Passei um fim-de-semana como há muito não tinha: a anhar pelos sofás, a ver televisão e a ler tudo quanto é jornais. Sentia-me mal, na verdade: toda a gente a bitaitear sobre a crise no governo, as finanças locais, as escutas, os crimes contra o estado de direito democrático, o crespo, a bárbara, os desmandos do líder, os favoritos dos ídolos e eu... nada, numa ignorância quase completa, a cheirar todo este fedor de longe. Portanto, li tudo. Comprei o Expresso, o Sol, o i, alguns diários e a Hola (tinha que descontrair depois, não?). A cena do crespo achei conversa de sopeiras e passei rapidamente à frente, cada um pior do que o outro, santa paciência. Já a questão das escutas e do suposto cometimento de ilícitos por parte do nosso primeiro é outra loiça (embora também tenha o seu quêzinho de sopeiral ao estalo). Li com atenção os despachos do Procurador e do Juiz de Instrução. Sei como os magistrados deste país têm tendência para fazer do Princípio da Legalidade, consagrado no art.º 1º do Código Penal, uma norma um bocado volátil e de como, apesar de a lei penal não o permitir, interpretações extensivas são esgalhadas todos os dias por esses tribunais fora, por forma a fazer a lei encaixar nas teorias peregrinas e preconceituosas de certos juizes e procuradores. Sei, por isso, que quem decidiu assim, podia ter decidido assado, e que os factos descritos nos jornais tanto podiam dar para uma acusação, como para um arquivamento por falta de indícios suficientes, como para outra coisa qualquer. A nossa lei penal continua cheia de conceitos abertos e indeterminados que dão demasiado trabalho à pobre da nossa jurisprudência superior que, por sua vez, tanto faz luz sobre o assunto (enfim, raramente), como produz decisões aberrantes. Isto para dizer que, depois de tanta leitura, continuo sem saber se foi ou não cometido qualquer crime e derramadinha para saber, afinal, aquilo que verdadeiramente (e neste momento) interessa: quais os fundamentos do despacho do Exmo. Procurador Geral da República, a propósito. Isso sim, seria uma verdadeira cacha jornalística. No mais, devo ser especialmente burra - juridicamente falando -, porque continuo sem perceber aquilo que é óbvio para tanta gente: onde é que o primeiro e os seus amiguinhos tentaram destruir ou subverter o Estado de Direito constitucionalmente estabelecido. Pelo que retiro da leitura do art.º 9º * da Lei 34/87, de 16/08, este é um crime que tem de ser praticado pelos titulares de cargos públicos com dolo, ou seja, e muito pela rama, com intenção de. Portanto, a violação dos direitos, liberdades e garantias estabelecidos na Constituição da República, ou dos princípios estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos do Homem ou na Convenção Europeia dos Direitos do Homem, é apenas um dos meios possíveis (vd., nomeadamente) de o agente atingir o seu objectivo primero, que é abalar os fundamentos do Estado de Direito. Ora, despachos da natureza daqueles que li têm de fundamentar e demonstrar, através da descrição de factos, que o agente quis praticar aquele crime em concreto. Se assim não fosse, o artigo limitar-se-ia a dizer "O titular de um cargo público que violar os artigos tal e tal da CRP que consagram Direitos, Liberdades e Garantias, e os princípios tal e tal... comete o crime previsto neste artigo". Só que existe aqui um maius que quase todos parecem estar a esquecer: o verdadeiro crime está na intenção da subversão do Estado de Direito Democrático, e não nos meios que a lei descreve com possíveis para alcançar tal fim. E eu, das leituras que fiz, francamente, não consegui descortiná-la, à especificidade da intenção. Independentemente de estarem efectivamente em causa questões de imoralidade grave, que aquilo é tudo uma sabujice pegada, claro. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


Recebi uma carta de amor manuscrita. Um sobrescrito branco, com um selo verdadeiro carimbado pelos Correios de Portugal, o remetente (tu) no canto superior esquerdo, as palavras a descaírem ligeiramente para a direita. E em baixo o meu nome completo (poucos, os que têm o privilégio do meu nome completo), a minha morada, o código postal certinho. Acho que a última vez que recebi uma carta, destas que vêm por carteiro, foi há quase vinte anos, e era de uma amiga (eu e as minhas amigas de Torres Vedras enxotávamos assim a distância: com cartas virulentas e demolidoras sobre os rapazes, mesmo aqueles de quem gostávamos). Pouco tempo depois, receberia um telegrama de um namorado desesperado, que a minha mãe recebeu à porta, leu alto entre stops e eu quase morri de vergonha. A partir daí, foi tudo entregue em mãos, bilhetinhos, promessas de amor eterno, um marido deslumbrado com os filhos que iam saindo de dentro de mim, sonhos transformados em poemas, desenhos rabiscados em guardanapos de restaurante, ah e o futuro todo pela frente, até um dia. Hoje, agarrados ao computador para todas as tarefas, incluindo as que nos divertem, nem nos lembramos que cada um de nós tem uma letra. Assertiva, suave, indecisa, torta, hesitante, difícil, de médico, maiúscula, cursiva, divertida, redonda, severa, poética. Uma letra que, segundo alguns, diz muito sobre o que somos. Eu não sei o que diz sobre ti a tua letra; ao contrário da minha, que é cheia de arabescos (um dia mostro-ta), pareceu-me normal, pouco esforçada, um bocadinho arrastada, a letra de alguém que nunca cresceu verdadeiramente. Mas sei o que diz sobre ti a carta que me escreveste, embora, é claro, não o vá dizer aqui (eles que se escrevam uns aos outros).

(engasguei-me)
Os donos dos carrosséis - a fine gentlemen´s league - protestam o facto de serem obrigados a cumprir normas de segurança por forma a que os utentes não estatelem as trombas e os ossos no chão de gravilha das feiras. Querem manter o direito de continuar a estropiar gente, pois então. Um desgraçado de um rapaz apanhado na reivindicação viu o carrito todo partido pela investida do camião de um carrosseiro - ai, perdão! - de um carrosseleiro, e ainda ia sendo linchado pela população revoltada e em fúria. No fundo, acabaram, os protestantes, a lixar a vida de quem por ali passava e a alarvarem-se com pizzas familiares na berma da estrada, perante a interrogação pungente do condoído repórter de serviço, então?, não têm outro sítio para comer? (juro, foi mesmo assim)

Na rádio, anunciam uma série original e inovadora, ao que parece composta por vampiros adolescentes. A dada altura, ouve-se uma criatura geração morangos-com-açucar dizer, com a voz carregada de emoção, "sou uma vampira". Se ela dissesse que era uma prateleira de supermercado, talvez acreditássemos. O absurdo risível abancou em definitivo na "ficção nacional". Não sei quantos anos depois de Entrevistas com o Vampiro, de Crepúsculos, de filmes baseados na saga, de livros a imitar a saga, de séries americanas baseadas na saga... eis que chega agora uma inovadora e original série portuguesa... inspirada na saga. Eu não vejo novelas portuguesas por uma razão: a da credibilidade (ou melhor, a da falta dela). Nas séries portuguesas, jovens rebeldes sacados das ruas fazem sempre de jovens rebeldes, jovens gays tentam parecer hetero e fingem babar-se para cima das protagonistas, engradaçaditas mas invariavelmente sem glamour. E os actores conceituados fazem sempre de eles próprios: por exemplo, a Helena Isabel faz sempre de Helena Isabel. O que vemos no ecrã são actores portugueses que aparecem nas revistas porque trairam a namorada ou afinfaram uma murraça num paparazzo, a debitarem textos em que tentam passar por outras pessoas. As novelas portuguesas são um desfile de gente com pouco talento mas de grandes egos que só sabem fazer bem de si próprios. Quando a personagem é radicalmente diferente do actor e implica algum "trabalho de composição", socorrem-se do estilo revisteiro, assente na gritaria, no espalhafato e na mão na anca, para conseguirem distanciar-se de si próprios. Por isso uma série de vampiros em português, para mim, desce os níveis da credibilidade artística para pârametros nunca vistos. A certeza é tanta que falo sem ter assistido a um único episódio, apenas ao trailer. É certo que a icnografia vampírica me irrita sobremaneira desde sempre (quase tanto como esta palavra: sobremaneira). Só um vampiro mexeu comigo até hoje, e esse foi o Dracula de Bram Stoker, há muitos anos atrás, pela mão do Copolla, mas isso é outra história - uma história para adultos. O mais engraçado é que esta parvoíce colectiva é desdenhada por muitos adolescentes que conheço (que a acham risível) mas idolatrada por outros tantos adultos, muitos deles gente magoada que perdeu a fé no real e que se alimenta da línguagem virtual dos amores impossíveis.
Sofia became a fan of Guronsan.
Não admira que Moita Flores dê o seu apoio a Gonçalo Amaral, aquilo é tudo farinha do mesmo saco. Não sei se fui só eu que, quando li o livro deste sobre Maddie, oscilei entre o riso escarninho e a náusea. Também não faço a mínima, se os McCann são ou não culpados mas, se estivesse no lugar deles, atirava com tudo o que fosse procedimento legal contra o pêjota: penal, civil, o que houvesse à disposição para o esmifrar e fazer sofrer. A sanha persecutória da criatura contra o casal é algo patológico e doentio que nada tem a ver com Liberdade de Imprensa. Porque o livro em questão não é a narração de factos em prol do conhecimento público, mas sim a distorção e adulteração dos mesmos, para os fazer caber na tese encasquilhada pelo seu autor. A improbabilidade prática de muitas das teorias que defende, como se fossemos todos parvos e engolíssemos assim, sem mais, a culpabilidade do casal, os buracos na narrativa, as contradições por explicar, nada disso trava Gonçalo Amaral, que se acha uma espécie de Justiceiro, que acerta onde todos os outros falharam e redime a incompetência acusatória do MP. Quando a esperteza saloia se alia à arrogância e a um naco de poderzinho mediático, pode fazer muitos estragos, alguns irreparáveis.

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, --- I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! --- and, if God choose,
I shall but love thee better after death.
(Elizabeth Barret Browning)
da Rititi:




Primeiro, chegam-me os cheiros: o da lenha no ar a aconchegar as alvoradas, o da alfazema roxa junto à porta, o da relva fresca acabada de cortar e o dos oregãos, que salpicam aos molhos o terreno do lado. E o cheiro dos meus próprios cozinhados, a janela um tudo nada aberta a travar o atrevimento dos gatos, e o aroma do refogado a fugir para o exterior e a perturbar os cães, que farejam sem descanso uma possibilidade de entrada. Depois vem o resto: os miúdos a rebolarem no jardim com o cão à rabia, de bola presa na boca babada, as hortênsias que namoram o musgo agarrado aos muros de pedra molhados, as citronelas acesas no alpendre, os amigos acampados na antiga vinha, o som da guitarra de alguém, os mergulhos na água fresca, a hera que cobre o azulejo antigo, o santo de gesso esboroado que nos benze à passagem para a casa-de- banho, o quadro cubano no pano da lareira - uma lareira a sério, com capitéis em pedra, e o ninho de corujas que todos os anos entope a saída do fumo, coitadinhas das crias, houve um inverno que nem lume fizemos nem nada. Mas, principalmente, os miúdos, felizes; felizes, os miúdos, o sol a lambê-los com alegria, é Verão (por ali é sempre Verão). Então ele pergunta-me, com um sorriso virginal, se não quero voltar, se não quero tudo aquilo outra vez, e eu sim, claro que quero, os nossos alperces são tão doces, e os pares de melros que nos orquestram as manhãs de domingo enquanto nós na cama, a espreguiçar o tempo. Sejamos exactos: eu na cama e ele noutro lado qualquer, talvez noutra cama, no sofá; ou então eu no sofá: afinal, este sonho é uma reprodução exacta daquilo que foi e é por isso que lhe digo que sim, porque tenho saudades do que tive. Aceito, sim, quero, e entro de chofre na minha vida antiga, a pensar como te hei-de dizer que te troquei por uma promessa de relva fresca; preocupada, com medo de que fiques doente, que me morras, sei lá. É aqui que tu entras, portanto. Não exactamente a tua pessoa, ou a imagem da tua pessoa, mas antes uma intuição de ti, um sentir-te por cima de todos os cheiros. De repente, não sei porquê, acordo, e dou contigo ao meu lado. Enrosco-me um bocadinho mais no teu calor e sorrio no escuro, que bom ser Inverno e estar tanto frio lá fora.
um tigre matou o dono, que o mantinha captivo numa jaula. Vejo na tevê que a pessoa em questão era "coleccionadora" de espécies salvagens, enquanto um amigo diz para as câmaras que os animais eram "família" para ele. Estranho conceito de família, este, em que os parentes são presos e criados em jaulas onde mal se podem mexer. A permissão legal de criação doméstica de espécies selvagens é um sinal de atraso, neste caso, do Canadá, mas podia ser dos EUA, ambos grandes países com paradoxos culturais chocantes, como toda a gente sabe (embora o Canadá seja mais chato e tenha menos piada). O desprezo pela natureza selvagem de um animal, apanágio dos respectivos donos (bem como do Estado que sanciona a sua prática), ou seja, o pretender que aquele se comporte como nós, com suposta civilidade, é de uma arrogância e estupidez muito pouco civilizadas, na verdade.

Entro de mansinho em 2010, são ainda muitos, os ecos de 2009. Foi um ano importante para mim, quase comparável aos anos em que nasceram os meus filhos. Aconteceu-me toda uma vida; aliás, olhando para trás, custa a perceber como é que tanta coisa encaixou e se arrumou em apenas doze meses. Vi o melhor e o pior da natureza humana e, felizmente, acabei o ano apenas com o melhor. Sobrevivi à ganância, ao ressaibo, à desconfiança, à paixão funesta, à obsessão, à culpa, ao desengano. Sobrevivi ao mês de Agosto. E ao Natal. E entrei com um pé a puxar para o feliz em 2010. Aprendi o valor do recato, que as primeiras impressões são sempre as mais certas, que aguentamos mais do que aquilo que achamos e que as coisas boas nos acontecem quando deixamos de as procurar. Mas, também, que o instinto nem sempre funciona e que uma cabeça com a mania que é inteligente pode ser tão tola como qualquer outra, fazer figuras tristes e não reconhecer o mal quando este lhe bate à porta, toca e foge. Mas, mais importante do que tudo, aprendi a estar sozinha, comigo apenas. E a gostar do silêncio que a princípio me estrangulava, a apreciar a minha companhia. Um dia de cada vez. Fiz amigos, em especial, homens. Percebi que são todos diferentes uns dos outros, como as mulheres e o resto, afinal: único e singular, numa escala que pode ir do péssimo ao excelente. Há que saber escolher, deitar o lixo fora, prezar o que presta. Tornei-me menos preconceituosa, alarguei o meu poder de encaixe, levei na cabeça, chorei que me fartei, mas também me senti desejada, querida, amada, como há muito não me sentia: houve uma espécie de cegueira enevoada que se dissipou e entretanto abriram-se caminhos. E é por eles que agora vou (entro de mansinho em 2010).



A noite passada tive um sonho lésbico, Foi uma coisa assim tipo fantasia colegial, ao melhor estilo manga japonesa, com direito ao kit todo, incluindo meninas de uniformes reduzidos pelas cuecas (não, esperem: elas estavam sem cuecas), No sonho, eu proporcionava-lhes, com brio e afinco, momentos de felicidade, sendo que não me lembro das caras delas mas recordo outros pormenores fisiológicos que se iam transformando ao meu toque mágico. Quando chegou a altura de entrarem em accção as regras básicas da retribuição, infelizmente acordei, sem qualquer possibilidade de provar do meu próprio remédio. É preciso ter em conta que eu, que adoro marisco, não como mexilhões porque me parecem vulvas. O que torna tudo isto ainda mais estranho.
Já agora: porque é que os nossos maridos/namorados/amantes/amigos coloridos/homem do tallho, quando dizemos que tivemos um sonho erótico com outro homem, ficam com vontade de se divorciar, de nos ofender, de nos degredar, de nos vender bifes fora de prazo, a achar que somos umas putas sem perdão mas, quando dizemos que tivemos um desses sonhos com mulheres, querem sempre saber mais, os pormenores todos, conta lá, conta, o que é que ela te fez? onde é que te tocou? e depois, o que fizeram depois? conta mais, vá...
Haja divã e, já agora, que chegue para todos.
sobrevivi. :)

Tu és o meu Natal.

Só mesmo num país atrasado e bacoco como o nosso, com uns media nivelados por baixo onde pontifica uma horrorosa TVI, é que o facto de uma juíza retirar uma criança de uma instituição para a entregar a um tio - que por acaso é homossexual e vive com outro homem -, se torna notícia quase principal de um telejornal no prime time.



O amor é feito de coisas pequeninas, microscópicas mesmo. É preciso perdermos a noção do todo, alijarmo-nos da grandiosidade meio saloia da paixão para darmos de caras com ele em nano momentos preciosos. O amor não é toda a vida, nem do tamanho do mundo, nem promessas impossíveis de cumprir. O amor não é sempre tudo. É rirmo-nos da mesma piada quando todos os outros se calam, é termos a mesma cor preferida. Mas é, acima de tudo, abastecermos o frigorífico com os mesmos essenciais, como becel de cozinha, água tónica, água das pedras, caldos knorr e limões. Isto não é apenas coincidência, é uma aleivosia kármica, é uma maldade cósmica que nos prende ao outro como se um oráculo qualquer no-lo ordenasse. Afinal há alguém que, como nós, só bebe leite vigor do dia e insiste em comprar manteiga milhafre dos açores. Os grandes planos são sempre os mais ínfimos: escondem-se na prateleira lateral de uma porta e selam futuros como lacre derretido.
que a controvertida marmota agradece a distinção e acrescenta que também a lê a ela.

Uma insónia como há muito não tinha. Os dedos, enferrujados e preguiçosos, a começarem a desenhar palavras no teclado, parece que já nem me lembro de como se faz. E era bom, não me lembrar de como se faz. Esta coisa da escrita é para gente solitária. Ou, ao menos, para gente sozinha dentro que vem aqui aquecer-se, no borralho das suas palavras ou no das palavras dos outros. Quando coisas boas nos preenchem os dias, nem nos lembramos de ficcionar as noites. Escusado será dizer que isto é quase de certeza o fim de um feliz interregno.

Vamos?

Muitas vezes os outros só têm a importância que nós lhes damos. Enquanto os conhecemos mal - ou não os conhecemos de todo - permitimo-nos com eles todo o tipo de excessos ou de cerimónias: afinal, somos nós que os construímos. Talvez por isso custe tanto a largar alguém que um dia idealizámos. Não interessa se o imaginámos a pender para os defeitos ou, ao invés, para as qualidades; muito menos interessa se o edificámos à nossa medida ou se, pelo contrário, nos deu mais jeito pensar que nunca caberia em nós. A verdade é que moldámos aquela pessoa às nossas necessidades da altura: de algum modo ela serviu-nos, colmatou falhas, preencheu buracos. Temos ali um ser desconhecido em toda a sua glória, cuja personalidade desenvolvemos no laboratório da nossa cabeça, e que se agiganta em nós a cada pedacinho mais que achamos que sabemos sobre ela, a cada peça do puzzle que acrescentamos. Depois, uma necessidade dolorosa, física, resulta dessa confabulação: uma precisão danada, que advém do facto de termos criado um monstro à nossa medida. No fundo, é uma outra versão de nós próprios, daí querermo-lo com um desespero egocêntrico e circular. Quase nada consegue romper a seriedade de uma fixação desta natureza, nevrótica, concentrada em si mesma, fantasista e desfasada do real. A não ser quando a nossa criação se humaniza, ao se tornar risível, gozável, ao apalhaçar-se involuntariamente perante nós. De repente, surge um ligeiro desprezo a permear a obsessão e há uma dúvida que se instala - e que sucede à certeza vibrante que até então nos minou por dentro. Que isso nos mate a sede e nos cure da doença, não sei, mas ameniza em muito os sintomas.
Não falar para não estragar.
(além disso, ando pelo facebook, até já)
Pôr o Zé das Couves (homofóbico, misógino e iletrado), cujas sinapses apenas dão algum sinal de vida quando comenta o Benfica (ou o Porto ou outra merda qualquer), que gasta o tempo entre o café da esquina, onde se embebeda com cerveja e bagaço, e o chegar a casa bêbado e malhar na mulher porque esta trabalha na fábrica, sustenta os filhos e o faz sentir-se ainda menos homem por isso, a decidir dos destinos civis dos homossexuais, esses paneleiros, é demasiado estúpido, francamente.
Engano-me poucas vezes e não costumo criar ilusões: tenho é um certo pendor suicida. Ou seja, nem sempre fico de cima a olhar o abismo, embora nunca subestime a profundidade da queda.
A primeira vez que acontece não acreditamos, é como um sonho, um sonho mau que penetra na claridade do dia (ou na luz artificial da noite). A realidade subsequente às escolhas que fizemos atinge-nos em cheio no estômago - no estômago, sim, não é em mais lado nenhum, tanto, que uma ligeira náusea se mostra inevitável. Apercebemo-nos então de que, para o outro, deixámos de, para sempre, ser. O que é bastante diferente de o outro ter deixado, um dia, de ser para nós.

Ando a fazer de detective e já cá volto (até tenho um Dr. Watson e tudo).
O caralhinho da moda dos casacos de peles verdadeiras voltou, ainda por cima agora acessível às manicures e às sopeiras. Ou melhor, dantes também eram as manicures e os sopeiras que as usavam, mas só as que entretanto haviam sacado um gajo rico ou qualquer outro meio de fortuna fácil que implicasse uma forma de elevação que não a espiritual. Pois, dizia eu, não há hoje H&M´s, Zaras, Cortefieis e Mangos, que não tenham, na sua colecção Outono-Inverno, o casaquito de raposa, de chinchilazita, de marta, quiçá de zibelina. Mil a dois mil euros a pagar em três prestações sem juros, baratinho sem dúvida, as peles quase de certeza de origem chinesa, como actualmente é chinês quase tudo o que se encontra nas grandes cadeias de moda, das lycras, às gangas e às sedas. As etiquetas dos casaquinhos têm ainda o desplante de nos garantir que os animais foram criados em quintas especialmente controladas para o efeito, como se isso fosse uma coisa boa, uma garantia de não-maldade para com os bichos. Vai-se a ver, e qualquer dia aparece escrito como nos créditos finais de alguns filmes, no animals were injured during the making of this film. Neste caso, coat. A crueldade tem agora um cheirinho acetinado a UE e vem certificada e garantida em papel crepe, num toque de finura hipócrita para engodar as papalvas. Desprezo-os a todos. Aos miseráveis que andam à paulada aos animais e que os esfolam vivos (uma chinchila pelamordedeus! eu já tive uma chinchila em casa, o bicho até vinha ao nome!), aos cabrões que lhes pagam uma ninharia pelo trabalho sujo, aos intermediários e aos donos das grandes cadeias de roupa que lhes compram o produto final mas, mais do que tudo, às parolas nova-ricas (ou nem isso), que se enfornam excitadas nas suas péis, as unhas muito encarnadas na ponta dos dedos que transbordam cachuchos comprados a prestações à espertalhona que vai uma vez por mês à repartição pública onde trabalham impingir-lhes mais uns quantos e recolher os cheques pré-datados, a acariciarem as dezenas de bichos mortos que carregam no lombo com um gozo quase erótico, as taradas. E depois, a questão estética: quem é que se quer parecer com uma chinchila gigante e prenha? Sim, porque um casaquinho de peles insufla qualquer uma para além do limite do aceitável, e algumas dessas pacóvias oxigenadas quase nem conseguem passar às portas, de tão inchadas que ficam com aquilo em cima. Portanto, e resumindo: milhões de animais são criados e mortos em sofrimento para que alguns milhares de dondocas ocidentais descerebradas se pavoneiem nos centros comerciais, nas missas e nos casamentos das afilhadas. Há poucos anos, com a divulgação das focas a serem mortas massivamente à paulada e vídeos quejandos, as peles de muita gente civilizada mas que andava distraída foram guardadas nos armários e transformadas em festim para as traças. Os casacos de pele passaram apenas a ser usados envergonhadamente por gente que sabia por alto como eram feitos, embora esse conhecimento não fosse suficiente para lhes debelar a vaidade. O comércio de peles tornou-se algo um pouco marginal, feito nas lojas da especialidade, onde os construtores e empresários despejavam as esposas dos seus BMW e Mercedes e ficavam no parque à espera da conta. O súbito afluxo de casacos de peles verdadeiras às grandes cadeias de moda e a sua consequente acessibilidade à populaça desinstruída mas com algum poder de compra (aka, a classe média), a par com a massificação da indiferença perante a crueldade para com os animais, representam obviamente um retrocesso civilizacional trágico.

A terra, plana, acaba num abismo que és tu. Espalhas o teu cheiro como incenso pela casa e eu a farejar-te rasteira pelos cantos do escritório, dos quartos. Quem sou eu? Que sou eu? Porque continuo a encapelar-me quando me tocas, mesmo se apenas me olhas, até quando só te imagino? Porque me queres ouvir dizer não quando toda eu sou sim e transpiras para cima de mim a raiva de não conseguires ser perfeito? Nada tenho para te dizer, tinha tanto para te contar.
não tem direito a escrever sobre o que lhe apetece?!
a quantidade de gente que escreve posts enormes, cheios de letras, de parágrafos, de argumentos e de explicações, só para dizer que se deve ignorar o vídeo da Maitê Proença.
Os amores impossíveis são o que são, ou seja, são como todas as outras coisas impossíveis: acarretam um maior ou menor grau de frustração que muitas vezes inferniza a existência de quem os vive. Ao contrário de outras coisas impossíveis, no entanto, a maior parte dos chamados amores impossíveis estão sempre à beirinha de deixarem de o ser. Aliás, de algum modo, a expressão "amor impossível" é um oxímoro: se o amor já existe, então não é impossível, quanto muito, haverá, sei lá, uma não concretização física desse amor, leia-se: não haverá cama ou coisas que se podem fazer numa. Mas, para efeitos de argumento, cinjamo-nos ao significado comum da expressão: um amor impossível é geralmente um sentimento (às vezes também uma situação, quando é correspondido), que - pelo menos nos seus estádios mais vibrantes - gera frustração, insegurança, tristeza, impaciência, obsessão, esperança, desespero... e não necessariamente por esta ordem. Só que as circunstâncias da vida mudam, as pessoas mudam e as prioridades que as fazem agir, mudam ainda mais. De repente, um amor impossível começa ao de leve a deixar de o ser, ou, pelo menos, a perder aquela sua característica de exasperante definitividade que às vezes nos dá vontade de (metaforicamente, em todo o caso) cortar os pulsos. Há qualquer coisa de bom que se imiscui e que se insinua, as cores mudam. E a gente não sabe porquê, não sabe mesmo. O discurso inabilitante mantém-se, os obstáculos também (estão lá todos, às vezes até mais), e no entanto... ele move-se. Um dia acordamos e a tristeza habitual pela qual afinávamos o diapazão dos dias é substituída aqui e ali por uma euforia miudinha, que agita só alguns recantozinhos da pele e do cérebro, nada de mais. No dia seguinte, mais um bocadinho de certeza (de certeza, não de esperança: a esperança é a pobre marca d´água dos amores estritamente impossíveis, não deste que vos falo agora e que começa a deixar de o ser), e uma ligeira alegria começa a tomar forma como se fosse um cavalo a aquecer e a preparar-se para a batalha, um bucéfalo nervoso a escoicear-nos o coração, que, subitamente e sem darmos conta, bombeia vida por todos os lados. Esta certeza do amor inunda-nos como o caudal de um rio e tarda nada sentimo-nos felizes. Estamos felizes porque sabemos, não porque achemos que (o coração é um bicho cauteloso que raras vezes se engana). Mas, para que a epifania ocorra, é preciso deixarmos de ter pressa e acreditar que o que está para acontecer já está escrito em algum lado, pelo que não vale a pena empurrar. Aceitar os termos, saber esperar e apreender uma coisa tão básica, mas tão básica, que até mete nojo não termos pensado nisso antes: o amor não é necessariamente impossível por ser à distância. Às vezes, basta praticá-lo com afinco e deixar que a felicidade se esgueire e se torne inevitável para que de repente se faça possível.
(pergunto-me como, lendo blogues há quase seis anos e jornais em geral há muito mais do que isso, só agora descobri o Joel Neto)
Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Durante anos enfiada no meu mundinho de privilégios a brincar às casinhas, nunca percebi muito bem porque é que certas pessoas detestam o Natal. Vejo agora, depois da perda que sofri este ano (mesmo que uma perda auto-infligida e deliberada que trouxe consigo o perfume de ganhos futuros), que faz sentido não se gostar do Natal, querer passar por ele como num sono e acordar já no ano novo, onde nos restam onze meses pela frente até querermos dormir outra vez. Onze não, dez, que agora o Natal começa em Outubro, como se vê pelas montras, fodido isto. Quando a gente se impõe uma perda, tudo na vida muda de repente. A diferença em relação às outras perdas, àquelas que nos são impostas, é que quando somos nós que as queremos, ao princípio tudo são ganhos, vantagens, benesses futuras. Como se, por mudarmos, mudássemos imediatamente para melhor. Perdemos uma vida mas ganhamos logo outra; abdicamos do nosso lugar numa hierarquia familiar estruturada segundo regras de anos e fazemo-nos à vida lá fora. De repente, uma perda é parecida com estarmos de férias, tudo é fresco, tudo é novo, a liberdade é quase eufórica, o mundo espera-nos e acolhe-nos. Mas, passados alguns meses sem que nada de extraordinário aconteça, as férias começam a prolongar-se para além do desejável. E a gente sente um apelo desgraçado pela rotina que perdemos, pelo rame rame de que fugimos, e começamos a ter saudades das pessoas e de tudo o que um dia, resolvemos - depois de muito pensarmos e sopesarmos - deixar para trás. É como se, depois de algum tempo a olharmos em frente e só em frente, começássemos como quem não quer a coisa a espreitar à socapa por cima do ombro. Será que fiz bem? São perigosos, estes estádios intermédios, de limbo, tenho perfeita noção disso. O canto da sereia que é o regresso ao status quo é muito poderoso e alimenta-se das incertezas e das pequenas desilusões. Felizmente, a minha memória longínqua é bem mais eficaz do que a imediata, que já nem me lembro do que almocei hoje. Mas lembro-me bem, dos rios de insatisfação que corriam fundo por debaixo dos presépios gigantes, das árvores e das decorações imaculadas, das fogueiras de Natal e das missas do galo. Lembro-me, principalmente, das palavras que, nos últimos anos, ficavam sempre por dizer. Por isso sei que, apesar das alegrias que tive e que foram muitas, não quereria voltar àqueles natais tão perfeitos. Se calhar, este ano os enfeites serão diminutos, haverá poucas estrelas, azevinhos e singalongs; e se calhar, o rat pack e o king´s college choir nem chegarão a este blogue: a perda que me impus (e que se estendeu a todos aqueles de que mais gosto, o que é a parte fodida) torná-los-ia insuportáveis. E a liberdade, mesmo que agora me pareça sobrevalorizada, trouxe-me ao menos uma coisa de que já não abdico: a verdade. Só entende isto quem já perdeu pessoas, momentos, partes importantes da sua vida. No fundo, o que eu queria dizer é uma coisa que nunca ninguém pensou em ouvir-me dizer: christmas sucks e temos pena.
a maioria absoluta de Costa em Lisboa.
" Eu podia ser uma história má daquelas que se têm que repetir a toda a gente que aparece. Como um desastre em que toda a família quer saber pormenores. Só que há um filho que se ri demasiadas vezes para ser infeliz. Sou capaz de me aguentar anos a fio para lhe encher os olhos de boas recordações. Para isso e para lhe dizer o que vale a pena, ou não, guardar lá de casa. (...)"
O João, que distribui pérolas com uma parcimónia intolerável.
Ainda não li nenhuma reacção blogoesférica ao Nobel de Obama, parece que há muita gente contra. Eu, que se fosse norte-americana provavelmente nem teria votado nele, achei bem. Independentemente daquilo que ainda não fez, porque não pode, porque não teve tempo ou porque mudou entretanto de ideias, o homem criou uma vontade unânime de paz, uma boa onda universal, uma consciência colectiva momentaneamente dirigida para o bem. E isso é mais do que alguns dos que já ganharam este prémio se podem gabar.
Entretanto, o Dan Brown (DB) Já foi. O tom pró-americano que perpassa todo o livro é francamente irritante; os monumentos são os melhores do mundo, os museus têm mais obras de arte do que todos os outros juntos no mundo, os obeliscos são os mais altos do mundo, os avanços científicos os mais importantes do mundo, e por aí fora. Em cerca de umas boas centenas de páginas, DB reduz a Europa a uma res nullius histórica. Parece que, depois das aventuras europeias, há que acarinhar especialmente o leitor norte-americano, intrinsecamente patriótico e ignorante além-fronteiras. O livro começa bem e agarra, mas rapidamente se torna, em vários aspectos fulcrais, demasiado previsível. E depois há as incongruências do argumento; detectei algumas, mas não as vou revelar agora, para não ser spoiler, o livro ainda nem sequer saíu em português, poucos o devem ter lido. Lê-se de um trago, é certo, mas só porque estamos até ao fim à espera de uma reviravolta, de uma surpresa, ná, não pode ser só isto. Mas é. Fraquito, portanto. Agora já estou agarrada ao Bolaño, embora a volumetria me desanime, tanta página, credo. Sim, porque eu embarco totalmente nas modas e sou demasiado cusca e influencável para não querer meter o bedelho naquilo de que os outros tanto falam. Pelo sim pelo não, comprei também o último do Lobo Antunes, a ver se é desta que consigo ler um livro dele até ao fim e abstrair-me da criatura insuportavelmente vaidosa que o escreve.
Costumo detestar versões das músicas de Amália; de repente, sintonizo a RTP 1 e ouço a Teresa Salgueiro a cantar Estranha Forma de Vida, o fado mais bonito de sempre. E gosto. Teresa Salgueiro continua a ter uma das vozes portuguesas mais bonitas que conheço, apurada, doce e cristalina E é bonita, ela mesma, quando canta. A milhas das feias caretas de Mariza, que me distraem da sua magnífica voz, que eu não sei porquê me agride a sensibilidade, em especial quando grita e espalha a boca pela cara. Ouço a Mariza e só penso na sua feiúra, naquela cara angulosa e espetada. Não gosto dela, aliás, não gosto de fado nem de nenhuma daquelas miúdas queques, meninas-família de apelidos sonantes, que usam e abusam dos chailes, brincos e de toda a farafernália fadista em geral, esgares tortuosos em especial. Gosto da Carminho, a Carminho é diferente, aquilo é o coração na boca; já me pôs a chorar, como a Amália põe. A Amália põe-me sempre a chorar, quando vou no carro e calha em sintonizá-la, mudo de estação, não consigo ouvi-la assim, a seco, por entre a cacofonia da cidade que me entra pela janela. E de olhos mareados a condução torna-se perigosa. Não sou purista, sou a favor de versões novas de coisas antigas, de versões novas de coisas novas, há lugar para tudo e para todos. Mas quando se reinventa a perfeição o que se consegue é, invariavelmente, ficar uns degraus abaixo dela. Alguns ficam mais abaixo do que outros, no entanto. Aquela coisa do Amália Hoje, por exemplo, que já vendeu não sei quantos milhares e até trás orquestra sinfónica e tudo, está no subsolo.
vai passar a ser escrito em código e a estar ao alcance só de alguns (poucos) iluminados.
(sim, estou agarrada ao dan brown, já cá volto)
As declarações da Presidente da Câmara de Salvaterra de Magos foram surrealistas, eu não quis acreditar no que estava a ouvir, sério. Aliás, o BE é um partido que não existe, sendo incompreensível que tenha sempre tantos votos, para mais agora que já passou a novidade. Quer dizer, não tão incompreensível assim, na verdade. Perguntei à minha filha, um ser absurdamente social com amigos na ordem dos três dígitos, em quem é que votavam aqueles que ela conhece com mais de 18 anos. No BE, respondeu-me sem hesitar. Mas porquê?, interroguei-me (apesar da razão óbvia: a de que os adolescentes de 18 anos ainda têm o cérebro por acabar de formar). É simples, mãe: é que o BE promete a legalização das drogas leves.
(...)
Para além do mais, e depois do que ouvi hoje, concluo que a senhora em questão não esperou que as ditas fossem legalizadas.
(sendo que a cena do joão jardim a mandar vir com os polícias também foi divertida)

a tua voz é uma lagoa sulfurosa, tanto me aquece como me envenena.
Atrasada e à mercê da caridade da tevê cabo, como sempre, só ontem vi a final do American Idol deste ano, na Fox (acho). Vinha a seguir a coisa mais ou menos desde as provas iniciais (as minhas favoritas, com as figuras tristes dos nerds e doidos... que querem?), e desde cedo o meu favorito foi Adam Lambert, um gótico com um talento incrível. Nunca acreditei que ganhasse, era demasiado estranho e fora do vulgar para o convencional (básico) público médio norte-americano, seguramente a maioria dos que deram cem milhões de votos à final. Acabou por ganhar Kris Allen, o típico menino bonitinho de boa voz e pouco mais. Mas o que eu queria dizer é que a final foi um espectaculaço, como, sinceramente, só os norte-americanos sabem fazer. No vídeo, o número de Adam Lambert com os Kiss. Gosto dele, acho que o miúdo tem mesmo pinta de verdadeira estrela, além de ser muito bonito e muito alto.
Olhou para a caixa sobre a mesa como se aquela a chamasse e virou a cara, tentando pensar noutra coisa. Das colunas futuristas em forma de adn, saía um jazz débil. Pegou novamente no best seller que andava a empastelar há semanas mas, sem mesmo chegar ao fim do parágrafo, fechou o livro com raiva e sem marcar a página, entaramelando os dedos na urgência de destapar a caixa e tirar lá de dentro a fotografia. Como sempre, achou-o lindo. Sabia-se absolutamente incapaz de se reter nas imperfeições físicas que, de certeza, teriam saltado de imediato aos olhos de outra pessoa. Não tinha por hábito achar os homens bonitos, muito menos lindos. Mas a ele, achara-o logo impossivelmente perfeito. Pensou que era tonta, consciente da subjectividade do olhar, da distorção que provocava na sua percepção aquilo que (sei lá) sentia por ele. Uma coisa violenta, que retornava a ela como ondas, num assomo de marés. Perdeu-se logo ali numa série de clichés, como no quanto gostaria de mergulhar naqueles olhos claros, rindo da pobreza imagética da metáfora, tão pouco original. Na verdade, no que ela gostaria de mergulhar não era, decididamente, nos olhos. Decidiu que um dia lhe faria uma espera, uma tocaia indecorosa em que se atiraria nos seus braços antes que ele pudesse reagir. Ou talvez se limitasse a virar-lhe costas, deixando-lhe no ar o perfume do que perdera. Sem qualquer explicação razoável, lambeu a fotografia, molhando-o do colarinho branco à testa. Sentiu o sabor adocicado do papel semi gloss na língua e perguntou-se, pela milésima vez, o coração acelerado como se ele uma presença de verdade, a que saberão os teus beijos?
a detectar padrões de comportamento (o que pode ser uma merda).
Não percebi a atitude de Ricardo Araújo Pereira, ontem, com Pedro Santana Lopes, que usou o programa para a mais desavergonhada propaganda, aproveitando-se do silêncio do primeiro. Não sei se RAP pensou "deixa-o falar, que faz o espectáculo sozinho", mas a verdade é que PSL vinha com a cassete bem metida e trazia a campanha na ponta da língua - embora, sinceramente aquilo tenha parecido mais as recomendações legais que se ouvem em tom acelerado no fim dos anúncios na rádio a medicamentos de venda livre: a foçanguice verbal é tanta, que ninguém percebe nada do conteúdo da mensagem. É que até as perguntas de RAP foram fracas e previsíveis. Pronto, não deve ser fácil ser diariamente genial e superar sempre as altíssimas expectativas de todos os espectadores fãs dos Gato (nos quais me incluo), mas bolas!, estamos a falar de Pedro-Santana Lopes, o palhaço, o bobo-mor da classe política, aquele cuja estupidez e incompetência são de tal modo ubíquas, que conseguiu fazer merda, tanto no governo, como na autarquia. Havia tanto por onde pegar, caraças!, que inexplicável desperdício...
que Cavaco Silva nunca leu Stieg Larsson.
que é uma vergonha.
acho que a única maneira de reparares em mim é eu contar-te estórias pela noite fora.
Era o único homem que a fazia chorar. Tudo nele a comovia, a desconcertava, a mobilizava para o afecto exagerado, a paixão assolapada, o beco sem saída. Havia ali qualquer coisa que não a largava e que a exasperava, como uma criança birrenta que insistisse em ir no sentido contrário. Levava-a ao nó na garganta, às vezes mesmo às lágrimas, com apenas meia dúzia de sílabas, tal o desespero que ela continuava a sentir no seu discurso aparentemente articulado. Não era de todo o homem que mais amara, aliás, não sabia se o amara, sequer, mas algo nele a emocionava e lhe doía, como uma ferida rasgada, uma aflição na noite, embora não conseguisse identificar exactamente o quê: se o desencanto, que ele insistia em alimentar de uma esperança irracional; se o carinho que derramava sobre ela quando estavam em sintonia; se a loucura que vadiava por ele e que abafava desajeitadamente, convicto de que só a normalidade lhe permitiria a decência perante os seus pares.
E depois havia aquela coisa do cabelo dele, de lhe poder mexer, do prazer que lhe dava revolvê-lo e fazê-lo seu, às vezes puxá-lo até, como lhe puxavam o dela quando de quatro e de costas. Uma das coisas que sempre detestara nos antigos namorados era quando resolviam rapar o cabelo curto, quando iam à máquina zero, ou um ou dois, e se sentiam mais machos por isso, qualquer coisa de GI Joes, nunca percebera muito bem. Não gostava dos crâneos alvos, das orelhas salientes nem das curvaturas daquelas nucas masculinas sem segredos para contar. Mas ele tinha cabelo, um cabelo escuro e fino onde dava gozo enfiar as mãos e cofiar por uma eternidade, enquanto ela por baixo. Era então que aproveitava e espraiava os dedos, escorregando-lhos pela franja que lhe caía para a testa, enfiando-os por dentro enquanto ele a fitava no escuro, os olhos azuis muito colados ao rosto dela, tentando, por um lado descortinar-lhe os planos (que por acaso eram nenhuns), e, por outro, que ela o entendesse (o que era inútil). Um ritual importantíssimo para ela, aquilo, nem ele imaginava o gozo sensorial que lhe dava, nem as ilações absurdas que dali retirava, deitando contas à vida, enquanto alisava, agarrava e cheirava. Não fazia a mínima ideia se se continuariam a ver ou se tudo acabaria ali, mas o cabelo dele, naquela noite cativo das suas mãos gulosas, foi por momentos um excelente indicativo.
Fui votar e, como sempre, emocionei-me com aquela merda. Estar ali, na sala esconsa de uma escola pública, com três mecos a olharem para mim enquanto dizem alto o meu nome, depois pegar no boletim, esconder-me lá no cantinho, botar a cruzinha onde quero e pensar, epá porra, tenho mesmo alguma coisa a dizer nisto, não me interessa se andam todos a roubar e ao mesmo, tenho mesmo uma palavra a dizer, pelo menos posso escolher quem rouba menos e quem rouba mais. Não compreendo os abstencionistas, juro, nem os que votam em branco ou nulo. Que raio de maneira de desperdiçar estes pouco mais de trinta anos de liberdade, de perfumada liberdade de escolha, parece que carregam às costas a democracia que os outros conseguiram para eles. Uma falta de respeito, para pessoas como os meus pais ou os meus tios que viram a casa invadida pela pide, os livros vasculhados, a intimidade devassada. E para tantos outros que foram presos, torturados, silenciados à força. Nem preciso de olhar para o nosso passado recente. Olho para as dezenas de regimes ditatoriais que ainda hoje existem no mundo e acho um luxo, viver neste país e poder botar a cruzinha onde me apetece. É um sistema imperfeito, a democracia? É. Os nossos governantes estão claramente aquém das aristocracias gregas, em que só os melhores eram escolhidos? Sem dúvida. Mas abdicar do direito de escolha ou, pelo menos, do direito de podermos dizer quais são aqueles que não queremos de certeza, por muito que estejamos desiludidos com os que acabamos por escolher (porque alguém tem de ser), cheira-me a coisa de preguiçoso ou de pobre e mal-agradecido. Não haverá bons nem muito bons, mas há de certeza uns menos maus. Vão votar, pá.
A inveja é a desgraçadinha-mor de todos os defeitos, quase pior do que possuir-se impulsos homicidas ou sexuais impróprios. Nunca ninguém admite que é invejoso. Se repararem, naqueles questionários aos famosos, quando lhes perguntam qual é o seu maior defeito, nunca ninguém diz sou um grande cretino ou um grande invejoso, não. No máximo, sou muito teimoso/a, e quanto a defeitos estamos conversados. Já o contrário é mais comum, toda a gente se apressa sempre a esclarecer que não é nada, mas mesmo nada, invejosa, e que só quer o bem-estar e o progresso do seu semelhante. Ora, todos sabemos que isto é uma grande mentira porque todos somos, em maior ou menor medida, invejosos. Eu, por exemplo, invejo basicamente uma coisa: os que viajam. Se a minha melhor amiga me disser que vai durante um mês fazer uma viagem de descoberta espiritual ao Tibete, eu respondo-lhe, com um sorriso amarelo, Ai sim?, que bom para ti!, mas lá no fundo desejo-lhe que no dia da partida haja uma greve total dos controladores aéreos. Total e permanente, já agora. Isto de ter os pés pregados quase 365 dias por ano ao solo pátrio é uma cruz demasiado pesada para se carregar, pelo menos para mim. É claro que depois passa e acabo por me despedir dela cheia de bons sentimentos (ou pelo menos, de sentimentos médios, vá lá). O problema da inveja é que é um pecado capital prolixo em nuancezinhas; não é por exemplo, como a gula. Neste caso, a gente quer comer para além da conta porque somos alarves, ponto (por acaso, também sofro deste defeito, mas isso é outra história). Ou como quem diz que sofre de luxúria: no mínimo, ainda se torna mais atraente aos nossos olhos e faz-nos querer ficar com o seu número de telemóvel. Na inveja, a sua qualidade, intenção e força estão directamente relacionadas com a posição social e com o nível cultural do invejoso. Uma funcionária pública de segunda categoria, por exemplo, que ganha pouco mais do que o salário mínimo e vive num T2 na Rinchoa, pode invejar de morte as botas Fly (colecção Outono-Inverno) da sua "chefe"; já esta, uma solitária divorciada, pode invejar o rame rame familiar infernal da sua funcionária, em especial aquele marido que, apesar da barriguinha proeminente, parece fazer-lhe todas as vontades e a trata por querida. Um historiador pode invejar um livro raríssimo e antigo, escrito numa língua morta que não interessa a 99% da população, que um mecenas novo-rico adquiriu num leilão; um condutor da carris, o colega reformado que vive numa quintarola no campo embrenhada no silêncio, uma candidata a famosa, as mamas novas de uma outra candidata a famosa, e os seus repentinos quilos a menos; uma mulher sem filhos, os afectos vibrantes da mulher com um bebé sentada ao seu lado num banco de jardim; uma mãe assoberbada, o silêncio e a paz que rodeiam a mulher solteira que lê um best seller sentada na relva. A questão é: até que ponto invejamos o outro? ao ponto de querermos para nós aquilo que ele tem e de sermos capazes de o prejudicar por isso? Ou a inveja da maior parte das pessoas não passa de uma inveja de deixa andar, uma inveja de encolher os ombros e siga a vida? Assim é (sim: sou optimista e boazinha como a Floribela). Felizmente, a maior parte das vezes que invejamos alguém, fazemo-lo a prazo, só durante um bocadinho é que quereríamos aquilo que a outra pessoa tem; na verdade, não trocaríamos de lugar com ela nem lhe roubaríamos o que cobiçamos com a alma subitamente faiscante de raiva. Eu, mesmo podendo, nunca iria um mês para o Tibete porque não aguentaria estar tanto tempo separada dos meus filhos. Só se não tivesse filhos, e isso deixar-me-ia seguramente mais infeliz do que nunca ter saído do bairro onde nasci em 41 anos de vida. A influência da inveja na nossa vida é tão menor quanto maior for a nossa satisfação com aquilo que, efectivamente, temos - e que não precisamos de cobiçar. Em contrapartida, é um sentimento tanto maior e corrosivo quanto mais as nossas vidas forem amargas e rançosas. Agora, que invejar faz parte da natureza humana, não me lixem que faz. Ao contrário dos outros animais (ditos irracionais), o conhecimento que temos do passado, do presente e a possibilidade de prognose do futuro, contribuem para que nunca estejamos satisfeitos e almejemos sempre a mais, sendo que o mais muitas vezes está na posse do vizinho do lado, o que é uma chatice, convenhamos. Normalmente passa. Mas motiva-nos para, por nós, conseguirmos ter o mesmo, ou ainda mais e melhor do que o mais do vizinho. Enquanto motor para a realização pessoal do invejoso, a inveja inconsequente e momentânea para com o invejado até pode ser uma coisa boa. Dito isto, vou agora ali matar a minha vizinha e roubar-lhe o Mercedes 190 SL de 1960 que acabou de guardar na garagem, a puta. E, de caminho, mato também todos os bloggers que escrevem melhor do que eu e que já publicaram livros. No mínimo, rogo-lhes uma pragazinha egípcia, pronto.
Havia uma intenção de nudez entre eles. Enquanto falavam, por exemplo. Ou o modo como ela entrelaçava as pernas quando se ria; e as mãos dele, que ou agarravam o copo para o levar à boca sem de facto beber, ou se perdiam errantes pela mesa; depois, os ombros dela, atirados para a frente, num desafio mudo como se de faca na liga. Havia uma intenção de nudez. Que pairava no ar como o aroma adocicado de um puro ou uma névoa próxima e súbita. Tóxica. Que fazia com que ele a olhasse em câmara lenta, que a apreciasse devagar em toda a extensão dos seus gestos, o anel largo que lhe escorregava no dedo, o rimel ligeiramente esborratado na pálpebra esquerda, o guardanapo que lhe resguardava a boca enquanto engolia a custo, o paladar aleijado pela vontade de outra pele. A dele. Uma intenção de nudez. Perceptível para todos, até para o empregado que evitava aproximar-se da mesa para levantar os pratos, pressentindo o despudor íntimo nos gestos retidos, na fraqueza dos olhares, nos garfos que, timidamente e sem nunca se tocarem, partilhavam um petit gateaux que não lhes sabia a nada, apenas ao travo amargo da vida uma vez mais protelada.
agora não te queixes

foi contigo que aprendi a não fazer cerimónia com estranhos.
O candidato Nuno da Câmara Pereira, palhaço-mor da política nacional, diz algures num mercado que o preço do peixe está "enorme".
Agora o Santana Lopes equilibra a bóia abdominal numa bicicleta...
(por estas e outras é que deixei de ver telejornais, ai...).
Isto é tudo tão bom, que eu nem sei que parágrafo lincar.
mas mesmo nada, nestes 41 anos de vida, me havia preparado para ouvir o Pinto da Costa dizer poesia... (the horror! the horror!)

Ainda só vi um episódio de "As taras de Tara", mas Toni Collette é, como sempre, extraordinária.
Ando a viver no mundo da lua, aliás meu território habitual. Por entre as mochilas novas dos miúdos, os horários, os furos, os cadernos, os dossiers de lombada grossa, os manuais, os fatos de ginástica e os professores novos, flutuo. Quase nunca cá estou, deambulo, distraio-me, perco tempo em contemplações, interiores e outras.Tenho um mundo só meu, dentro da minha cabeça, onde resolvo todas as coisas. Consigo ser de um idealismo risível, patético. Dentro de mim tudo se encaixa; não há desencontros nem gente perdida; há apenas momentos perfeitos, como nos filmes. Respondo assim, com sonhos em catadupa nos olhos, que nem me deixam ver a estrada quando atravesso, aos encontrões pouco semânticos que a vida entendeu dar-me por estes dias.
Pronto, não me aguento, tenho mesmo de falar de Manuela Ferreira Leite, aquela mulher é como um eucalipto que seca tudo à sua volta. Viram como ela sugou o talento de Ricardo Araújo Pereira como se fosse um aspirador? Não havia ponta por onde se lhe pegasse, foi um deserto de graça, de humor, de fina inteligência. As hesitações, a falta de jeito, os indisfarçáveis tiques autoritários sempre a virem ao de cima, numa pobreza verbal e intelectual que arrastou consigo o humorista, incapaz de dar a volta a tamanha aridez. Acho absolutamente delirante, alguém pensar sequer duas vezes em dar o seu voto àquela criatura com vista a pô-la a governar o país.
Por acaso até vinha cá falar da execrável Ferreira Leite e do subitamente medíocre RAP, mas de repente acontecem coisas esquisitas na nossa vida, que não sabemos bem como classificar e que, de alguma forma, nos sugam durante uns dias. É como se no nosso sistema de arquivos, suponhamos, ordenado alfabeticamente, nos faltasse um separador com a letra, sei lá, dê, e de repente nos surgisse uma situação começada por essa mesma letra; e que, por mais voltas que lhe demos, encalhemos sempre na puta da única letra que não consta do nosso património de memórias possíveis. E a gente anda por ali, com a coisa na mão, a abrir e a fechar gavetas, sem saber onde encaixá-la, sem conseguir arrumá-la noutra letra qualquer, sem saber se há de rir ou de chorar, se foi bom ou mau, se valeu ou não a pena. Em última instância, com o nada pela frente, rasgamos tudo ou amassamo-lo e atiramo-lo em bola para o cesto do esquecimento, ao mesmo tempo que pensamos, atordoados pela estranheza de nós próprios, mas que raio me passou pela cabeça? É, às vezes, acontece-nos sermos uma letra fora do alfabeto. Nos últimos dias, fui uma espécie de eu fugido de mim. E não gostei.
que Sócrates se safou bem com os Gato? É certo que RAP foi meiguinho, mas o nosso PM estava com um excelente auto-controlo, sorridente, provavelmente com a medicação certa. Não se pode dizer que tenha sido um momento Daily Show, mas os Gato conseguiram o impensável: fazer com que Sóctares fingisse gostar e estar à vontade com um exercício democrático de humor sobre a sua intocável pessoa.
Mas por agora temos o problema dos hamsters, uma nova modalidade siberiana ou lá o que é, mais pequenina - como se o nojo fosse directamente proporcional ao tamanho - que ofereci ao meu filho do meio. Em não sendo uma mansão digna de um hamster Jolie-Pitt (v. notícias recentes, não me apetece lincar), é uma jaula tecnologicamente inovadora, com três andares, de formato oval, reentrâncias várias para os ratinhos não se maçarem, uma casinha em forma de casinha verdadeira com janela e tudo, uma rodinha para eles se exercitarem, não ficarem obesos e controlarem o colestrol, e múltiplas escadinhas. Tudo muito colorido, até o algodão para o ninho é cor-de-rosa, apetece viver lá dentro. Bom, a nós, humanos, apetece, porque a eles, ratos, pelos vistos, não. Ao segundo dia, evadiram-se. A gaiola estava fechada, pelo que presumo que tenham conseguido esmifrar-se todos pelas grades, atendendo a que são quase microscópicos. O facto de haver um gato nas imediações poderia ser um problema se não fosse o gato mais atrasado mental e menos dotado de instinto de caça/sobrevivência, enfim, de qualquer coisa minimamente aparentada com um lado selvagem. Este gato (um querido, reparem) só tem um lado, e não é o selvagem. É mais o lado para onde se vira e dorme, o dia todo. Noto no entanto, uma subtil agitação na criatura. Anda a cheirar muito atrás dos móveis e movimenta-se de uma forma que diria quase próxima da agitação. Os trilhos de caganitas que, volta e meia, vou encontrando casa fora, permitem-me concluir que os filhinhos da mãe estão vivos da silva e que o meu gato é, basicamente, um inutil. Ontem, um deles foi recuperado no quarto da minha filha, no canto oposto da casa.Deve ser o irmão estúpido, porque pusemo-lo na gaiola e não voltou a sair. Falta agora o irmão esperto, que anda a gozar com a nossa cara e, muito provavelmente, a dormir nas nossas camas, que eles gostam de se enroscar no algodão quentinho e assim. Circulo relativamente enojada e em sobressalto constante, pela minha própria casa, o que não é especialmente agradável. A próxima vez que me lembrar de acrescentar mais animaizinhos estranhos à longa lista de criaturas que já passaram por esta casa (algumas felizmente já cadáveres - eu sei, a realidade é crua e tal), dêem-me uma marretada na cabeça antes, sim?, a ver se me passam os calores naturalistas.
Os Vermes dos Dias Iguais
"Combinaram encontrar-se no cartório, que ficava exactamente por cima da conservatória onde, um mês antes, um velho de voz enrodilhada e articulações rangentes lhes decretara o divórcio e ela vomitara o almoço aos pés da funcionária que assessorava o acto. Desta vez, porém, segurara o estômago com um jejum prolongado e apresentava-se calma, decente, vá, de sapatinho de salto e saia travada, a emanar respeitabilidade suficiente para aquietar qualquer desconfiança negocial da contraparte. Ele chegou-se-lhe de gravata às riscas, fato completo e corte de cabelo à barbeiro de bairro, as patilhas demasiado compridas e acertadas à navalha, reparou ela, a transpirar honestidade, confiança e força de trabalho por todos os poros, na sua pose habitual de vencedor nato. Encontraram-se à entrada do prédio, ambos atrasados (o mesmíssimo atraso, ao minuto, não: ao segundo!), já os promitentes compradores fungavam e o notário arfava de calor e impaciência, desculpem, desculpem, aqui estão os nossos bê-is (nossos, não, o meu e o teu, pensou ela, num daqueles preciosismos desnecessários de alma xupa-limões, arrepiada e amarga que só visto), estado civil? casada, ai desculpe, divorciada, é que ainda não me habituei. Ele sentou-se ao lado dela, afastando-se uns precautos dez centímetros, espaço contentor, não era o que querias?, o squiiiiiich das pontas das pernas da cadeira, a riscarem o soalho sob o peso dele e a arrepiarem a pele dela, e o sobrolho franzido do velho, que ajustou os óculos e começou a ler a escritura. No entretanto, ela a reconhecer-lhe o perfume e ele a topar-lhe o tom ruivo das madeixas e a extrapolar os motivos, porque raio já não estás loura?, ambos demasiado próximos, demasiado tristes, demasiado frágeis, afasta-te, vá!, não era isso que tu querias, distância? então chega-te para lá, olha para outro lado, não me inspecciones como se tivesse piolhos, primeiro outorgante; e tu não me cheires dessa maneira que mais pareces uma cadela de focinho alçado, a farejar-me, segunda outorgante. Mantiveram o diálogo telepático durante toda a leitura, como dois miúdos de escola, colegas de carteira que passassem a aula a empurrar-se e a acotovelar-se, a ver quem cai primeiro, não fui eu senhora professora, foi ele, ele é que começou tudo! Às tantas, ela compôs um ar urgente e fingiu ler mensagens no telemóvel, vês? estou muito ocupada desde que nos separámos, repara bem!, enquanto lhe media as patilhas pelo canto do olho e lhe espreitava a nuca imóvel, imóvel inscrito na matriz coiso e tal, a cabeça dele virada para a rua, sito na rua não sei das quantas, lote xis, rés do chão, e ele a acreditar na farsa , no chão, sim! conseguiste, estou no chão, arrasado, buldorizado, espalmadinho de tanta saudade e ciúme. Quando chegou a altura de assinar, passou-lhe para a mão a caneta que ela lhe oferecera três natais antes e trocaram cheques, sorrisos e apertos de mão com os novos donos do apartamento que fora deles, prometendo-lhes que, atéao fim da semana, o limpariam dos destroços do naufrágio do seu casamento. Foi ele quem pagou os emolumentos devidos e requisitou duas cópias certificadas da escritura, a puta da escritura (uma para ela). Desceram juntos até à rua, concentrados no tum tum tum síncrono dos passos matraqueados nos degraus. Despediram-se de vista baixa, fingindo ignorar o pestanejo aflito do olhar do outro, SOS!, três curtos, três longos, três curtos, SOS!, e viraram-se as costas num rompante de sevilhanas, rua acima um, rua abaixo o outro. Chegado à esquina, ele tirou o bê-i do bolso para o guardar na carteira, mas saíram-lhe dois: dois documentos de identificação, agarradinhos ao outro, a filiação dele colada na fotografia dela. Respirou de alívio, finalmente, tinham chegado os meios de salvamento, os marítimos, os terrestres, os aéreos!, pelo que poderia dar início à operação de resgate. Virou-se num pé, como um bailarino num soustenu desequilibrado e desencabrestou rua acima, a chamar por ela, exibindo o documento como se fosse um colete insuflável e ela se estivesse a afogar, já a ouvir violinos e a ver ao longe uma luz que a chamasse. Quase esbarrou nela, que descia, lebre-de-corrida, com a caneta dos três natais anteriores na mão, a gritar por socorro e preparada para lhe disparar um verilaite no estômago. E ali, no meio da rua e a meio caminho um do outro, respirando-se boca-a-boca, pensaram poder de facto resgatar aquele amor naufragado, sem saberem que um Amor, quando se descostura e rompe, não há desfibrilhação nem manobra cardíaca que o valha, e que o deles há muito que estava morto e decomposto, a servir de alimento aos vermes dos dias iguais que, à espreita nas esquinas dos prédios que lhes lançavam sombra por sobre as línguas molhadas, aguardavam o momento de se banquetearem de novo, num festim vampiresco. "
" Ele olhava-a como se nunca a tivesse visto antes. E, na verdade, não tinha, não assim, pensou: tão frágil, amorosa, as carícias a quebrarem-se-lhe nas mãos suadas, como vidros finos; os dedos errantes e fugidios, a voz escondida lá no fundo, um nó de marinheiro, daqueles corrediços, sem saída que não a que têm para dentro de si próprios. Ela rondava-lhe o olhar, contornava-o como se uma rotunda, guiava pela cara dele, ora acelerando nas sobrancelhas, ora travando a fundo sobre a cana do nariz, investindo contra o queixo, derrapando boca abaixo. O cabelo dela, de uma estranho louro quase verde, tanto lhe cobria as feições, num pudor compungido, como lhe descobria a expressão, afivelada numa determinação quase mística, à beira do fervor religioso. Então, ficamos assim, por aqui, atreveu-se ele. Pois, parece que sim, respondeu-lhe ela, a voz a soar-lhe de outrem, num gorgolejar desconhecido e longínquo, embora irreprimível. E as minhas cois… Podes ir buscá-las quando quiseres: hoje, amanhã, para a semana, interrompeu-o, arrebanhando coragem. Tens a chave, podes entrar à vontade, pelo menos, por enquanto. Ele anuiu com a cabeça, um huhum meio engolido, meio regurgitado, como um comprimido grande que não desce, que se nega ao caminho, nem para cima nem para baixo, nem para dentro nem para fora, come um bocado de pão que isso passa. Bom, então…, repetiu ele, olhando em volta, como se alguém o chamasse, olhando para lá dos carros, dos prédios, das antenas de televisão, num pedido calado de socorro. Ninguém parecia perceber como estava doente, terminalmente doente; ninguém parava para o ajudar, nem chamava a ambulância; bastaria um telefonema, porque ele ali, em coma profundo, paralisado, ferido de morte, quase um último suspiro. O mundo com as cores de sempre, num corropio desacautelado e ele, incontinente, epiléptico, exangue, as tripas de fora, os estertores finais. O cabelo dela voltou a tapar-lhe por momentos as feições, agora esbatidas, quase impressionistas, e, também por momentos, ele voltou à vida, distraído com aquele bailado esverdeado, as mãos num latejo, a formigarem, comichosas, com a imperiosa necessidade de afastar uma madeixa colada ao canto da boca dela, essa boca que encerrava certezas tão absolutas. Aparece quando quiseres, repetiu ela, impessoalmente, dando o mote, o sinal, o pontapé de saída, enquanto esboçava uma festa ao de leve na sua barba mal feita, o alívio estampado no sorriso sincero, como se refém resgatada. Deu-lhe com cuidado as costas, quase com delicadeza, e afastou-se, os saltos a baterem na calçada e ala que se faz tarde, tenho muito que fazer, hoje (e amanhã e depois, e em todos os dias que se lhes seguirão). Ah!..., como tenho coisas para fazer!, pensou. Coisas. Ao fim da rua, já gargalhava, quase corria. E ele, a ficar para trás, a olhá-la como se nunca a tivesse visto antes: frágil, amorosa, as carícias caídas no chão, partidas de vez, sem conserto; as mãos agora secas, os dedos firmes como pinças, a voz resgatada aos fundilhos do passado, o nó desfeito. "
14 de Maio de 2007
" Brincar com as palavras é mais difícil do que comandar à distância um míssil gugu dada vem daí anda cá vai lá que eu tomo conta de ti faço de conta que não te vi és mesmo tolo no topo do bolo a cereja o sino da Igreja faz-me sombra prefiro uma alfombra e uma atitude zen amen dona zinha sua parvinha eu não lhe disse que ele vinha? Deprimido mas feliz que quem o sabe é quem o diz e lá vem mais um oximoro e nada que rime com isto só talvez parquímetro mas teria de ser parquímoro e uma casa feita de xisto que sinto um misto de joelheira com jardineira é primavera é dia de feira e não posso ir quem dera não me deixam sair fico aqui a rimar e a pensar de onde é que eu já te vi que até parece que te conheço a cabeça do avesso tu fica mas é caladinho menino dos anzóis que vieste e fizeste um milagre vejo sóis a girar a tirarem-me do lugar um cheirinho de vinagre o meu ser a desmaiar mas de onde vem este apreço? Ah já sei de onde te conheço desiste que não adivinhas: é de umas palavras que eram minhas."
30 de Março de 2007
" Tinham muitas coisas em comum: um cão, uma mangueira de jardim, um puto ranhoso, a trela do cão. Não que se entendessem por aí além, mas penhoravam-se mutuamente e juravam-se pelas alminhas, a cada muda de fralda e aparo de relva. Entretanto, o puto cresceu, passou a assoar-se e a controlar os esfíncteres e a fé diminuiu-se-lhes: deixaram-se de mãos no fogo e passaram a talvez quem sabe, não posso garantir nada. Para piorar, um dia, ela perdeu a trela, o cão roeu a mangueira e a relva amarelou, à conta de uma geada que lhes caiu em cima e lhes borrou a pintura sem a devida licença (que se queria em papel timbrado de três vias). Pouco depois, e estavam a viver de fotografias: recordações desbotadas de baba e ranho, de aparelhos de rega e de ossos entre dentes, a um passo do descrédito. Tempos volvidos e já não se jogavam nem a feijões, não se apostavam numa rifa, sequer, entre mil, pois tinham a certeza de (se) perderem e de não terem como pagar, endividados que estavam para consigo mesmos por toda a eternidade. Para compensar, ela arranjou um gato, ele arranjou-se como pode (ou terá sido o contrário?). No seguimento de uma bica escaldada (a bica, não o gato, que até gostava de água fria) morreram por fim afogados, culpa toda de um cansaço que os venceu, depois de anos em que se haviam mantido à tona de vagas gigantescas de rancores salgados, daquelas muito boas para a prática de surf a dois. Acabaram comidos pelos peixinhos, lamentando-se por terem perdido tanto tempo terrestre a limpar rabos, passear cães e aparar relva, e por terem fodido tão pouco. Tantas mãos no fogo um pelo outro e tão poucas mãos em fogo um no outro... enfim, quase esqueletos no fundo do mar e ainda lhes saía o trocadilho, e dos bons! Nem tudo é mau, pensou ele, enquanto um caboz lhe chupava o olho direito, que faiscava raivoso em direcção ao maxilar meio descarnado dela, por sua vez escancarado numa expressão de gozo e já meio soterrado no leito oceânico das cínicas virtudes. Escusado será dizer que, na senda de neptuno (mas sem a respectiva dignidade divina), se atiram raios e coriscos para todo o sempre a vários metros de profundidade, no esconjuro eterno da maldição conjugal."
11 de Dezembro de 2005
quando se lixarem todos os homens que odeiam as mulheres e a Salander se safar de vez.
(até já).

Não, não esquecemos. Filhos da puta. Fuck you.
que sou muito boa a deixar coisas para trás.
E ela esperou. Obrigou toda a casa a um silêncio de monges, ordenando aqui e ali às paredes que nem se atrevessem, ao soalho que não rangesse, apertado com o calor pegajoso que cobria toda a cidade. Carregou a bateria do telemóvel no máximo, garantiu que o telefone de casa se mantinha seguro no descanso e fechou as janelas para que os barulhos da rua não lhe desafinassem o tom da espera. Tapou com um pano opaco a gaiola dos pássaros, para fingir que era noite e não cantassem, correu ao rés-do-chão e tocou a sua própria campainha, aferindo do bom estado da mesma, esticando o ouvido para o terceiro andar onde vivia. Desligou a música e, pelo sim pelo não, combinou a lingerie, duas peças da mesma cor, normalmente não ligaria nenhuma. Deixou a casa numa penumbra expectante e sentou-se no sofá muito quieta, o coração um músculo aflito, de acordo com a solenidade em pulgas do momento, em frente à televisão apagada e ao lado do computador, o telemóvel estrategicamente colocado para uma melhor captação, à espera que ele desse sinal. Ambos sabiam que esta vez não seria como as outras. Daí a importância extrema do pormenor daquele ritual de silêncio absoluto, não fosse ele escapar-lhe por entre ruídos mindinhos, enquanto ela distraída, sabe-se lá. As horas foram passando e a noite começou a crescer-lhe em cima, minando-a de ansiedade e de coisas más e irreversíveis, que trepavam por ela como bichos escamosos de sangue frio. A cada hora a mais, dizia-se que ainda era cedo, mas a noite a pesar-lhe como chumbo, o silêncio antes induzido agora a tornar-se-lhe insuportável. Ligou a aparelhagem baixinho, ainda assim poderia ouvi-lo se tocasse, se ligasse, se aparecesse. Uma cantora de jazz, com um timbre algures entre o infantil e o jocoso, experimentava uma nova versão de dance me to the end of love, o ideal para um final ensaiado e cronometrado ao minuto e ao milímetro, como o dela. Depois de desatar a chorar estupidamente, com uma raiva sanguinária que até a si própria surpreendeu, foi ao armário da casa-de-banho, aplicou uma máscara de pepino sobre as olheiras disformes, abriu as janelas de par em par, deixou entrar o barulho do camião do lixo e dos grupos de adolescentes que riam alarvemente encostados às colunas sujas dos prédios lá em baixo, ligou a televisão e elevou a voz dos candidatos que se enfrentavam em mais um espúrio debate eleitoral, baixou o tampo do pecê com desnecessária força e pôs o telemóvel no silêncio. Apercebera-se de que ficara aquele tempo todo, não à espera dele (ele não existia) mas à espera de notícias sobre uma história que nunca lhe dissera respeito.
Joel Neto
Era por demais evidente que, desde a saída de Moniz da TVI, a situação de Moura Guedes e do seu Jornal se tornara insustentável. Os desmandos desta, por muito que às vezes acertassem na mouche do governo de Sócrates, tornar-se-iam com o tempo numa espécie de contra-poder fanático, obsessivo, e não raras vezes pouco objectivo. Manuela Moura Guedes (MMG) manteve-se firme e hirta no lugar, contra tantos ventos e marés, porque era mulher do chefe, ponto. Com Moniz fora do baralho, foi apenas uma questão de tempo até ser corrida. O suposto timming se calhar não quer dizer nada de especial. Porque, a ter sido uma "ordem" de Sócrates, dada por interposta pessoa colectiva (a Prisa), parece assim de repente um enorme tiro do pé. Não é preciso ser a Maya para, num exercício básico de previsibilidades futuras, concluirmos que pode ser muito mais prejudicial para o PS, à beira das eleições, "calar" um jornal que faz "oposição" do que não fazer nada. Isto porque já saltam por todos os lados os paladinos da liberdade de expressão e da democracia, e não é de todo do interesse do governo, nesta altura, que lhe seja atribuído um acto aparentemente censório desta magnitude. Parece mal - parece mesmo muito mal - , e se calhar muitos indecisos, que nunca simpatizaram com os tiques despóticos de Sócrates mas que até terão concordado com algumas das suas políticas, só para chatear já não votam nele, chocados com esta alegada manifestação de insegurança política. Que, para a oposição, é obviamente um prato cheio, a ser lambuzado e espremido até à exaustão, leia-se: até ao último voto. MMG vem falar de "cachas" sobre o Freeport que terão sido, eventualmente, "silenciadas" com esta decisão. Francamente, não acredito, só se existirem na cabecinha dela; o zé povinho está mais do que farto do "caso Freeport" e de insinuações que não deram - e não dão - em nada. Com a histeria Freeport, MMG conseguiu essencialmente dar uma imagem de inoperância da Justiça. Já quanto à imagem de Sócrates, francamente, só lhe faltou criar asas e nascer-lhe um halo, de tal forma soube explorar a ideia da vítima e do coitadinho. Portanto, não vejo que grandes danos uma depauperada Moura Guedes, sem a muleta do chefe-marido, poderia provocar, a três semanas das eleições, na imagem do PS. A paranóia mediática, alimentada pela oposição, que já se começou a gerar em torno da suspensão do "Jornal de Sexta" ou lá como se chama, essa sim, parece-me potencialmente mil vezes mais prejudicial.
(a uma hora dessas/por onde andará seu pensamento/por dentro da minha saia/ou pelo firmamento)
O miúdo largou a mão do pai e desatou a correr escada acima, a alegria a soltar-se dele e a chegar primeiro. A mãe já o esperava à porta e abraçou-o, gulosa, lançando um olhar triunfante a Pedro, que subia devagar, como se cada degrau o puxasse para o centro da terra. Olá, disseram-se friamente, mais ela do que ele, cujo tom era antes cansado, como que de capitulação ou, pelo menos, de resignação. Correu tudo bem, está entregue, disse-lhe, escondendo um tremor que lhe roubou de súbito a firmeza natural da voz. Está mesmo tudo bem, não te aleijaste?, perguntou a mãe ao miúdo, rodando-o sobre si próprio, apalpando-lhe os ombros, mexendo-lhe nos cabelos, fingindo ansiedade. Não mãe, estou bem, mas tinha saudades tuas, confirmou, abraçando-a com mais força. Ela olhou vitoriosa o ex-marido, Bem, adeus, então até daqui a quinze dias, o próximo fim-de-semana é meu. Pedro hesitou, uma angústia palpável instalou-se no átrio do prédio, um espaço feio e hostil, as paredes de marmorite a quererem comê-lo vivo, Se calhar podia ir buscá-lo uma vez por outra para almoçar, quando me pudesse safar do emprego; podias avisar lá no colégio, almoçávamos por perto... Não sei, responde a mãe, não foi isso que ficou combinado no Tribunal. Adeus pai!, interrompeu o miúdo, correndo para o quarto com pressa de retomar o Medal of Honor no nível em que o deixara dois dias antes. Adeus..., a voz de Pedro morreu-lhe na garganta, nem um beijo ou um abraço, vai ter uma semana de merda só porque lhe faltou o carinho do filho no momento da despedida. Inspirou fundo, a engolir o ódio que naquele momento sente pela ex-mulher. Então?, a voz saiu-lhe afiada em vez de mansa, como era a sua intenção. Não sei, veremos, tenho de falar primeiro com a psicóloga. Mentalmente, Pedro mandou a cabra da psicóloga, os cabrões do juiz e do curador de menores, e ainda a merda do T1 a quilómetros do colégio que lhe levava metade do ordenado e que não lhe permitira a guarda conjunta, para a puta que os pariu. Vê lá isso, era bom para mim e para ele, vemo-nos tão pouco... Pois para mim, chega e sobra, respondeu-lhe, altiva. Pedro embrulhou a raiva na garganta, para que não saísse e respondeu-lhe suavemente, Pois para ele, não, afinal, sou o pai. Ela atirou-lhe um olhar de desdém como se dissesse grande coisa, os gritos de guerra do filho já agarrado ao comando a morrerem ao fundo do corredor enquanto lhe fechava a porta na cara. Pedro virou costas e começou a descer as escadas, as lágrimas a saltarem-lhe por detrás dos óculos graduados, Ah Caralho, um homem não chora!, ordenou a si mesmo enquanto tirava os óculos embaciados, os limpava com a ponta da camisa e gritava baixinho, puta de merda. Saiu para a rua, o ar livre a regenerar-lhe a tristeza, enfiou-se no primeiro café que viu, tirou do bolso a pequena máquina digital comprada no Lidl, ligou-a e, por entre grossos goles de cerveja, reviu vezes sem conta as fotografias do jogo da bola naquela tarde nos jardins de Belém.
Amo-te, escrevera-lhe ela, sem pensar duas vezes. Amo-te. Depois ficou a olhar a palavra, como se nunca a tivesse visto. Há anos que não dizia aquilo a um homem, nem sequer ao marido (muito menos ao marido). Apetecia-lhe repeti-la à exaustão, escrever-lha em maiúsculas como quem grita, encher-lhe o ecrã com ela, dizer-lha tantas vezes até a palavra perder a importância e a solenidade originais. A transbordar de si, apagou o computador, acendeu um cigarro e foi à janela olhar o céu de Verão e sentir ao de leve uma brisa choca, que não chegava para a arrefecer por dentro. No fundo uma romântica, a palavra despoletara nela um desejo físico inusitado; queria sussurar-lha, enquanto lhe lambesse o ouvido; queria contornar-lhe a nuca com ela, como se cada letra fosse a conta de um fio, a-m-o-t-e-a-m-o-t-e, queria descer por ele abaixo, fazendo caminhos com a língua e tatuando a palavra uma e outra vez a cada cruzamento, a cada entroncamento do corpo dele, soprando-a baixinho. Experimentou dizer alto a palavra, em direcção à noite, Amo-te. Evitou o tom desbragado, feliz e carinhoso que devotava ao filho, quando dizia que o amava. Tentou dar-lhe uma conotação adulta, definitiva, sem pieguice, mas viu-se ridícula, falha de emoção, de fervor. O amo-te saiu-lhe como se dissesse está bem, obrigada ou por favor fecha a porta. Percebeu que lhe faltava o objecto daquele amor. Fechou os olhos mas nem mesmo assim o conseguiu imaginar. Não o conhecia, talvez nunca o conhecesse, não sabia o que amava, quem amava. A palavra perdeu-se na noite, sem destinatário fixo. Ana soltou a beata no ar e viu-a cair no passeio em baixo, ainda acesa. Expeliu o fumo que travara nos pulmões, fechou com força a janela, e enfiou-se na cama a puxar pelo sono, como quem arrasta uma carroça. No sonho, que veio só com a madrugada, ela dizia-lho finalmente na cara (uma cara indefinida, de olhos grandes), com a convicção febril das criaturas apaixonadas, amo-te!; e era, sem dúvida, um amo-te daqueles das entranhas, uma estrela de muitas pontas que trazia guardada dentro. Mas ele olhara-a, sorrira-lhe um poucochinho e depois virara-lhe as costas.
Resolvera voltar para o marido. Não aguentara a solidão, as recriminações familiares, o dedo de Deus a apontar para ela. Estava farta, dos longos interregnos em que deixava de ouvir os risos e as brigas das crianças, das mudas constantes de roupa, das refeições que saltava porque não tinha quem a acompanhasse. Sabia que, tal como havia sido ela a criar a situação, o nó górdio, facilmente o desfaria, bastariam um telefonema, uma conversa, um arrependimento sincero e uma demonstração de fé no futuro. Não aguentara, não saber o que a esperava no dia seguinte, nem as longas conversas com o advogado sobre a impossível divisão dos bens, mas, mais do que tudo, achava insuportáveis e dolorosas, as secas e frias trocas de palavras que agora exercitava com o marido, aquele que fora o seu homem de sempre. Odiava a sensação de estar sozinha, como se fosse uma faca de gume afiado e comprido que todas as noites se enterrava mais e mais no seu cérebro, fazendo-a sentir uma série de coisas desagradáveis, que iam desde o pânico à mais pura orfandade. O pior era quando o silêncio era tal que ela tinha de se confrontar obrigatoriamente consigo própria e com todos os seus medos. Aqueles momentos do dia em que os miúdos não estavam, o trabalho acabara e o telefone não tocava. O que é que eu vou fazer ? Perguntava-se. Se morresse aqui e agora, ninguém daria por nada, e daqui a uns dias encontrar-me-iam a apodrecer, provavelmente os miúdos, quando voltassem para casa. Pensava frequentemente que qualquer coisa era melhor do que aquilo, apetecera-lhe vezes sem conta rebobinar a vida e voltar atrás, ao momento antes de ter tomado uma decisão tão definitiva e de ter mudado a vida de tanta gente tão de repente, do pé para a mão. Sentia-se uma caprichosa, uma odiosa caprichosa, que descosera os bordos da família, já meia esfiapada das discussões, das mentiras e dos silêncios. A culpa soterrava-a em casa, em frente à televisão ou agarrada a um livro. Às vezes tinha pena de não fumar, de não beber, de não se drogar ou de fazer qualquer tipo de medicação que a atordoasse num estado de semi-imbecilidade, tal era a vontade de se alhear, de se entorpecer, de fazer o tempo andar mais depressa sem que ela desse por isso. Não tinha querido nada daquilo, pensara que tudo fosse ser muito mais fácil. A civilidade aparente da separação escondia um ressabiamento mútuo que latejava por entre os cumprimentos educados e a aritmética correcta quanto aos dias para cada um com os miúdos. Tudo muito pela rama e à superfície, para não despertar fantasmas adormecidos, mas que parecia resultar, por ora. De vez em quando, assaltavam-na uma espécie de saudades, não sabia bem de quê mas desconfiava, que ela não deixava que se desenvolvessem, atabafando-as de imediato numa qualquer lembrança cheia de rancor que lhe era, decididamente, muito menos dolorosa do que aquelas vontades súbitas de um corpo e as lembranças de um cheiro familiar, um cheiro de toda a vida. Resolvera voltar para o marido, fizera as malas e preparava-se para ir ter com ele e com os miúdos, estava decidido. Mas antes, fez um exercício mental; um exercício que se impusera a si própria desde que tomara a dramática decisão de que agora aparentemente se arrependia. Pensa, Rita, pensa, dizia para si própria, Pensa em quando estavas com ele, mergulha dentro de ti nesses momentos, lembras-te? Pensa no tédio, na indiferença, na vontade de não estares ali, nas camas separadas, na tristeza miudinha de te saberes a dormir com um estranho. Mas pensa, acima de tudo, na vida que existe para além de tudo isso, e que só poderás eventualmente descobrir se agora passares por isto. Desfez as malas, foi ao frigorífico, abriu um copo dos grandes de strawberry cheesecake, atirou-se para cima do sofá a ver um documentário sobre pinguins e pensou, logo à noite vou ao cinema.
Ela pousou o livro na cama, o segundo da trilogia millenium, para ler um email que acabara de receber no telemóvel. Leu-o atravessado e à pressa, pois estava na parte em que se descobre quem assassinou o Dag e Mia; era uma declaração sincera e amigável, mas cobarde - não pelo que dizia mas por ter sido enviada por aquele meio, impessoal e distante, sem possibilidade de resposta imediata, de reacção adequada, de uma eventual explosão emocional (bastante razoável dadas as circunstâncias, aliás). Daquela forma, tinha seguramente custado menos a quem o escrevera: não havia confronto possível, nenhuma explicação adicional a dar, nenhuma hipótese de contraditório. Qualquer resposta que ela lhe desse, ficaria perdida por milhões de bites e bytes, e seria sempre um golpe em diferido, mole, sem a eficácia imediata e demolidora que pedem as declarações sinceras e amigáveis como a que acabara de ler. Apeteceu-lhe gravar no peito dele uma frase que o identificasse como pérfido e perigoso perante todas as mulheres que se lhe seguissem, à semelhança do que Lisbeth Salander fizera no torso do seu tutor, talvez qualquer coisa como "eu sou um cobarde que gosta de brincar com os sentimentos das mulheres", atravessado na diagonal. Felizmente que ela tinha ligado todos os sistemas de protecção, todas as firewalls internas, alertada por mais do que uma contradição, por uma mentira aqui e ali, por estranhos recuos após insinuações de ataque, por gente de fora que lhe tinha dito que não confiasse. Tinha o coração bem protegido, todo ele acolchoado, nem um bocadinho de fora para amostra, nada onde lhe pudessem tocar. É óbvio que se abriu, e confiou e deu, mas porque lhe ensinaram que a reciprocidade pode ser um valor moral a preservar em certas circunstâncias, e que quando se recebe, tem de se dar qualquer coisa em troca. E, apesar de tudo, ela recebera algo. Recebera, por exemplo, uma espécie de amor aleijado; um amor intermitente que só lhe chegava a espaços, mas sempre de forma violenta, como se uma espécie de ultimato. Era algo que a assustava e a retraía, que a fazia esconder-se por detrás do riso e de uma falsa segurança, que exibia perante ele como uma parede de tijolo. Mas depois arrependia-se, pois ele, em todo o seu desnorte, acabava por ser-lhe sincero, devoto, quase fiel. E então, um dia, ela disse-lhe tudo; despejou literalmente a sua vida na cabeça dele, e ele que fizesse o que quisesse. A partir desse momento, julgou ela, passara a haver um laço indissolúvel que os unia, a partilha dos segredos, das inseguranças, dos medos. Agora, ao olhar para aquele email, definitivo e manso, dava graças por ter mantido o coração abotoadinho durante todo o processo, caso contrário estaria a sofrer que nem um cão vadio. O que não invalidava a crueldade objectiva da situação por ele criada e alimentada, como se alimenta um animal selvagem em cativeiro. "Eu sou um cobarde..." pensava ela ao rasgar-lhe a frase no peito, uma e outra vez. E, como Lisbeth Salander seguramente faria, virou-lhe as costas, saiu e bateu com a porta sem sequer olhar para trás.
O Controversa Maresia no Blogger
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