois, o cenário mudou. Estava na casa dos pais, havia muita gente e ela era responsável por tudo. Por uma estranha razão, daquelas que só existem nos sonhos porque não se sabem, viera muita gente para almoçar, inclusive o seu patrão que, afinal, era amigo do seu pai. Como se a emancipação feminina não existisse, todos clamavam pelo almoço e ela, aflita por cumprir os seus deveres, sai à rua levando o pequeno cão nos braços e, de repente, está numa espécie de charcutaria atulhada de gente, onde todos se empurram para serem atendidos no talho. Na espera, solta o cão e este desaparece. Durante uma eternidade de sonho, segundos na realidade,  procura desesperadamente o bicho debaixo das cadeiras, das mesas, dos armários, gritando o nome dele acima do sururu da multidão. As emoções sucedem-se: a culpa, a aflição, o desespero. Lembra-se de pouco mais, excepto do barulho e da multidão crescentes; da culpa e vergonha de falhar com o almoço e da sensação de o cão lhe ter ido para sempre. Foge-lhe a terra dos sonhos debaixo dos pés e acorda com o coração na boca, de olhos esbugalhados para o outro lado da cama onde o cão dorme, impávido e indiferente ao turbilhão emocional da dona. Ela arrasta-se pelos cobertores até o alcançar e abraça-o, quase esmagando o seu pequeno corpo, arrancando o bicho de um sonho que provavelmente apenas metia campo, margaridas e a perseguição de borboletas. Estrafega-o e ele debate-se, assustado pela urgência furiosa daquela pessoa que habitualmente o protege dos medos. Levanta-se e, sempre de bicho contra si,  vais aos quartos ver se está tudo bem, como uma freira aos dormitórios e constata que os filhos e os amigos dormem pesados, uma multidão de sábado à noite que sempre cracha no chão livre da casa. Psicanaliza-se rapidamente, apaziguada a onírica perda, e percebe o apelo da delinquência tardia e de deixar as responsabilidades para trás: cereais às sete da manhã, picar o ponto às nove, o flirt respeitoso com o colega do lado, a tia dos amigos dos filhos, a cozinheira de caserna, a chófer dos sábados à noite, o tailleur, o avental. Ficara-lhe, no entanto, uma coisa por explicar: ela, um homem de violência penetrante num carocha desconhecido e o prazer de mulher com uma mulher da sua infância, as virilhas ainda molhadas enquanto estrafega o canito. Mas isso ficaria para depois. Agora, era os cereais com leite e passeá-lo à rua. À trela, desta vez.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

drama queen forever

por Vieira do Mar, em 20.11.12

ladyhawke.

Autoria e outros dados (tags, etc)

porque posso

por Vieira do Mar, em 16.11.12

Comentários abertos. Digam tudo o que vos vai na alma. Aviso que só não publico anónimos cobardolas. De resto, vale tudo. Força! ;)

Autoria e outros dados (tags, etc)

thumbs up for a change

por Vieira do Mar, em 15.11.12

Este blogue é muito bom.

Autoria e outros dados (tags, etc)

o empecilho das palavras

por Vieira do Mar, em 14.11.12

 

http://umamoratrevido.blogs.sapo.pt/53578.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

quando quase me esqueci de ser puta*

por Vieira do Mar, em 09.11.12

Lembro-me vagamente de me abordares. Já tinha snifado uns riscos para aguentar alegre o pesadelo de mais uma noite. E bebido uns copos, também, com as minhas colegas de desgraça, irmãs de sangue, abalançados com uns tremoços na tasca da esquina, a esquina onde atacamos, antes de sermos atacadas. Tinhas no olhar um desespero de fome que me meteu medo e que ao mesmo tempo quis decifrar, para ver se igualava o meu. Levavas uma garrafa de whisky na mão como se agarrasses um filho pequeno a atravessar a rua, e tinhas um pequeno corte num dos dedos, que não soubeste explicar. Meti conversa a ver se me te vendia, mas estavas incoerente e agreste, ao mesmo tempo que me enrolavas os cabelos louros com o dedo ferido. Tive pena de ti. E tesão. Pelo teu ar despenteado, pela barba por fazer, pelo teu olhar além, no infinito das coisas. Perguntei-te onde moravas e acompanhei-te a casa com a bondade de uma freira, esperançosa de que não tivesses bebido tanto que não o conseguisses pôr de pé. Tirei folga de mim própria, naquela noite não queria dinheiro, queria mergulhar mais e mais no nada, mais do que quando era esbofeteada e a minha cabeleira oxigenada arrastada por camas piolhosas, por clientes sem cara. Pareceste-me então o parceiro ideal para a escuridão. Fomos bebendo pelo caminho, apoiando-nos um no outro, e quando chegámos a tua casa despimo-nos como se a roupa que trazíamos fosse radioactiva, atirada para um canto, para desinfecção. Investiste contra mim com as dores de todos os mártires pulsando em ti; ambos perdidos, tresmalhados, à procura de um bocadinho de alma nos recantos molhados do outro. É claro que nada encontrámos. Eu, como sempre, fingi que te amava e que me vinha – só assim suporto o que faço, o que me fazem – e acariciei-te os caracóis como uma noiva, quando adormeceste enroscado numa qualquer parte sufocada do meu corpo gasto. Pouco tempo depois, como se o inconsciente nos mostrasse a verdade, demo-nos as costas e afastámo-nos para cada canto da tua cama. Quando acordaste e te ouvi pegar na garrafa e emborcar o que dela  restava, fingi-me dormida. Sóbria e ressacada, senti nas minhas costas o sopro do teu coração gelado e nem me atrevi a mexer. Só quando ouvi a tua respiração pesada me levantei e, pé ante pé, enfiei desastradamente a minha roupa barata e saí sem bater a porta. Nas escadas, pensei: “Foda-se, podia ter-lhe roubado a carteira”. 

 

*para um amigo

Autoria e outros dados (tags, etc)

make up sex with my blog

por Vieira do Mar, em 05.11.12

 

 

Downton Abbey é a série do momento. Caiu no goto de muitos, em especial dos quarentões saudosistas (como eu) de Bridshead Revisited ou Upstairs, Downstairs, antigas séries de época que, pela sua minuciosa reconstituição, excelentes actores e boas histórias (a primeira, baseada no excelente romance de Evelyn Waugh), foram no seu tempo uma pedrada de bom gosto no charco dos kits, macguivers, e séries de god cops/bad cops que inundavam o ecrã (nada contra, vi-os todos). Uma espécie de livre-passe para a dita intelectualidade portuguesa, que tinha vergonha de admitir que via televisão, esse ópio do povo. Hoje os tempos são outros, há séries americanas excelentes, mas o flair nostálgico que suscita o modo de vida da nobreza inglesa de outrora continua a fascinar: ele é a paisagem, o labrador, os rituais familiares e sociais, os diálogos irónicos e subtis em vez de uma boa peixeirada à americana no gueto, a rígida distinção de classes e a invariável mistura delas, porque afinal somos todos humanos, embora em teoria saibamos bem qual o nosso lugar. No todo, Downton Abbey é uma boa série, mas não tão boa como Bridshead, por exemplo, com o seu universo desviante e a premissa de devassidão moral que se escondia nas boas maneiras à mesa. Isto tudo para dizer que, sendo intrinsecamente de boa qualidade, corre o risco de se tornar insuportável devido a factores externos, como o merchandising que se está a gerar à sua volta. Pelo menos para quem, como eu, gira no universo facebookiano. Ele são t-shirts, banda sonora no itunes, livro de crónicas, aplicações várias (uma, por exemplo, permite explorar o palacete, divisão a divisão), calendários, DVD´s, com imagens e frases dos personagens favoritos, análises psicológicas dos mesmos, escolha o seu, encomende já, iadaiada. Se falarmos, por exemplo, de Family Guy e do personagem Stewie (quem não sabe temos, sinceramente, pena), num dichote ou pose perversos, tudo bem, tem um piadão e queremos comprar a t-shirt (ou não): faz sentido, pelo contexto. Neste caso, não bate a bota com a perdigota. Há um enxerto de contemporaneidade consumista que retira à série parte da sua magia, que é fazer-nos acreditar que houve em tempos um mundo em que as pessoas eram de facto assim, viviam e falavam assim. Se nos querem impingir a Lady Violet (uma condessa uptight mas espertíssima) numa t-shirt e fazem pools para votarmos se o mordomo Bates é ou não o "culpado" (até há uma petição que se pode assinar para que seja libertado!), se colocam fotografias desfocadas para adivinharmos quem é, uma série de época que se quer levada a sério passa a um reality show a fingir, cujos produtores querem é sacar-nos dinheiro, aproveitando-se da nostalgia romântica em que nos deixamos levar a cada episódio. Quanto a mim, tem um efeito contrário: ao ser bombardeada com as supostas complexidades da personalidade de uma criada e com a cara de um lord pespegada numa caneca, entro na realidade que é o séc. XXI, perco o interesse, e a televisão deixa de servir o seu propósito de alienação e de viagem no tempo, durante a hora que dura cada episódio, para se tornar o mero veículo de um negócio bem esgalhado. Só falta mesmo um jogo para a playstation em que os personagens ganham pontos com o comentário mais espirituoso ou fleumático e se agridem, sei lá, com luvas de pelica ou guardanapos de linho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

bleu

por Vieira do Mar, em 30.10.12

http://umamoratrevido.blogs.sapo.pt/53371.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

crónicas et all

por Vieira do Mar, em 24.10.12

http://cronicas-dos-pequenos-delitos.blogspot.pt/2012/10/o-santomense-fala-barato-e-advogada-por.html

 

(agora é ali e no Facebook, até fazer as pazes com este blogue)

Autoria e outros dados (tags, etc)

ópera bufa

por Vieira do Mar, em 10.10.12

http://cronicas-dos-pequenos-delitos.blogspot.pt/2012/10/o-urso-das-bilhas-de-gas.html

 

 

(sim, ainda estou viva!, embora ligada à máquina. olá e adeus.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

back in business

por Vieira do Mar, em 17.09.12
 
 

www.umamoratrevido.blogs.sapo.pt

Autoria e outros dados (tags, etc)

mais pedúnculos pintados no facebook, não!

por Vieira do Mar, em 12.08.12

Há qualquer coisa de esquizofrénico nesta coisa de as mulheres mostrarem os presuntos pintados no facebook.

Ele é pezinho na areia com verniz rosa, pezinho no muro com unhaca amarela, na piscina vai de azul turquesa e por aí fora. Atenção que me incluo nesta esquizofrenia colectiva de mau gosto para a qual não arranjo explicação. Um pé, na maioria das vezes, é uma coisa feia. Ou tem aspecto de pata de porco, ou salta um joanete dali, um dedo torto acolá, um calo mal disfarçado além. No geral, não é sexy nem bonito de se ver. Só para os tarados que tem um fetiche muito próprio e que, esperemos, sejam uma minoria.

Então, porque o fazemos? Ainda por cima existe uma espécie de vergonha, ou pudor ou lá o que é, que faz com que nos fotografemos a nós próprias. Quase ninguém pede ao namorado ou à amiga: "Olha, fotografa-me aí o meu pezinho delicado para o FB". Não, somos nós, cá de cima, que escolhemos a posição mais apropriada (estamos horas a procurá-la) para tentar fazê-la parecer o mais natural possível. Olha, por acaso os meus pés estavam mesmo aqui a jeito, podiam ser as mamas ou as virilhas ou o rabo, mas não, os pés estão mesmo na minha linha de mira.

Invariavelmente, fotogramos de cima e então aparecem os tornozelos e os glúteos com o dobro do tamanho, por causa da perspectiva. Toda a gente fica a pensar que, além de termos um apêndice que mais valia não dar nas vistas, temos umas pernas gordas. Ainda por cima no verão, tudo alarga e incha. Nada disto nos favorece, o que é um mistério, porque no FB queremos todas parecer magras e lindas e com menos dez anos (no mínimo). Também não é pela exclusividade dos vernizes, que desde que descobrimos os cliché nos chineses, francamente, vemos os Dior por um canudo e ninguém dá pela diferença.

Eu sei que a season é silly mas, mulheres deste mundo e em especial do FB, vois não sois nenhumas cinderelas, os vossos pés são feios (uns mais, outros menos, mas é da natureza do membro, mesmo), os meus pés são feios (os dedos são em escadinha, ridículos num 36, parecem os pés de um miúda obesa). A perfeição não existe abaixo do tornozelo, Deus deve ter tido  mais em que pensar, ou já estava cansado quando chegou lá a baixo.

Maminhas, por exemplo, ponham maminhas, toda a gente gosta. Os homens, os bebés e as outras mulheres, para efeitos comparativos e denegrativos. Sinceramente, é menos pornográfico.

Comigo não vem que não tem, que já lá pus as minhas. E não, não aceito pedidos de amizade de estranhos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

madonna já não dá tesão

por Vieira do Mar, em 25.06.12

O concerto de ontem de Madonna foi fraco. Fraquito, mesmo. Madonna está velha. Ok, ok, está óptima para os cinquentas que tem, muito ginasticada, musculada, magra e recauchutada. A decadência nota-se na falta de energia (em comparação com outros tempos, claro) e na incapacidade de se reinventar, uma das suas marcas. Lá tivemos os eunucos do costume a transportarem-na pelo ar e a servi-la como escravos, homens quase sempre sem cara, com máscaras e capuzes, what´s new?. Uns arremedos de sado maso, correntes arrastadas, umas encenações que teriam que ver com a cabala (medo!), uma espécie de monges sinistros e cenas em hebraico (tive a sorte de ficar no moche ao lado de uns israelitas que lá me iam explicando umas coisas). Canções do novo álbum que são uma bela porcaria, Madonna a fingir que tocava guitarra e um mix em tom intimista, acompanhado apenas pelo piano, de músicas antigas, as melhores para dançar, não se faz. Só faltou entrar a Carminho para o dueto. Coreografias confusas, demasiada gente em palco, muito pouco de Madonna. Pouca voz, poucas acrobacias, pouca dança, muito pouca imaginação. Claro, o ritmo ainda está lá, a agressividade sexual também, mas nem tivemos direito ao strip que fez noutros concertos, em que mostra o fio dental. Ficou de calças, boa noite e um queijo. Também esteve lá toda a parafernália cénica, as imagens, as luzes, os sobes e desces circenses, os props todos, os excelentes bailarinos. O Like a Prayer, com o coro do costume (que até foi do melhorzinho da noite), e uma única coreografia original e gira: a das majorettes no Express Yourself. Mesmo assim, uma Madonna cansada, algo desajustada no seu outfit de cheer girl. Acabou abruptamente, com uma canção desconhecida, em que fugiu logo do palco, provavelmente para usar as vinte linhas telefónicas do camarim e garantir que limpavam do dito todo o seu ADN. Até as absurdas exigências que fez já não soam a caprichos de diva, mas antes, ao canto do cisne de uma artista decadente e meio louca. Lembrei-me de Sunset Boulevard. Noutros tempos, quanto mais não fosse, Madonna surpreendia, mesmo que as surpresas fossem ensaiadas ao milímetro. Ontem, fez colagens cansadas das surpresas antigas a que juntou a mediocridade da sua música actual. Madonna já não dá tesão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

lixo

por Vieira do Mar, em 21.05.12

Quem dera guardar a tristeza num bolso dobrada em quatro, amarrotá-la à vista do primeiro caixote do lixo,  dar-lhe um piparote bem calculado fingindo displicência e encestá-la logo à primeira. Quem dera que ela ficasse lá no fundo, a desfazer-se como a base dos copos de papel da mc donalds, encharcando com coca-cola morna o lixo circundante, contaminando-o de tal modo que só um camião especial por ali a passar a caminho de um aterro tóxico o soubesse recolher com cuidado, acondicionando-o para prevenir o contágio, despejando-o longe do meu bolso leve e vazio. Quem dera perder no caminho (qual caminho?) as lembranças velhas de afinal tão poucos dias e deixá-las  para trás como a pele velha da cobra misturada na terra, desprezada no chão como todas as coisas que não merecem altura: a pista morta de um  batedor a soldo da ganância urbana de um caçador feio e rico. Quem dera esbater em mim os contornos da tua cara um dia alegre como a de um tolo que nada sabe do tempo, como esbato com o dedo incerto as sombras nos meus olhos,  atenuando o pó castanho escuro até à linha das sobrancelhas, ali onde já mal se nota a cor de partida e a minha pele sobressai num desmaio translúcido. Quem dera que não me sorrisses nas pálpebras.

* foto minha

Autoria e outros dados (tags, etc)

Muito, muito ricos

por Vieira do Mar, em 29.04.12

A Ministra da Justiça é uma boa ministra. O que confirma a minha tese: os ministros deviam ser inteligentes e ricos, ou seja, terem fortuna pessoal antes de entrarem para a política por forma a poderem decidir desinteressadamente. Evitava-se o nojo que é esse fenómeno do  carreirismo e isto de querem chegar lá cagando para os interesses do povo, ignorantes dos dossiês, debitando asneiras e gaffes a toda a hora, roubando onde podem e deixando-se corromper só para amealharem uns milhares de euros para poderem construir a vivenda Marisol no Ribatejo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

pornografia infantil

por Vieira do Mar, em 09.04.12

Fazendo um zapping entre foxes e axenes, descobri um programa extraordinário: "toddlers and tiaras". Já desconfiava que fosse sobre aqueles inenarráveis pageants com crianças, que se realizam América fora, mas resolvi espreitar e descobri a demência. A demência dos concursos em si mas, principalmente, a demência daqueles paizinhos.

A aberração divide-se por idades e começa pelos bebés. Pintadas como palhacinhas, vestidas com desconfortáveis folhos e cetins, cabelos armados cheios de laca, enfeitados a enormes fitas e flores, as crianças parecem marionetas tristes, assustadas com o barulho das luzes,  ao colo das mães babadas que lhes pegam nas mãozinhas para acenarem ao público.

Há várias categorias: os olhos mais bonitos, o cabelo mais bonito e por fim, a vencedora. Depois as dos dois anos. Metem dó. Ainda tropeçantes e sem qualquer consciência do que estão a fazer, mais uma vez tão pintadas e encaracoladas e acetinadas que  parecem aquelas bonecas de porcelana escondidas nos sotãos  que, invariavelmente, se mexem sozinhas porque contém espíritos malignos e assustam toda a gente, passeiam-se de mão dada pelas mães como cãezinhos à trela numa exposição, bem escovadas e, no geral, bem treinadas. Uma leva uma sapadela subtil porque meteu o dedo à boca, para o chuchar. Dois pontos de penalização.

Nas dos cinco anos já a coisa começa a roçar a violência infantil e o abuso sexual. Literalmente empurradas para o palco, entregues a si mesmas, com fatos sexy de adultas, muito trashy, sapatos com salto, parecem umas pequenas prostitutas a quem lhes foi dito que abanassem as ancas o mais possível e que colassem os sorrisos à cara (uma das mães, aliás,  di-lo literalmente). O mesmo se diga das dos sete aos nove anos, onde concorre uma pequena badocha de tratamento caseiro que não tem qualquer hipótese contra as outras concorrentes, tubarões profissionais há anos nestas coisas e que carregam atrás de si, além de mães e pais tarados, uma equipa de cabeleireiras, maquiadoras e treinadoras de postura.

A crueldade daqueles pais rústicos ao meterem a miúda simplória no meio daqueles cânones de beleza futura é insuportável de se ver. Sem qualquer treino, tropeça nos sapatos, anda pelo palco como uma patarata até o sofrimento (dela e nosso) acabar e dar lugar à entrada de uma call girl em ponto pequeno, já um bocadinho arredada da inocência, certeira nos requebros, nos piscar de olhos sensual, no chamamento da multidão com um gesto de assédio de cariz sexual. Estou à beira do vómito.

No fim, as entrevistas. A badocha, desiludida que mete dó, agarra-se aos anormais dos pais, que choram com ela, em vez de a animar. Desiludiu-os (como não o poderia?) e eles cobram-lhe por isso. Cabrões. As dos bebés exibem as suas assustadoras bonecas de porcelana, alisando-lhes os folhos dos vestidos para a fotografia, e as de 5 e 9 anos, com arremedos de auto-determinação, apressam-se a libertar-se dos saltos e dos vestidos, enquanto se queixam de que lhes doem os pés, algumas nitidamente cagando e andando para se ganharam ou perderam.

Tudo isto se passa num dos maiores países do mundo, anquele que manda em quase todos os outros, os US of A. Eu sei que é um país de contrastes e tal, que enquanto descobrem a cura para o cancro, em liceus do interior darwin é proibido e eva nasceu da costela de adão, mas  porra, se dão 25 anos a perpétua a um gajo que roubou, se obrigam os agressores sexuais que cumpriram pena a afixar pela vizinhança quem são e o que fizeram, como admitem este tipo de violência infantil, pornográfica, que força as miúdas a fingirem uma maturidade sexual que não têm, uma idade que não têm,  como se os paizinhos e a tropa que se move à volta daqueles concursos fossem simples voyeurs excitados?

Podemos ser atrasadinhos, pobres e comidos sucessivamente pelos governos, pelas troikas, alheios ao nepotismo - uma carneirada silenciosa, vá. Mas cá, facilmente encaixaria esta merda num ilícito criminal ali algures pelo Capítulo V do código Penal, garanto-vos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

dos amigos (ou dos não-amigos)

por Vieira do Mar, em 25.03.12

De um amigo exige-se duas coisas: que esteja lá quando é preciso, seja de que maneira for, e lealdade incondicional. Isto não significa que um amigo nos defenda sempre perante os outros, em especial quando estamos errados, porque um amigo, como ser humano que é, tem uma consciência que formiga.

Mas um desacordo entre amigos exige recato, pudor, afastamento dos outros, gritos em privado, zaragatas, silêncios que ficam com cada um dos amigos e reconciliações a dois. Porque os amigos não deixam de o ser. Só quando andaram a fingir que o eram e, por qualquer razão, se mostram subitamente como não-amigos.

Uma relação entre dois amigos tem regras, como qualquer outra relação humana que une pelo coração duas pessoas diferentes que devem entender o que as divide, integrando essa fractura na própria amizade, como um osso partido e regenerado. A primeira dessas regras é ouvir o amigo antes de todos os outros, para evitar juizos apressados e mal-entendidos.

Não se exige a um amigo de um amigo que também é nosso amigo que tome partido. Exige-se que se afaste de uma relação que lhe é exterior e que no máximo, aconselhe e concilie, para bem de ambos os amigos.

Acima de tudo, há a regra que obriga ao Amor, querer bem ao amigo e vice-versa. Se tudo discorrer tão simples assim, como o fluir de um rio, as outras regras nem precisam de ser enunciadas.

A invasão do virtual veio perturbar as regras do jogo dos amigos. Não existem amigos apenas virtuais, mesmo que a distância nos liberte do crivo do pudor e nos leve a confidenciar-lhes o que mais íntimo temos. Estão fisicamente longe, logo, achamos que não há mal fazê-lo, que não haverá qualquer intromissão na nossa vida real. Que estamos longe do escrutínio crítico de quem verdadeiramente nos conhece.

Só que nada cria laços como o toque, os beijos, os abraços, os olhos nos olhos, as dores sofridas a dois quando estamos em apuros. Se o suposto amigo não conhece na verdade o outro suposto  amigo, os coraçõezinhos, os likes, os elogios, os blinks, as palavras de elevação moral, valem zero. Bites e bytes.

Os não-amigos virtuais, os que fingiram sê-lo (por interesse, engano, admiração, inveja, voyeurismo), são perigosos, tóxicos, porque, ao saberem demais sobre a nossa vida pessoal (por negligência, distracção, conveniência ou credulidade nossa), minam as amizades reais, são dalilas que cortam a força que une os amigos quando estes não estão a olhar.

Gosto de pensar nas amizades que foram cerceadas pela intriga alheia como um interregno, porque um amigo não deixa o ser, fica apenas ferido, magoado, a lamber as feridas até sararem e se sentir pronto à reconciliação, que mais não deve ser do que um retomar.

Eu continuo a gostar de amigos que me foram desleais. Na verdade o coração não se atém a regras, tem vida própria. E então entro em contradição: se é desleal, não é amigo. Pois não. mas eu continuo amiga do meu amigo. Pronta a acorrer-lhe se precisar. Ninguém disse que a amizade tinha de ser bilateral, embora só seja plenamente satisfatória se o for. 

Esta perenidade do sentimento de amizade em relação ao amigo que não perdoa, que finge que não se interessa, faz de mim uma pessoa melhor embora me confira uma certa sensação de superioridade, confesso. Não sou eu quem fica a perder e, mais do que isso, estou em paz comigo mesma e com aquele de quem sou amiga. Já este não poderá dizer o mesmo.

 

Disclaimer: qualquer semelhança deste post com pessoas reais é pura coincidência.

Autoria e outros dados (tags, etc)

ah! que saudades de escrever neste blogue...

por Vieira do Mar, em 12.03.12

... mas agora não dá. ando a escrever noutros lados. mas em breve terão notícias minhas. até já!

Autoria e outros dados (tags, etc)

ou quando acontecem as duas coisas com o mesmo desconhecido

por Vieira do Mar, em 11.03.12

"Se um desconhecido me tentar saltar para a cueca eu percebo e até posso dar um jeitinho, se um desconhecido me tentar saltar para o disco rígido eu mando-o brincar com o seu próprio html em menos de um bit."

 

Teresa, cabra de serviço


 

Autoria e outros dados (tags, etc)

conseguida a custo *

por Vieira do Mar, em 15.02.12

... a entrega temporária dos miúdos, encontram-se a meio caminho entre a casa dos avós e o escritório dele. Acorrem sem pressa à bilheteira e aceitam sem reclamar as sobras que a mulher sisuda do lado de lá do vidro lhes impõe. Afinal, é segunda-feira e chegam atrasados, não têm por que se queixar. Dão por eles nos lugares mais escondidos da sala mais recôndita de um megacomplexo recém-inaugurado, enfronhados no pesadelo neurótico-estático de um realizador nórdico muito premiado. Mergulhando os dois as mãos no balde das pipocas, lembram-se daquela vez em que aterraram também de chofre nos delírios onanistas de um outro realizador, este francês (só podia!), o que lhes vale um ataque de riso seguido de um chiuuu! sibilado do outro canto da sala. Parecia que, de cada vez que tentavam fugir, por uma hora que fosse, da esquizofrenia do seu próprio quotidiano, o acaso trocava-lhes as voltas e contemplava-os com a esquizofrenia dos outros, esparramada num ecrã gigante. Não é que achassem aquilo mau, aliás, quem eram eles para criticar o chamado cinema de autor, eles, soberanos incontestados das matinés walt disney presents. Mas fazia-lhes espécie, aquela ausência de ruído das emoções dos personagens, que os obrigava a deitarem-se a adivinhar. Às tantas, algures entre um divórcio e uma tentativa de suicídio filmados em tons sépia, ele sussurra-lhe, o que me apetecia mesmo, mesmo, era um big mac... Ela sacode uma pipoca colada no canto da boca e, sem se dar ao trabalho de fingir-se enjoada com a sugestão, como teria sido politicamente correcto, atira-lhe um sintético, bora!. Enquanto, no ecrã, a neve cai e os personagens se abrigam em monólogos que se pretendem diálogos, eles dão-se as mãos pegajosas, levantam-se e furam sem cerimónia a circunspecta fila, deixando atrás de si um lastro de desculpas não aceites. No corredor e a caminho da porta, por entre fiapos de escuridão e luz, ela arrisca, queres namorar comigo? Ele entra no jogo, está bem mas só esta noite. Acabam empoleirados em dois bancos altos de fórmica, rodeados de putas e chulos, a lamber ketchup dos dedos e a recordar episódios do Seinfeld. Nessa noite, não pediram três happy meal com cheese natura, dois para rapaz, um para rapariga. Mas arrecadaram o brinde.

 

* dado que me apagaram o controversa no blogspost vou fazer de vez em quando reposts dos meus textos mais antigos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aos...

por Vieira do Mar, em 14.02.12

Aos que namoram  e acabam todos os dias e à vez, presos nos desmandos conciliatórios da juventude; aos miúdos que limpam o ranho com o bibe enquanto espreitam a miúda loura que dá uma cambalhota no recreio; aos que têm medo de se aproximar delas, às que têm medo de se aproximar deles; aos que se uniram pela primeira vez, num amplexo furtivo e desajeitado; aos que precisam de respirar o mesmo ar senão  morrem;  aos que já se uniram tantas vezes que sabem descrever o outro no escuro; aos que estão apartados, e usam o twitter, o face e os chats e que com as palavras se juntam; aos que se chateiam e partem pratos, e gritam e choram e depois se lambem as lágrimas; aos casais presos por um fio; às almas gêmeas separadas pelos atritos do dia; aos que se oferecem peluches foleiros e aos que os recebem como se diamantes;  aos casais roliços que passeiam de mão dada no shopping com fatos de treino a condizer; aos velhotes rezinguentos, que se amam negando sempre  a razão ao outro, em intermináveis arrazoados, que só eles entendem;  aos que se dão um beijo cansado à noite e no entanto adormecem entrelaçados; aos casais com filhos pequenos, que hoje jantam em casa mas não se importam, porque o mundo que aí vem é todo deles e da sua descendência;  às putas que amam os seus chulos, aos chulos que hoje lhes levam flores; às glorinhas à janela que beijam sentidas o seu príncipe imaginário; aos que acham que casaram para sempre, aos que casaram mesmo para sempre;  às mulheres que levam aos maridos as amigas para a fantasia a três; aos maridos que não vão tão longe e se ficam pela lingerie comestível; aos  viúvos que dormem abraçados ao cheiro  de quem se lhes morreu; aos casais entediados que acordam a meio da noite quando o outro tosse ou espirra; aos velhos que não contrariam as mulheres quando estas confundem a filha que os veio visitar com a empregada da casa;  às mulheres que mudam as algálias aos maridos e lhes dão a comida à boca e não lhes largam a mão enquanto eles fazem diálise; aos homens que não viram costas quando as mulheres lhes moem o juízo com aquilo que não entendem; aos  que por acaso ainda não se cruzaram;

 

às caras-metades que (ainda) não sabem que o são...

 

Um Feliz Dia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

olha que dois! uma pérola, isto.

por Vieira do Mar, em 26.01.12

Autoria e outros dados (tags, etc)

a mamificação das massas (ou a massificação das mamas)

por Vieira do Mar, em 25.01.12

Aligeirando, vamos à lingerie. Mais propriamente ao sutiã. Ainda outro dia estava numa grande superfície (sempre quis usar esta palavra: grande superfície); uma loja daquelas para gajas, que são na verdade hipermercados de roupa mas que não envergonham ninguém porque até já fizeram nome e têm cenas com estilo e tal. Dirigi-me à lingerie, porque rebentara-se-me uma alça do sutiã. Saltaram-me logo à vista os ditos,  esponjosos por dentro e artificialmente sobredotados. Eu, que sou do antigamente e que, para além do mais,  não preciso de reforços de enchimento, vagueei, vagueei, à procura de sutiãs normais, daqueles de renda ou de algodão, sem engrossanços supérfluos. Debalde. Reparei que um sutiã copa B, por exemplo, nos faz parecer ter copa C ou D. No meu caso, copa EE (rapazes, googlai, nisto das copas). Comprei um dos insuflados porque não havia de outros e aquele até tinha umas florzinhas queridas. Um inferno. Quando saí da loja já parecia a Pamela Anderson, mas sem o resto do pacote (cintura 22, lábios grossos, longos cabelos oxigenados, prancha de salvamento, etc.). Antes de entrar em qualquer sítio, primeiro entravam as minhas mamas, como que a pedir licença. Ainda por cima,  os desgraçados são curtos em cima (para serem usados com grandes decotes), pelo que  as ditas estão sempre a saltar para fora e a pessoa a revirar-se, a esconder-se, a torcer-se,  para enfiar aquilo para dentro e  acomodá-las como deve ser, por entre camisola interior, camisolão, cachecol e casaco. Devorada por tudo quanto era trolha, balconista-não-gay (uma minoria, é certo) e bancário na hora do almoço, consegui chegar a casa viva. E concluí  três coisas: primeiro, que hoje em dia nenhum exemplar do sexo feminino se contenta com aquilo que Deus lhe deu; segundo, que quem desenha aquilo só pode ser homem; terceiro, que as secções de lingerie das grandes superfícies são mais sex shops camufladas cujo objectivo é transformarem as teenagers em miúdas bregas e oferecidas, aspirantes a calendário de oficina,  e as mulheres de quarenta, em matronas igualmente oferecidas - mas sem direito a calendário, aparentemente acabadas de sair da clínica de implantes, em desespero de causa.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

o divórcio

por Vieira do Mar, em 24.01.12

Quase todos os meus amigos já se divorciaram; alguns, mais do que uma vez. Uns dizem que é como morrer alguém próximo, há que fazer o luto, pelo menos dois anos. Tretas. Há quem saia de um divórcio cantando e rindo e quem sofra penas por longos e largos anos. Por vezes quem mais sofre foi quem o quis; e não por arrependimento, mas porque sim. Porque sem esperar se perde demais, e a esperança, insuflada pela noção de liberdade, só nos incute a ideia de ganhos. Um divórcio é doloroso; dói de facto como a morte de um ente querido; ou melhor, de uma vida querida que acarinhámos até se transformar num inferno ou num nada, num vazio. E tem momentos de volta atrás, se decorre de um casamento que, em tempos, até foi feliz. Temos que nos esforçar por nos mantermos nas partes más, se não estamos aqui e estamos no mesmo. Um divórcio provoca truques na nossa cabeça, que continua casada mesmo depois dos papéis assinados;  porque é uma cabeça que, para lá do desinteresse do corpo,  continua casada com a vida que tivemos, a única que conhecemos, e não com a pessoa em si. Muitas vezes, o outro  é o menos importante e o mais fácil de esquecer. O luto pode estender-se por anos; num lágrima a despropósito que corre pela cara  de  um filho, que só nós sabemos porque está lá, numa torneira por arranjar, numa ceia de Natal partida ao meio, numa viagem só para quatro, numa cama king size só para um. É  um processo de libertação e, ao mesmo tempo, de desconfiança. Interrogamo-nos muitas vezes para que serve a liberdade que ganhámos  - e que nos sabe tão bem – mas  desconfiamos do futuro, e se poderá alguma vez bater o passado, quando ainda era bom.  Um divórcio é um compasso de espera para os optimistas e uma experiência a não repetir, para os pessimistas. O acto de assinar os papéis é absolutamente simbólico; o que todos guardam é quando um deles  sai de casa de malas na mão, para não voltar. Consoante as situações, instala-se o vazio, o alívio ou o desespero. Às vezes, as três coisas juntas. Toda a casa nos lembra quem partiu, mesmo que tenhamos sido nós a desejar a partida (...quando vem o teu cheiro, dentro de um livro). A culpabilização é enorme, quando existem filhos, mesmo quando foi o outro a sacanear-nos por todos os meios. Os filhos de um divórcio, nos primeiros tempos,  são o fracasso a olhar-nos nos olhos, e esta impressão desvanece-se lentamente. Eu acredito que quando as pessoas se casam é porque se amam. E que, se se divorciam é porque se deixam de amar, apagando  nos filhos o selo de garantia que lhes estampámos quando nasceram: “Aqui está o fruto do nosso amor. Marca registada”. Dizem-me, vezes sem conta,  os miúdos adaptam-se, os meus estão óptimos, são os maiores amigos do meu novo companheiro, têm boas notas, nunca deram trabalho, não precisaram de psicólogo, eu e o meu ex damo-nos bem o que é bom para eles, gostam muito do novo irmãozinho. Mas, não esquecer: para eles, até em adultos, o pai era para ter ficado com a mãe e a mãe com o pai. Que tinham obrigação de se ter entendido. Por eles, que não pediram para vir ao mundo. A nossa sorte é que os nossos filhos gostam muito de nós, independentemente dos disparates que façamos, e fingem que se fartam só para verem em nós uma centelha da felicidade de que se lembram de quando os pais ainda eram casados, mesmo que estejamos com outras pessoas,  eternos estranhos para eles.

Autoria e outros dados (tags, etc)

porque não escrevo assiduamente neste blogue

por Vieira do Mar, em 19.01.12

A mais velha chega a casa a chorar desalmadamente por causa de mais uma picuinhice com o emplastro. Depois de uma hora de soluços audíveis  e de "não quero falar com ninguém",  chega o emplastro e, presumivelmente,  fazem as pazes. O do meio chega a casa e trás consigo uma matilha de emplastros borbulhentos e espinafrudos que quase batem com a cabeça no tecto. Mochilhas atiradas ao calhas. Baixos, guitarras eléctricas e baterias a serem afinados no quarto. Coisas que caem, gargalhadas alarves, outras que batem contra a parede, não quero nem saber. Do que se passa no quarto da filha mais velha, à porta fechada, ainda quero saber menos. O mais novo chega da escola cheio de fome. Numa hora, uma caixa de cereais e um litro de leite vão à vida. Traz consigo um amigo nerd cuja única qualidade é comer pouco. Os aspirantes a banda de garagem assaltam a cozinha em me vendo de costas. As pizzas congeladas do pingo doce, compradas para uma ocasião de extremo cansaço em que não me apeteça cozinhar, vão todas. Só dou por falta delas muito depois, na tal ocasião de extremo cansaço, claro. Filha mais velha pergunta se namorado emplastro pode cá jantar. E se a amiga que está a chegar, também. Os adolescentes de barriga cheia resolvem descer à garagem para ver a aprilia nova do filho do meio. Não podem sair dali porque ele ainda não tem carta e andam às voltas lá dentro. Vizinhos a queixarem-se de que eles são muitos, fazem muito barulho e que não fecham a porta de acesso à garagem, pondo em causa a segurança do prédio. Voltam a subir, dou-lhes uma esfrega que lhes entra pelo cérebro (que na verdade ainda não têm), lhes atravessa o corpo e sai directamente para a terra, como uma descarga eléctrica sem dor nem consciência. Voltam aos Led Zepellin (que devem estar a rebolar na campa, ou lá no sítio onde estão, coitados). Chega a amiga emplastra, fecham-se os três no quarto a ver um filme. A partir das sete, começa o mantra caseiro, que se repete de cinco em cinco minutos: "Mãe, o jantar já está pronto?". Tapo os ouvidos e entro no hard rock café: "Quem fica para jantar?". "Mãe, se não te importares o castro janta cá e depois vamos às esplanadas". O nerd fica cá a dormir, isso já sei,  está com o mais novo numa outra dimensão, a jogar online com um paquistanês e uns suecos. Faço contas à vida, abro o frigorífico. Sustância, népia. Ao todo, somos oito. Saio à pressa para o  talho, quero 16 hamburgueres. Chego a casa, o mantra a repetir-se vezes sem conta, vindo de todas as partes da casa, as vozes ecoam na minha cabeça, numa onda esquizofrénica. Jantar, jantar, jantaaaaar!...Esparguete para a panela, hamburgueres com cogumelos e natas, 15 minutos (sou mais rápida que uma bimba, acreditem). Cada grupelho quer comer na sua zona de conforto. Tabuleirinhos para todos com os respectivos regrigerantes a gosto, guardanapos, talheres. Uma trabalheira para eles, que têm de vir buscar o seu tabuleiro à cozinha. Como é que é possível, eu não lhes levar a comida aos quartos? Comem em cinco minutos, louça na máquina. mais uma corrida para ver se a aprilia ainda está no lugar e irem às "esplanadas", onde pedem uma jola para todos (isto sou eu em negação, deixem lá). Filho mais novo e amigo nerd mostram resistência à àgua e dá-se início a um complexo processo de negociação que mete banho antes de irem para a cama. Mais meia hora de nerdice no pc, mais uma dúzia de zombies mortos. ok. Amiga da mais velha vai-se embora e os outros dois continuam no quarto, a ver o resto do filme (isto também sou eu em negação, mas pronto). Entra o mais velho às onze, disparado porta dentro (é sempre assim)  com a tropa acneica: vieram buscar as mochilas, de que se esqueceram. Eu,  de roupa interior a vestir o pijama, só tenho tempo de me atirar para a porta do quarto. Já composta, ponho-os a todos na rua, com um ultimato de cinco minutos e mando os nerds para o banho. Bato à porta da mais velha e espero muuuito tempo até a abrir (em negação,  mas não parva). Dou mais meia hora ao emplastro, porque amanhã é dia de faculdade.  "Oh mãe, é só acabar o filme...". Olho para a televisão e estão a ver o Saw III: Já se sabe como acaba: morrem todos cortados aos bocados portanto, dentro de meia hora, andor. Espero que as hordas se retirem enquanto acabo de arrumar a cozinha e penso seriamente em transformar a minha casa numa pousada da juventude. Pode ser que saque alguns fundos comunitários ou isso. Por volta da meia-noite, quando começo a abancar no sofá, dá-lhes para me virem, à vez, contar os problemas do dia. O que normalmente é eufemismo para ceia. Leites com chocolate, "Ficam melhores quando és tu a fazer, mãe!" (sacanas!) e pão com manteiga (quando sobra algum,, o que é raro). À uma já sei que o G chinou o D, que a B voltou a andar com o C, que o  setôr de informática é um retardado mental e que tenho recados para assinar por "falar demais nas aulas". De ambos os rapazes em colégios distintos (deve ser um gene). Isto tudo, portanto, começa depois de um dia de trabalho que acaba às seis. Percebem agora?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

OKUPAS

por Vieira do Mar, em 13.01.12

O Amor Atrevido foi okupado. O antigo Controversa Maresia no blogger, também. Se alguém possui alguns conhecimentos sobre como contornar ataques em blogues da blogger (que não dão qualquer resposta ao problema), agradecia que me ajudassem. Tks.

Autoria e outros dados (tags, etc)

hell´s kitchen à portuguesa

por Vieira do Mar, em 08.01.12

Não percebo tanto drama à volta dos portugueses maçons. A política portuguesa é uma cadinho de influências e de trocas de favorzinhos, seja coisa de centenas ou de milhões. É do povo, mesmo: somos  a malta do desenrasca aí, dá uma mãozinha acolá, coloca o meu irmão além, toma dinheiro aqui. Um país nepotista onde amigalhaços nomeiam e promovem família e outros amigalhaços e se cultiva a mediocridade. Com ou sem avental.

Não há negociata imoral feita por um gupo de tipos que fizeram meia dúzia de juramentos através de uns rituais tontos, que não possa ser feita por um grupo de gente com interesses comuns,  num jogo de golfe ou numa jantarada regada a copos. O facto de usarem aqueles aventais e de cultivarem o "secretismo" só os torna mais patéticos (embora no caso do Fernando Nobre isso seja impossível, dado que já rebentou a escala do "patético" há muito tempo").

Não entendo o choque de ter vindo à luz  que os gajos no poder e os que já lá estiverem são da maçonaria. Têm que ser "amigos" de alguém, senão, não estavam no poder, certo? Têm de ter prometido favores, feito favores, obtido favores,  para chegarem onde chegaram. Qual a novidade? Porquê levar os maçons mais a sério de que um qualquer outro grupelho de influência e obrigá-los a actos públicos de contrição e de confissão? Em que medida é que a democracia portuguesa se torna assim mais "transparente"? Hello?

Porque, das duas umas: ou este reboliço resulta de hipocrisia ou de ingenuidade. Os grupos de influência estão por todo o lado e reúnem-se nas casas uns dos outros, nos privados dos restaurantes, nos gabinetes das grandes multinacionais, depois de todos desligarem os telemóveis e de lhes removerem as baterias.

É pela dimensão da coisa, pelas ramificações "internacionais das "Lojas"? Deviam querer um néon à porta: Loja do Oriente: compra-se e vende-se favores, fazemos entregas no mundo inteiro. Então e a malta da política em geral,  não tem amigos no estrangeiro? Conhecem-se todos nas cimeiras, nos congressos, planeiam esqueminhas e negociatas nos corredores ou às portas fechadas. o PR nunca viaja sem uma "comitiva" de empresários portugueses, que não vão de certeza para ver a paisagem. E  porque é que vão uns e não outros?

Pretender "clarificar" o papel da maçonaria na "sociedade portuguesa" e identificar todos os políticos que a ela pertencem, como se os marcassem com o ferro do tráfico de influências,  é tão absurdo como pretender "clarificar" as "decisões"  dos nossos governantes - passados e presentes - se descobrirmos quantas vezes e com quem se juntaram no restaurante "Os Arcos", e quantos quilos de gambas e lagosta comeram (porque quem pagou já se sabe quem foi).

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

trajecto telheiras-galeto

por Vieira do Mar, em 26.12.11

(entro no táxi, homem de cerca de 65 anos)

 

- Boa tarde! Epá, isto hoje estou com sorte, é só mulheres bonitas!
- Obrigada.

 

 (olha, um taxista simpático!)

- Sabe que eu gosto de mulheres bonitas. Não desfazendo, mas há bocado entrou-me uma praí com 28 anos com um corpinho que me deu logo tesão, a cabrona.

(ups!...)

- Mas a querida também é boa, gosto de uma perna assim cheiínha, e vê-se logo que gosta de brincadeira (winkle).

(epá, ainda bem que trouxe a mala grande, xa tapar-me)

- Eu gosto das que gostam, daquelas que fornicam três dias sem parar. Uma mulher que faz muito sexo é mais bonita, tem mais vida, vê-se-lhe na pele, bonita, luminosa!


(ainda bem que tenho estas borbulhas na testa da figadeira)

- Mas não é só as novas. Uma vez apanhei uma caralha de setenta anos! setenta!, que me levou para casa dela, tivémos sete horas naquilo. Gritava que se fartava quando se vinha, parecia um porco a guinchar na matança.


(onde é que se abre a porta?)

- Outra vez apanhei uma que queria que lhe apertasse as mamas com força, mas mesmo com força. Ela, mais!, mais força!, e eu a dizer-lhe, oh filha olha que ainda apanhas o cancaro com esta brincadeira!

- Importa-se de me abrir a janela? está um bocado abafado aqui...

- E aquelas com pirces no grelo? A primeira vez que vi aquilo até me assustei mas depois, olhe, lambi à mesma.

(pronto, lá se vai o almoço)

- Também não gosto daquelas sem pintelhos nenhuns, aquilo é anti-natura.

(Saldanhaaaaa! Yes!)


- E esta querida (eu, portanto)? Vê-se que gosta de fazer broches. E de ficar por cima, hein?

- Desculpe, mas isso é privado, além de que sou uma mulher casada.

- Casadas? olhe, isso é o que me aparece mais: maridos advogados, médicos, empresários, que não querem saber de sexo ou são gays. E depois elas ficam doidas, doidas!


(got a point there, freak)

- Tive uma que dizia: "O meu marido não me quer ir ao cu, diz que lhe mete nojo" - estes gajos hoje em dia são todos uns maricas! - e eu,  oh filha, anda cá que resolvemos já isso...


(Galeto!)

- Pronto, chegámos querida, são 5.55 euros.
- Olhe, fique com oito pela informação valiosa.
- Não quer ficar com o meu cartão para quando for sair à noite? Posso levá-la onde quiser, a qualquer hora...
- Não, não, obrigado, geralmente ando de carro, hoje foi uma excepção.


- Mas fique à mesma, tome. É que à noite anda para aí muito tarado na estrada...

Autoria e outros dados (tags, etc)

cheers!

por Vieira do Mar, em 24.12.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

génio

por Vieira do Mar, em 22.12.11

http://cavacosilvaaolharpracenas.tumblr.com/

Autoria e outros dados (tags, etc)

meu, puto, chavalo, tipo, esquece

por Vieira do Mar, em 07.12.11

Estou numa esplanada a tomar café e a ouvir inadvertidamente (e algo contrariada, admito), a conversa de dois adolescentes nerds com um crespúsculo de barbicha que lhes escurece as borbulhas. A comunicação entre ambos é dolorosa, parece que vomitam enquanto falam, nunca fecham completamente a boca e cada palavra é intercalada por “pá”, “meu”, “chavalo”, “cena”, “puto”, “esquece” e “tipo”.

A confissão do nerd número um prossegue alto e bom som, e nem todo o meu pudor lhe consegue fugir. “Meu, a Sara entrou no karaoke da praia norte e eu, tás a ver, deixei de ouvir as conversas. Chavalo, deixei de ouvir tudo, só olhava para ela e a mine tremia-ma na mão, todo eu tremia, puto, suava da cabeça aos pés, tive que vir cá fora apanhar ar, sentia-me doente”.

Tento captar o som das notícias no ecrã da espalanada, mas o pobre insiste em dar-se a conhecer ao mundo, ou, pelo menos, ao segundo nerd, a mim e à velhinha que lia o correio da manhã e comia o éclair. “Quando eu e a Sara estamos juntos não sei o que se passa, deixamos de ver os outros, não existe mais ninguém, chavalo, é uma cena que vai muito além da cena física tás a ver, como o sex (aqui baixa um pouco a voz, mas não o suficiente) com a Patrícia. “Ah, a Patrícia, pois...”, diz o nerd número dois que aparenta estar desertinho de bazar para o computador.

E o primeiro continua, num estilo megafone confessional: “No outro dia estivémos na praia do V.” (e eu a pensar: Ah.... a minha praia, o cenário perfeito para o marmelanço, afinal o nerd não é assim tão parvo como parece), e continua: “... e estivémos duas horas só agarrados, a ver o mar, puto!" (retiro o que disse) .

"A ver o mar! Foda-se, eu nasci a ver o mar, aquilo não tem interesse nenhum mas nesse dia foi diferente, vi a cena doutra maneira, tás a ver? Não sei o que se passa comigo, caralho...”.

E eu, na mesa ao lado, a fingir que o telemóvel me interessava, com vontade de lhe gritar:

meu, 

puto, 

chavalo,

tipo,

esquece,

essa cena chama-se AMOR!

Autoria e outros dados (tags, etc)

hey you!

por Vieira do Mar, em 07.12.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

a importância do peúgo branco no acasalamento das espécies

por Vieira do Mar, em 05.12.11

É claro que não falo das cabeleireiras, das empregadas domésticas, nem, em geral, das coitadas que têm de fazer o IC 19 todos os dias ou apanhar o cacilheiro da margem sul, essas contentam-se com pouco (shoot me now). Falo das outras, neste caso, de mim, que tenho a fortuna de não ter de ter de fazer nem uma coisa nem outra e ter nascido com o gene do bom gosto (shoot me again, not dead yet).

As mulheres (como eu) têm um scanner embutido que, em poucos segundos, analisa o gajo que acabaram de conhecer, como uma daquelas máquinas do CSI que procura balas nos mortos em projecções 3D. E não me venham com a conversa do “ai, eu primeiro olho para as mãos” e “eu é mais os olhos”;  que treta. É claro que se por azar deparamos com  umas unhacas cheias de porcaria ou um gajo que revira um olho para cada lado, nem passamos da primeira fase. Mas isso nunca acontece porque nós e eles vivemos em mundos paralelos e nunca nos cruzamos.

A questão é outra, e mete pormenores subtis. As peúgas brancas são obviamente um clássico. Nem que o gajo venha com um blusão da Marlboro ou com um fato do Ermenegildo Zegna (googlai), em olhando para o tornozelo imaculado de branco, está riscado. É como o fato de treino ao fim de semana, mesmo que o gajo vá, de facto, treinar. Não interessa. Que use calções com uma t-shirt, se tiver muito frio, um polar por cima e está a andar.

Aliás, coisas com zippers, em geral, dão muito mau aspecto. Até as calças de ganga dão mais pinta se tiverem botões de cobre do que um fecho (embora sejam danadas para desapertar nas horas de maior aflição – a nossa, digo eu).

Da meia ao sapatinho, vai um salto. Coisas com berloques ou fivelas, por exemplo. No primeiro caso, é metê-los numa máquina do tempo e enviá-los directamente para os anos oitenta, sem retorno. No segundo, dá pena que a fivela não seja de cinto;  assim podíamos enforcá-los e ficava o assunto logo arrumado.

Mocassins, sapatos de vela, sapatos clássicos tipo Tod´s (em geral, tudo o que tenha sido desenhado antes de terem nascido), botas timberland ou equivalentes, tudo bem. Ténis à preto jogador de basquete, é encestá-lo de imediato no caixote do lixo. Não podemos admitir ténis com mais de duas cores e a segunda já é uma borla.

Isto para não falar dos mata-baratas, que agora são cortados, fazendo assim uma espécie de finalização quadrada à frente, nos quais se vê perfeitamente que o pé acaba três centímetros mais atrás. Parece que andam com o pato donald nos pés. Horrível.

Gravatinhas, às vezes tem de ser, mas não há nada pior que a gravatinha fininha ton-sur-ton, tão de moda nos vendedores de produto. Aquele cetim lilás brilhante sobre a camisa igualmente lilás (cor-de-rosa também está a dar), a cheirar a casório suburbano, ali no pôr-do-sol II à saída de aveiras de cima. Era uma lata de gasolina e um fósforo.

O que nos leva à questão da xanata. Ah!, a xanata, a havaiana, ou como lhe queiram chamar. Porque, convenhamos: há poucas partes da anatomia mais feias do que um pé masculino. Que não tem direito a andar por aí a mostrar-se, a ferir a vista às incautas, pelas ruas da cidade. Homens de havaianas fora da praia, não pode ser, não pode! Devia haver uma PDH, uma polícia das havaianas, que obrigasse os homens a mudar de calçado à saída da praia, logo ali, onde acaba a areia e começa o asfalto.

O cabelinho também pode ser problemático. Evitem-se as patilhas, por favor! Poupa com gel, empinada tipo guggenheim de bilbao, ou seja, à cristiano ronaldo, não merece uma nega, mas antes uma bazucada, caso o gajo tenha o atrevimento de se aproximar de nós a menos de um metro.

E barba de três dias a uma semana só fica bem ao clive owen. Repitam comigo: só fica bem ao clive owen. Para compensar o picar e os arranhões nos preliminares (a parte dos beijos e do esfreganço cara-a-cara) só se for com o clive owen ou similar (como o russel crowe mais magro, ou assim). Para se usar barba de uma semana, é preciso ter-se cara para levar um estalo e dar de volta. E não ficar a parecer um camionista, um sem-abrigo ou um fashionista de duvidosa inclinação sexual.

Os portugueses, em geral, quando têm este tipo de barba ou são, de facto, camionistas, ou metrosexuais magrinhos que passam horas ao espelho a aparar o pintelho de um centímetro que lhes nasceu na nuca. Out, em ambos os casos. Até preferia o camionista,  se fosse para fins exclusivamente medicinais.

Aliás, e a propósito de metrosexuais: homens vaidosos em geral são de vomitar. Seguros de si é uma coisa (embora alguma insegurança até dê charme), galináceos vaidosões, outra completamente diferente. Riem-se sempre com a boca ao lado, já repararam? (esperem aí que vou ali fazer um bloody mary e já continuo: a propósito, gajo que não saiba o que é um bloody mary é pô-lo em frente ao espelho a rodar e a dizer o nome em questão três vezes, a ver se aparece o fantasma em questão e o come).

E depois usam aqueles clichés de engate  como se não soubessem que as mulheres são homo sapiens sapiens,  falam entre si (LOL) e que tiveram uma vida antes deles – geralmente, entremeada de outros como eles.

Podem usar coisas de marca, mas quanto menos se reparar qual é a marca que usam, melhor. Não há gajo mais giro que o da t shirt branca com as levis surradas. Logos pequeninos e escondidinhos, para manter a classe e para  só nós, quando nos chegarmos demasiado perto, repararmos  (por exo. na etiqueta), quando estivermos a lamber-lhes o pescoço ou a despi-los.

A profissão também é importante. Como não há CEO´s para todas, podem ser quase qualquer coisa, menos engenheiros (engenheiro parolo é um silogismo), advogados que só sabem falar do cu da petição inicial  e que não podem dar-nos atenção porque “têm um prazo que acaba amanhã”, ou aqueles  com cursos tirados nas “novas oportunidades” (one last chance to shoot me). De resto, sou muito liberal, desde que me dêem converseta e boa música.

A propósito de música, desconfiem dos que só gostam de blues e de jazz, por exemplo: toda a gente gosta de pop, só que esses gostam em segredo e, em público, desprezam-na, fingindo que nunca ouviram a M80. São pedantes e mentirosos. Ou então nasceram na altura e rondam os vinte agora, e aí já é uma questão de gosto. Há muitas que gostam de exercitar o desmame, o que não é o meu caso.

Quanto ao resto, se vos aparecer um que diz saber qual é o vosso perfume como se tivesse a tirar um coelho da cartola, esqueçam: é porque o reconheceu de alguma antiga namorada e o mais seguro é passar a noite a falar-vos dela. E convém, mais que tudo - mais que as peúgas brancas, as suiças, as xanatas - , evitar os que vêm com excesso de bagagem. São geralmente bens defeituosos. E é nessa altura que convém olhar bem fundo para os olhinhos: e não é para lhes ver a cor.

 

 

PS: Obrigada ao SAPO pelo destaque, embora não sei se deva considerá-lo um elogio. ;)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por Vieira do Mar, em 04.12.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

guerrilha urbana

por Vieira do Mar, em 26.11.11

Estou a ver na televisão a ida das claques do sporting e do benfica para o derby. E a ouvi-las e a vê-las em directo da minha janela. Algures pela segunda circular, segue um conjunto de sportinguistas, liderados por cromagnons de torso à mostra que incitam a gritos de guerra: vão cercados por um cordão policial como animais perigosos. Do lado de lá da rua,  selvagens do benfica lançam epítetos simpáticos aos primeiros e fumos cor-de-rosa explodem no ar. O ambiente é de guerrilha urbana, e vê-se o medo do descambo na cara dos polícias, por detrás dos capacetes. Um nojo e uma vergonha. Futebol? desporto? Por favor.... "Claques chegam à zona das redes", diz no rodapé. À zona das redes?! A juve leo tem como símbolo um índio qualquer daqueles assassinos. Close up da animalária sportinguista, a investir contra as redes e a mostrar o dedo (e outras coisas) às câmaras. Os "adeptos" levantam as redes, tentam trepá-las, atropelam-se e arremessam pedras. O jornalista interpela a agente da PSP que responde estar tudo a correr bem, tudo normal, enquanto, por trás dela, a propensão para a pancadaria e para o descalabro cresce a olhos vistos, com os sportinguistas danados por estarem numa fila (?!) para serem "revistados" (LOL). Parece que 20 "adeptos" foram "desviados" do estádio para a esquadra ("desviados" é um belo eufemismo). Como diria o mestre Oliveira, pelos vistos, os homens foram mesmo feitos para guerrear, para lutar. Fosse esta força bruta de anormais direccionada para a luta contra a crise, em vez das manifestações pífias contra a troika e greves inócuas (a não ser para os nossos bolsos) a que temos assistido, e se calhar o governo prestava mais atenção ao "povo". Ou então mandem-nos para uma zona de guerra algures no globo, matar mauzões fundamentalistas. E se levarem com umas balazitas de retorno, francamente, também não se perde grande coisa.

 

 

P.S. Spooooorting!

Autoria e outros dados (tags, etc)

um blogue com muita piada

por Vieira do Mar, em 26.11.11

 

 

retirado daqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

a perspectiva adolescente do burst hormonal alheio

por Vieira do Mar, em 13.11.11

http://passeaiflores.blogs.sapo.pt/35671.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

so what?!

por Vieira do Mar, em 10.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

fuck the louboutins

por Vieira do Mar, em 04.11.11

Estou mais farta de ouvir falar da crise do que da propriamente dita. A coisa poderia dar-me para sonhar com o que não posso ter, mas não. Se calhar, muitos pensam como eu, daí o fecho, por exemplo, da Rotas & Destinos. Sonhar com o impossível tens os seus limites. Por isso acho que as revistas de moda ditas "sérias", tipo Vogue, Maxim, Elle, Máxima, etc., são uma ofensa à minha inteligência e ao meu bolso. Compreende-se que 60% do papel sejam anúncios a produtos de luxo. Manter revistas com aquela qualidade gráfica e número de páginas, sai caro, há que ter patrocinadores. Depois, uns 20% de sexo, que nestas é muitas vezes implícito, mas que está sempre presente, em especial nas produções fotográficas com aquelas modelos lolitas anorécticas, de maquilhagem gótica e cabelos eriçados de cores improváveis, que devem excitar os poucos tarados não gays que lêem aquilo. Até aí, tudo bem, para quem gosta do género. Ma o que lixa, mesmo, são as sugestões de roupa e acessórios "trendy", tipo "o que não pode deixar de usar na próxima estação". Para além do ridículo de nos obrigarem ao "nude" como cor fundamental ou os stilettos para as saídas nocturnas, estes nunca custam menos de 1000 euros, e o nude do casaco Prada, 2000 (por baixo). São páginas e páginas de roupas e acessórios piton (grosse, you suckers!) e um anúncio até tem o descaramento de misturar cobras vivas enrolando-se nos sapatos feitos da pele morta das mesmas. O luxo é, nos dias de hoje, ofensivo e amoral, mas ainda por cima  é de mau gosto. Muita pele de bicho morto a preços, obviamente, inenarráveis. Ninguém tem dinheiro para aquilo, nem a classe média-média, que antes era quase-alta, e que é a principal consumidora daquele lixo em papel, embrulhado em estética barata de fotógrafo finalista do IADE. As sopeiras são parvas, compram aquilo porque acham que isso as eleva a um estatuto glamouroso qualquer. No fundo, uma enorme falta de vergonha na cara. Hoje em dia, não se aconselha Hermés a 3000 euros, Vuittons a 3900, nem gilets de cachemira a 500, como um "must have". Não há uma boa entrevista, uma reportagem de fundo, nada que não seja supérfluo, impossível de alcançar, inútil. Mal por mal, antes as happys, que já se sabe que vendem sexo do princípio ao fim, explicadinho como se fossemos todos virgens, ou a prensa trashy e paparazza, que ao menos diverte (as desgraças dos outros sempre nos distraem das nossas), que não frustram nem deixam este amargo de boca de sermos umas pobretanas  a ser comidas por quatro euros, embora levemos um roll on como brinde, yey!

Autoria e outros dados (tags, etc)

sim, estou viva e já cá venho

por Vieira do Mar, em 19.10.11
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

vicky cristina brandoa

por Vieira do Mar, em 09.10.11

Para mim a seally season ainda não acabou, felizmente – apesar de já estar a trabalhar que nem um núbio a arrastar pedras para as pirâmides. Mas, apesar disso – ou se calhar por causa disso mesmo – quando não  estou a trabalhar tendo a ocupar-me com futilidades. Está muito calor. E no outro dia (praí há um mês - falem-me de memória selectiva para as merdices; quando foi para encornar o regime do contrato-promessa, nem à martelada) li uma entrevista com uma socialite que dá pelo nome de vicky e que pelos vistos é o cúmulo da elegância mas que tem a boca à banda (o que não é nada elegante, para já). Na dita, a vip dizia, entre outras barbaridades que “não gostaria que a namorada do filho fosse mais alta do que ele nem que fosse vulgar”. Para definição de elegância, pelo menos ao nível dos valores e da conversa, parece que estamos conversados. Acontece que a senhora, que respira dondoquisse pacóvia por todos os poros,  não só é “especialista em estudos franceses” (LOL) como escreveu um livro sobre qualquer coisa como "a arte de bem vestir" (e portanto agora foi promovida à categoria de “escritora” encartada). E parece que  dá uns conselhos de moda numa revista qualquer ou num suplemento de fim de semana, não sei (o que a eleva igualmente à categoria de "cronista"). Diz ela que, este inverno, devemos evitar as túnicas estampadas, as saias curtas, os decotes profundos, os brincos compridos, a mistura de cores, enfim, tudo o que seja basicamente  “étnico”. Fiquei mais descansada. Pois é tudo o que vou usar este Inverno. Que bom ser vulgar e só me preocupar com que o namorado da minha filha a faça feliz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

da nova série "Facebook dixit"

por Vieira do Mar, em 07.10.11

"Sofia Vieira bateu no fundo, em termos profissionais: está viciada numa coisa chamada dedeira (que se parece vagamente com um brinquedo sexual, menos mal) e anda com ela o dia todo a virar páginas. Agora só lhe falta as Fly, a malinha falsa da Guess, a pulseirinha Pandora adquirida a prestações, ir ao café de dez em dez minutos e comprar a TV Mais, para saber quem matou o Juvenal. E falar muito, muito!, com as colegas sobre os filhos. Sofia Vieira apanhou um vírus grave: foi contaminada pelo funcionalismo público."

Autoria e outros dados (tags, etc)

eu cá acho bem

por Vieira do Mar, em 06.10.11

A Duquesa de Alba casou-se. Para quem não sabe quem é, este post não interessa, portanto, adiante: é preciso conhecer a figura. Casou-se com um funcionário público giro, vinte e tal anos anos mais novo. Ela tem 80 e muitos, e notam-se todos: no corpo frágil e na  cara,  retalhada por operações plásticas. De acordo com a minha wikipédia das trivialidades – a Hola, sempre politicamente correcta com os famosos, em especial os reais (mas é o que se apanha por cá), a polémica foi muita, porque uma mulher tão feia e tão velha com um homem tão bonito e tão novo só podia querer dizer uma coisa: chulice. Os filhos insurgiram-se de tal modo que a mulher com mais títulos nobiliárquicos do mundo, não sei quantas vezes Grande de Espanha, dona de uma fortuna incalculável, com dezenas de propriedades e palácios de sonho, dividiu a fortuna em vida pelos seis, tomem lá e não me chateiem, mas mantendo o controlo de tudo até à sua morte, chamem-lhe parva. Ora acontece que a Duquesa de Alba tem muita pinta. Para mim, é a mulher com mais pinta de Espanha. Não pelas túnicas giras que usa descomplexadamente, nem pelos brincos gigantescos que muitas vezes lhe invejo, ou pelo estou-me-nas-tintas das sabrinas com meias garridas; nem sequer pelo extremo bom gosto de ter Victorio & Lucchino como o seu estilista de eleição. Nas fotografias, vê-se um homem atencioso que a ampara e a acompanha para todo o lado sendo que, depois de ter estado entrevada numa cadeira de rodas e quase paralisada, é agora uma velhota toda direita que recuperou o orgulho de antes e que desbraga uma  felicidade que irrompe pelos plásticos e silicone que lhe enchem a cara. A Duquesa de Alba tem pinta, especialmente, porque faz o que quer. Contra os conselhos dos filhos, dos amigos, até do próprio Rei de Espanha, que a páginas tantas a tentou desconvencer do namoro (ela é a única pessoa, aliás,  perante quem a família real espanhola faz vénia, segundo a minha bíblia das celebridades). Eu acho bonito e uma sorte, ela ter encontrado aos oitenta anos alguém que a faz feliz. Quero lá saber se ele vive à conta dela e se ela lhe dá uma pensão, se não a fode todos os dias, se a relação é mais de amizade que de outra coisa, se é apenas companheirismo, afinidades mútuas  ou cumplicidade. Se ele aprecia coisas bonitas e por isso se sente bem ao poder apreciá-las. Porque só o Palácio sevilhano de Las Duenas é uma maravilha do mundo arquitectónico, uma construção mágica, carregada de história e de uma beleza absolutamente ofuscante. Não interessa. Ele fá-la feliz e ela foi a escolha dele. Para cuidar,  amparar, passear e partilhar a vida. E ele, muito provavelmente, também está feliz. Quando se tem uma companheira com uma cabeça jovem, obstinada, inteligente, desempoeirada, independente e culta, não é um corpo nem uma cara encarquilhados que impedem que se goste, mal estaríamos. E, no fim de tudo, o que sobra é isto: de que vale tanto palácio, tanta obra valiosa, tanta história, tanto dinheiro... se não tivermos com quem partilhar a beleza? Nada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

novo (?) template (shame on me...)

por Vieira do Mar, em 05.10.11

Com um humilhante atraso de dois meses, aqui vai o agradecimento à Cláudia Borralho  do SAPO por, mais uma vez, ter concebido um template que é a minha cara e relecte o meu mood (apesar dos swings, o que é genético, nada a fazer). Está bonito, não está? Cheira a Verão e eu, ao contrário dos que já estão fartos de calor, queria isto, calor e praia, o ano inteiro. Obrigada, Cláudia! :)

Autoria e outros dados (tags, etc)

sofia has left the building

por Vieira do Mar, em 28.09.11
 

 

(for now)

Autoria e outros dados (tags, etc)

fechado temporariamente para descanso do pessoal

por Vieira do Mar, em 18.08.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

ohoh...we´re (not) half way there...

por Vieira do Mar, em 01.08.11

Ontem fui literalmente arrastada para o(s) Bon Jovi (bilhetes oferecidos no Natal e religiosamente guardados, sem escapatória possível). Não estava à espera de grande coisa. Apesar da carinha laroca (já com uma boa dose de botox e de esticanço) e de um nice but, aquelas jaquetas e a popa à eighties que o rapaz teima em manter não auguravam nada de bom. Assim como assim, prefiro mauzões dos verdadeiros, cheios de caveiras e a partir instrumentos no palco. Ou é da pesada ou não é. Bom, entretanto, consta que anda praí grande crise, mas bilhetes a 50, 85 e até 250 euros, encheram o Parque da Boavista de quase sessenta mil pessoas. À partida, e para uma claustrofóbica como eu, para quem um ajuntamento de quatro já é demais, a coisa ficou complicada desde o início. Solução? Vir cá para trás, mesmo para o fundo, e ver quase nada. O de quinze de imediato desapareceu para ir ter com os amigos "lá para o meio", para o "moche" fazer "crowd surfing". Foi uma daquelas ocasiões em que desejei não perceber uma palavra de inglês e ficar na ignorância. Portanto, fingi apenas que não percebi e disse-lhe para ter cuidado (LOL). Claro, ficámos incomunicáveis a partir do momento em que mergulhou na multidão lá em baixo, e quem ficou sem ar fui eu. O "crowd" era indistinto, muito trintão com umas horríveis t-shirts da tour, um cheiro a piroseira pairava no ar, para além dos cachorros frios a 4 euros cada. Muita gente abraçadinha nas baladas impossivelmente chatas e compridas, sem fim à vista. Estava tão rodeada de casalinhos amorosos que às tantas deu-me a carência e abracei-me ao meu filho mais novo, a minha cara na dele, a abanar-me ligeiramente e tal,  para não me sentir tão de fora. Já bastava estar a achar a música uma merda. Escusado será dizer que fui gentilmente repelida pelo infante. 11 anos já não são 10, há muito que passámos a fase dos carinhos em público, era o que faltava. O drama para os meus ouvidos em breve se tornaria num drama a outro nível. Com a criança incomunicável o resto do concerto, já só pensava quando aquilo acabaria, e se acabaria em bem. Cada vez que os rapazes em palco se despediam, sentia uma alegre expectativa de definitividade, mas os cabrões dos casalinhos (aqueles que berram os refrões, porque os refrões dos bon jovi não têm fim, foi o que descobri então), pediam mais e mais, pelo que aquela foi gorada por pelo menos três vezes. Porra, que ninguém desabancava! Finalmente, quase três horas depois bazaram e sessenta mil dos portugueses que não têm dificuldades financeiras encaminharam-se desordeiramente para a saída. Quanto ao telemóvel do estapor do filho, nada. Sítio de encontro? Indefinido, porque podia ser um de dois. Resumindo a estória: quase andei à tareia com um polícia, quase tive que pedir a máscara de oxigénio ao senhor da ambulância, o meu filho mais novo (de fino ouvido musical e farto dos achaques da mãe) quase se arrependeu de ter ido, e o mais velho, quando o encontrei uma hora depois e me apareceu na descontra,  quase se arrependeu de ter nascido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

a viagem

por Vieira do Mar, em 30.07.11

 

Mete-se no carro, com destino definido, o errado, como sempre. Sem cds nem ipods para se sintonizar com o que lhe vai na alma, escolhe uma estação de rádio ao acaso. Mas só lhe calham canções de amor, de amor impossível, de amor fácil, não me deixe só, muda; angie i still love you baby, muda; somewhere beyond the sea, somewhere waiting for me... muda; esteve nisto meia hora, talvez fosse do balanço da lua, boy meets girl, it´s friday i´m in love, my heart will go on, muda; every breath you take, i don´t wanna close my eyes i don´t wanna fall asleap, un-break my heart, say you love me again. Muda. Descobre que se havia tornado cínica. Sem dar por nada. Assim, num repente. By by love.  Fica-se pela TSF a ouvir um ministro atacar a oposição. Ou talvez fosse o contrário. E depois umas explicações sobre economia em que se esforçou por entender porque lhe iriam ao subsídio de natal. Finda a viagem, e nada do que os analistas de serviço haviam debitado lhe ficara na memória. Talvez se fosse de dia, a objectividade calorosa do sol opera milagres, vemos as coisas como elas são, lemo-las melhor: a sabedoria é luz. Pára na estação de serviço e fuma três cigarros seguidos. A TSF passa agora a sua música favorita de nina simone, a que condensa o amor em estado sólido, wild is the wind. Traga-a mais fundo do que aos cigarros, é a sua forma de se render. Mas ao menos perde para a nina simone, e não para um qualquer lionel ritchie ou uma celine dion. E poderia sempre alegar que não fora por causa do amor que se espalhava pelas teclas do piano,  mas por ser uma versão que nunca ouvira, em que a própria tocava como se lhe doesse e que ela  não era nenhuma autista musical, por favor. Pisca os olhos para que não lhe fuja uma lágrima traiçoeira, carrega no acelerador  e segue para o seu destino errado, de onde sairá pior do que entrou,  careca de o saber, mas sem ideia de porque insiste na viagem. À sua volta, as sombras adensam-se e deixa de ligar ao que lhe devolve a rádio. Cínica ou não, lembra-se de Pessoa, numa estranha inversão de papéis,  Mas cada um cumpre o Destino, Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino, Pelo processo divino, Que faz existir a estrada. A angústia a acariciar-lhe o pescoço, o vento a querer despertá-la do torpor do erro, debalde. Acende um cigarro no carro, um perigo, o carro abana enquanto se distrai com o isqueiro, está quase a chegar, a velocidade devolve-lhe a cinza, que assenta no apoio de cabeça; atrapalha-se como de costume e resolve mandar o cigarro fora. Hora das notícias. Mortes, gente doida, políticos aldrabões, escândalos internacionais. Nada de novo. Pensa em voltar para trás na saída mais próxima, como sempre lhe acontece a dois terços do caminho. De nada vale, segue em frente como se telecomandada. No oceano pacífico (pensa ela, que ouviu entretanto o canto das baleias) jamie cullum armadilha-a, fatalmente,  mortalmente,  com all at sea. Like a warm drink it seeps into my soul Please just leave me right here on my own Later on you could spend some time with me If you want to All at sea. Tal como o príncipe da estória, ela rompe o caminho fadado. Não só é cínica, mas ainda lúcida o suficiente para saber que o que faz, fá-lo sem qualquer outro propósito que não o facto de ter de o fazer, instigada pelo destino, o desafio, a falta de lógica, a incongruência. Descarta outras hipóteses porque, lá está, é cínica.  Desliga a rádio e embrulha-se no silêncio sem qualquer tipo de fé. Tem pressa de chegar, talvez para mais depressa se poder vir embora. Conclui que nunca o saberá, tudo depende sempre de tantas pequenas coisas. Mínimas, minúsculas, repetidas à exaustão, inúteis coisas. A encruzilhada sem saída é normalmente o fim do caminho, como naqueles filmes de terror em que os adolescentes são caçados um a um, sem fuga possível. E essa é a única coisa de que tem a certeza, quando alcança a via verde a desafiar com velocidade muito excessiva a estreiteza da passagem. Sem fuga possível. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

simply the best

por Vieira do Mar, em 28.07.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

dia dois de agosto nas bancas

por Vieira do Mar, em 28.07.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

a losing game

por Vieira do Mar, em 24.07.11
 
 
(shit)

Autoria e outros dados (tags, etc)

serviço público

por Vieira do Mar, em 18.07.11

 

Décima temporada a bombar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

estado de graça

por Vieira do Mar, em 13.07.11

Os textos são pobrezinhos, o programa é mau, mas achei um piadão ao monchique e à ana bola a fazerem de passos coelho e respectiva.

Autoria e outros dados (tags, etc)

estendais

por Vieira do Mar, em 13.07.11

Gosto de estendais, sempre gostei. São um dos meus motivos favoritos para fotografar. Sou uma amadora rasteira que nem sabe as características técnicas da máquina que está a usar, ficando-se pelo ISO, a abertura, o zoom, a cor ou o branco e preto, rodar o botãozinho para paisagem ou retrato e pouco mais. Depois, o www.picnik.com faz o resto. A versão grátis, muito limitada (claro que digo isto para me valorizar, é demasiado óbvio?). Já a paisagem não me diz muito e não tenho jeito para captar expressões, rostos, nunca transmitem o que eu via na altura, não sei porquê. ou melhor, sei: não tenho o dom nem a técnica. Mas tenho jeito para uma coisa: enquadramentos, quanto mais não seja porque passo horas a pensar neles. O que fica de fora, o que deve entrar, o alinhamento. Gosto de nuvens. E de pormenores de edifícios, especialmente os degradados, o azulejo partido, o lancil meio desfeito. E do mar - o mar é sempre diferente e nunca lhe consigo captar a essência, o que é um desafio. Na minha habilidade precária, prefiro infinitamente mais fotografias a cor do que a preto e branco. E não há nada tão colorido como um estendal, em especial num bairro social, pobre, onde cuecas gigantescas de misturam com soutiens para os quais nem deve ainda ter sido inventada uma copa, t shirts do benfica com meias desemparelhadas, toalhas de praia com golfinhos gigantes, panos de cozinha, camisas de noite de flanela florida  a roçar o chão ou o andar de baixo, molas de plástico de todas as cores e as sombras das roupas a esvoaçarem pela caliça das paredes , numa exibição despudorada de intimidade.

 

   

     

    

  

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

mar revuelto

por Vieira do Mar, em 13.07.11

(foto: minha)

Autoria e outros dados (tags, etc)

cobrar por um jornal onde se escreve sem se ser pago?!

por Vieira do Mar, em 06.07.11

Gosto do Jornal i desde o primeiro dia. Não é preciso ser licenciado em design para perceber a então  inovação do grafismo, a boa ideia quanto ao tamanho das páginas que facilita a leitura enquanto se bebe a bica, as notícias curtas que muitas vezes tendem a fugir ao comum dos tablóides e os, alguns, excelentes artigos de opinião. É claro que, enquanto houve o suplemento "Nós, Portugueses", coordenado pelo Pedro Rolo Duarte, o Mestre (saravá, Pedro!), o jornal era mais interessante. Depois, ao fim de 50 números, foi substituído por um suplementozito menos giro, em termos de conteúdo - e em especial em termos gráficos -, mas que, mesmo assim, não desmerecia do jornal no seu todo e que manteve bons colunistas, que é o que interessa. É um jornal "jovem", sem a parte pejorativa geralmente associada ao que é ser "jovem". Não sei quem foi que o comprou, nem o que é que o senhor faz ou é. Parece-me, no entanto, que começar por deixar de pagar aos colunistas, a espinha dorsal de qualquer bom jornal que se preze (porque, para notícias em primeira mão temos sempre o twitter e o google) é, não só um erro estratégico, como uma enorme falta de respeito para com a dignidade criativa de quem escreve. Sempre achei que escreve de graça quem quer e quem pode - ou quem não consegue ser pago pelo que escreve (ou porque não é suficientemente bom ou porque a vida lhe é injusta). Por isso eu escrevo num blogue e, ocasionalmente, para quem me convida. Mas escrever regularmente para um jornal ou uma revista é trabalhar. A sério. Não é coisa de madraço, como muito invejosos e wannabes afirmam, mas é dar no duro, mesmo - em especial se se tem brio naquilo que se faz. Implica investigar, escolher bens as palavras, buscar inspiração mesmo quando não a há, dar tudo para ser original, encolher textos, alargar textos, submetermo-nos à ditadura dos caracteres e das imposições editoriais, entregar um artigo em modo deadline e mal ter tempo para respirar ante a pressão de saber sobre o que escrever no artigo que vem a seguir. É trabalho físico e de cabeça. E é o alimento de quem depois o lê. É por eles e elas (os que escrevem e opinam sobre o que se passa no mundo) que muita gente compra jornais. Eu, por exemplo, que não gosto do Público, compro-o só para ler o MEC, logo no dia, fresquinho, assim que sai. Uma coluna pequenina, uma pérola enfiada no meio de um jornal que nada me diz, mas eu compro-o. E, como eu, muito gente fará o mesmo em relação aos seus colunistas favoritos. Deixar de lhes pagar em nome de uma "reestruturação necessária" é um desrespeito, uma desonestidade e, principalmente, um tiro no pé: os colunistas do "i", da mesma forma que vão deixar de ser pagos, que deixem de escrever, e depois é ver quem pega no jornal e para onde vão os oito mil e quinhentos leitores diários.

Autoria e outros dados (tags, etc)

born

por Vieira do Mar, em 04.07.11

on the fourth of july.

Autoria e outros dados (tags, etc)

solidão

por Vieira do Mar, em 03.07.11
 

 

Com toda a gente a aterrar nas cidades, com cada um a ter a sua vida, feita de núcleos familiares ínfimos a quilómetros uns dos outros, com o egoísmo da vida própria e as amizades virtuais que raras vezes se traduzem em abraços verdadeiros,  caímos facilmentre na esparrilha da solidão, quando o amor passa a correr longe. A solidão é como naqueles filmes de terror: uma menina de totós que nos espera silenciosamente ao fundo do corredor, que nos dá sem sabermos porquê uma sensação esquisita, um arremedo de pânico mas que ao mesmo tempo nos atrai; uma estátua inocente que, quando se aproxima de nós, abre uma bocarra de dentes afiados que nos quer devorar inteira. Esta menina pode aparecer em qualquer idade, de repente, devagarinho,  ao longe, agora mais perto, em cima de nós, agora. O problema é que não é um monstrinho zombie que se limita a refastelar-se com um dos nossos apêndices, como um braço sugado em modo de festim sanguinário numa cidade morta. Não, é um monstro que nos suga o cérebro por uma palhinha. Que nos suga a auto-estima, a alegria, a vontade, devagarinho, implacável e determinada. Que nos faz esquecer que um dia houve cumplicidade, um riso simultâneo por algo ridículo que mais ninguém viu, um fluído alheio do qual apenas nós não tivemos nojo.  À solidão assiste uma precisão cirúrgica: como uma lobotomia, apaga-nos a memória e cola-se aos corpos sozinhos como cem por cento de humidade, como poeira nuclear ou o sal amargo depois de um dia de mar a mais. Talvez olhando-a de frente se aprenda qualquer coisa, não sei.

 

 Adenda: Parece que alguém inventou uma versão melhorada deste post, aqui. Tem de facto um je ne sais quoi que faltava à minha...

Autoria e outros dados (tags, etc)

please wake up

por Vieira do Mar, em 01.07.11
 
roubado daqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

uma dica da rainha das dietas falhadas

por Vieira do Mar, em 01.07.11

 

aquecer um litro de água, saqueta lá pra dentro. esperar que arrefeça e despejar numa garrafa vazia. ir bebendo ao longo do dia. milagre sob a forma de chá verde com perfume de ananás.

Autoria e outros dados (tags, etc)

" and you may tell yourself this is not my beautiful house"

por Vieira do Mar, em 27.06.11

Dividiram os bens comuns, ela contrariada, disposta a atirar com tudo para os confins de um tribunal. Nada adquirido na constância do matrimónio, tudo dado, oferecido para o bem da família, do casal e dos netos, por um pai e avô embevecido e ingénuo. Ele a querer vingar-se do descarte, a aproveitar-se dos pontos fracos, do desgaste da contenda, do ponto final posto por ela, sem razão aparente que não a falta de amor e de tudo, excepto do silêncio em excesso. Motivo pouco, diziam todos,  para acabarem vinte anos de associação maioritariamente proveitosa. Mas, dizia eu, ele a querer vingar o descarte rápido, definitivo, que não admitia retrocessos. Quis metade de tudo, assim, divididinho com direito a tornas e tudo para as contas darem certas. Entre outras coisas, ficou com a quinta. Um olival de três terrenos, numa encosta, para o qual ela desenhara, em noites de insónia acelerada, uma casa, as divisões, as medidas exactas em papel milimétrico, com epifanias de arquitecta, às vezes de engenheira.  Terraços, muros de pedra, piscina, balneários, garagens, jardins, canis, estufa de inverno, tertúlias para as noitadas com os amigos. Escolheu os materiais um a um, a madeira das escadas, os azulejos da cozinha e casas de banho, percorreu os antiquários e comprou a prestações os melhores móveis, LCD de muitas polegadas, colecções de pratos antigos, de meninos jesus, de figuras de presépio, os quadros que trouxera de havana. Toalhas novas, louças, talheres, uma surpresa a cada vez que uma mesa era posta e ele orgulhoso, sem saber de onde tinham aparecido tantas coisas bonitas, a incitá-las aos amigos como coisas suas. Cá fora, a pequena piscina desenhada por ela e os balneários pintados com trompe l´oleil, as hortênsias rosa coladas à pedra, pujantes sob a sombra da nespereira centenária. Os azulejos antigos que encontrara em demolições, espalhados pelo muro, as treliças de madeira por onde soçobravam glícinias roxas, a horta roçada por ele e depois acarinhada por ela, com regas a horas certas. As refeições de domingo, os grelhados no alpendre em família e, de inverno, o pargo no forno ao calor da lareira. As paredes pintadas por ela, com heras no topo a toda a volta, as gregas, cachos de uva, limoeiros. Os vasos da toscânia com as siccas à porta, as heras enterradas junto aos muros a taparem-lhes o branco sujo de ano para ano. O amarelo vivo das paredes, os tectos forrados a madeira, os candeeiros da companhia do campo e a cozinha, o seu reduto, com uma bow window directamente para a zona de jantar feita por medida, à sua medida. E, na horta, os tomates em cacho, as alfaces, as courgettes descomunais, as couves. No campo, os oregãos frescos.  Assim que ela lhe pediu que saísse, ele, alegando não ter tecto, abancou na quinta. Crianças pelo meio, olha, que fique por lá, ao menos continuam a ter  fins-de-semana de liberdade, elas adoram aquilo. E assim foi. Ela nunca mais lá entrou excepto quando ele, magnânimo ao fim de vários meses, a deixou ir buscar as antiguidades que lhe tinham saído do couro e comprado a prestações quando era solteira e ganhava pouco. Trouxe tudo o que conseguiu, mas deixou lá muito mais de metade. Foi o único sítio onde alguma vez se sentiu em casa, porque o construiu degrau por degrau, pedra sobre pedra. Aquela terra, onde enterrava os braços até saírem lagartas gordas que faziam o festim das galinhas poedeiras, era sua. Até cimento pôs entre tijolos, mãos que nunca tinham feito uma cama até se casar. Encheu dois camiões de mudanças, deu uma reviravolta ao carro no pátio e saíu portão fora, parando uns metros mais à frente onde se desfez em lágrimas de dor, de uma dor quase insuportável, como se lhe tivesse morrido alguém,  mas não se desfez  do passado, e muito menos dos tomates doces da horta, das pinturas, das hortênsias, da glicínia, do salgueiro à porta do quarto, das lavandas a delimitar a relva, da nogueira com as melhores nozes do mundo, onde baloiçava um banco para os miúdos. Conduziu com dificuldade até Lisboa, a amiga a consolá-la, a chorar mais do que ela, imaginado-lhe a dor, a insuportável dor. Mas ela sabia que o pior estava para vir. Meses passaram, um ano, ano e pouco. Hoje, outra ocupa-lhe a cozinha e faz passar pela bow window o almoço de domingo que os filhos comem a cada quinze dias. É ela que trata da horta e lhe apara as hortênsias. Que recebe os amigos comuns como a anfitriã perfeita, que sobe e desce as escadas de faia debruadas a limões, que dorme no quarto pintado com heras e se despe e veste no vestiário à sombra do trompe l´oeil. De tudo, o menos é mesmo o dormir na cama que foi do casal. Esse espaço estava vago havia muito tempo, mesmo antes da separação, e fora pela vontade de não o ocupar que ela perdera tudo o resto. Não as coisas em si, não são as coisas que se perdem,  mas o tempo e o sonho pespegado a elas. Há gente que não entende isto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pff

por Vieira do Mar, em 16.06.11

Facebook novamente bloqueado. Mails marados (excepto o do SAPO, como sempre). Taditos, pensam que me chateam. Divirtam-se, freakzinhos. Namasté!

Autoria e outros dados (tags, etc)

e coli

por Vieira do Mar, em 09.06.11

não sou lá muito de teorias da conspiração mas isto parece-me o início do terrorismo biológico. eles contra nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

escaravelhos

por Vieira do Mar, em 07.06.11

Há um tipo de pessoas que me lembra aqueles escaravelhos que passam a vida terra acima, terra abaixo, a enrolarem bolinhas de merda que vão sacando aqui e ali. Isto a propósito de ter ficado de novo sem acesso ao vieiradomar@gmail.com. Portanto, qualquer coisa, é o mesmo username mas para o vieiradomar@sapo.pt, sff. Ah! E é claro que se receberem algo daquele endereço, não fui eu que enviei, óbvio. Entretanto enjoy, motherfuckers, rebolem-se bem na lama (coitadinhos, nem nisso têm sorte, a lama é pouca), porque a brincadeira está prestes a acabar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

mais um tirinho no pé

por Vieira do Mar, em 26.05.11

Como já estava a adivinhar (é o que eu digo: não posso passar ao lado do euromilhões), votar no PSD ou no PP significará, mais tarde ou mais cedo,  um retrocesso civilizacional relativamente a uma das mais importantes conquistas do PS: a despenalização do aborto. Portas andava a evitar a questão, esperto como é, mas Passos Coelho, mais tonto, deu outro tiro no pé, ao chamar o assunto à colação. Hoje, ambos os partidos perderam muitas eventuais mulheres votantes que, revoltadas com o facto de o PS lhes ter ido ao bolso, estavam dispostas a dar o seu voto, pela primeira vez, a um ou a outro, para castigar Sócrates. Eu era uma delas. É claro que Portas, apesar de ter dito que, caso fosse poder, não imporia aos portugueses os seus "princípios",  quando confrontado directamente com a questão da reavaliação da lei do aborto, não pôde descartar a hipótese de o fazer, caso em que trairia todo o seu eleitorado tradicional: os muito betos e os muito incultos (características nem sempre tão distantes como parecem). Só que isto é assim: nos próximos anos, em termos de finanças públicas, quem quer que seja eleito não terá margem de manobra, refém do FMI e dos "auxílios" que aí vêm. E vai ser apenas nas pequenas coisas, iniciativas legislativas no domínio da política interna, não económicas e não financeiras, que quem quer que seja eleito vai poder "mexer". Mudar as leis caseirinhas,  para as quais os que nos dão o dinheiro se estão mais ou menos nas tintas, coisas que não conflituam directamente com percentagens, taxas de juro, margens de erro e afins. No caso concreto da despenalização do aborto, a demagogia vai ser tanta que se calhar até conseguem convencer de facto a troika de que o dinheiro até agora dispendido em abortos legais é dinheiro que está a ser roubado à velhinha que espera há sete anos para ser operada à anca. Já há quem ande para aí com essas comparações desonestas e levianas. E é a argumentos falaciosos do género que Coelho e Portas irão recorrer quanto suscitarem, via "grupo de cidadãos preocupados", a necessidade de "reavaliar" a lei e o sei "impacto". Peanuts, tostões em termos de dívida pública, um rato que eles vão transformar na montanha. E eu, que senti na pele (no bolso, melhor) as medidas do PS, acho isto extremamente preocupante. Com dezanove anos, quase morri de um aborto clandestino, por isso, para mim a questão é pessoal e sobrepõe-se a mais ou menos xis euros no ordenado. Todos já sabemos que o ideial é a prevenção e a educação e que ninguém é a "favor do aborto", como eles gostam de dizer. But shit happens. E há que lidar com ela.  Esta lei, aplicada com maior ou menor rigor, tem permitido salvar as vidas de muitas mulheres, por um lado e, por outro lado, acabar com o monopólio das clínicas de abortos clandestinos. Tanto as de vão de escada, que mataram muitas mulheres ou as incapacitaram para a vida, como as ricas, com clientes de luxo, que sujeitavam adolescentes grávidas a anestesias gerais e lhes faziam "raspagens", quando a situação poderia ter sido resolvida com dois ou três comprimidos, só para sacarem mais algum (bastante mais). Ou seja, o tirinho no pé de Passos Coelho vai-lhe custar muitos votos, à esquerda e ao centro. Aqueles socialistas chateados com Sócrates, que, tal como o resto do povo português, já não o podem ver à frente (porque é o que mais chateia nele é, de facto, o nunca ter admitido que errou e o não se ter demitido quando devia, assim demonstrando arrogância e  incoerência), mas que ainda estão indecisos,  vão ponderar o que é, de facto, mais importante, e o que é que, para além do que perderam com  o PS, podem perder ainda mais com o governo de direita que aí vem. Em especial as votantes socialistas, como a que eu sempre fui. Uma coisa é certa: até posso votar no PAN, mas não vou conceder ao PSD nem ao PP uma maioria absoluta. Medo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por aqui

por Vieira do Mar, em 12.05.11

 

até já!

Autoria e outros dados (tags, etc)

a senhora dona

por Vieira do Mar, em 12.05.11

Era fininha, fininha como um espeto, duas pernas que se esfumavam dentro de uns jeans apertados, o ar atarantado como o de um pássaro preso e um filho adulto, esquizofrénico, do qual era o único sustento e suporte. Trabalhava a dias por necessidade, parece que em tempos tivera uma vida boa que perdera e, pela aparente dificuldade em se colocar lado a lado com os outros, alguns supostos pergaminhos. Quando conheceu a patroa, uma doutorada sem peneiras e sem filhos, que mais facilmente escrevia um ensaio sobre as moléculas do ácido desoxirribonucleico, do que passava uma blusa a ferro, poucos anos mais nova do que ela, tratou-a pelo nome próprio. O primeiro nome. A patroa deixou passar, viu-a perdida numa casa tão grande para uma só pessoa, é o primeiro dia, se calhar não ouvi bem. Chamou-a, senhora dona Cristina (como tratava todas as mulheres com quem não privava e às quais não conhecia título especial), disse-lhe quais os principais afazeres,  porque da lida da casa o que sabia resumia-se à house made uma vez por semana, à lavandaria que ia a casa e à fast food ao domicílio enquanto perdia a vista ao ecrã do mac a investigar coisas difíceis de pronunciar e, de quando em vez, a espreitar sites porno onde aliviava a solidão nocturna e se investigava por dentro. Dia seguinte, novas instruções. Está bem, Margarida. Segunda vez, e a senhora dona bem sabia quem ela era, uma erudita, uma quase professora, Mestre, já Doutora. Nunca puxara dos galões, nunca. Só nos meios académicos, quando incorrera no erro de seduzir um aluno, um finalista que já se achava doutor, repetente, que se preocupava mais com o rugby do que com as aulas, mas de conversa estava ela então farta. Nenhum queria mais do que aquilo que teve, ou talvez ele quisesse, porque, quando se cruzavam nas escadas ou nalgum evento académico, segredava-lhe coisas ao ouvido ou piscava-lhe o olho, atestando perante terceiros uma familiaridade que rapidademente se dissipou com um valente chumbo numa oral por ela presidida. Mas, recapitulando. Aqui estava ela, a Margarida, com a senhora dona. Nos primeiros dias, e como, apesar de ser fraca de corpo, até limpava bem, evitou diálogos directos a fim de não confirmar as suspeitas e ter de lhe dizer qualquer coisa. Seguida do despedimento, claro, porque estas coisas não se ensinam nem se aturam. E uma ressabiada em casa, ainda por cima com necessidades e a achar-se brasonada, começava-lhe na lingerie e acabava sabe-se lá onde, a ir ao cheiro do que um dia tivera. Porque não era uma questão de pedantice. Vejamos. Tinha a ver com o significado da inversão de papéis, pouco saudável, patológica, anormal. Uma falta de respeito perante quem ela respeitava. Por exemplo, a senhora dona nunca deixava o relógio, os óculos, o telemóvel e a carteira na casa de banho social, onde devia fazê-lo, como as outras antes dela. Pousava-os na mesa da cozinha, bem no centro, como que a ocupar provisoriamente um espaço que não era dela com os seus pertences. Margarida sabia que a senhora dona trabalhava para outras amigas (aliás, havia-lhe sido recomendada por uma delas), espalhou a estória e as amigas, cada vez que se referiam a ela perante a senhora dona diziam a Dra. Margarida isto, Dra. Margarida aquilo. Nada resultava, orelhas moucas. Um dia, resolveu pô-la à prova e chamou-a. Sim, sraaaaa.hammm...seeee nhor a Margarida? Percebeu que aquilo andou ali a mastigar no interior da criatura, mas que, por altivez, estupidez, ou defeito na língua, não se convencia a dizer o famigerado doutora, como se fosse uma blasfémia. Margarida virou-se para ela com o melhor sorriso do mundo. Senhora doutora Cristina, preciso que volte a limpar as banheiras que ficaram sujas. A senhora dona arregalou os olhos para o lado contrário e por instantes parou-lhe no peito o coração onde se convencia que corria sangue azul, mas não se desmanchou e rapidamente lhe retorquiu, Está bem, Margarida, fungando bem alto como se fosse alérgica aos títulos académicos. Margarida nunca pensou que ela tivesse o atrevimento. Olhou-lhe para os ossos ilíacos que lhe furavam as calças, para as mãos desenhadas a veias, os caracóis desgrenhados, o olhar que desafiava a parede e soltou uma gargalhada que era raivosa, embora não parecesse. O raça da anoréctica altiva dera-lhe uma abada, e das grandes. Senhora Doutora Cristina, continuou a sorrir-lhe, vai levar um aumento, pois acho que não lhe ando a pagar o que merece. Engoma-me os colarinhos e os punhos das camisas de seda como ninguém, isto só as criadas de antigamente! E, já de saída, preparada para chumbar meia dúzia de desgraçados nas orais do dia pela afronta da empregada, virou-se para trás e rematou, numa voz doce: e limpe a sanita em profundidade, por favor, os meus intestinos não têm andado nada bem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

a experiência das nails de gel ou lá o que era

por Vieira do Mar, em 12.05.11

Odeio unhas de gel e afins. Odeio. Mas uma vez resolvi experimentar uma loja de “nels” aqui na minha rua a ver se acabava de vez com o maldito hábito de roer as naturais. Com uma camada de qualquer coisa em cima talvez me demovesse de ir lá com os dentes. Entrei na salinha, com marcação prévia, tudo overbooked, e parecia-me estar na antecâmara de uma casa de putas. Brasileiras e portuguesas de saias pelo fio dental e botas quase a chegar lá, revezavam-se na cadeira das profissionais, competindo entre si pelos apêndices mais horríveis, mais coloridos e mais enfeitados. Ele eram palmeirinhas, pôres do sol, florzinhas, e até caveiras para as mais góticas, embora fosse difícil distingui-las: a mim, metiam-me todas medo. Chatear-me com uma daquelas, por exemplo, no cais do sodré, implicaria umas belas arranhadelas das quais não sararia tão cedo, seguramente. Não tenho dúvida de que o propósito primeiro daquelas criaturas não era embelezar-se, mas sim armar-se para a guerra. O tamanho das ditas nails era pra lá de descomunal. Aquilo não dá para descascar uma batata, carregar num comando, enviar uma sms, e, last but not least, praticar qualquer tipo de masturbação (credo!). Aquilo são garras gigantes, parecidas com unhacas de águia, embora envernizadas e com cheirinho tropical em vez de cheirarem a coelhos mortos. Quando chegou a minha vez e as mãos secaram lá debaixo de umas luzes, e depois de eu ter garantido que queria verniz natural (olharam-me como se fosse uma pirosa sem qualquer noção de estilo), pedi-lhes que começassem a cortar. E a cortar. E a cortar. Até ficar praticamente junto da ponta do dedo, porque detesto unhas grandes. Foi então que comecei a sentir as atenções das xeenas guerreiras voltadas para mim. A rapariga que me atendeu lá me ia dizendo que não, que não, mas não me conseguiu demover, pois  reparei que a porta ficara entreaberta e que, se necessário, a fuga seria fácil. Quando final saí incólume para o ar livre, depois de largar setenta euros (era uma “primeira vez”) olhei para as mãos e reparei que, mesmo com tantos cortes e recortes, as unhas eram grossas e sobressaiam da mão, bojudas, como excrescências. Voltei imediatamente lá dentro e pedi que me tirassem aquilo. Como me tinham limado as unhas ao limite, para disfarçar a grossura das artificiais, no final da operação  estavam finíssimas e muito fracas. Apeteceu-me largar um fósforo à saída e pegar fogo aqueles materiais altamente inflamáveis que elas usam para tornar as mulheres um mundo pior e muito mais feio. Depois pensei que matava uma data de putas e de sopeiras de uma só vez e que lá se ia o sustento de várias famílias, No fundo, sou uma boa pessoa, até querida, mesmo tendo ficado com umas unhas de merda durante meses, que se dobravam com o vento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

so fuckin´cool

por Vieira do Mar, em 09.05.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

let it roll baby roll

por Vieira do Mar, em 09.05.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

mastros

por Vieira do Mar, em 09.05.11

         foto: minha 

Uma Após Uma
Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva 'spuma
No moreno das praias.

Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o 'spaço
Do ar entre as nuvens 'scassas.

 

 

Ricardo Reis in "Odes"

Autoria e outros dados (tags, etc)

querido

por Vieira do Mar, em 08.05.11

isto não tem sido fácil entre nós. O do meio, esmifrado entre expectativas por cumprir, mecanismos de compensação e, por vezes, alguma incompreensão mútua, cresceste à sombra da minha culpa. Foste, como os outros, um peão quando as coisas deram para o torto. É sempre assim, e quem diz que não é, mente. Andaste em bolandas, sofreste que te fartaste. Hoje, perto de te tornares um homem, estás mais tonto e infantil do que nunca. Fazes muitos disparates. É da idade, dizem, parece que do armário. Mas em contrapartida estamos mais em paz um com o outro e já não precisamos, nem da minha condescendência, nem do teu silêncio contristado, para nos darmos bem. Agora somos só nós, sem muletas nem amparos. Nem chantagens. Cada um no seu papel. Conversamos mais,  contas-me muitas coisas e eu espanto-me com o quanto somos, estranhamente, parecidos: distraídos quase ao ponto da alienação, irresponsáveis, desconcertantes, irritantes, teimosos que nem mulas. Atravessamos a rua sem olhar (eu só olho quando vens comigo por sei que não o fazes) e temos esta mania de estragar os electrodomésticos e as electrónicas com a mais pura das negligências. Mas tu tens uma memória muito melhor que a minha e, sem leres a porcaria de um livro, sem estudares para a porra de um teste, levando-me à loucura com esse desprendimento como se a vida fosse só viver, sabes tudo sobre tudo. Guias-me a sítios desconhecidos à primeira, sem GPS nem mapas, é-te instintivo, és o meu co-piloto. Bates-me sempre quando vemos o malato, se lá fosses saías rico. Apetece-me pôr-te a render no poker on line, quando jogas ganhas a todos, adultos e miúdos. Queria fazer um vídeo de ti a brilhares naqueles riffs dos Gun´s and Roses, dos Stones, AC/DC, Dire Straits, ou dos Pearl Jam, com a Yamaha eléctrica que te ofereci, pô-lo no youtube e gritar ao mundo que aquele ali é o meu filho. Tenho um orgulho em ti que nem te passa e, na verdade,  não me importa que só tenhas três e dois quatros e uma nota de mau comportamento, ou pelo menos, não me importa assim muito. Porque no dia da mãe acordaste-me. Trazias um tabuleiro na mão com um petit gateaux de chocolate (que por acaso era enorme), com cereais em cima que escreviam a palavra mãe, uma omolete primorosamente cozinhada e um galão quentinho. Era domingo, e tinhas posto o despertador às nove da manhã para teres tudo pronto às onze. E é assim, que me derreto contigo e que te desculpo quando me invades a casa com meia dúzia de matulões com cérebros de girino que me arrasam o frigorífico e me deixam um rasto a chulé no corredor. A propósito, tens de ver se passas a andar mais devagar de bicicleta, saltar seis degraus de uma vez só é perigoso, para mais sem mãos. E de aprender que os moche têm sms grátis, mas que também o são para os pais, e não apenas para os amigos. E que a bateria é uma coisa que se gasta e se tem de pôr a carregar. Só às seis da tarde consegui dar-te os parabéns. Vale que depois houve abraços e beijinhos em barda senão acho que teria morrido. Adoro-te, querido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

assim não*

por Vieira do Mar, em 07.05.11

Pela primeira vez na vida, considerei votar PSD. Eu, que sempre jurei que, caso me fosse impossível continuar a votar PS, votaria directamente no PP sem passar pela casa da partida nem receber duzentos euros, no fundo sempre soube que, chegado o momento, não seria capaz de pôs a cruzinha na direita. Gosto de Portas e concordo muitas vezes com o que diz mas a possibilidade de um bando de betos hipócritas ficar com poder suficiente para revogar, por exemplo, a Lei do Aborto e provocar um retrocesso civilizacional de vinte anos, é demais para mim. Superior a todas as troikas e pacs. Portanto, e apesar do amadorismo suburbano de Pedro Passos Coelho, estava disposta a respirar fundo e a votar na alternativa a Sócrates. Mas depois apareceu o Fernando Nobre, que concorre por Lisboa e eu voto em Lisboa. E acho, sinceramente, que a criatura é o que de mais patético apareceu na política nacional nos últimos anos (e olhem que há muito por onde escolher). É um vaidosão tonto, um parvo que só diz disparates, um verdadeiro tiro no pé para o PSD. Será que o partido tem noção da quantidade de votos que perde a cada vez que o dito abre a boca? E será que se apercebe de que ganhar estas eleições não é exactamente favas contadas e que cada voto conta? Este aval à mediocridade política que teima em pôr-se em bicos dos pés não augura nada de bom para o PSD, desafortunadamente.

 

* Depois das declarações de hoje de Portas, poderia jurar que ele leu este post. Ou então, há por aí muita gente a pensar exactamente como eu (o mais provável).

Autoria e outros dados (tags, etc)

hooked on

por Vieira do Mar, em 05.05.11

Hell´s Kitchen; profundamente desanimada com o fim da CUORE portuguesa e, das centenas de livros mencionados este mês na revista LER, só li três. Além disso, já pensei várias vezes que não posso deixar de pôr a gravar o castelo branco na tribo. E assim vai a minha vida cultural.

Autoria e outros dados (tags, etc)

o verdadeiro post do dia da mãe (com outras coisas à mistura)

por Vieira do Mar, em 03.05.11

 

O que vivi nestes últimos dois anos, três anos, dava para uma vida inteira. De bons, excelentes, e de maus, péssimos momentos. Quando tomamos uma decisão nem sempre temos noção das consequências a médio e a longo prazo que a mesma pode ter na nossa vida e na dos outros. Perdi imensas peneiras e, ao me ver na posição de certas pessoas que antes criticava, aprendi a não ceder ao pré-juízo imediato, ao facilitismo moral. Continuo irredutível em certas posições e há princípios que sempre defenderei com unhas e dentes, mas estou claramente mais soft, mais compreensiva com as fraquezas humanas. E, paradoxalmente, mais forte. Porque o que não nos mata torna-nos mais forte, é um facto. Este intróito para dizer que não entendo porque, a cada vez que se dá uma picardia (por exemplo) na net, ambos os lados insistem em mostrar que são mais felizes, melhores, com vidas imaculadas de desgostos, de depressões, de perdas. Isso é particularmente notável nas conversas de mulheres. As outras gostam sempre de mostrar que, se nos metemos com elas (mesmo quando o que acontece é o inverso), é porque não temos vida própria, somos uma desgraça no amor, estamos sozinhas, umas pobres coitadas, vá. Ao contrário, elas são absolutamente felizes, têm companheiros perfeitos, vidas profissionais preenchidas e são pessoas importantes nos círculos onde se movem, pelo que o que nos move é o ressaibo e a inveja. O problema é que toda a gente diz e faz o mesmo, o que afecta a credibilidade das declarações. Ninguém admite, sim, meto-me contigo porque disseste uma coisa que me fodeu e não, não tenho nada melhor para fazer, estou na ressaca da minha última relação falhada, o meu trabalho é uma merda e ao menos falar mal de ti distrai-me das diatribes do chefe, das nails roxas da colega do lado a baterem no teclado e dos queixumes da hipocondríaca do outro lado. Sim, sinto-me frustrada porque a vida não me correu como queria, porque estou desempregada, sofri uma depressão e andei meses encharcada em comprimidos, porque às tantas não conseguia adormecer sem um gin tónico no bucho e meia dúzia de lorenins. Ninguém é pior por ter sofrido, tal como ninguém ganha aos outros por ser feliz. Ao contrário do que afirmam esses livros de treta da auto-ajuda e da motivação pessoal, a felicidade é geralmente fruto de um belo acaso, em que coisas boas se conjugam na nossa vida: encontramos a pessoa certa, realizamo-nos como mães, gostamos do trabalho que fazemos, temos amigos que valem a pena, somos apreciados e reconhecidos pelo nosso semelhante. É claro que temos de fazer por isso, a coisa não vem ter connosco de mão beijada, mas o mérito nunca é todo nosso. Conheço pessoas maravilhosas a quem aconteceram coisas terríveis. E vice-versa. Isto para dizer que desconfio sempre dos gabarolas da vida perfeita, que a usam como arma de arremesso. Embora me lembre que, em tempos idos, eu mesma o fazia. Mas, lá está: anos passaram, uma torrente de vida abateu-se sobre mim e aprendi que, mesmo quando estou feliz, é feio atirá-lo à cara dos outros. Quando não estou, e se o faço à mesma, é apenas patético. Por isso já não o faço. E aprendi ainda que isso não me enfraquece, antes pelo contrário: a honestidade  é um upgrade de personalidade (além de ser obviamente uma forma de poder): hoje, neste exacto momento, posso não ser mais feliz nem andar a pular alegremente pelos campos da vida, mas sou uma pessoa melhor. E mais bonita do que quando tinha trinta anos. Sim, juro, é verdade: estava bem mais gorda nessa altura, pois tinha o corpo saturado de bebés e dos excessos amorosos e alimentares que celebravam alegremente aquela vida toda que jorrava subitamente de mim (além de que nós, arruivadas sardentas, disfarçamos bem as rugas).  :)

(foto minha)

Autoria e outros dados (tags, etc)

obama

por Vieira do Mar, em 02.05.11

 

...ruleZ!

Autoria e outros dados (tags, etc)

MÃE

por Vieira do Mar, em 01.05.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

a magnífica gestão autárquica

por Vieira do Mar, em 30.04.11

Há cerca de quinze dias eu e a vizinhança acordámos às cinco da manhã com uma máquina a debitar jactos de tinta e a repintar as várias passadeiras existentes no local. Cinco da manhã, uma data de "trabalhadores" aos gritos e um barulho infernal, que durou já o dia ia alto. Esta semana, resolveram repavimentar a minha rua e parte daquela na qual entronca. Até aqui tudo bem. Excepto que alcatroaram ambas as ruas por cima das passadeiras recém-pintadas. Que vão ter de ser pintadas outra vez. Provavelmente às cinco da manhã, que é mais divertido. Quinze dias depois. A minha matemática nestas coisas é simples: meia dúzia de cabrões que me acordam às cinco da manhã + um cabrão que em quinze dias factura duas vezes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

granizo

por Vieira do Mar, em 29.04.11

... aos quilos, chuva, trovoada, ventania. My feelings exactly.

Autoria e outros dados (tags, etc)

returning home

por Vieira do Mar, em 29.04.11

 not on facebook anymore. comments out (booring!). now is just me for a while.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por Vieira do Mar, em 25.04.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por Vieira do Mar, em 21.04.11

Caro Henrique Raposo:

 

Parece que, tal como V., muita gente pensa assim:

 

"(...) os piores alunos de direito (das piores faculdades) não têm acesso aos bons escritórios de advogados, nem têm acesso à carreira académica (ainda bem). Ora, é muito provável os piores vejam na magistratura (MP e tribunais) a única via profissional. Ou seja, muito provavelmente, a nossa justiça está a ser servida pelos piores alunos de direito. Uma investigação sobre isto era uma coisa porreira de se fazer."

 

Por mim, podemos começar já: dos muitos milhares de licenciados que todos os anos se candidatam ao CEJ, só 1678 são admitidos a exame.

Desses, só 120 acabam nas magistraturas, depois de rigorosos exames escritos, orais, psicológicos e o camandro.

 

Por outro lado, qualquer recém-licenciado, independentemente da nota com que saiu da faculdade, tem entrada em qualquer grande escitório de advogados, desde que se disponha a ser tratado como escravo e a lamber muitos... hummm, processos.

 

Os melhores alunos de direito, os tais que ainda bem têm acesso à carreira académica, são na sua maioria uns nerds arrogantes que só servem para perpetuar a total alienação entre o mundo do direito e o mundo real. Ou seja, são de pouca serventia e nem quero pensar no que seria se chamados a julgar casos reais, obrigados a aplicar nos outros o seu desconhecimento da vida e o seu quase nenhum bom-senso.

 

Resumindo: não duvidando da iniquidade da decisão a que se refere (mesmo assim não sei, não a li mas conheço de gingeira certos media e o jeito que têm para descontextualizar), acho-o neste caso totalmente desprovido de razão. Era só.

Autoria e outros dados (tags, etc)

brincar

por Vieira do Mar, em 19.04.11

" Brincar com as palavras é mais difícil do que comandar à distância um míssil gugu dada vem daí anda cá vai lá que eu tomo conta de ti faço de conta que não te vi és mesmo tolo no topo do bolo a cereja o sino da Igreja faz-me sombra prefiro uma alfombra e uma atitude zen amen dona zinha sua parvinha eu não lhe disse que ele vinha? Deprimido mas feliz que quem o sabe é quem o diz e lá vem mais um oximoro e nada que rime com isto só talvez parquímetro mas teria de ser parquímoro e uma casa feita de xisto que sinto um misto de joelheira com jardineira é primavera é dia de feira e não posso ir quem dera não me deixam sair fico aqui a rimar e a pensar de onde é que eu já te vi que até parece que te conheço a cabeça do avesso tu fica mas é caladinho menino dos anzóis que vieste e fizeste um milagre vejo sóis a girar a tirarem-me do lugar um cheirinho de vinagre o meu ser a desmaiar mas de onde vem este apreço? Ah já sei de onde te conheço desiste que não adivinhas: é de umas palavras que eram minhas."

 

(repost)

Autoria e outros dados (tags, etc)

era isto

por Vieira do Mar, em 18.04.11

"Como é que se escreve a felicidade? Como é que digo sobre as minhas pernas enrodilhadas nas tuas, dos meus dedos agentes inflitrados nos teus cabelos, da tua língua a pintar-me a boca a traços grossos? Para quê?, partilhar aqui que a minha pele se ri ao teu toque quente, como se estivesses sempre com febre, sentes-te bem? Quem quer saber? dos meus olhos, que rebolam pelo quarto sem saberem para que parede devo atirar e explodir o gozo, que não me cabe mais cá dentro. Como é que descrevo?, a impossibilidade teórica desta prática feroz de aprendizes, e as probabilidades disto tudo, que eram de um milhão para um, e que constavam do meu mapa astral, feito por uma colega de trabalho, da página dos signos na revista cor-de-rosa, que me aconselhava a ficar em casa, ou das previsões da dona são, a empregada doméstica que das duas às seis me agoirava o futuro, olhando de soslaio as minhas olheiras pisadas e achando, coitada, que eu já não tinha remédio. Como é que transmito?, que a verdade é raquidiana e não apenas um acessório, e que escrevo melhor quando dói, desculpem-me a pobreza da sintaxe e a vontade de me ir embora, mas não posso fazer nada. Sim, como explicar?, que foste sorte, acaso, tiro às cegas, pim pam pum, a álea da vida em todo o seu esplendor, a desdenhar das incompatibilidades cósmicas, dos conselhos de dinheiro, amor e saúde aos nativos de cancer, das minhas olheiras mastigadas e do agoiro triste da empregada, que sabia tanto da vida mas nada do amor, a não ser do que se sente pelos filhos e por isso das duas às sete, a passar a roupa e a olhar-me com pena, as pernas roxas garroteadas e as tonturas da diabetes. Como explicar?, que as coisas são simples, afinal, e que a dor não passa de um caminho de sentido obrigatório que não dá para atalhar, até um dia chegarmos a quem nos espera desde sempre?"


 

            (foto minha)

Autoria e outros dados (tags, etc)

feel the love

por Vieira do Mar, em 18.04.11

Paulo: sei que não tens gostado do que tem acontecido ultimamente; é chato. eu também não.  Também sei que esta boca foi para mim. E como sabes, não gosto de deixar ninguém sem resposta. Ora, como gosto destas coisas esclarecidas, vamos lá: na sequência dos telefonemas amigáveis que trocámos nos últimos dias, e em que falámos do FB (e de outras pessoas e de outras coisas) lembras-te? Eu pedi-te amizade. Escapuliste-te sempre e eu até brinquei contigo (pelas razões que tu sabes) à conta das desculpas que foste arranjando. Compreendo perfeitamente que não me queiras como amiga, acredita. Valores mais altos se levantam. Mas isso agora não interessa nada. Só quero dizer-te que, uma vez feito o "pedido", e em não sendo aceite, o próprio FB envia automaticamente o mesmo, de tempos a tempos, enquanto não houver uma rejeição definitiva. Como tu não me rejeitaste de uma vez por todas (coisa que me escapa, mas tu é que sabes), o FB continuou a chatear-te com o meu pedido (segundo o que tu dizes). Por acaso, há uns dias, e desde que tu, sem eu ter percebido porquê (juro!) me chamaste "rasca", coisa que me magoou um bocadinho, confesso, fui lá e "retirei" o pedido mas, a acreditar na tua palavra, o FB continua a "insistir" na nossa amizade. Podes no entanto ter a certeza que esta "bacaninha" (?!) aqui não está minimamente interessada no facto (aliás, disse-to por email, se bem te lembras).  Vá, e agora vai lá ter com ela, contar-lhe uma das tuas histórias e sossega-a, coitada, mas não me maces mais, ok?, que tenho melhor uso a dar a este blogue do que ter de passar a vida a responder a quem me chateia no seu blogue e depois  não me permite comentários. No hard feelings, mate. Move on. Peace. Feel the Love. Hare krishna.

Autoria e outros dados (tags, etc)

já cá

por Vieira do Mar, em 13.04.11

volto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

waiting sucks

por Vieira do Mar, em 11.04.11

Inda agora conversava com uma amiga querida sobre o fascínio que exerce sobre nós a série  True Blood. Eu não gosto de vampiros. Aliás, acho ridículo pessoas adultas vibrarem com o tema e terem frémitos de excitação com historietas adolescentes como twilights e afins. Li o Dracula de Bram Stoker quando tinha dezasseis anos, roubado à sorrelfa da biblioteca dos meus pais, e chegou. Não acho nada sensual, sexo misturado com sangue. O primeiro é uma coisa boa (ou pode ser, claro), o segundo lembra-me doenças, violência, cheiro a ferro, dentes de leite arrancados, dores de parto, cortes na cozinha quando descasco cebolas e cicatrizes para a vida. E no entanto. No entanto, há qualquer coisa em True Blood que me deixa absolutamente fascinada, colada ao ecrã. Algo que me torna a mais eficiente hacker, a sacar da net séries inteiras, a rever os episódios uma e outra vez, mesmo quando o elemento suspense já foi. Não falo do genérico (fabuloso) que sei de cor, nem da excelente banda sonora dos créditos finais, sempre diferente. Um princípio e um fim não chegam para fazer uma boa série. No fundo, acho que o que me atrai é a indefinida dualidade entre o bem e o mal. Ali, nunca ninguém é exactamente bom nem totalmente mau; no entanto, o Bem e o Mal andam à solta como nunca vi em nenhuma outra série. À solta dentro de cada um dos personagens. Não há dois lados que se digladiam, há pessoas que se digladiam interiormente com as suas duplas, triplas, naturezas. O facto de uns serem vampiros, outros humanos, fadas, metamorfos, ou lá o que lhes queiram chamar é apenas uma metáfora. Uma metáfora para a capacidade que todos temos dentro de nós para, perante certas circunstâncias, nos transformarmos em anjos ou em monstros. E depois há a perspectiva utilitária e manipuladora do ser humano, que perpassa toda a série: mesmo a criatura mais boazinha não olha a meios para conseguir os fins; e o mais malvado dos vampiros é capaz de, no final, exercer a misericórdia, o arrependimento e ser generoso para com os que ficam. O vício cresce à medida que a trama avança porque a confusão entre o Bem e o Mal interiores cresce exponencialmente, em especial nos personagens principais, pelo que é impossível adivinhar o que vai acontecer a seguir. Como dizia a minha amiga, aquilo é com vampiros, mas podia ser com empregados de escritório. Porque o que ali acontece é a natureza humana em todo o seu esplendor - e que ainda por cima nos é apresentada com imaginação e diálogos de antologia. Pessoalmente, além do gozo que me dá acompanhar a trama propriamente dita, é uma série que cai que nem ginjas no momento que vivo actualmente, em que saí da redoma e me apercebi de que o Mal e o Bem podem coexistir no mesmo espaço, ao mesmo tempo, às vezes em mim; noutras vezes, em outros. E que as pessoas não mudam; apenas são uma ou outra coisa, em maior ou menor grau, consoante a vida as empurra num ou noutro sentido. As presas sangrantes e os pescoços distendidos em esgares de suposto prazer são só folclore para rapariguinhas góticas e para outras não tão rapariguinhas nem tão góticas assim, que nada percebem de tesão com homens a sério e que desse modo excitam as suas imaginações doentias. De qualquer modo, e voltando ao que interessa, a série é um portento de malevolência, altruísmo, manipulação, perversidade, generosidade, fé e traição: ou seja, de humanidade em estado puro (para mais, passa-se nos EUA sulistas, ignorantes e atrasados, pasto para as emoções e as crenças mais primárias). Portanto, vejam-na se puderem. As primeiras três séries estão inteirinhas na net. Estou que não me aguento com a quarta, que nunca mais chega. E como eles dizem na página do FB, waiting sucks.

Autoria e outros dados (tags, etc)

le mépris

por Vieira do Mar, em 07.04.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tróia & Comporta

por Vieira do Mar, em 07.04.11

The Color Clash.

Autoria e outros dados (tags, etc)

parece que é, dizem

por Vieira do Mar, em 04.04.11

 

Escrever com cuidado. Medir as palavras, antever as tensões. Pegar nas sílabas e sopesá-las, a nossa cabeça dois fiéis de balança. Estar atento à ficção desbragada, para que não possa nalgum canto aparentar verdade.  Fazer bem a distinção, exigem-nos. Portarmo-nos bem, andar na linha, mostrá-lo ostensivamente. Perder a piada quando na mentira, deixarmo-nos de confusões, de equívocos propositados, de mundos de cabeça pra baixo. Não fantasiar, não vá a fantasia ser confundida com um desejo insatisfeito, um estaria bem melhor noutro lado. Com outro qualquer. Atentar nos parágrafos, que tenham pouco de passado, se possível nada de nada, algo de presente e muito de futuro. Um radioso e em comum, para que a confiança não se perca e a dúvida não se instale. Coisas tristes se discutimos, alegres se nos reconciliamos. Os sentimentos no devido lugar, em perfeita coordenação com o momento e o local, como se de cortinados. Não deixar fugir dos dedos desinquietações nem tremuras, muito menos indecisões. Nunca o credo na boca ou o sangue à cabeça, ainda sai algo que não queremos. Que não pretenderamos. Pior: no qual nem sequer acreditamos. Escrever de mansinho e à cautela, sem subtilezas nem palavras dúbias, muitos significantes, nada de significados, e parágrafos seguros, com a assertividade de um telex quando ainda os havia. Poucos sentimentos, não vá o Diabo tecê-las. Sentir é dualidade, é errância, é instinto - e nós não queremos nada disso, não não, que se começamos a puxar a alma pra fora (a nossa ou a dos outros) sabe-se lá onde vamos parar. Falar de política, do tempo. Se do sexo oposto, só generalidades e, mesmo assim, há que não deixar ninguém mal na fotografia. Senão pessoaliza. Amua. Esgravata o texto, à procura de si nas palavras. E garanto-vos que se encontra. Sexo propriamente dito, então, nem pensar, muito menos em modo de memória descritiva. De qualquer modo, para o outro, todo o sexo é em modo de memória descritiva, mesmo o que nunca aconteceu, mesmo o que nem teríamos tido vontade de experimentar. Melhor é política, mesmo. Ou televisão. Ou política em televisão. Parece que isto é Amor, dizem.

(foto minha)

Autoria e outros dados (tags, etc)

regresso a casa

por Vieira do Mar, em 04.04.11

vieiradomar@gmail.com

Autoria e outros dados (tags, etc)

pnetbosta

por Vieira do Mar, em 02.04.11

Há uns anos bons, fiz parte de uma rede chamada PNET, acto do qual rapidamente me arrependi por razões que não cabe aqui explicar mas que tinham, também, a ver com o facto de o "dono" da rede passar por cima dos direitos mais básicos de personalidade, como o direito à imagem, à criação artística e ao nome, apropriando-se subtilmente nos seus sites do trabalho de terceiros sem o consentimento destes (e sem lhes pagar). Anos depois, a pessoa em questão não aprendeu nada. Via sitemeter, deparo-me com isto. Ou seja, o senhor dá a entender que eu ainda sou uma das suas cronistas (ler mais textos desta cronista) e apropria-se da imagem que consta no meu perfil do Facebook. Inacreditável. E eu só me pergunto como é que alguém pode levar a sério qualquer um dos tentáculos desta funesta rede, que se estendem blogoesfera fora (embora cada vez menos, é certo, e percebe-se bem porquê).

Autoria e outros dados (tags, etc)

merda para os telejornais

por Vieira do Mar, em 02.04.11

Ligo a tevê nas notícias e só ouço falar em FMI, crise, taxas de juro, ratings, os raspanetes da Merkel, o gozo dos ingleses, os conselhos dos irlandeses, que somos o "lixo" da Europa, que vamos falir, soçobrar, desaparecer do mapa, kaput. Os jornalistas falam da crise económica como se noticiassem o tsunami no Japão, uma horrível desgraça natural da qual não vão restar sobreviventes, embora por enquanto  esbracejemos vivos por entre os escombros da derrocada, e apareçamos em directos escabrosos feitos de tripas e sangue. Ora, eu saio à rua e parece-me que a vida continua mais ou menos como sempre. Estamos no geral mais pobres, é certo, temos menor qualidade de vida, compramos casas com menos assoalhadas, mais longe dos sítios onde trabalhamos, levantamo-nos mais cedo. Temos dificuldades, muitos de nós desempregados, alguns porque não querem lavar escadas, outros viciados no subsídio. Na rua, as pessoas continuam a entrar nas lojas, as mulheres a cobiçar o mesmo único top. Compramos menos, compramos pouco, mais marcas brancas, menos gourmet, cortamos nos pequenos luxos. Menos livros, menos revistas, mas os carros continuam a enxamear a cidade nas horas de ponta, apesar dos combustíveis. Gente é despedida mas gente também é contratada; vendem-se casas, arrendam-se outras, menos dinheiro passa entre mãos. O sol nasce e põe-se, os nossos putos vão e vêm das escolas, das creches. Muitas são públicas - e são boas. Os mais velhos têm as mesmas crises vocacionais que tínhamos com a idade deles, mas muito mais escolha e um ministério com computadores que os ajuda a escolher. Têm o Erasmus, os voluntariados, a net que nunca os deixa sozinhos. Vivemos numa democracia e eu não tenho de usar burka nem chador quando saio à rua. Ganho menos, não tenho a vida fácil que tinha há uns anos (por outras razões que não apenas a crise), mas a praia continua lá, o mar, a areia, as arribas e é tudo de graça. Há filmes e séries giras, cada vez mais sítios para sairmos à noite, esplanadas onde podemos beber um café por menos de um euro e gozar a vista, cheirar o sol, rir com um amigo. Continuamos a apaixonar-nos; pelo novo namorado, pela filha que nasce, pelo sobrinho, pela vizinha do lado, pelo cão que trouxemos do canil. Andamos cansados, temos de dar mais de nós para receber o mesmo (ou menos ainda), mas temos hospitais, seguros de saúde, parques infantis, ciclovias. As rádios dão-nos música, chateamo-nos com o chefe, com a puta da colega que nos lixa, saímos à porta para esfumaçar, inspiramos fundo, voltamos a entrar. Trabalhamos em merdas de que não gostamos mas paciência, é assim com quase todos. O manel da tasca continua a servir copos de três e amarguinhas aos agentes da ordem, apesar da carga iminente do FMI. As administrativas continuam a falar do namorado da alexandra lencastre e do cristianinho. E apercebemo-nos de que o histerismo televisivo-jornalístico que nos prevê o armagedão é um bocado apenas isso mesmo: histerismo, obsessão, gritaria, politiquice rasteira à desgarrada, dia após dia e sempre no prime time. Tudo amplificado pelos jovens precários que querem a luta e que se acham únicos e singulares na sua normal incerteza de princípio de vida; e pelos políticos, que incutem no povo  esta novel fobia por abstracções cujo significado este mal entende, feitas de siglas, acrónimos e de estrangeirismos que seguramente nos farão mal, muito mal. Andamos com medo, mas não sabemos exactamente de quê. E eu, apesar de estar quase nas lonas, de lamber as montras e de pouco ou nada poder comprar para além daquilo com que faço questão de mimar os meus, acho que é importante ter isto em perspectiva: não obstante os ai-jesus europeus e do mundo em geral em relação ao suposto lixo que é Portugal (e que nos são diariamente gritados aos ouvidos),  temos carros, ruas, jardins, pessoas, mulheres de mini-saia, bebés nas cadeirinhas, autocarros, mini-pratos, menus do dia, jornais de ontem, salas de cinema, pipocas, imperiais, pão fresco - e  ainda montras para lamber.

Autoria e outros dados (tags, etc)



um blogue de Sofia Vieira

o conteúdo deste blogue está registado no IGAC e protegido por Direitos de Autor. É proibida a reprodução, parcial ou total, sem a menção da autoria e proveniência.

vieiradomar@sapo.pt

Pesquisar

Pesquisar no Blog  



Arquivos

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2006
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2005
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2004
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D