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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

de passagem

por Vieira do Mar, em 12.01.17

Estas coisas começam sempre da mesma maneira. Amigo de amigo, coincidência em festas, férias e jantares. Giro, muito giro, preenchia algumas das suas fantasias fetichistas mais inócuas. Sempre tivera um fraco por executivos motards, que escondem o fato por baixo do blusão negro de cabedal. Talvez fosse uma segunda pele, anarca, arrivista e perigosa: a verdadeira, pensava. Depois, durante anos, as conversas virtuais em que se amaciavam taco a taco com provocações e tiradas espertas. Tudo tão já visto, tão cliché e, mesmo assim, relativamente excitante. Ao princípio, só os almoços juntos permitiam um ligeiro acento sexual, nunca verbalizado, e a sensação daquele lugar comum de que um dia, mais tarde ou mais cedo, teria de acontecer. Claro que expectativas foram criadas e situações, fantasiadas. É esse o problema dos amigos que se atraem: criam uma bolha imaginária onde tudo pode ser possível, e não se poupam à grandiosidade do cenário. As piadas, os olhares, a intimidade que surge do próprio acto de serem amigos, quase confidentes, são sempre promessas do que realmente nos apetece. Quanto mais tempo dura o limbo da atracção, maior a confabulação relativa ao que pode acontecer um dia, num qualquer alinhamento perfeito de estrelas. E esse dia chegou. Anos depois, ele agora descomprometido, ela também, e tudo se conjugou para, bem, para qualquer coisa. Uma casa disponível, um pedido de guarida, uma coincidência geográfica, claro que podes cá dormir, tenho vários quartos, melhor, vem jantar que eu cozinho. Embora tenhamos que gerir as nossas próprias expectativas, que por essas alturas estão elevadíssimas, pois o tempo é amigo da imaginação, também há que estar à altura dos sonhos molhados dos outros, e quem diz que não o faz, mente. A urgência centra-se no agradar e para isso seguimos às apalpadelas porque não sabemos bem do que o outro gosta ou detesta em nós; só sabemos que nos queremos levar para a cama e que nos demos a algum trabalho para tanto. Somos compelidos a criar um personagem que se adeque àquilo que achamos que esperam de nós, é fatal como o destino. Mesmo que de forma inconsciente, ninguém quer estragar um momento esperado por dá cá aquela palha. Neste jogo, há que cuidar dos desvios súbitos e atermo-nos ao plano, mesmo que este seja o improviso. Na ignorância, ela resolve disfarçar-se de si mesma e põe-se bonita, mas com uma singeleza de verão. Ele chega, e o comportamento é de amigos recentes, com alguma cerimónia. Jantam cá fora no jardim, está uma noite quente, a conversa balança nas sombras das chamas das velas, mas o romance teima em não chegar. Bebem muito, empurram-se por cima da mesa, ela arremessa-lhe os ombros nus, forçam a lassidão dos corpos e o atrevimento das palavras. Impaciente e quase enfastiada, ela levanta-se da cadeira de plástico e desce até à boca dele, dando-lhe um beijo, que é longo e lindamente correspondido. Mas, depois disso, volta a sentar-se, a conversa continua e as camas lá em cima vazias, os lençóis por desmanchar. Às tantas, ele diz-lhe: “Porque é que te pintas de forma tão carregada? Faz-te os olhos mais pequenos, devias deixá-los ao natural, não te fica bem”. Ela não acredita no que está a ouvir e ele nem percebe a bomba nuclear que acabou de rebentar na mesa, arrasando com tudo quilómetros em redor. “Achas?”, pergunta-lhe em jeito de metáfora, pestanejando o rimmel preto que lhe realça as ralas pestanas louras. No fundo, a dar-lhe uma segunda hipótese. “Acho. Ficava-te melhor”, responde-lhe ele com aquela literalidade tipicamente masculina a que gostam de chamar frontalidade, ou "a única coisa que sabemos fazer". Ela levanta-se, passa por cima dos despojos radioativos espalhados na relva, pede-lhe desculpa e vai à casa de banho, onde retoca com perfeição o risco negro dos olhos, já a derreter-se com a humidade quente da noite. Volta fria e sorridente, e olha-o com uma condescendência feroz, pois ele não lhe importa o suficiente para ficar sequer ofendida. Numa ignorância abençoada, ele continua a conversa mais um bocado até ambos se confessarem cansados. Sobem as escadas e ela oferece-lhe o quarto de visitas. Obrigado, até amanhã. Meia hora depois, já quase a dormir e ele aparece-lhe no quarto, senta-se na cama e diz-lhe que acabou por não dar seguimento àquele beijo no jardim, erro que pretende expiar. Ela atira-lhe com uma gargalhada abafada pelo lençol, “Desculpa, estou com tanto sono que nem tirei a maquilhagem. Até amanhã. Dorme bem. Quando saíres não me acordes”.

dezassete

por Vieira do Mar, em 05.01.17

Tu não és fácil de explicar mas também quem me manda a mim, mais um texto piegas a cada ano que passa e eu não sei se vamos para melhor, só sei que cresces tanto que se me dói o pescoço olhar-te nos olhos. Podia inventar o mar de rosas que é ser mãe, esconder as penas atrás de um uma argamassa de sorrisos babados,  ou então desvendar o fardo, para que todos vejam que não é o diabo que os carrega, somos nós. Ou talvez tentar um meio termo, vá, meet me half way e vais ver que até gostamos do outro quando os dias não estão de chuva. Cresceres não é a melhor coisa do mundo, desculpa lá. Mais um ano e todos os meus filhos serão maiores e vacinados, e tu também vais começar a dizer-me não,  legitimado por uma ilusão chamada maioridade legal. Se quiseres, podes fazer a trouxa, bater com a porta e nunca mais olhar para trás, que nem a polícia me poderá valer. Nasceste  a ironizar a tua própria existência, sempre parco na marmelada, que isto cada um leva com o que dá e o nosso problema era meramente logístico: demasiado forte, grande e independente; no fundo a acharmos que os outros precisavam mais de colo do que tu. Se calhar por isso nunca gatinhaste e puseste-te logo de pé;  como Atena, nasceste adulto, poeira e vento, pancada e guerra, número impar, comida sólida, a mão dada ao irmão mais velho com medo que ele atravessasse a rua sem olhar para os lados. Um riso demasiado, sempre pronto, a alegria a soltar-se por entre a falha nos dentes de leite, num mundo só teu que nos davas a honra de partilhar quando bem te aprouvia. Mas magoaste-te um bocadinho e agora aceitas melhor o meu colo, como se finalmente precisasses dele. És resposta pronta e afiada, és o sarcasmo inesperado; és irónico e tens muita piada, mas hoje andas muitas vezes sorumbático (a vida entretanto não te foi de modas), a não ser quando alijas por momentos o fardo que carregas, como se despejasses detritos ao rio, e então respiras melhor. És preguiçoso quando se trata de procurares o que te faz feliz, mas és prestável, um pacificador, e tens uma alma boa como a de um passarinho, por isso não te entendo quando cospes amargura e um tornado de espigas louras se alevanta do nada, abatendo a frágil pirâmide humana na qual nos sustentamos uns aos outros. No silêncio custas-me mais. Às vezes, acho que nada sei sobre ti. Mas é só porque não finges, e a verdade é algo de que os adultos se vão esquecendo de reconhecer com os anos. Não tens a  sobrecapa dos outros, que já perderam suficiente inocência para conseguirem agradar ou ferir de propósito. És honesto no teu silêncio de dias, e eu sei que não o fazes por amuo ou outra qualquer estultice, o que me assusta, porque tudo em ti se tornou demasiado sério. És criterioso como um homem de cinquenta anos, que faz um novo amigo a cada cem pessoas que conhece; não papas grupos, não te revês em modas, e resistes teimoso, mesmo que o resto do mundo pense o contrário. Depois, há dias em que não te calas, e é o mundo e a síria, e os hackers e o espaço sideral e o stephen hawking, a professora de francês, chernobyl e as letras dos avenged sevenfold, a bateria, e a canção que compuseste no piano, o miúdo da turma do lado, o filme que viram na aula de alemão, os chocolates que me compras, o beijo furtivo na testa,  e aquele vídeo no youtube que tenho mesmo que ver. E eu não consigo acompanhar-te na corrida que é essa cabeça que de repente  se abre como uma flor carnívora que se cansou de mastigar as coisas e agora regurgita os restos. Bem tento, apanhar tudo do chão, de gatas, de costas, a fazer o pino,  a tentar compor um puzzle que me faça sentido. Tudo cá para fora, porque entretanto o silêncio foi demais, porque ninguém sabe dos teus pesadelos, porque, porra!,  a vida afinal é bonita, e toca de vomitar palavras, já que vieste com o dom de as usar. Quando nasceste não dormias. Durou um ano. Mudei tanto que até mudei de feições: agrosseiraram-se, com os esgares penosos da vigília permanente;  ganhei esta ruga entre as sobrancelhas, como se sempre apreensiva, e estas olheiras cavadas como um buraco na terra. Não choravas, eras um acordado feliz, só não dormias porque se sobrepunham outras necessidades mais fortes, como comer e falar. Desde que te conheço que tento perceber o que dizes, com tanta convicção. Um grande, gordo e pesado bebé louro, um anjo da capela sistina, ao meu colo a noite toda, como um conviva numa jantarada de amigos, só comes e bebes e conversa e risos. Mas no qual a anfitriã está tão cansada que já só imagina o convidado tagarela na rua. Houve um laço, melhor, um nó górdio, que se formou naquelas noites frias de inverno em que te embalava entre mamadas e conversa, para não acordares os teus irmãos. Adormecia de cansaço por segundos e tu rebolavas para o chão, onde eu te encontrava, a saltar do sono em pânico, deitado a falar contigo mesmo, sem chorar. Sempre choraste pouco, fazias barulho de outras maneiras, nasceste com tantas palavras dentro de ti, que tinhas que te livrar delas a toda a hora. Geres com imensa discrição a revolta do abandono. Tempos houve em que descobria cá em casa um móvel esmurrado, um vido partido, uma parede raspada, um livro rasgado. Ninguém te ouvia a fazê-lo; negavas sempre, mas eu sabia e nunca me zanguei, até porque tinhas toda a razão. Foi naqueles tempos em que do teu quarto só chegava silêncio, tu e os auscultadores enterrados nos tímpanos, para abafar os ruídos da dor. Quando aprendeste a articular as palavras que te assoberbavam, precoce como em tudo, conjugavas os verbos no pretérito perfeito e eras uma atracção de feira. Pouco depois estavas a escrever a a fazer contas de cabeça. Talvez por isso ainda hoje, quando te peço que exibas os teus talentos para a família e amigos, declines inabalavelmente o convite e me vires as costas com uma espécie de mágoa. Embora continues a disparar as piadas mais certeiras do mundo, aquelas que fazem sucesso nas festas embora nem sempre agradáveis para os alvos escolhidos, mas só quando te apetece. Entretanto, cresceste que te fartaste. Cada vez mais sério e ponderado (apenas no que te convém),  dás-me conselhos telegráficos que me deixam dias a pensar, raisparta o puto. Mas os animais ainda te adoram, e seguem-te como a Pã. Como o galo Simpatias, que era quase do teu tamanho mas andava ao teu ombro todo o dia, quando tinhas quatro anos, lembras-te? Ou os gatos ariscos que ronronam só para ti e os cães ferozes que te abanam o rabo. Estás um homem (venha daí mais um lugar comum). Mas eu continuo e continuarei noites e noites acordada a tentar perceber a tua tagarelice, o que me queres dizer,  que raio tudo isto significa para ti, incluindo eu. Vamos partir o mundo?, costumavas dizer ao teu pai. Bora, Joãozinho, vamos partir o mundo!, alinhava ele. Não chegaram a partir o mundo juntos, talvez por isso os armários, os vidros e as paredes. Eu não partiria o mundo contigo, desculpa, para isso não sirvo (como para tantas outras coisas). Mas parti-lo-ia por ti, isso sim. Amo-te, Joãozinho (e não reclames do inho, que tamanho não é documento).

joaonodo.jpg

As the boy became a man
In came a calm sophistication I can hardly understand
So lost in ego, didn’t notice when the time had slipped away
(Yeah, everybody’s got a sob story)
(…)
Who is the crowd that peers through the cage,
As we perform here upon the stage?

(Avenged Sevenfold)

 

 

Alvaiázere

por Vieira do Mar, em 08.11.16

 

Éramos como irmãs; eu, mais velha, a fazer-me valer do posto da idade, na brincadeira mando eu, tu só compras, escolhe o que queres que eu é que mexo na máquina, carrego nos botões, faço plim!, encho os sacos e dou o troco; "boa tarde senhora dona sofia, queria um quilo de batatas se faz favor!". Mas depois vinham as férias na quinta do tio Lalá, que era uma quinta mesmo, não como nós agora dizemos “eu tenho uma quinta”, sinal de genealogia remota ou abastanço recente, ladeada de lounges, piscinas e labradores decorativos. Não, era uma casa no campo rodeada de imenso terreno, auto suficiente em tudo menos na água potável, que a caseira ia diariamente buscar à nascente próxima, de cântaro à cabeça, que equilibrava por entre as veredas espinhosas. Um sítio de trabalho duro: a mula puxava a carroça, os carneiros e as ovelhas davam leite que, misturado com o cardo, se transformava em queijo; e, ao domingo, davam-nos a carne com a qual os da casa agradeciam a Deus. Havia uma adega na cave, gelada e escura, com pipas gigantes onde envelhecia um vinho medíocre que os mais velhos bebiam acriticamente, alheios a castas e qualidades do solo: se touriga ou trincadeira, se calcário, granítico ou arenoso, todas as uvas iam para o mesmo lagar e eram embarricadas sem grandes cuidados, até produzirem um vinho meio azedo que não resistia à humidade que escorria pelas paredes da cave. Era aí que tomávamos banho, entre as pipas molhadas, uma vez por semana, com um panelão de ferro aquecido na grande lareira da cozinha à volta da qual a vida corria, temperada com a água fria do depósito que periclitava acima das nossas cabeças. Às vezes, sentíamos as ratazanas a fugir por entre os nossos pés, assustadas com o barulho da água, e fartava-mo-nos de rir. Não havia açúcar e os doces eram feitos com mel, das colmeias demasiado perto da casa, mas cujo assalto valia a pena porque ficavam debaixo da maior amoreira que já vi, com umas amoras que esborrachávamos com as mãos para nos tintarmos de vermelho escuro enquanto brincávamos às vampiras salteadoras. Rebolávamos literalmente no palheiro, a beber leite das tetas das ovelhas, que me lembro ser espumoso e adocicado, e eu ficava com umas babas enormes da palha, que me davam uma comichão doida, mas que coçava às escondidas porque ainda levava um sopapo se me queixasse de tal picuinhice, menina da cidade. De manhã íamos ao galinheiro, eram centenas de galinhas cujos ovos postos vinham em fila até nós, que arrumávamos nas caixas, prontos para os feirantes que os viriam buscar. Ao pequeno almoço abusávamos do que havia, claro: gemadas cheias de mel, broas quentes com frutos secos, leite morno das cabras prenhas. Coisas que hoje matariam de choque qualquer nutricionista. A casa em si, e todo o ambiente circundante, parecia uma mistura de subcultura mórmon com amish: os semblantes condizentes com a ausência de alegria, com o peso do castigo e da frugalidade obrigatória. Mesmo assim, as miúdas da cidade faziam teatros, reuniam patrões e empregados no anfiteatro improvisado que era a eira onde se debulhava o trigo. Distribuíam folhetos desenhados à mão com o programa, cheio de atracções espectaculares, vinte e cinco tostões cada e à cabeça, e cantavam as cantigas das novelas, imitavam a Beatriz Costa, e a roliça atrevida (adivinhem qual?) dançava ballet, distribuindo pliés desequilibrados pela escassa assistência. Estranhamente, conseguíamos arrancar alguns esgares sorridentes àquela gente empedernida pela solidão de não conhecerem mais nada. Sisudos e desconfiados, achavam-se a perder tempo, com a terra por arar, os bichos por ordenhar, a fruta por apanhar. Mas o melhor do mundo são as crianças e eram todos tementes a Deus: há muito que haviam reservado o seu lugar na plateia do céu, e não o quereriam perder para nenhuma lateral em pé. O azeite, também lá produzido, era tão ácido que arranhava a garganta por um dia inteiro, mas vinha das azeitonas que por sua vez vinham das oliveiras e eram esmagadas na prensa de pedra construída ao pé da estrada, que os vizinhos também usavam a troco de fruta e mais azeite. No meio do pinhal, do outro lado da estrada, onde nos entretínhamos a colar os dedos com a resina que escorria dos troncos feridos para os vasos de barro, havia um laranjal secreto, com enormes laranjas da baía, que abríamos e deixávamos escorrer pela boca e pela cara, empoleiradas perigosamente nos ramos mais altos, numa encenação sensual quase transgressiva. Na eira, que era o teatro, debulhava-se o trigo que depois era moído e com o qual a caseira fazia o pão e as broas em forma de bonecas, "Esta és tu, esta é a Catarina...", com passas no lugar dos olhos e sapatos feitos de nozes. Os gatos eram às dezenas e a indiferença era mútua entre estes e os restantes seres vivos, mas cão só havia um e chamava-se Mondego, ou não estivéssemos nas beiras. Um rafeiro feioso e feroz, preso a uma trela curta que o obrigava a enroscar-se na lama quando dormia, até que as miúdas da cidade venceram os senhores da casa pelo cansaço e conseguiram que o Mondego passasse para a varanda de madeira, com um tecto e tudo, onde virou um doce tal que abanava a cauda quando nos via, deixou de ladrar, de ir às canelas e até de matar gatos. Pareceu-me até que se passaram a cumprimentar civicamente, com subtis toques de cauda, até um dia cair para o lado, retesado e gordo de tão morto mas com um sorriso feliz. Dentro da casa principal havia uma sala de jantar muito bonita, toda em madeira de pinho, com umas janelas enormes que davam vista para a encosta de vinhas que acabava na estrada onde começava o pinhal. Tinha uma mesa muito grande, como as de um castelo medieval, com bancos corridos, rústica e empoeirada, que nunca era usada, mesmo quando toda a família se reunia. Como se gostassem de ter a perspectiva do prazer à espreita, para lhe poderem resistir. Comíamos na mesa da cozinha, o centro da casa, e os serões eram passados no banco da lareira grande, até à hora sagrada da novela, vista numa sala de estar cujos sofás eram cobertos de plástico, para que não nos sentíssemos confortáveis demais. As refeições, excepto aos domingos, eram pratos cheios de legumes, arroz e enchidos, regados com o tal azeite que escorria de uma almotolia enorme que passava de mão em mão (primeiro os mais velhos) e que equilibrávamos com muito cuidado para não nos sair mais do que uma gota, que aquilo dava uma azia danada. O pater familias era um velho severo e conspícuo, cujo único sinal de excesso era a barriga saliente, aplanada pelos suspensórios repuxados, mas cujos pneus lhe fugiam, rebeldes, pelas laterais. Usava sempre o mesmo colete, de cujo bolso retirava com frequência, e não com menos mistério, um relógio de corrente, no qual sondava as horas com um ar sério e quase cruel, como se contasse os minutos para dar uma ordem de enforcamento. Nunca falava, e nós engolíamos à pressa os grelos cozidos, sentindo na pele o seu olhar baço, ampliado pelo monóculo empinado nas verrugas do nariz. Mas, na maior parte do tempo, éramos livres. Não tomávamos banho, mal lavávamos os dentes, emporcalhava-mo-nos com os animais, comíamos uvas, laranjas, figos pinga-o-mel, dióspiros; subíamos às árvores, caíamos, bebíamos a zurrapa das pipas às escondidas, escorripichávamos o licor caseiro que ficava no fundo dos copos em dias de festa, e fugíamos dos insectos, que sinceramente me pareciam amazónicos e me custaram algumas palmadas perante a recusa em partilhar com eles o mesmo espaço Ah, os caprichos da menina da cidade!, pensava a minha tia, que passava do fervor amoroso ao rancor, consoante os humores do seu útero ressequido. Felizmente havia o meu tio. Escolhido, de seis irmãos, para ser o padre, garante necessário da continuidade da Fé e da prosperidade das colheitas, a vida trocou-lhe as voltas quando conheceu uma hospedeira alta de olhos verdes, ex menina de sacristia, muito devota, que guardava os caderninhos onde declarava o amor a Deus debaixo do colchão do convento, ansiosa no fundo para que alguém lhe arrancasse as amarras da genuflexão e da culpa, o que o meu tio fez, aliciando-a para as fileiras do comunismo. E assim lá se vai o padre e lá se vai a beata, com Marx na bagagem, a caminho da clandestinidade, o pequeno apartamento de Lisboa revirado pela pide vezes em conta. Voltaram de Angola em 1974, com dois horríveis papagaios para cada uma de nós, as sobrinhas. Só um sobreviveu, para nos morder religiosamente com um ódio rançoso até ao dia em que morreu de velhice (ou de saudades do meu tio, quem sabe). O meu tio, esse, tinha muitos cursos, e acabou professor de história num liceu da periferia. Sabia que se fartava e nós, miúdas, bebíamos daquela sabedoria como do leite morno das ovelhas. Estávamos no centro do país, mas ele conhecia uma serra que palmilhava desde pequeno, onde repousavam fósseis marinhos de há muitos milhões de anos, quando o mar ali parara, escondidos nas silvas e no cascalho. De farnel às costas, lá partíamos de madrugada para a grande aventura, de olhos postos no chão à procura de conchas e afins, que teríamos de arrastar connosco o resto da subida, até chegarmos a uma caverna pré histórica curvada pelo peso dos morcegos, que se agitavam lá dentro num negrume sibilante. Esta parte já não sei se é verdade, mas na pedra à entrada onde nos sentávamos a descansar, falávamos de desenhos nas rochas, que o meu tio nos dizia serem pinturas rupestres que mais ninguém conhecia; ainda hoje não sei se lá estavam mesmo, se era poesia ou se ele o dizia para nos evitar a desilusão de serem apenas grafitos feitos por alguém que lá chegara antes de nós, assim quebrando a magia que era a nossa sensação de conquista. Chegávamos a Lisboa cheias de babas, picadas de insectos, cabelos empastados, joelhos esfolados, fígados a rebentar, cotovelos gretados, engripadas e com as roupas rasgadas. E cansadas de atravessar o país numa Dyane a quarenta à hora com um buraco no chão (cuja diversão era evitar que a ponta dos nossos sapatos tocasse o asfalto que nos fugia), encafuadas no lado direito do carro porque o papagaio ia do lado esquerdo, no ombro do meu tio, e ficava nervoso com as curvas. Mas vinha feliz, com um saquinho de plástico cheio de amonites aninhado no meu colo, desenterradas à unha da terra dura, que, como jóias valiosas, expunha milimetricamente na minha prateleira de fórmica, assim que chegava a casa. Depois, obrigava os meus amigos da rua, os rufias das biclas com quem fazia corridas pelos Soeiros acima, a excursões para apreciarem as minhas espirais de Fibonacci, ao que acediam contrariados, vendo-se perfeitamente que me achavam tão maluca como quando lhes dizia que queria ser bailarina. O que era perfeitamente compreensível, se atentarmos na fotografia infra.

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Para a M.

por Vieira do Mar, em 17.02.16

 Um texto de amor é um texto de amor. Nem sempre remendado com metáforas entrepernasedesejosmolhados. Um texto de amor é saudades furibundas contigo ainda ao lado. É pés morenos enfiados em chanatas que escorregam em pedras molhadas só para vermos os confins enovoados de uma praia. São tardes na varanda a olhar para as cegonhas e intercalar tratados de eloquência com silêncios de abissais, como quimeras. É encobrir segredos, confrontar ofensas, seguir em frente, não perdoar porque nada há a perdoar, apenas disparates que fizemos porque sim e porque tudo foi ontem. É tocarmo-nos onde mais ninguém tocaria se não fosse a sério, é dizer o que mais ninguém diria se não nos soubéssemos ouvidas, é usar o pressentimento para correr para a outra ou viver a nossa vidinha aparte quando pensamos que tudo está bem. O nosso amor é amoral, esquecido, translúcido e presciente. Não duvida nem desconfia. Não faz cerimónia e tanto anda ao estalo como aos beijos. Mas não levanta a voz, não se ressente e é alegremente ordinário, destravado como um filme cómico para maiores de vinte e cinco. É vernacular, sempre a desmembrar o cinismo alheio, filho da puta canibal, mas também clemente como uma freira bondosa, daquelas que pesam quarenta quilos e vão para áfrica. Raras são as vezes em que não estamos de acordo, mas quando acontece, discutimos à exaustão até não mudarmos de ideias. Depois, seguimos em frente para outra coisa qualquer. Nada em nós se parte nem se reconstrói, não é preciso. Somos intactas. Não nos fazemos favores nem nos agradecemos, basta pedir; nem isso: basta dizer ou calar. Às vezes, um átomo revolto desperta em nós um ciúme azedo e súbito, mas volátil, e quase nunca uma com a outra, o que nos facilita a vida: podemos sempre infernizar a dos outros. A nossa amizade é antiga, somo almas velhas reencarnadas que se encontram até já não se poderem aturar, fartas das tantas vidas bizarras em que foram obrigadas a cruzar-se. Brincamos de ser livres mas, às vezes, mirramos em celas contíguas, duas prisioneiras a comunicar pelo sistema de ventilação e a engendrar irreais planos de fuga. A tua força perante a adversidade, que insisto em confundir com optimismo, irrita-me. Mas calo-me porque tu sabes. Vejo sempre o pior cenário em tudo e nem disso me tentas demover, o que me irrita ainda mais. Muito é preguiça em nós, daí se calhar não precisarmos de conversas de café e preferirmos beber e fumar e comer de boca cheia - mas com os talheres certos. Esta última parte é tua. A telepatia não é um dom, mas uma artimanha de quem não lhe apetece esforçar-se muito, o que é o caso. Quero que te lembres da piscina insuflada no meio das ervas daninhas, da paz perfeita naquele bar longínquo com os homens mais bonitos do mundo, da tua gata aninhada no meu colo (aguenta-te), dos gins improvisados com as sobras de fruta, das minhas costas no teu horrível sofá, dos nossos cães a fugir pela areia, e do inferno que passei junto a um mar onde só contigo consegui regressar. Sabes que irei logo a correr, quero lá saber se para o outro lado do mundo, irei.

...

por Vieira do Mar, em 16.06.15

Tem dias  em que me falta a solidão do nosso silêncio, vá lá a saber porquê. Era um silêncio infeliz mas a tristeza também enche, quando o resto falta. É uma carência que me bate a dias incertos, sem aviso nem razão. Passa sem deixar vestígios, como um ataque de ansiedade no meio do trânsito ou uma dor de barriga antes de um exame de matemática. Aguento-me quieta porque sei o desfecho de ir ao teu encontro, impulsiva, como de costume sem nada para dizer,  só para te ver, que tenho saudades. Não tenho. Estou apenas num daqueles dias em que não aguento sozinha os murmúrios da cidade.

Sâo repentes em que preciso de ver a tua miséria para minorar a minha, relativiza-la, perceber que o teu poço é mais fundo do que o meu, que nem o eco da tua voz cá acima chega. Tomo dois Rivotril, e espero. Escondo a chave do carro para não me apanhar sonâmbula à tua porta, a olhar-te a janela, aberta ou fechada, será que estás, que me vais deixar entrar? Que vou poder escarafunchar na ferida mais um bocadinho? Ou já cicatrizaste? É o mais provável, e é o medo de ver que ganhaste  que me impede na verdade de me meter ao caminho. Rezo sempre para que me ignores e me desprezes, pois estarmos juntos é como dois sem abrigo que têm de se encaixar no mesmo saco cama sebento para sobreviverem à noite fria nas escadas de um prédio fino. Limitam-se a lutar por espaço e vêm no outro o seu próprio desamparo.

Tenho o coração aos pulos como se de repente me apaixonasse, porque sei que neste momento corro perigo. Eu, não tu. Tenho pouco em mim, mas corre-me nas veias força vital e alegria, gente, coisas, poesia, cafés, génio e música; e, se eu deixar, sugas-me esse pouco que tenho, num vórtice de tornado, deixando-me oca, às cabeçadas pela noite da cidade, a aceitar shots de velhos endinheirados de esgar lascivo, dos quais fujo quando finjo ir à casa de banho.

O Sr. Gil, guarda reformado e segurança da minha rua, cuja mulher, porteira do prédio em frente, se põe à janela a ajeitar-lhe o capachinho antes de ele sair para o trabalho,  já sabe, quando me vê chegar bamba, a falhar a fechadura da entrada, que andei a fugir de ti. Trata-me por menina, mas penso que no fundo me acha velha, apesar de ele andar já perto dos setenta. Nessas noites, quando percorro todas as ruas de Lisboa menos a tua, parece que adivinha, abre-me a porta do carro e encaminha-me gentilmente para a entrada do prédio. Depois, fica a olhar para a minha janela, como que para ter a certeza de que o perigo já passou e que as mãos já não me tremem. Em tempos, costumava ver-me a chegar de tua casa de madugrada e era como, se na sua sabedoria transmontana, adivinhasse que vinha seca por dentro, como um graveto morto. Tratava-me com uma gentileza desmesurada para que não me partisse e dizia com ar solene (apesar de me achar velha) menina, tem que se afastar de pessoas que lhe fazem mal, como se me estivesse a ler a sina. Acho que o menina  é de dó, porque não tenho um homem, o que é uma espécie de orfandade, ou então como se fosse uma tia solteira de útero mirrado que passasse os dias a olhar a fotografia gasta  do cabo raso que lhe fizera promessas fecundas no momento em que os pretos lhe rebentaram os miolos no assalto à caserna. A carta ficou a meio e tem nas pontas vestígios de sangue, mas ela ainda a guarda, numa caixinha de música que só cospe uma nota. Eu sou essa tia da carta incompleta, que enlouqueceu porque sabia o que viria a seguir, apesar de não estar escrito.

Sim, a seguir venho eu e, por milagre ou obra do diabo;  encontro a porta verde cá de baixo aberta e subo as escadas estreitas e mal cheirosas até ao primeiro andar, sem tocar para que não me possas deixar na rua. Quando vês quem sou, hesitas, quase que te ouço gritar, mudo; pode ser que abras, pode ser que não. Se abrires, encontro-te invariavelmente nu, calado, despudorado, a cama desfeita, e assim continuas apesar da minha presença, a ver tudo em ti descaído, sem força, desossado. Um dias destes, encontrar-te-ei acompanhado na cama e nessa nudez inválida, quase de certeza, o que não seria de todo embaraçoso. Ou me fazia convidada para um café, apresentando-me gentilmente, ou me despedia sorridente, ou partia-te a casa toda, companhia incluída. Se calhar, fazia as três coisas, não necessariamente por esta ordem. E continuaria a não te querer para nada.

Na próxima sessão de terapia, falarei  sobre os bichos da madeira que corroem o soalho da tua casa velha, que subiam a parede e me percorriam durante a noite, mordendo-me, e fazendo-se notar mais na minha pele do que as tuas mãos geladas.  Que só aqueciam pela manhã quando acordavas teso e te friccionavas violenta e cadentemente, como se à beira de descobrires o fogo na idade da pedra. E eu, na outra ponta da cama, a apreciar-te a eficiência extrema, num rancor resignado, a fumar o décimo cigarro. Afaste-se de quem não presta, menina. Mais dois comprimidos e um uísque puro, e só daqui a três semanas me volto a lembrar dos café au lait com que me obsequiavas ao longo da noite por não me conseguires foder.

 

(Uma Amor Atrevido)

Beatriz

por Vieira do Mar, em 08.06.15

Que relação atribulada, a nossa. Desde o dia em que forçou a saída da minha barriga, com tal determinação que a cabeça parecia um míssil, a moleirinha em bico a provocar o pânico nos homens da família, ai senhor doutor que a miúda veio mal formada!, que eu soube que isto não ia ser fácil. Nada de arco-íris nem de frémitos religiosos, nada de um amor esmagador nos segundos depois de parir, nenhuma força telúrica mística e arrebatadora. Só estupefação, um atordoamento como se atropelada por um comboio e a esmagadora responsabilidade de a ter por minha conta, ai se a deixo cair! (e deixaria de facto, duas vezes, mas tivemos sorte). Cresceu em mim na directa proporção da curva expansiva do seu percentil, mas devagarinho: o amor a começar a percorrer-me as veias como o soro que se injecta aos acamados por um cateter, a pingar devagarinho, a circular, até chegar por fim a todo o lado.

Um feitio tramado desde as fraldas, e eu, que também não sou nenhuma santa: duas fêmeas competitivas num festim umbilical que desbunda em ressacas emocionais demolidoras, feitas de fel e de perdão. Cresceu num mundinho de privilégio que de repente deixou de ter, numa altura em que já tinha idade para saber o que era bom, o que a fez dura e calada e, a mim, ansiosa e culpada, numa relação desigual. Aproveita-se da minha culpa, a raiva sempre em modo de direcção assistida, porque estou mais à mão. E eu, vitimizo-me e arremesso-lhe com os sacrifícios que tenho feito para a criar sozinha e que os rapazes, ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho. Ela olha para o lado e assobia, num desdém de facadas.

Foi sempre assim, mesmo quando era incondicionalmente feliz. Se a vestia de flores, virava gótica; se eu cantava nas festas, guardava para si a voz de anjo com que foi abençoada; e nunca dançava, envergonhada com o meu espalhafato bailarino e desbocado, impróprio de mãe. Escolhe deliberadamente não exibir dons e qualidades que me fariam orgulhar dela. É púdica e conservadora, distribui juízos valor como um velho, e eu com vontade de lhe abrir a cabeça e enfiar lá dentro as coisas que já vi e que me amaciaram as convicções, mas já vai aceitando melhor o mundo, estão em vias de fazer as pazes, o que é bom.

O seu amor pelos fracos e pela bicharada é um misto de abnegação e maluqueira: pede-me chinchilas e esquilos, texugos e martas, obriga-me a assinar todas as petições para salvar as baleias; mas verdade se diga que isso vem um bocadinho de mim. Somos tão iguais que o seu pior argumento quando asneira é, fiz isto, porque sou igual a ti. E, logo a seguir, tão diferentes.

É raro acreditarmos de imediato uma na outra, temos de nos digerir por uns dias até realizarmos qual de nós estava certa. Não o admitimos: mostramo-lo através de pequenas gentilezas que nos fazemos. Às vezes, ficamos fãs incondicionais uma da outra, até àquele ponto que logo chega, de cansaço e dissonância, quando a lua muda ou uma porta bate. Ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho.

A nossa relação é de uma complexidade labiríntica digna do mais delirante dos arquitectos. São salões palacianos de concórdia, minados por túneis onde assobiam, nas paredes húmidas e escuras, mágoas antigas, uterinas, ferradas nas nossas memórias. Somos figadais, e pressentimos à distância os males da outra. Nem sempre nos acudimos de imediato; ela, porque tem mais que fazer do alto dos seus vinte e um anos e há minudências que se sobrepõem aos dramas recorrentes; eu, porque não a quero afastar um milímetro que seja, com o peso das minhas insegurança e fraqueza.

Ninguém se intromete entre nós, não se atrevem. Muito menos os dois mais novos. Deixam-nos à solta nas nossas batalhas e tratados de paz, como se fossem coisas de mulheres, e não de mãe e filha, ou de mãe e irmã. Não nos entendem, não percebem a raiva nem o choro, a baba e o ranho por dá cá aquela palha, os abraços apertados, tudo vai melhorar, querida…, os silêncios e os gritos, ou a alegria mútua com os trapos, o desenho e a filosofia. Quando somos uma, somos insondáveis para eles. Uma estranha unidade que os mantém à distância, cautelosos e desconfiados.

Dava-lhe de bom grado a minha vida, para fazer o que quisesse, como faz com a dela: servir às mesas, estudar literatura, distribuir panfletos, ir para a apanha da fruta, desenhar animais estranhos só com um olho, fechar-se no quarto dias a fio a ver televisão, percorrer a Croácia de mochila às costas, sem um resquício aparente de saudade. Desde pequena que me afronta, como uma pequena guerreira a conquistar território, numa teimosia soberana que só quebrava à palmada, as quais ainda hoje me atira de volta, doendo-me mais a mim, agora, do que a ela, na altura. Resisto estoicamente à vontade de ser a sua maior amiga, de lhe saber os segredos. Já vou muito para lá de mãe. Falamos de homens, mas quase sempre para ela concluir que não prestam, e eu a dizer-lhe que nem todos, que muitos prestam, numa espécie de fé invertida, ou paradoxo: fervilha nela uma inocência descrente.

Eu estou neste mundo para que nada lhe aconteça de mal. Mas já aconteceu, e eu não o pude evitar. Para a próxima não deixo. Ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho.

Beatriz.jpg

 (Maria Capaz)

...

por Vieira do Mar, em 02.02.15

PAI

 

Cada vez que empurro a porta que diz acesso restrito sinto uma breve náusea. Não sei se pelo cheiro típico a desinfectante, se por saber que no corredor à direita te vou encontrar logo à entrada, na primeira cama da enfermaria. As auxiliares passam nas suas limpezas, arrastando os tornozelos gordos. Falam demasiado alto e cospem confidências, estou prenha outra vez, como se todos nós os outros fossemos invisíveis. Só te vejo quando entro, estás escondido pela parede, e assalta-me ao mesmo tempo um alívio e uma vontade de fugir. Primeiro a tua cara, a expressão, os olhos, para ficar logo a saber se estás desanimado e a baixar a guarda ou se, pelo contrário, alguma notícia prévia te animou o dia. És mandão e controlador, sempre foste, e insistes em tomar conta de nós quando agora temos de de tomar conta de ti. Antes de me dizeres olá já estás, numa voz fraca, a dar ordens, a perguntar se fiz isto ou aquilo, se não me esqueci de trazer aqueloutro ou de pagar não sei o quê. Olho-te com o sangue a começar a ferver e digo, feroz, Bom dia! Demoras algum tempo a perceber a intenção (já eras assim antes, mas não é por isso que deixarei sempre de te corrigir) e lá me sussurras de volta, bom dia. A partir daí são várias horas em que te dou beijinhos, faço festas, massajo-te os pés, dou-te água a beber e luto desalmadamente para não fazer todas as perguntas que me estão entaladas na garganta à enfermeira de serviço e não me chatear contigo, porque não queres que pergunte nada, que fale com ninguém, para não incomodar. A falta de atenção resultante do desinteresse congelado pelos anos de serviço, no fundo a frieza de quem te assiste, dá-me cabo dos nervos. Afinal, tu és o paciente mais importante ali dentro, és único, especial, vales mais que todos os outros, e elas deviam rodear-te como formigas, mimar-te como família, atender ao teu mais pequeno desconforto ainda antes de o sentires. Insistes em cumprir escrupulosamente as regras e eu, em fazer exatamente o contrário. Agora, para não nos chatearmos, vou às tuas escondidas perguntar o que me inquieta, exigir que apaguem as luzes de circo quando estás a a querer dormir, e quero saber débitos, pesos, e se é normal ou não algo que noto de diferente em relação ao dia anterior. De dez em dez minutos venho cá fora sugar um cigarro e apanhar ar, porque começo a hiperventilar lá dentro, em especial quando ficamos sozinhos e o silêncio se instala entre nós. Com as embirrações mútuas posso em bem, com o silêncio, nem por isso. Tenho uma coisa com enfermeiras gordas desde que estive internada depois do acidente de carro e fui maltratada por uma; uma coisa que entretanto se tornou numa tese empiricamente comprovada. As gordas, apesar do ar maternal, são as piores. As mais brutas, as que mais abusam do seu poderzinho, talvez pela frustração de serem gordas ou por terem de se arrastar com esforço por entre as enfermarias. Tens tido a sorte de as ter bonitas. Se estivesses bem, estarias todo contente, rodeado de mulheres giras. Mesmo assim, aí deitado e todo entubado, parece que não perdeste o charme, todas te conhecem e se metem contigo. É pena passarem poucas vezes. Durante o dia é raro verem-se. Eu e a Beatriz fazemos-lhes as vezes. Cá dentro dá-me raiva não teres querido ir para o privado, "são todos uns ladrões e que num hospital médico estão os melhores médicos e que é sempre melhor se alguma coisa correr mal". O teu último argumento é sempre um acabou a conversa e pronto. Mas terias mais mimos. E uma cama decente que não te desse tantas dores na bacia, atendendo a que acabaste de perder um rim. E televisão para estares a par das tuas notícias, não apenas um MP3 que te levei carregadinho de música clássica para te adoçar a alma ferida, como pediste. E todos os dias te leio o Diário de Notícias, ao menos isso. Mas tu mandas. Mesmo aí, frágil como um pássaro, praticamente imóvel, continuas a mandar. E, mais do que nunca, nós obedecemos - ou fingimos que o fazemos, para teu (e nosso) descanso. De vez em quando dormitas, e é quando o tempo custa mais a passar. As incógnitas avolumam-se, a revolta e a impotência também. Não é bom o cérebro andar à solta perante a visão da tua pessoa inerte e doente. Prefiro mil vezes que me chateies o juízo e que a fúria momentânea que me assalta ocupe o lugar do medo e da incerteza. Enquanto eu me preocupo com o que vejo nos sacos, débitos, débitos, débitos, menos, mais, normais, para quando?, tu ralas-te com os sonhos. Nunca sonhaste, sempre foste abençoado com um sono profundo. Agora, com as dores e as drogas que te injetam no organismo, dormes pouco e mal e tens sonhos realistas que insistes em contar ao pormenor, aflito com a súbita vida própria que o teu subconsciente adquiriu. Eu apenas te digo, bem vindo ao meu mundo, porque é assim que durmo todos os dias desde que me conheço: inquieta, a sonhar tramas complicadíssimas pejadas de personagens estranhas, e a acordar exausta, como se saída de uma grande e perigosa aventura. Digo-te que é normal mas não me ouves, insistes em falar e falar e falar, e mandar e mandar, mesmo com a garganta ocupada por um tubo grosso que mal te deixa a voz sair. Vejo nos teus olhos que tens dores mas nunca te queixas. Às vezes, venho cá fora chorar. Outras, vem a Beatriz, a Catarina ou a mãe. Revezamo-nos na exteriorização da dor; o nosso choro tem os minutos contados, implica um esforçado rateio de lágrimas e a quantidade certa de inspira, expira. Há que entrar de cara alegre e expurgar um bocadinho a revolta. Tem de ser. Não quereríamos começar a desancar com um pau em todas as auxiliares rascas que acendem os holofotes de uma enfermaria às oito da noite, ou nas enfermeiras gordas que tivessem o azar de, naquele momento, passar por nós.

 

(desta vez vai ser mais fácil, prometo)

Gente.

por Vieira do Mar, em 28.05.14

Cada vez se sabe de mais casos de violência doméstica; cada vez mais mulheres morrem às mãos de  cabrões ou de doentes mentais e, não sei se por uma falsa sensação de banalização, se por maldade ou por mera estupidez, cada vez há mais decisões judiciais a subestimar a gravidade desta situação e a passar a mão pelo pêlo dos agressores. Estamos perante um paradoxo indesejável mas, pelos vistos, inevitável: a partir do momento em que, com toda a justeza, este tipo de actos passou a integrar um crime público (ou seja, de conhecimento oficioso e sem necessidade de a vítima de queixar), os tribunais foram forçados a encarar uma realidade que lhes passava convenientemente ao lado, passando a ser obrigados a acusar e a condenar por factos que, antes,  não lhes davam trabalho porque não eram denunciados ou a vítima desistia a meio.

Quando se acusa e se julga muitas vezes o mesmo crime, há várias maneiras de o fazer: ou se cria uma espécie de padrão, igualmente aplicável a todos os casos, que os julgadores utilizam quase matematicamente,  com base na moldura penal e respectivas atenuantes e agravantes; ou quem julga vai deixando levar-se pela cada vez maior afluência da situação, até se tornar quase rotina. E um hematoma passa a ser apenas mais um hematoma, que desaparece em poucos dias; um espancamento, uma mera ofensa à integridade física simples, só porque não deixou nenhuma deformidade ou aleijão; e as agressões verbais, que destroem, por vezes irreversivelmente, a auto-estima e a personalidade, meras injúrias puníveis com multa. Só esta insensibilidade crescente perante o sofrimento da vítima justifica que juizes absolvam ou condenem risivelmente bestialidades desta natureza. Ou isso, ou são eles mesmo cruéis ou doentes, do tipo que se identifica com os abusadores, numa perversa empatia.
Se assim é em relação à violência física, tão visível nas mazelas e nas mortes que provoca, a violência psicológica é um facto para o qual os nossos tribunais revelam ainda menor sensibilidade, porque nem sempre as suas consequências são observáveis a olho nu. Este tipo de agressão, continuada, produz marcas para a vida, deixa negras que não desaparecem. Nunca.

Ambas as violências têm comum o princípio do medo através da subjugação. Um medo irracional, profundo que, tal como as agressões,  se prolonga dia e noite fora, está connosco ao adormecer e beija-nos quando acordamos (caso consigamos, de todo, dormir). O medo instala-se dentro das vítimas como uma ténia gigante; alimenta-se de si mesmo, não tem por onde sair e não o quer fazer, de tão confortável e aninhado que está. Os de fora perguntam-nos, porque não sais?, como admites?, porque não fazes queixa?, sem entender que o medo é paralisante, não nos deixa pensar se não numa coisa: em sobreviver a qualquer custo,  bola baixa e siga o jogo, talvez um dia isto acabe.  A grande preocupação de alguém apanhado no meio da violência doméstica é passar despercebida. A última coisa que quer é que o agressor pense nela, que se lembre que existe, que saiba que está ali, à sua mercê. Porque está. Houve algures um momento em que deu ao agressor o poder de ir longe demais; uma primeira vez em que não reagiu, em que desculpou ou menorizou a agressão. Verbal ou física. A perspectiva de a situação se repetir começa a incomodá-la, a deixá-la receosa, sem saber bem como agir. As segundas e terceiras oportunidades são  correntes de ferro que permite serem-lhe amarradas aos pés e à cabeça: já não há fuga possível, o terror instalou-se, como uma doença, um estado permanente de alerta, de vígilia, de antecipação ansiosa, vontade de vomitar. Só releva o que vem a seguir. A reacção inesperada, o desespero de não saber o que fará o braço levantar-se para a pancada certeira ou a língua soltar-se para a ofensa mais arrasadora. Nós, que sofremos deste tipo de violência, vivemos na expectativa da agressão seguinte; como não conseguimos pensar em mais nada, nem passado nem futuro, forma-se um ciclo vicioso do qual não conseguimos sair. Vivemos para o momento, para sobreviver a mais um dia.

O medo pode ter raízes várias: o medo da dor física, da morte, do fulminante ataque verbal; o medo pelos que nos são queridos, pela nossa profissão, honra, nome, reputação. Só tem medo quem tem muito a perder, sabendo que o outro não tem NADA a perder e está disposto a tudo para nos destruir, cada dia mais um bocadinho.

Por alguma razão, a lei estipula que, para haver violência doméstica, esta tem de ser continuada. É um conceito subjectivo, que não define dias nem horas (nem poderia fazê-lo, pressupondo o bom-senso de quem o aplica), mas que funciona como um belo escape para aqueles que acusam e julgam, e que o interpretam a seu belo prazer (o que significa "continuado"? duas agressões? três? uma vida inteira delas?); esses, que se encaixam na categoria que descrevi supra: potenciais agressores eles mesmos, que aproveitam a indeterminação do conceito para desvalorizar o acto e desculpabilizar os agressores - muitas vezes, quase inculpando a vítima: que se pôs a jeito, que podia ter feito queixa, enfim, que "permitiu" a situação. Gente com os valores medievos, das aldeolas de onde vêm, enraizados na beca (mas não só); gente mentalmente perturbada e agressiva, ressabiada, misógina ou, pura e simplesmente, indiferente ao sofrimento alheio, que se regozija com manifestações agressivas de poder sobre os mais "fracos". Gente de patologias várias, porque são apenas isso: gente, pessoas, como muitas outras que andam na rua: empregados, bancários, directores, professores, personal trainers, gestores, advogados, médicos, limpa-ruas, pedreiros. A diferença é que estes, os da Justiça, têm o poder de punir, de equilibrar um bocadinho a balança. E, por isso mesmo,  a obrigação de conhecer em profundidade os mecanismos do medo, da submissão e da força, da humilhação e do poder; bem como saber reconhecer as feridas, por vezes invisíveis mas nunca saradas, de quem se escondeu dezenas de vezes debaixo da cama quando a besta chegou a casa, ou de quem o ouviu tantas vezes chamar-lhe puta e ameçá-la de morte que, às tantas, se convenceu de que só lhe restava mesmo esta última saída.

O problema da Justiça, é que nos obrigam durante anos à cabeça enfiada em calhamaços legais, mas de tanto sabermos quanto se deve de taxa de justiça e quais as milhentas interpretações que um "de" pode ter em vez de um "do", numa alínea de um parágrafo, não olhamos para as pessoas que temos à frente.  Muitos juizes não sabem identificar o ódio perverso de uns nem o sofrimento de outros. Com a agravante de que os danos que provocou quem nos quis tanto mal (ao ponto de, durante um ano e meio, nos ter ameaçado, chantageado e ofendido vinte e quatro horas por dia, fazendo disso a sua vida e paralisando a nossa) podem não se ver no corpo, mas enegreceram para sempre uma parte significativa da nossa alma. E eu não sei o que é pior, nem o que merecerá maior castigo.

Juizes, procuradores: se tiveram a sorte de não passar por uma experiência destas, que - garanto-vos -  mudaria para sempre a maneira de olharem a violência doméstica (ao ponto de não se atreverem, sequer, a equacionar o comportamento da vítima e de deixarem para trás, de vez, as vossas coutadas de machos latinos), ao menos LEIAM  sobre o assunto. Leiam sobre o Medo (leiam Espinoza, Séneca, Jones, teses de Mestrado, e até artigos de colegas vossos)  para depois poderem ler o MEDO em nós e percebê-lo em toda a sua trágica dimensão. Para quando nos olharem conseguirem vislumbrar a nossa alma danificada, e serem impiedosos com os cabrões que no-la foderam. 

ciganas

por Vieira do Mar, em 23.05.14

Mãe e filha entram descontraidamente na sala de audiências, acompanhadas da técnica dos serviços sociais, que não lhes devota qualquer simpatia. A mais velha, cerca de quarenta anos,  tem uma tez farruscada e um olhar azul profundo de marianas; a mais nova, de quinze, por aí, tem um cabelo louro comprido e oxigenado, e as unhas azul turquesa lascadas. Traz consigo uma recém-nascida, invisível e silenciosa, encolhida num ovo tapado por um cobertor enfeitado com purpurinas. A mãe mais velha tem a mama de fora e alimenta sem pudor uma bebé de nove meses, gorducha e risonha, igualmente farruscada, mas de olhos azuis mais claros, que brilham como safiras. É tal a naturalidade que o Tribunal nem repara e, quando o faz, releva e segue a diligência como se nada fosse. A bebé, de lacinho branco agarrado em desespero ao cabelo ralo, atrai todos os olhares, o instinto a sobrepôr-se ao preconceito, um nato, outro construído, porque mulheres somos todas, mães, quase todas, mãe una, mãe terra. A técnica contrasta com elas, a pele macilenta e um olhar baço de enfado, num desprezo mal contido por aquela gente barulhenta, mal vestida e alegre. Fixa o tédio nos papéis que tem no colo, indiferente ao sorriso aberto ao seu lado, onde despontam já dois dentes de leite. É nova e magra, mas de um magro chupado das canetas, e tem o ar resignado e curvado dos velhos. Enoja-a o acto primário e primordial a que assiste, contrariada, mas aguenta-se, cumprindo sofrivelmente o seu dever de assistir os outros. A criança larga a mama da mãe, que pende, ainda cheia e redonda, e insiste em pôr-se de pé, numa dança só dela, enquanto cospe a chupeta para o chão e resmunga, a estranhar o facto de cada um falar à vez, o que se parece muito ao silêncio. A loura, irmã mais velha, apanha a dita do chão e, sem a limpar, despeja-lhe umas gotas de um xarope açucarado que a miúda suga gulosamente. O pressuposto é que existe uma criança em risco: a cigana loura, que pariu aos quinze e casou aos catorze. Ali, trata-se de protecção e não de crime, pelo que a solução passa pelo apoio da família, ou seja, da mãe, que tem mais oito filhos e se compromete a ajudar a filha com a neta, que continua no seu sono invisível. Sorri, contente com o alargamento da família, com a filha da filha e com a sua outra filha de nove meses; a mama chega pra todas, onde cabem oito, cabem nove ou dez. Ninguém sabe o que está ali a fazer. Porque razão é preciso homologar qualquer acordo que seja. Por que razão têm ambas que entender o que significa "homologar" e o que raio é o "supremo interesse da criança". O clã ajuda-se e protege-se, sempre assim foi e será. Repetem uma espécie de juramento, um compromisso sem nexo que as obriga a cumprir, perante o Tribunal, certas condições, obrigações de facere, que lhes são irrelevantes porque lhes saem naturais desde o início dos tempos. Findas as formalidades, a mais velha levanta-se e ajeita o laço em queda na cabeça da filha pequena;  retiram-se com espalhafato, a miúda de nove meses a dizer adeus a todos os presentes, acenando a mãozita suja e descoordenada. Vieram em passeio à cidade, conheceram o tribunal e o juiz, disseram a tudo que sim, como lhes ordenou a assistente social, e agora vão para casa. Fazer o que sempre fizeram. A técnica regressa ao trabalho forçado no terreno, a fungar de alergias, das primaveris e das outras. Sofre de rinites e de contra-senso, pois tem um coração novo que aos poucos se desfaz num azedume precoce.

o dia em que o medo ficou para trás

por Vieira do Mar, em 25.04.14

Na manhã de 25 de Abril de 1974 eu estava em casa com a minha mãe. Tínhamos um estranho rádio rectangular que se estendia no cimo do frigorífico, num canto da cozinha. Sentia-se qualquer coisa no ar e as notícias sucediam-se, inconsistentes e confusas. O país agitava-se lá fora e nós duas, presas naquela pequena cozinha, num apartamento que então era quase periferia, esperávamos. Eu esperava porque a via esperar. Sabia da Pide, pelas intempestivas revistas aos livros na estante de fórmica da sala; Sartre, Neruda, Marx, Moravia, Beauvoir, Sophia, tantos outros;  e aos discos de Zeca Afonso, Carlos Paredes, Joan Baez, às canções francesas, e às cortinas de crochet feitas pelas minha avó, não fossem esconder subversões na sua transparência. No andar de baixo, os meus tios, recém retornados e comunistas activos, sofreram mais na pele, mas deles só recordo, na altura, o silêncio. Ao fim de algumas horas de nervos e ignorância (o meu pai havia saído para trabalhar), aconselham-nos a ficar em casa porque estaria a decorrer um golpe de Estado, feito por militares. Alguém falou no quartel do Carmo. Ficar em casa. Não sair, podia ser perigoso. A minha mãe enfia-me um casaco à pressa, pega-me na mão, e saímos para a rua, com a urgência da liberdade prenunciada. Nesse dia, acenámos aos chaimites, recebemos sorrisos e munições que não mais serviriam para matar. Ainda a Revolução ia em curso, e já deixáramos o medo para trás.

 

 

(a minha mãe, belíssima, sempre na linha da frente)

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